2.4. Halkla İlişkiler Kavramı
2.4.5. Kamu ve Özel Sektör Kuruluşlarında Halkla İlişkiler
Tanto o IPÊS como o IBAD e as ligações regionais destes Institutos afirmavam que havia infiltrações “comunistas” no aparato estatal brasileiro, nos sindicatos e, principalmente, dentre os estudantes, desenvolvendo uma guerra contra os “democratas” que já estava em curso. Na revista DE as argumentações não são diferentes, e remetem ao suposto enfrentamento direto.
Um dos livros que mais influenciou, e ao mesmo tempo reforçou, este tipo de pensamento foi o Assalto ao Parlamento441, do político tchecoslovaco Jan Kozak. O livro
trata da tomada do poder pelo “comunismo” na Tchecoslováquia através da via democrática,
pelo parlamento. Foi lançado no Brasil em 1962 pelo IBAD com tiragem de 5 mil cópias442 e
teve 3 mil cópias distribuídas pelo IPÊS, dentro do projeto editorial desta entidade a qual
440 DEMOCRACIA E EMPRÊSA. O mito da juventude. Porto Alegre, v. 6, n. 2, p. 1-3, jul./dez. 1968. p. 2.
Transcrito da “Folha da Tarde”, 05/10/1968.
441 KOZAK, Jan. Assalto ao Parlamento. São Paulo: IBAD, 1962.
fizemos referência no Capítulo 1.443 De acordo com Rodrigo Patto Sá Motta, o livro foi
célebre na época e foi publicado em fascículos no jornal O Globo444, serviço pelo qual este
recebeu o valor de 714 mil cruzeiros, subsidiados pelo IPÊS.445 O livro teve sucesso também
no estado de Minas Gerais, onde o IPÊS local o distribuiu.446 Neste texto é possível
compreender a importância do livro na época:
Essa tomada do Poder pelo caminho pacífico foi posta à prova em mais de um dos países hoje satélites da URSS e descrita no manual de política prática de JAN KOZAK, deputado comunista da Tchecoslováquia, recentemente editado no Brasil com o título de “O Assalto ao Parlamento”. Tal é a importância dessa obra que os comunistas tudo fizeram para suprimi-la da circulação, tão logo se deram conta do que poderia significar em alerta a todo o mundo democrático. [...]
ESTEJAMOS ALERTAS A ESSA MANOBRA DE ASSALTO AO PODER QUE OS PRÓPRIOS COMUNISTAS CONFIRMAM JÁ ESTAR EM
ANDAMENTO EM NOSSO PAÍS.447
Os ipesianos e ibadianos consideravam o livro um alerta para os “democratas”, visto que pensavam que a infiltração “comunista” já estava ocorrendo e havia uma guerra em curso contra a “democracia”. O temor do “comunismo” era visível, e agravava-se à medida que havia a tentativa de mostrar como a situação de tomada do poder pelo bloco “comunista” já estava em curso:
“O Plano conhecido por ‘Experiência Kosak’ está em adiantada aplicação; a ilegalidade e a violência executivas se manifestam sem cerimônias; a provocação dos caudilhos se multiplica; a maioria do Congresso Nacional começa a dar mostra de consaço [sic] e a ceder; o povo e as classes militares evidenciam sinais de confusão e indecisão; o Partido Comunista avança dia a dia. [...]448
O tom apocalíptico e a forma como a argumentação foi construída levam o leitor a associar diretamente a experiência tchecoslovaca com a situação vivida no Brasil, no governo de João Goulart. O mecanismo de tomada do poder pela via democrática seguia a chamada “Sanfona tcheca, a qual procura fazer dançar a democracia mediante pressões alternadas de cúpula e de base, até o golpe da empalmação do Poder”449. Podemos interpretar que a
constante instabilidade do governo de João Goulart no governo parlamentarista, e mais ainda
443 GONÇALVES, Martina Spohr. op. cit., p. 64. 444 MOTTA, Rodrigo Patto Sá. op. cit., p. 248.
445 DREIFUSS, René Armand. 1964: a conquista do Estado. op. cit., p. 64. 446 STARLING, Heloisa Maria Murgel. op. cit., p. 99.
447 DEMOCRACIA E EMPRÊSA. O assalto ao parlamento. Porto Alegre, v. 1, n. 10, p. 27, jul. 1963. p. 27.
Grifos no original.
448 FRENTE DEMOCRÁTICA PARLAMENTAR DE MINAS GERAIS. Plano Kosak. Democracia e Emprêsa,
Porto Alegre, v. 1, n. 2, p. 43, nov. 1962.
no governo presidencialista, era considerada parte do plano, e não dificuldades de ordem política, social e econômica. Haveria uma intencionalidade por trás das crises, que foi “revelada” pelo livro de Kozak para “abrir os olhos” dos brasileiros.
Uma das influências que o livro teve foi a idéia de que a “democracia” era tão flexível e plural que permitia o florescimento das forças que queriam destruí-la. Assim, “o comunismo consegue infiltrar-se lentamente graças às brechas que os próprios democratas abrem num sistema que deveriam defender com mais veemência”450. Os “comunistas” se aproveitariam
das “liberdades democráticas” para atacar a “democracia”. No caso específico do Brasil, “infelizmente, no meio da inconsciência geral, caminha aceleradamente para o Estado opressor e único, isso dentro da lei, de acôrdo com as franquias democráticas”451. Trata-se de
uma estratégia de construção simbólica que, além de tornar negativa a guerra que o “comunismo” estaria travando, também enaltece a “democracia” e a qualifica de forma superior, pois é ela quem “deixa” o “comunismo” se desenvolver, simplesmente pelo fato de que isso faz parte do “jogo democrático”, o conflito de opiniões e de visões de mundo.
É importante observar que o mesmo livro foi mobilizado em outro contexto. Nos anos 1980, nos debates da Assembléia Nacional Constituinte, em 1987, as classes dominantes defenderam seus interesses, de forma semelhante à defesa dos interesses das classes produtoras feita pelos ipesianos e ibadianos nos anos 1960. De acordo com René Dreifuss, o livro de Kozak foi distribuído amplamente dentro dos círculos militares para influenciar suas opiniões.452 O autor também afirma que “além de ter sido citado pelo presidente Sarney [...], o
livro de Kossak já fora um recurso de propaganda produzido e distribuído pelo complexo Ipês/Ibad, na década de sessenta, para ‘criar clima’ em sua campanha de desestabilização do governo Goulart”453.
Embora não esteja contemplado em nossa demarcação temporal para esta pesquisa, tal fato ilustra a importância que o livro teve nos anos 1960. Foi tão célebre que houve nova mobilização de suas idéias no contexto da “redemocratização”.
Uma das edições da DE do ano de 1964454, a terceira após o golpe, foi dedicada quase
inteiramente a um curso sobre a infiltração “comunista” no Brasil e na América Latina. Tratava-se de uma conferência organizada pelo Coronel Carlos Alberto da Fontoura e pelo
450 ICHASO, Francisco. A verdadeira arma letal do marxismo-leninismo. Democracia e Emprêsa, Porto Alegre,
v. 1, n. 7, 27-29, abr. 1963. p. 27. Transcrito da revista “Espejo”, I.I.S.E., México.
451 DANTAS, Humberto. Economia que tem cheiro de morte. Democracia e Emprêsa, Porto Alegre, v. 1, n. 11,
p. 37-38, ago. 1963. p. 38. Transcrito do “Boletim Informativo” da FIESP, mar. 1963.
452 DREIFUSS, René Armand. O jogo da direita. op. cit., p. 120. 453 Idem.
Major Washington Bermúdez, e orientado pelo General-de-Divisão Adalberto Pereira dos Santos, como parte integrante do programa de instrução de oficiais do Estado-Maior da 6ª Divisão de Infantaria, com sede em Porto Alegre.455 Foi realizada em 31 de julho de 1964 no
auditório do Instituto de Educação General Flores da Cunha, em Porto Alegre, e também em
Cruz Alta, no mesmo estado.456 De acordo com a DE, tratava-se de um trabalho
“indispensável para todos aquêles que desejam conhecer a real situação do comunismo na América Latina e no Brasil, assim como, sua infiltração em todos os setores, para, debilitando a democracia, mais fàcilmente implantar o totalitarismo vermelho”457. Ou seja, mesmo após o
golpe, a infiltração “comunista” estaria presente e ativa, tentando debilitar a “democracia”. A presença desta edição especial revela o grau de adesão do empresariado vanguardista ao golpe militar logo após a sua deflagração. Na edição anterior, argumenta-se: “não devemos esquecer, antes devemos fixar em nosso espírito como um ‘remember’ que, se as fôrças desagregadoras internas sofreram foram inteiramente destruídas e que, por certo, estão se recompondo para tentarem recuperar o terreno perdido”458. A ameaça “comunista” persistia e
deveria continuar sendo combatida.
2.2.4 O “comunismo” progressista, de esquerda e nacionalista como “mistificação”