Pretendemos, nessa categoria, analisar se existe alguma relação entre um aluno ter concluído o ensino médio numa escola pública ou privada e sua desistência da licenciatura em Física. Essa relação seria intermediada pela formação básica de conteúdos que um estudante teve no ensino médio, e pela crença de que a escola privada possivelmente ofereceria melhor formação do que a pública. Havendo uma boa formação, haveria condições de o aluno acompanhar o nível de exigência do curso. Caso essa formação fosse deficiente, o que seria mais comum na escola pública, um estudante poderia ter problemas para acompanhar o curso, reprovaria e, consequentemente, desistiria da Física.
A suspeita de existirem tais relações se baseia em alguns motivos. O primeiro deles foi o relato de alguns professores entrevistados, os quais afirmaram que alguns de seus licenciandos, provenientes de escolas públicas principalmente, tinham formação básica de conteúdos deficiente em Matemática e Física. Isso ocorreria pela ausência (total ou parcial) de professores de Física em algumas das séries do ensino médio. O segundo motivo se deve às observações da vivência do autor desta dissertação. Alguns de seus colegas de turma, por exemplo, afirmaram que concluíram o ensino médio em escolas públicas sabendo muito pouco sobre Física, pois tiveram poucas aulas dessa disciplina.
Reconhecemos, porém, que os alunos são também responsáveis por sua própria formação básica de conteúdos, contudo, como esta responsabilidade não está expressa nas estatísticas elaboradas, nossa discussão ficará restrita às informações do sistema acadêmico do IFRN sobre o tipo de escola onde os alunos matriculados na licenciatura em Física concluíram o ensino médio.
Dessa forma, os atributos que caracterizaram essa categoria foram: escolas privadas e escolas públicas (ETFRN/CEFET-RN45 ou outras escolas públicas46 como sub-atributos). Resolvemos considerar a instituição ETFRN/CEFET-RN (e seu “oposto”, outras escolas públicas), como um sub-atributo do atributo escolas públicas, devido ela ter sido (e ainda ser) referência na qualidade de ensino proporcionada ao nosso estado. Além disso, dentre as escolas públicas detectadas no levantamento dos dados, ela foi a única federal, sendo as demais estaduais. Por isso, vale lembrar que os números absolutos correspondentes à ETFRN/CEFET-RN, bem como às outras escolas públicas, foram considerados também no atributo escolas públicas. Logo, esse atributo é um conjunto que contém os sub-atributos ETFRN/CEFET-RN e outras escolas públicas.
Pudemos notar duas principais diferenças entre as turmas 2004.2 e 2006.1 quanto à classificação dos alunos matriculados. A primeira delas é que a turma 2004.2 foi iniciada contendo 50,0% de seus alunos provenientes de escolas privadas e 46,9% de escolas públicas, enquanto que esses valores na turma 2006.1 foram de 71,9% e 25,0%, respectivamente47. A segunda diferença diz respeito aos alunos matriculados provenientes da ETFRN/CEFET-RN. Na primeira turma, eles representaram 25,0% do total de matriculados (o que corresponde a um pouco mais da metade (53,3%) dos alunos matriculados provenientes de escolas públicas). Já na turma 2006.1, eles corresponderam a apenas 15,6% (21,6% dos alunos matriculados provenientes de escolas públicas).
A desistência relativa dessa categoria dispensa comentários visto que a tendência anteriormente descrita sobre a caracterização do público matriculado foi, nela, mantida. Diferentemente, a desistência absoluta (gráfico 20) nos possibilita traçar o seguinte comentário: tendo como base simplesmente a escola na qual um
45 ETFRN, Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte, foi a denominação anterior do CEFET-
RN, Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio Grande do Norte. Essa, por sua vez, foi a denominação anterior do IFRN. Não incluímos o IFRN nesse sub-atributo porque, quando as turmas 2004.2 e 2006.1 foram criadas, o IFRN ainda era CEFET-RN, consequentemente, não existiam alunos formados no ensino médio daquela instituição (IFRN).
46 Também foram inseridos como escolas públicas, aqueles certificados de conclusão obtidos via
Exames Supletivos (Subcoordenadoria de EJA do RN).
47 Embora a turma 2006.1 tenha sido constituída igualmente por alunos oriundos do vestibular
diferenciado (só alunos egressos de escolas públicas) e do vestibular geral (qualquer aluno concluinte do ensino médio), isso não significa dizer que obrigatoriamente, o público matriculado nessa turma tinha que ser igualmente de alunos provenientes de escolas públicas e privadas. A existência de 71,9% dos alunos serem de escolas públicas se deve ao fato de que no vestibular de 2006 do IFRN, alguns alunos oriundos de escolas públicas realizaram o processo seletivo do tipo “geral” e foram aprovados.
aluno concluiu o seu ensino médio, não podemos afirmar que houve diferença significativa quanto à desistência entre estudantes oriundos de escolas públicas e de escolas privadas, seja na turma 2004.2 ou na turma 2006.1. Até mesmo dentro do atributo escolas públicas, as diferenças de desistência entre aqueles formados pela ETFRN/CEFET-RN ou por outras escolas públicas não foram significativas (seja na 2004.2 ou na 2006.1).
Gráfico 20: Desistência absoluta dos alunos desistentes da licenciatura em Física do IFRN em relação à escola de conclusão do ensino médio
Tendo como referência unicamente as informações do gráfico 20 e partindo do pressuposto de que uma formação básica de conteúdos deficiente no ensino médio pode provocar a desistência na licenciatura em Física, então suspeitamos de duas possíveis conclusões sobre esta quinta categoria. A primeira sugere que ambos os tipos de escola, público ou privado, não estão dando a formação necessária para acompanhar o curso de Física. Todavia, somos tentados a não defender essa conclusão acerca da culpa da escola, pois algumas das escolas privadas identificadas no levantamento e a ETFRN/CEFET-RN são tradicionalmente reconhecidas pela qualidade do ensino que oferecem.
Outra possível conclusão é que, caso haja (ou não) uma diferença entre as formações oferecidas por essas escolas (sendo, por exemplo, a da escola privada e a da ETFRN/CEFET-RN melhor que a das outras escolas públicas), então essa diferença não influencia significativamente a desistência. Portanto, caso ocorram
86 ,7 % 82 ,6 % 84 ,2 % 87 ,5 % 80 ,0 % 84,6 % 85 ,7 % 83 ,3 % 84 ,0 % 81 ,3 % 87 ,5 % 83 ,3 % 100,0% 100,0% 100,0% 70% 75% 80% 85% 90% 95% 100%
turma 2004.2 turma 2006.1 Geral
Desistência absoluta em relação à escola de conclusão do ensino médio
Escolas Públicas ETFRN/CEFET-RN Outras escolas públicas Escolas Particulares Não Informou
desistências devido à formação deficiente, elas devem ser pontuais ou devem agir junto a outras causas, mas não como principal e único motivo para o abandono de um grande número de alunos. Essa conclusão é mais plausível de ser aceita tendo como referência apenas as informações do gráfico 20.
Um argumento que reforça a plausibilidade dessa conclusão foi retirado dos relatos dos ex-alunos nas entrevistas (seção 4.2.6). Aqueles desistentes, que relataram não terem tido problemas com relação à formação básica de conteúdos (a maioria dos entrevistados), concluíram o ensino médio tanto em escolas particulares como em públicas estaduais e no próprio IFRN. Já os desistentes que alegaram alguma deficiência na formação (a minoria) também eram oriundos desses três tipos de escolas. Além disso, entre eles, três assumiram que sua deficiência foi pessoal e não devido à instituição de ensino.
3.1.6 CATEGORIA: INTERVALO DE TEMPO ENTRE A CONCLUSÃO DO ENSINO