A influência das condições de produção sobre as rotinas do Diário da Amazônia podem ser apontadas como determinantes na forma como se apresenta o jornal como produto final de um processo. É assim que metade do conteúdo do Diário da Amazônia é produzido pela equipe de jornalistas, enquanto o restante é levado às páginas depois de terem sido recebidos das mais diversas fontes, como textos prontos para serem publicados. Entre estas fontes as mais utilizadas são agência de notícias e assessorias de imprensa, principalmente de órgãos públicos.
Entre os cadernos veiculados diariamente pelo jornal dois deles, Capital e Cidades, cada um com quatro páginas, são fechados com material produzido pelos repórteres do Diário. No caso dos correspondentes, não há pautas a serem cumpridas e, diariamente, cada um faz seu próprio programa de trabalho e envia o material que conseguir amealhar durante o dia, até às 14 horas, horário limite para o envio de matérias produzidas pelos correspondentes do interior. A editoria não descarta que tanto correspondentes como repórteres do caderno Capital utilizem releases57 seja como sugestão de pauta ou como textos que serão adaptados para serem publicados. Já o caderno Esportes, também com quatro páginas, tem pelo menos 60% do espaço tomado por material de agências de notícias. O conteúdo do caderno Cultura é basicamente produzido pela redação.
A maior presença de material de agências de notícias está no primeiro caderno do Diário da Amazônia, onde até 80% do conteúdo veiculado não é da redação. É neste caderno que estão as seções Política, Economia, Mundo e Amazônia. Destas apenas Política é, em parte, de produção dos jornalistas do Diário da Amazônia, enquanto o restante é material
57 “Texto informativo distribuído à imprensa (escrita, falada ou televisionada) por uma instituição privada ou
governamental etc., para ser divulgado gratuitamente entre as notícias publicadas pelo veículo. Geralmente preparado por equipes de divulgação, assessorias de imprensa, de relações públicas ou publicidade, o release é enviado a redações ou distribuído pessoalmente aos repórteres de cada setor. É a notícia do ponto de vista da instituição e, por isso, seu valor jornalístico é relativo (depende de um tratamento adequado, se possível enriquecido com novos dados apurados pelo repórter)” (RABAÇA & BARBOSA, 2001).
de agências. Até mesmo a seção Amazônia é de material produzido por agências de notícias, seja grandes agências ou agência regionais que atuam em estados da região Norte.
A Agência Globo dá muita coisa sobre a Amazônia, então às vezes é material nacional. Na página de Amazônia sempre tem uma notícia do Acre, do Amazonas, do Pará, Roraima. A gente sempre procura, nessa página, dar uma notícia sobre cada estado (LIBERATO, 2009).
Entre o material que é veiculado a partir daquele comprado de agências de notícias podem ainda ser elencado o Revista Diário, todo ele composto por matérias que fazem parte do caderno Extra, da Agência Globo. Os outros dois cadernos semanais, Agronegócio e Educação, trazem material produzido na redação, em especial o Agronegócio, em que a presença de matérias de correspondentes é marcante. No Educação há a predominância de matérias enviadas pelas assessorias de imprensa de instituições de ensino superior – neste caderno ainda há uma página destinada ao material de assessoria da Faculdade Assis Gurgacz, de Cascavel (PR), de propriedade da família dona do Diário da Amazônia.
A presença de releases nas edições do Diário da Amazônia também é significativa. A orientação na redação é utilizar releases como sugestões de pauta, mas trata- se de algo praticamente não realizado, em função da equipe reduzida. “Então muito release acaba saindo na íntegra, mas a gente tá procurando dar uma peneirada boa, e um tratamento para publicar, mas às vezes isso passa” (LIBERATO, 2009). O uso do release, da maneira como é usado no Diário da Amazônia, é contraditório. Se por um lado há a tentativa de deixar de utilizá-lo como matéria pronta a ser publicada, por outro existem limitações que não permitem abandonar essa prática.
Uma das práticas que a gente ta tentando quebrar aqui é a indústria do release. [...] É, o que chega sai, mas isso eu já acompanhei em outros jornais. [...] Nós clamamos a Deus aqui quando a assessoria fala: sugestão de pauta, dia tal, hora tal... (ROA JÚNIOR, 2009).
O uso de releases e material de agências em metade do Diário da Amazônia ocorre apesar da tentativa de fazer aumentar o conteúdo produzido pelos repórteres do jornal,
e mesmo passar a utilizar gêneros narrativos diferentes daqueles mais comumente presentes em jornais, quase sempre voltados para a notícia. A tentativa, no Diário da Amazônia, seria por ter textos interpretativos, mas isso tem ocorrido pontualmente, e em raras pautas durante a semana. Exemplo disso é a série de reportagens sobre aleitamento materno veiculada durante uma semana, entre 3 e 10 de agosto de 2009.
Segunda-feira fizemos a abertura, e já prevemos pra sexta-feira o balanço. [...] Na abertura, trabalhamos o banco de leite, pessoas beneficiadas, como é que está esse trabalho. Sexta-feira vamos buscar o feedback, depois mostramos o que mudou, se melhorou alguma coisa, vamos em busca de um personagem: dona Maria de Tal, que não teve leite quando seu filho Zequinha nasceu, graças a esse leite que achou conseguiu melhorar e aí vai... [...] Estamos partindo pra outras vertentes de jornalismo, buscando o serviço (ROA JÚNIOR, 2009).
Esta tentativa se deve à crescente preocupação no Diário da Amazônia com os sites de notícia, e pela percepção – no jornal – de que se trata de uma disputa por leitores: “Então, como o que acontece hoje amanhã tá velho, por causa dos sites, a gente tem trabalhado na medida do possível para acompanhar [...]” (ROA JÚNIOR, 2009). Além disso, os sites se convertem, assim como os releases, em fontes para o jornal, o que se deve, em grande medida, à falta de jornalistas à disposição da redação.
Nós temos uma briga com os sites por noticiar o factual. E nós perdemos essa briga. Então nós temos que trabalhar com o conflito, com a falta de hábito de leitura, junto com o oferecer algo que atraia a leitura. Qual seria a solução? Trabalhar serviços, trabalhar a informação de maior qualidade, trabalhar o como do como. Buscar o interpretativo. Mas é um vôo cego, não tem uma pesquisa pra saber se é isso que o leitor quer (ROA JÚNIOR, 2009).
E aqui surge o que pode ser tomado como uma contradição no Diário da Amazônia: para tentar oferecer material diferenciado daquilo já publicado em sites de notícias e em outros jornais, o DA acaba por utilizar maior quantidade de releases e matérias que têm como fonte sites de notícias, a fim de tentar liberar jornalistas para cumprir pautas “interpretativas”. Isso tem feito surgir coberturas mais elaboradas, de maior fôlego, mas com o prejuízo das coberturas cotidianas, que acabam ficando atreladas ao que é enviado por assessorias e por aquilo já veiculado em outros meios de comunicação, havendo aí apenas a checagem e alguma modificação no texto a ser publicado. Se por um lado maior atenção para
à cobertura do factual é observada no jornalismo nacional, no Diário da Amazônia fica atrelada ao que chega até a redação, sem que tenha sido por ela de fato produzido. É assim que boa parte do que é apurado e redigido cotidianamente por repórteres do Diário é o material enviado pelos correspondentes das sucursais do interior de Rondônia, estes também permeados por releases reescritos. Isso em função seja da falta de estrutura e de pessoal de redação, ou na maneira como se configuram as limitações impostas pela organização da circulação do jornal.
Não temos tempo de estabelecer uma rotina, então ela [se refere a uma repórter] tá ligando, pra ver se acha o pessoal, pra correr atrás de fazer a matéria. Muitas vezes resolve o teu problema por que dá pra fazer por telefone. [...] Nos falta condições, digamos de tempo, até por uma política da empresa nós temos aqui uma carga horária de cinco horas, em cinco horas você sabe que não dá pra fazer nada (ROA JÚNIOR, 2009).
Estas são nuances fundamentais para compreender o Diário da Amazônia como produto final colocado em circulação e ao qual têm acesso os leitores. A tentativa de inovar este produto final, que no circuito de Martin-Barbero é tomado como Formato Industrial, encontra limites nas contingências impostas seja pelas estruturas empresarias do Diário da Amazônia e àquelas às quais está atrelado; na formação dos produtores e nas condições a eles oferecidas; e mesmo no cenário delineado pela/para a comunicação social em Rondônia. São fatores que precisam ser tomados à luz de um contexto maior, o das legitimações e apropriações decorrentes de um percurso sócio-histórico-cultural particular de Rondônia e da Amazônia.
5. TEXTOS DO VIVIDO
A última instância do circuito de pesquisa aqui proposto trata dos Formatos Industriais, ou seja, dos Textos postos em circulação pelo Diário da Amazônia. O corpus de pesquisa é pensado em termos de recorte temporal, de forma que possa ser representativo e, ao mesmo tempo, limitado o suficiente para viabilizar a proposta de análise assumida. É assim que é feita a opção por sete edições do jornal Diário da Amazônia. A escolha por este conjunto de edições se deve às significações possíveis de serem apreendidas a partir dele, uma vez que dois dos principais eventos cobertos no período são, cada um, ligados a um dos complexos culturais tratados ao logo deste trabalho.
O recorte do corpus levou em consideração o período de realização do Arraial Flor do Maracujá, que acontece em Porto Velho e ligado ao complexo cultural identificado como próprio das populações ribeirinhas, aqui tomadas como as populações tradicionais de Rondônia. Durante o mesmo período, em 2009, teve lugar a Exposição Feira Agropecuária, Industrial e Comercial de Vilhena, Expovil, no interior do estado, esta ligada ao complexo cultural da colonização agrícola. A proposta é realizar a análise dos Textos referentes às festas ligadas ao complexo cultural tradicional do ribeirinho e ao complexo ligado ao colono imigrante como forma de apontar representações identitárias legitimadas no Diário da Amazônia. Para isso não se deve perder de vista que os eventos e os Textos são parte de um contexto amplo, considerando as Matrizes Culturais a que estão ligados; a efetiva
institucionalização de um e outro; as Lógicas de Produção, e a tecnicidade, esta compreendida como os usos dos recursos técnicos disponíveis por parte dos meios de comunicação.
Nesta seção acontecerá a análise e discussão, primeiro com relação aos elementos para a constituição do corpus da pesquisa e os pormenores das decisões, e as razões para se tomar um e outro evento como índice das relações entre os complexos culturais. Em seguida será realizada a aproximação necessária entre os conceitos até aqui apresentados e os dados reunidos em entrevistas, observação e a análise dos Textos.