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famosos sempre no eixo Rio/São Paulo. A imagem do prato anima a matéria, incitando prazer na experiência visual; o Cardápio de baixa caloria, com sugestão de alimentos selecionados como aliado da dieta; dicas para Emagrecer com saúde, tendo a resposta de especialista para dúvidas cotidianas; a apresentação de produtos na Prateleira magra com dicas orientadas por experts em nutrição.

É recorrente a presença de mulheres famosas, em sua grande maioria, atrizes e cantoras brasileiras e americanas, em notinhas com “segredinhos” de alimentação para manterem a magreza.

As noticias e informações aparecem distribuídas ao longo de duas páginas que indicam restaurantes, lanchonetes e espaços gourmet e lançam produtos alimentares de grandes marcas, além de motivar a leitora com o exemplo da celebridade. Também traz o conhecimento desenvolvido em pesquisas que apontam a funcionalidade dos alimentos.

Assim, explicitamos um modelo – mais uma vez – de corpo propagado como exemplo a ser seguido, com o aval da ciência para o consumo nutricional e as marcas expostas, impondo sutilmente o que esse modelo de mulher leva para casa e põe à mesa para ser linda, saudável e magra.

O Cardápio de baixa caloria nada mais é do que a sugestão de restaurantes pela repórter, todos localizados na cidade de São Paulo. A sedução para a visita fica por conta da confecção do prato, preparada com alimentos “frescos”, “saudáveis”, “leves” e “integrais”.

Na dica alimentar que vem logo abaixo, temos sempre um alimento funcional e, portanto, aliado da leitora, seja por ter ficado durante muito tempo como vilão e aparecer “mocinho” agora, como a batata doce, o abacate; por ter propriedades rejuvenescedoras, como a romã, o pêssego, a soja em versões verde, branca e preta, a goiaba, rica em licopeno e vitamina A. ter ação emagrecedora, como a chia e o aspargo; ou função calmante combatentes da ansiedade, como o gojiberry, fruta oriental.

Em Prateleira magra, percebemos que o apelo à expressão “magra” envolve muito mais a consolidação de produtos, incutindo a ideia de estilo de vida saudável pela aquisição de certas marcas de alimentos industrializados, do que propriamente o estímulo à magreza. São diversos os alimentos, desde iogurte, creme de ricota, chocolate, shake para emagrecimento, produtos congelados, adoçante, chás, sucos, leite fermentado, sucos de caixa, picolé, torradas, gelatina, barra de proteína, sopa industrializada, hambúrguer, azeite, pipoca, leite de soja, arroz, biscoito, aveia, mostarda, cereal, presunto, mel, entre outros alimentos.

Percebemos que os produtos indicados, levando-se em conta as questões que envolvem saúde, têm inúmeras restrições. Seja pelo alto valor de sódio, quantidade de corantes e conservantes, congelados, o que entra em cena é a tentativa de ligar a marca e o produto ao estilo de vida, quase como que dizendo: “Você pode ser melhor, mais bela

e magra, se você consumir tais produtos e fizer parte desse grupo de pessoas que têm esse estilo de vida.” Impossível não associar interesses como esses voltados para estimular o consumo e o mercado e não a saúde.

Mais uma vez, é recorrente a presença dos especialistas dando o tom em todos os espaços da revista. Aqui, na seção em analise, eles se mostram imprescindíveis para autenticar comportamentos e modos de vida, aqui através da alimentação.

“A margarina pode acentuar o quadro inflamatório causador de males como a celulite e não favorece a saúde, garante nutricionista.” (RCC07);

“Deixe para subir na balança ao acordar, quando o organismo elimina a urina e, em algumas pessoas, as fezes, resultando em um número mais real, diz nutricionista.” (RCC12);

“Em julho as quermesses tomam conta das ruas e dos clubes. Nutricionista ajuda a fazer escolhas mais leves e saudáveis.” (RCC12).

Aqui claramente boa forma e saúde estão sendo associadas, sugerindo que ganho de peso é perda de saúde e, portanto, necessariamente magro é saudável e gordo é doente. Mas não se trata de qualquer sugestão, tendo em vista que são os especialistas em nutrição que orientam, não apenas na rotina alimentar, mas especialmente em épocas de grande comilança, nas quais os apelos gastronômicos são um perigo para as mulheres, comprometendo suas dietas. Mesmo nas festas juninas, onde a fartura da colheita é enaltecida e come-se e bebe-se para festejar, não se deve sair da linha. Tudo é preciso ser substituído pelo light e diet.

“Com a rica oferta de comidas durante as festas, fica difícil manter a dieta. Confira as dicas na nutricionista para não se sabotar.” (RCC06). A festa referida é o

período de natal, geralmente muito farto, compartilhado em família e feito com alimentos fora da padronização estabelecida nas matérias das revistas.

“Segundo estudos, tanto o vinho tinto quanto o suco de uva combatem as placas de gordura, que podem provocar enfarte, diz nutricionista.” (RCC08). Ao lado,

na prateleira magra, a sugestão é de iogurte de uva! Outro aspecto que nos salta aos olhos é a recorrente expressão “segundo estudos”, buscando destacar a credibilidade da informação.

“Aqueles últimos quilos excedentes insistem em permanecer alojados no seu corpo? Confira as dicas da nutricionista.” (RCC09). A credibilidade das dicas soma-se

a percepção, por parte das leitoras que buscam ajuda, de que é sempre possível melhorar – leia-se emagrecer!

“Não utilize o ovo para substituir a carne continuamente. Ele tem menos ferro, diz nutricionista.” (RCC09);

“Quando sentimos o cheiro de algum alimento, os receptores de nosso cérebro entendem como se o estivéssemos consumindo. Assim, a vontade pode diminuir ou até passar, diz nutricionista.” (RCC03).

A dica do profissional é cheirar o chocolate para que a vontade de comer passe, com explicações do campo da neurociência, dando reforço aos argumentos.

“Além de dificultar a digestão, o liquido dilui os alimentos. O cérebro então não identifica a quantidade que entrou pela boca e as enzimas da saciedade só são liberadas depois que já comemos demais, diz nutricionista.” (RCC03). Ora, claro fica

que o prazer do corpo vivido, da experiência é suplantado pela lógica mecanicista do corpo máquina, que está priorizado em sua funcionalidade. É o cérebro, a boca, o estômago e a digestão em detrimento do cheiro, da degustação, do prazer à mesa.

“Nesse período há alterações hormonais como a queda da serotonina, responsável pela sensação de bem-estar. O impulso então é de ingerir carboidratos simples, que dão prazer, afirma nutricionista.” (RCC11). Mais uma vez a linguagem

lança mão de expressões do campo médico nutricional: hormônios, serotonina, carboidratos, validando a explicação, por mais que não seja compreensível à leitora.

“O fenômeno, chamado eflúvio telógeno, é uma reação do organismo carente de vitaminas e minerais, diz endocrinologista.” (RCC01);

“O ideal é que o jantar ocorra até às 20 horas. Depois, opte por itens leves, como um iogurte desnatado ou uma fruta. Assim, o metabolismo mais lento no turno da noite não proporciona o aumento da massa gorda e a digestão não interfere no sono, diz nutricionista.” (RCC04);

Alguns comentários nutricionais apontam pesquisas e estudo realizados evidenciando que a mudança de hábitos traz benefícios ao corpo, seja pela disciplina em recusa aos excessos, seja pela privação:

“Nada de fazer cara feia quando a nutricionista sugerir a você que parta a barra (de chocolate) em pedacinhos Um estudo recente realizado com 54 estudantes universitários e publicado no jornal da associação americana Dietética, revelou que a pratica contribui mesmo para a moderação.” (RCC01);

“Além de engordar, o alimento (açúcar) pode fazê-la aparentar mais idade do que tem. Cientistas de Leiden University Medical Center, na Holanda, mediram o nível de açúcar no sangue de 600 pessoas...” (RCC11)

Santos (2008) introduz o conceito de “lightização” da existência, valioso para nosso texto na medida em que reitera os achados. Para a autora a disciplina alimentar de hoje está voltada não só para o controle da fome e dos desejos, mas de reconstrução do gosto. O modo de vida light traduz-se numa existência que conforma imagens de jovialidade, beleza, agilidade, descontração, liberdade.

As famosas que aparecem em Vida leve são comentadas pela matéria quanto a conquista de um corpo mais esbelto:

“A loira e seu namorado aderiram a uma dieta vegetariana rigorosa e já eliminaram cerca de 6 quilos cada um.” (RCC11); A matéria refere-se à cantora

britânica Adele, conhecida pela voz marcante e por fugir aos padrões rígidos de magreza, mas a nota parece indicar que ela está em busca de emagrecer.

“Quem acompanha o programa da chef britânica já deve ter percebido que seu manequim reduziu alguns bons números.” Trata-se de outra famosa que tem as

formas grandes e também está em busca de emagrecer.

O aspecto de superação também é enaltecido na luta com a balança, revelando que a batalha foi vencida. É o caso dessa nota que traz como exemplo de “vencedora” certa atriz e cantora americana.

“Norte americana já perdeu 36 quilos vai lançar livro contando sua batalha para ficar em dia com a balança.” (RCC02);

“De volta ao Brasil, ela se deu conta de que precisava virar o jogo e começou a priorizar o consumo de legumes e verduras. Em um ano e meio se livrou de 20 quilos!” (RCC12);

Mas além das que perderam peso, existem as personalidades que mantém a linha, seja com a vida atribulada, com muitos filhos e agenda cheia. Há sempre tempo e lugar para manter a forma e permanecer magra, jovem e bela, no encadeamento necessário e obrigatório dos significantes.

“Com quatro filhos ainda bem jovens – a primogênita tem 7 anos – a bela garante que a maternidade não representou um problema para suas curvas. Ela conta que se preocupa bastante com os itens que leva a mesa, não apenas por si, mas para passar um bom exemplo aos filhos.” (RCC10);

“Com a silhueta sequinha, mal da para acreditar que ela queria ficar ainda mais esbelta. Mas a morena contou que está fazendo uma alimentação regradíssima à base de vegetais.” (RCC06);

“A bela conta que, após a gravidez do segundo filho, evita circular pela cozinha de sua casa. Por isso já sabe: nada de ficar rondando os armários e a geladeira. Para distrair o estômago, vá ler um livro, fazer uma caminhada, bater papo com uma amiga no telefone.” (RCC09);

“Aos 45 anos, a atriz Salma Hayek exibe um corpinho enxuto capaz de causar inveja em muitas mulheres mais jovens. Recorre a um suco desintoxicante para ajudar na manutenção do peso.” (RCC08);

“Para manter as curvas, ela aposta nas proteínas magras, como peixe e frango, e só abre espaço no cardápio para a carne vermelha uma vez por semana. Outra medida que tem dado resultado, segundo ela, é trocar sobremesa por frutas.” (RCC01);

“Chamou atenção ao parecer com uma silhueta sequíssima. Especula-se que a bela perdeu sete quilos com uma dieta à base de frutas, vegetais e proteínas magras, além de fortes treinamentos.” (RCC04). A matéria é intitulada “de gostosa a

magérrima”, mostrando o valor da perda de peso e de medidas para a conquista do corpo ideal. Mesmo com a diversidade de modelos corporais veiculados pela mídia, como mulheres marombadas, fortes, siliconadas, atléticas, aqui o foco é cada vez mais voltado para a mulher de corpo dito enxuto, seco, bem definido, mas sem excessos.

“Entra ano sai ano e Jennifer Aniston continua superenxuto. Mas não pense que isso se deve, apenas, à genética e a tratamentos estéticos caríssimos. A receita de sucesso inclui muito esforço e renúncias diárias. Ela tem uma lista de alimentos que pode ingerir e sempre em horários pré-fixados.” (RCC05).