13. TOPLUMLARI DOĞASI VE SOSYOLOJĠK KANUNLAR
13.2. Kanun Tanımı ve Türleri
Os locais onde eram vendidos os folhetos constituem um interessante indício da destinação, do ponto de vista do público, desse tipo de impresso. Na maioria dos folhetos, há indicação do local de venda nas capas, contra-capas e quartas-capas dos folhetos.
No período de 1900 a 1920, dos 25 folhetos analisados, a maior parcela (9) indica que eles podiam ser comprados na casa ou no depósito de folhetos do próprio autor. Em outros quatro casos, o endereço do autor é mantido como local de venda, ao lado de agentes revendedores, em outras cidades de Pernambuco, da Paraíba e em Rio Branco e Manaus. Os agentes revendedores aparecem, ainda, como única indicação de local de venda, em dois outros folhetos: cidades da Paraíba e de Pernambuco aparecem como principais locais, mas em um deles há, ainda, a referência a uma agência em Portugal. Em seis folhetos, não há indicação do local de venda, embora um deles traga, no final do poema, o endereço do autor. Em três folhetos, livrarias são indicadas como locais de venda dos livretos. Finalmente, em um dos folhetos, a indicação do local de venda é extremamente genérica: diz-se, somente, que eles podem ser encontrados “em Guarabira”.
Segundo Ruth Terra (1983), Leandro Gomes de Barros vendia seus folhetos pelas ruas do Recife, sobretudo em bares do largo das Cinco Pontas, perto de uma estação de trem, e dentro dos próprios trens da linha sul de Pernambuco. Os impressos eram também
vendidos nas casas onde residia, pelo correio e através de agentes revendedores – localizados principalmente em cidades do interior de Pernambuco, da Paraíba, no Rio Grande do Norte, no Ceará, além de Rio Branco e Manaus, como indica a análise dos próprios folhetos. Segundo a autora, pode-se supor que o autor vendia pessoalmente seus folhetos no Recife e no sul de Pernambuco, enquanto seus agentes faziam a distribuição em outros Estados. O poeta também viajava, esporadicamente, para participar de cantorias. Também João Martins de Athayde, nos primeiros anos de sua atividade como poeta, vendia folhetos nas cidades do interior. Posteriormente, comercializava os impressos através de depósitos localizados em bairros do Recife e pelo correio. Segundo Ruth Terra (1983), pelo menos desde 1925 o poeta tinha agentes revendedores em Salvador, no Mercado Modelo, em Maceió e no Pará. De acordo com a mesma autora, João Melchiades da Silva, outro poeta e sobretudo cantador da época inicial dos folhetos, à semelhança dos colporteurs franceses e do pai de Edson92, vendedor entrevistado, viajava anualmente, principalmente na época de safra, pelas cidades do interior – em sua maioria sertanejas – para vender seus folhetos, outros produtos e participar de cantorias. Em suas viagens, hospedava-se em ranchos nas estradas, na casa de conhecidos e de fazendeiros:
“Viajava sempre a cavalo levando um alforje com folhetos seus e de Chagas Batista e também terços, livros de missa e ‘romances de prateleira’. Desde que publicou seu primeiro poema em 1902, até estabelecer-se com a Livraria, Chagas vendia folhetos seus e de Leandro Gomes de Barros e miudezas, que transportava em um burro pelo interior da Paraíba e outros Estados do Nordeste. Enquanto Chagas Batista e João Melchiades viajavam, os folhetos eram vendidos em suas residências pelas respectivas esposas.” (Terra, 1983, p.31).
Segundo a autora, a livraria que Francisco das Chagas Batista abriu, em 1911, na capital da Paraíba, era pequena e vendia livros usados e folhetos. Em 1913, passou a vender os folhetos na Livraria Popular Editora também em suas filiais, situadas em Guarabira, na Paraíba, e em Lajes, no Rio Grande do Norte, além de se utilizar de uma rede de agentes revendedores e do correio. Na capital os folhetos eram comercializados por vendedores de jornais e de revistas.
Ruth Terra (1983) assim resume os processos de distribuição dos folhetos em sua fase inicial:
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LER/OUVIR FOLHETOS DE CORDEL EM PERNAMBUCO (1930-1950) 83
“A área de difusão dos folhetos era bem mais ampla que a de produção, atingindo todo o Norte e Nordeste do país. Pelos dados disponíveis, os folhetos começam a ser vendidos na Bahia apenas em torno de 1925. (...) Desde o início da comercialização do folheto havia diversos tipos de vendedores: o autor proprietário, e, posteriormente, o editor proprietário que, como o primeiro, vendia em sua residência, depósito ou livraria (Chagas e Pedro Batista); os agentes revendedores, quer do autor (no caso de Leandro) quer dos editores, que dispunham de um certo estoque de folhetos e, ao que tudo indica, de locais fixos de venda.” (1983, p.33)
Como se pode observar, nesse momento, as redes de distribuição ainda não estavam completamente montadas: os folhetos eram vendidos, grosso modo, pelo próprio autor ou em um circuito já estabelecido de venda de impressos, não específico para esse gênero. Embora, em alguns casos, sua circulação extrapolasse o âmbito restrito das cidades (ou mesmo dos Estados e do país) onde eram impressos, os folhetos, em sua maioria, eram vendidos em locais circunstanciados, localizados, alguns estreitamente identificados com o universo da cultura letrada, como as livrarias; pareciam não ser, ainda, impressos de “larga circulação”.
Já nas duas décadas seguintes, aproximadamente, pode-se observar uma mudança significativa nos locais de venda anunciados nos folhetos. Nos folhetos datados de 1920 a 1929, continua a tendência verificada no período anterior, ao lado do que parece significar uma hesitação, típica dos momentos de consolidação de um gênero. A livraria, a casa do autor e os correios aparecem, cada um, em um dos doze folhetos. Mas 75% dos folhetos analisados dessa época não trazem indicação do local de venda. As estratégias de distribuição parecem estar ainda pouco definidas. Se agrupo os outros dois conjuntos de folhetos, datados de 1930 a 1939 e não datados, mas provavelmente publicados entre meados da década de 20 e na década de 30, outras tendências, que se consolidarão no período posterior, já podem ser visualizadas. A livraria desaparece como local de venda e a residência do autor mantém-se indicada em apenas um folheto. Nesse momento, aparecem como principal local de comercialização de folhetos os mercados públicos, indicados em 71% dos folhetos da amostra93. Especificamente no Recife, o Mercado de São José, situado na região central da cidade, fundado em 1875,
como alfaiate, começou a vender, de cidade em cidade, folhetos, modinhas e vários tipos de miudezas.
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Ruth Terra (1983), realizando uma análise dos anúncios dos folhetos de Athayde, constata que foi sobretudo a partir de meados da década de 20 que as bancas de mercados das capitais passaram a ser pontos de venda dos agentes-folheteiros.
desempenhou, durante muitos anos, esse papel94. Os agentes em outros Estados continuam a desempenhar um papel importante na rede de distribuição: no entanto, também eles, de maneira diferente do que ocorria no período anterior, localizavam-se nos mercados públicos de outras cidades, como Salvador. O correio passa a ocupar um lugar importante nas estratégias de distribuição dos impressos: é indicado como um instrumento de venda em 61,3% dos folhetos da amostra.95 Em conseqüência da crescente venda e “popularização” da literatura de folhetos, os seus autores e/ou editores (principalmente Athayde passou a se utilizar desse recurso) passaram a destinar um imóvel, denominado “depósito”, para comercializar especificamente sua produção: quase um terço dos livretos o indicam como local de venda, ao lado de outras estratégias. Em apenas 16,1% dos casos, não há indicação do local de venda, o que parece demonstrar a superação da hesitação a que me referi acima. O folheto se torna, no período, um impresso de “larga circulação”. Provavelmente, nesse momento, os mercados públicos e, principalmente, os “depósitos”, os agentes revendedores e o correio passaram a desempenhar um papel de primeira instância na distribuição dos impressos que, a seguir, eram redistribuídos e vendidos diretamente ao público nas feiras espalhadas nas grandes, médias e pequenas cidades. Os leitores/ouvintes comuns, exceto os moradores do Recife, principalmente, em cujas memórias a presença do Mercado de São José é muito forte como local de compra dos folhetos, provavelmente recorriam mais às feiras ordinárias, onde encontravam vendedores cantando ou lendo em voz alta os poemas, para adquirir os livretos96.
Nas duas últimas décadas escolhidas para este estudo, as grandes tendências observadas no período anterior se mantêm, embora com algumas diferenciações. Os locais de venda permanecem, grosso modo, os mesmos. O principal local de venda indicado nos folhetos nesse momento é o “depósito” e a tipografia especializada em sua impressão, destacando-se, aqui, a Tipografia São Francisco, em Juazeiro, que, após a doença de
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Em 1975, por ocasião das comemorações do centenário do Mercado, Liêdo Souza (1977) organizou uma publicação sobre o local contendo transcrições de um folheto de Leandro Gomes de Barros que tem como tema o Mercado e trazendo diversas fotos ilustrativas de poetas, vendedores de folhetos e de locais que marcaram a história da literatura de cordel, como, por exemplo, alguns dos locais de residência de Leandro Gomes de Barros e João Martins de Athayde.
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Na maioria dos casos, essas várias estratégias eram utilizadas de modo combinado, por isso o total ultrapassa 100%.
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Athayde, tornou-se a maior editora de folhetos. Referências ao “depósito” ou à “tipografia” aparecem em 44,4% dos livretos. Os mercados públicos, onde se localizam grande parte dos agentes revendedores (em cidades como Salvador, mas também em São Luís e Porto Velho, por exemplo), continuam a desempenhar um papel significativo nas estratégias de circulação dos impressos: foram referidos em 27,8% dos folhetos da amostra. Os agentes revendedores não localizados nos mercados públicos, mas em endereços residenciais, em fiteiros, em redações de jornal e até em perfumarias são indicados em um quarto dos folhetos. Observa-se, nesse período, uma maior difusão dos folhetos, principalmente no Norte e em outros Estados do Nordeste do país. O correio aparece a seguir, em 6 dos 36 livretos analisados. Um dado merece ser destacado: a metade dos folhetos não traz a indicação do local de venda. Parece que, no período, a diversificação observada na quantidade de autores leva a que poetas à margem do circuito de distribuição utilizado pelas grandes editoras especializadas na produção de folhetos, escrevam, publiquem e vendam, eles mesmos, principalmente nas feiras, os seus folhetos.
A análise parece indicar que, aos poucos, os folhetos deixaram de ser vendidos na casa do autor ou na livraria, como parecia mais comum no início de sua história, e passaram a ser vendidos, prioritariamente, por agentes revendedores de cidades diferentes, e em mercados públicos de diversas capitais que pareciam funcionar, também, como grandes centros de distribuição. Assim, das médias e grandes cidades, onde eram produzidos, os folhetos pareciam ser distribuídos para as pequenas comunidades, onde eram vendidos nas feiras. Como já indicado em outros estudos, é somente a partir de meados dos anos 1930, principalmente com o estabelecimento da editora de Athayde, que se montaram redes de distribuição e o editor deixou de ser exclusivamente o poeta. Esses dados parecem indicar, pois, uma progressiva ampliação e popularização do público leitor: aos poucos, os folhetos deixaram de ser vendidos em locais onde também podiam ser adquiridos outros objetos característicos do mundo letrado e passaram a circular em uma rede específica de distribuição, destacando-se o papel desempenhado pelos mercados públicos e pelas feiras, locais onde não se observava a comercialização de impressos típicos do universo “erudito”.