No que se refere aos investimentos de treinamento para modelar o corpo, percebemos que todas as entrevistadas praticam alguma modalidade, seja na academia ou ao ar livre. Praticam musculação, dança, ioga, pilates, corrida, ciclismo, natação e incluem no rol do necessário e obrigatório, por estar diretamente associado à saúde e a liberdade. Assim, a motivação é atribuída sempre ao aspecto “saudável”, ao “bem” que proporciona ao corpo, entrando na rotina e fazendo parte de um “estilo de vida” ou mesmo um “jeito de ser” ativo.
“Eu adoro malhar.” “Tento correr duas vezes na semana durante 40 minutos.” (RCC05);
“Medito desde os 16 anos. É ótimo para manter a saúde e a felicidade mental”. (RBF04);
“Não vejo a atividade física como um sacrifício. Sempre gostei de me dedicar com afinco. Faz bem.” (RCC11);
“(...) adotou um programa de exercícios. Tudo sem desistir no meio do caminho”. (RBF11);
“Como sempre adorou fazer exercícios, ela sempre fez varias atividades físicas e esportes: esgrima, dança, natação...” (RCC04);
“Ela curte esportes de aventura, corrida e, recentemente, ficou fã do estand- uppaddle (remo em pé em cima da prancha de surf) que virou moda no litoral carioca”. (RBF03);
“Fernanda ama correr todos os dias pela manhã.” “Fico triste quando não consigo treinar. A corrida relaxa, oxigena o cérebro, da uma clareada nas ideias. É quase uma meditação”. (RBF06);
“Gosto de fazer exercícios todos os dias, embora nem sempre consiga. Não me preocupo só com a aparência, mas em me sentir bem. É um jeito de descarregar o estresse voltar para casa energizada”.(RBF10);
Ramos (2004) considera que corpo de hoje é um corpo inserido no mundo administrado e onde os movimentos, ao invés de libertários, são controladores da gestualidade. A ginástica é a marca do adestramento calculado e cientifico do movimento, de modo que se pauta numa ideologia atrelada à necessidade de moralizar o corpo. Mais do que a produção de aparências nobres, há que se compreender o aspecto pedagógico.
“Nos fins de semana, joga tênis e anda de bike, em São Paulo ou no Guarujá. “São atividades que me ajudam a soltar o corpo e me dão prazer””. (RBF09);
Na suposta liberdade refletimos que ao contrario do movimento livre, há treino e esforço, há sacrifício e uma pretensão científica embasada nas disciplinas de anatomia, mecânica e fisiologia do corpo e o movimento. O que são os equipamentos de exercício de que dispõem as academias de ginástica se não maquinas de controle dos corpos através do movimento preciso para definição de determinados grupos musculares?
“Preciso de uma atividade aeróbica, como a corrida, para colocar toda essa energia para fora.” (RCC12);
“Comecei a dançar balé e não parei mais. Já fiz jazz, natação, judô, ginastica olímpica, alongamento, corrida. O que não consigo é ficar parada, sempre fui muito elétrica”. (RBF08);
“Adaptei a musculação à minha rotina” (RCC06).
Podemos considerar que há como que uma avalanche de corporalidade, ou seja, a preocupação excessiva com as imagens do corpo. A mobilização da alma através dos
exercícios supostamente livres, feitos em espaços abertos como nos parques, ao ar livre ou nas esquadrinhadas academias de ginástica, supostamente indicativas de modos de expressão subjetiva, deve ser compreendida, na verdade, como certo militantismo, como um fim em si mesmo. Tal recurso vem sendo utilizado pelos indivíduos como forma de
mobilizar a alma já que “num mundo sem encantos e no qual prevalece a lógica dos fins e a calculabilidade, o indivíduo passa a buscar sentido naquilo que ele ainda supõe que lhe resta: seu próprio corpo, que passa a ser objeto daquela adoração” (PEDROSA, 2000, p.101).
Os muitos cuidados para com o corpo são investimento na aparência, onde a qualidade da superfície, do tônus muscular, o invólucro da pele, como saliente Kehl (2004), “a textura da pele, a cor dos cabelos revelam o grau de sucesso de seus “proprietários”” (p.177). É nesse investimento disciplinado e cotidiano que se sustentam as expectativas para o sucesso e a felicidade. A aparência, para a autora, substitui com vantagens democráticas, o “sangue”, a origem nobre.
“Estou sempre experimentando exercícios novos. Já fiz natação, judô, jazz, balé, corrida na água, alongamento, tango...” (RCC04);
“Entre caminhada e corrida em ritmos alternados, a atriz percorre oito quilômetros.” “Às vezes amanheço mais inspirada para andar de bike, nadar ou correr na areia fofa da praia. Tudo depende da inspiração naquele dia” (RCC10);
O exercício físico também é considerado importante por potencializar as diversas atividades de trabalho que as famosas executam.
“Superdedicada, se engana quem pensa que a atriz abandonou as aulas semanais de pilates que fazia anteriormente” “Além da flexibilidade e do tônus muscular, a prática me dá a postura que preciso no palco” (RCC03);
“Adepta da ashtanga ioga há quatro anos, ela continua a fazer as aulas duas vezes por semana, nos mesmos dias em que pratica musculação. Os outros três dias ela e dedica aos exercícios aeróbicos”. (RCC11);
“O treino para a folia é diferente do que ela faz no dia a dia. A Sabrina precisa ganhar resistência muscular e cardíaca, além da definição.” (RCC08);
“A apresentadora volta a estampar o nosso editorial, mas com novidades, afinal ao longo de um ano, ela se dedicou com afinco a corrida, e veja a evolução: está correndo direto por 1h30 e o efeito você pode notar na silhueta que está mais fina e definida” (RCC09);
“Durinho, com músculos definidos, curvas à mostra. Isso sem falar na pele firme e no cabelão brilhante e saudável”. (RBF09);
As famosas falam dos efeitos da malhação nas partes do corpo trabalhadas, evidenciando também o corpo como máquina, engrenagem potente com peças em perfeito estado de manutenção. O corpo como equipamento de trabalho deve refletir jovialidade, resistência, definição e por tudo isso, disciplina. Os treinos priorizam a musculatura à mostra como as pernas, o abdome, os braços, os glúteos de modo a deixar em perfeitas condições o que vai ser exposto. Como um escravo, precisa de disciplinas rígidas para não sucumbir; como um senhor, precisa ser fonte das mais penosas renúncias.
O corpo é ao mesmo tempo o principal objeto de investimento do amor narcísico e a imagem oferecida ao outro – promovida, nas últimas décadas, ao mais fiel indicador da verdade do sujeito, da qual depende a aceitação e a inclusão social. O corpo é escravo que devemos submeter à rigorosa disciplina da indústria da forma (enganosamente chamada de indústria da saúde), e um senhor ao qual sacrificamos nosso tempo, nossos prazeres, nossos investimentos e o que sobra de nossas suadas economias. (KEHL, 2004, p. 175).
A força do discurso sobre a saúde apaga ou camufla os interesses mercadológicos que a publicidade tem como alvo, mas a autora nos chama a atenção para esse engano, cujo aspecto já era uma desconfiança nossa – ou premissa, como queiram – antes de iniciarmos a pesquisa e que vem se consolidando como um fato. A adoção da boa forma física como um bem supremo em nome da saúde, pela prescrição de hábitos saudáveis e consumo de produtos e serviços de saúde, na verdade, ideologicamente, serve para manter o mercado aquecido, os desejos permanentes e os sujeitos na luta em busca do ideal indexado como fim: ser saudável, jovem, bela e magra.
O foco é no trabalho corporal com treinos que são divulgados, priorizando partes do corpo que precisam ser trabalhadas para tomarem forma desejável aos olhos do outro, para receberem o selo de confiança. Os treinos são os mais diversos e a ideia transmitida é a de manter o corpo em movimento, esculpido seja por maquinas que proporcionam resultados claros, por modalidades que fazem sucesso ou por exercícios ao ar livre que revelem disciplina e prazer. O corpo esculpido é apresentado corpo troféu conquistado pelo esforço.
“Mantenho o foco nas pernas, no abdome e no bumbum. Mas não faço exercícios de hipertrofia, quero apenas definir.” (RCC02);
“Comecei a fazer um treino fantástico, um mix de exercícios funcionais com hipertrofia, além de aeróbicos e alongamento”. (RBF09);
“Os seis meses que fez de aula de pilates foram suficientes para a atriz modelar o abdome, além de melhorar a postura e a flexibilidade” (RCC07);
“Os treinos incluem chutes, joelhadas, vários tipos de abdominais, corda...”(RBF10);
“Entre os exercícios que faz, sempre tem o Leg Press para trabalhar coxas e bumbum.” “Também treino o bíceps e o tríceps com halter.” (RCC07);
“A combinação de artes marciais com o chamado repouso ativo, ou seja, uma série de exercícios que inclui corrida, abdominais com bola e pular corda ajudou a esculpir o corpo da loira” (RCC01);
Os aparelhos de musculação, elaborados para esculpir músculos são encontrados não apenas nas salas das academias, mas em hotéis, consultórios médicos, de nutricionistas, avaliadores físicos, prédios de apartamentos residenciais, parques de diversões. Pedrosa (2000) nos ajuda a refletir sobre esse fenômeno cotidiano considerando que desde o domínio das potencialidades musculares, dos índices de resistência cardíacos, das medidas certas das partes do corpo, do controle de peso, calorias ingeridas, tudo muito parecido com os manuais de eletrodomésticos, automóveis e computadores.
“Ainda quero perder uns 2 quilos, aumentar um pouco as coxas e subir o bumbum. Minha palavra de ordem, hoje em dia, é modelar”. (RBF11);
“Melhor priorizar a qualidade das curvas” (RCC05);
“A musculação é leve, pois não quero aumentar massa muscular, não tenho essa pretensão, mas desejo manter os músculos que construí ao longo dos anos.” (RCC11);
“O trabalho está focado no condicionamento, na postura e na definição dos músculos de abdomên, glúteos e braços”. (RBF11);
“A minha meta é manter os músculos no lugar.” (RCC06);
“Faz o trabalho aeróbico para queimar calorias e aumentar a resistência cardiovascular, e ainda malha o corpo todo, privilegiando pernas, bumbum e abdômem”. (RBF07);
Os treinos que as modelos fazem para conquistarem visibilidade são expostos na matéria, sugerindo que é possível conquistar também esse mesmo corpo. As leitoras têm acesso às imagens das séries e a quantidade de repetições, criando uma suposta intimidade e identificação entre a modelo da capa e as mulheres comuns.
Na verdade, o que se busca no mundo instrumentalizado, é “tornar válidas as ações que sirvam para atingir algum fim prático e útil” (PEDROSA, 2000, p. 108), ou seja, esculpir o corpo em função do desempenho, da disciplina, sempre visando excelência, fazendo com que todas as ações dos indivíduos tendam a submeter-se a esta lógica: o próprio corpo torna-se meio instrumental para a consolidação da força maquinaria do discurso fitness.
“Confira os movimentos que a bela faz para a região” (RCC08). Aqui a
matéria expõe a serie de exercícios que a sambista e apresentadora pratica para manter o glúteo rijo.
“Durinho, com músculos definidos, curvas no lugar e sem gordurinha à mostra.” (RBF09);
“O segredo da boa forma é praticar sempre alguma atividade, pois o corpo sequinho não vem de graça” (RBF03);
“A bela não mede esforços quando o assunto é barriguinha chapada – e como é chapada! Confira o treino” (RCC07);
“Claudia faz musculação pesada nos aparelhos, alternando os grupos musculares. O foco é definir o corpo e manter o percentual de gordura atual, por volta de 15”. (RBF05);
“O foco de Regiane é no condicionamento físico e na resistência muscular, com o treino em circuito. Confira abaixo a sequência.” (RCC03);
“Tenho certeza que você deve estar de queixo caído ao conferir o corpo sarado da atriz. Confira abaixo como a aula funciona.” (RCC01);
“Assim como a apresentadora, você também pode dar seus primeiros passos na corrida e, como ela, conseguir correr por até 1h30. Veja como a loira começou a correr há um ano e a evolução dela pode servir de inspiração para você.” (RCC09);
Bauman (2011) defende que o hábito de cuidar do corpo através do exercício, do movimento, prática pós-moderna de exercitar o corpo, resultou numa “construção de estilo composta de excessos isolados e mantidos juntos apenas pelas tensões finamente balanceadas que os mantêm separados”. (p.165).
Da harmonia do estilo renascentista, com moderação e temperança como guias, ao permanente estado de tensão em busca da boa forma nos tempos atuais. Percebamos que mesmo com todo zelo, com todo empenho, há sempre um risco, uma ameaça por rondar a disciplina, da qual não é possível abrir mão nunca. E não basta se esforçar, lutar para ter um corpo sempre prêt à porter, é fundamental que as práticas de cuidado sejam reveladas como prazerosas, todo esforço precisa ser compreendido como satisfação, em vista dos resultados.
8.2.6 Um especialista para chamar de seu: a voz dos profissionais da boa