esse enfeitiçamento ocorre concretamente no caso da dignidade humana.
3.4.1 O Método terapêutico
Mesmo considerando-se correta a afirmativa de que a dignidade humana não constitui, como visto no item 3.3, um dos grandes questionamentos clássicos da filosofia, não há dúvidas de que o tema avolumou-se enormemente enquanto objeto de interesse filosófico desde o pós-guerra, período em que a literatura a respeito do assunto alcançou uma dimensão praticamente inesgotável. É difícil definir se a ideia “moderna” de dignidade encontra-se em uma relação de anterioridade ou posterioridade em relação à temática dos direitos humanos309 – relação que se revela ainda mais complicada em face da hipótese do consenso pragmático –, mas o fato é que tal crescimento doutrinário parece caminhar pari passu com o crescimento do discurso dos direitos humanos e que o recurso à filosofia para elucidar o significado, inclusive jurídico, da dignidade humana tem sido uma constante. É na filosofia que boa parte da doutrina jurídica buscou, nos últimos setenta anos, a resposta para o que é a dignidade e como ela estaria apta a desempenhar os inúmeros papéis que se lhe atribui, desde o de ponto de ruptura entre conceito e fundamento dos direitos humanos universais até o de norma capaz de fundamentar decisões específicas. A complexidade destes papeis foi parcialmente descrita no primeiro capítulo, não com intuito de esgotá-la, mas com o duplo propósito de demonstrar como a definição da dignidade assume importância central nessas aporias e como a resposta parece apontar para fora do direito, ao menos o suficiente para acarretar uma tensão entre a solução filosoficamente correta e a formação de um conceito juridicamente operacional. É no cerne dessa controvérsia, que mostra a dignidade como questionamento extrajurídico, trazendo a filosofia para o centro do processo de resposta, que se pretende realizar um aporte da filosofia wittgensteiniana, ao questionar o próprio método filosófico tradicional e propor-lhe, em substituição, uma filosofia “terapêutica”.
3.4.1.1 A crítica filosófica de Wittgenstein e a questão do sentido
No curso da seção 2.4 do presente trabalho empreendeu-se um exame da filosofia do segundo Wittgenstein tendo como base a sua aproximação entre significado e uso.
309
Retome-se, por exemplo, a lição de Schahter (1983, p. 853) ao considerar que sob o ângulo histórico a dignidade antes refletiria concepções sócio-históricas de direitos e liberdades que as teria engendrado.
Embora não se tenha sustentado expressamente que o discurso wittgensteiniano a respeito desta aproximação constitua uma tese ou teoria filosófica do significado – proposição, de resto, bastante controversa –, considerou-se, tendo em vista a sequência das discussões sobre definição e significado realizadas no curso do capítulo, que este constituiria um eixo propício à apresentação dos principais conceitos de sua filosofia (semelhança de família, jogos de linguagem, argumento da linguagem privada, seguir uma regra, forma de vida etc).
Este modo de proceder, que encontra suporte nas interpretações mais clássicas de Wittgenstein, teve como consequência a formação de uma determinada imagem de sua filosofia, na qual os problemas e soluções foram agrupados em torno da questão do significado e em que remanesceram desfocadas – mas não completamente apagadas, ressalte- se – a crítica de Wittgenstein à filosofia tradicional, o método filosófico empregado pelo mestre vienense e a questão do sentido das proposições, matérias que constituíam temas recorrentes da sua filosofia desde o Tractatus (como se viu na seção 2.3). É difícil julgar se algum dos aspectos da filosofia wittgensteiniana, em especial a sua crítica filosófica, merece as luzes da ribalta em detrimento dos demais310, mas é chegado o momento de trazer estas questões pendentes para o foco, o que se faz não apenas por considerá-las contraparte essencial da reviravolta wittgensteiniana descrita no segundo capítulo, mas principalmente pela reconhecimento de que o aspecto terapêutico dessa crítica é essencial para o prosseguimento deste trabalho.
Foi visto que no curso do Tractatus Wittgenstein, ponderando sobre o sentido de uma proposição, levara a tradição filosófica designativa ao limite, desenvolvendo uma visão eminentemente metafísica na qual toda proposição com sentido espelharia alguma propriedade lógica do universo. Nesta visão, as sentenças da linguagem comum constituiriam funções de verdade das proposições elementares, que por sua vez encontrariam seu sentido por constituir a imagem de um possível arranjo de coisas. Sua investigação lógica, como bem
310
Parece haver uma tendência, em estudos recentes, a focar no aspecto crítico da filosofia de Wittgenstein. Horwich (2012. p. viii-xiv), por exemplo, que tem postura radical, não se limita a trazer o que chama de “metafilosofia” de wittgenstein para o primeiro plano, mas também dissocia-a de todos os demais elementos, postulando como ponto de partida uma crítica de senso comum sobre as aspirações científicas e assumpções metodológicas que governam a filosofia tradicional. A partir daí tenta derivar as principais conclusões alcançadas nas Investigações. O próprio autor, entretanto, admite o caráter controverso de seu ponto de vista e traz uma extensa lista de estudiosos que pensam de modo diverso. Já Folgelin (1996, p. 36) preconiza, do mesmo modo – mas partindo de um ponto de vista menos radical – a prioridade da crítica sobre os demais aspectos, ponderando que a doutrina de Wittgenstein não encerra uma teoria do significado e que tampouco a resolução de problemas filosóficos dependeria de uma tal teoria.
percebem Baker e Hacker (2009a p. 253-254), era também a investigação sublime a respeito da essência de todas as coisas, da ordem a priori do mundo, da sua natureza essencial, já que pressupunha que a lógica espelha as propriedades metafísicas do mundo e que as proposições elementares, que ainda esperavam análise, eram marcadas pela ausência de falha na referência. Em última instância, por conseguinte, Wittgenstein pressupunha uma lógica da linguagem em que as proposições completamente analisadas revelariam nomes com significado e proposições que, encerrando esses nomes e representando um estado de coisas possível, tivessem sentido (TLP 6.124).
Ao romper com esse modelo radical de sublimação da lógica é quase natural que Wittgenstein tenha radicalizado, precisamente, no sentido oposto. O próprio Wittgenstein reconhece essa necessidade, afirmando que a lógica não pode perder apenas parte do seu rigor e que “O preconceito da pureza cristalina só pode ser eliminado dando uma guinada em nossa reflexão. (Poder-se-ia dizer: é preciso dar uma guinada em nossa reflexão, mas em volta de nossa verdadeira necessidade como ponto axial.)” (IF 108). É municiado desse espírito que Wittgenstein desenvolve a sua segunda filosofia, considerando a sua obra pretérita como a culminação radical da tradição filosófica e sua obra de maturidade como destruidora da grande tradição da filosofia tradicional e de suas pressuposições mais profundas (BAKER; HACKER, 2009a, p. 273).
Enquadrando-se a crítica filosófica wittgensteiniana em uma perspectiva bastante ampla pode-se concordar com Baker e Hacker (2009a, p. 271) ao afirmarem que ela constitui um rompimento com a filosofia enquanto disciplina cognitiva, destinada a fornecer proposições que expressem conhecimento filosófico311. Tal assertiva, entretanto, pelo seu alto grau de generalidade, diz muito pouco a respeito da filosofia do segundo Wittgenstein e do seu projeto terapêutico, que envolvem não apenas a percepção de que os filósofos tem uma tendência a ver a linguagem sob uma perspectiva desorientada, mas também as tentativas de fazê-los abandonar tal perspectiva (FOLGELIN, 1996, p. 34). É nesse empreendimento que se faz presente o mencionado aspecto terapêutico e que se faz possível efetuar a guinada ou,
311 Observe-se que esta é a linha explicitamente desenvolvida, por exemplo, por Horwich (2012, p. 21), que define, para seus propósitos, as teorias filosóficas tradicionais como um “corpo não óbvio de princípios a priori, que ofereça um relato completo, sistemático, preciso e básico a respeito de algum fenômeno generalizado, mas que cause perplexidade” (tradução nossa). Pondera, entretanto, que de acordo com este conceito boa parte da teorização na filosofia não seria alvo da verve wittgensteiniana, já que não envolveria o elemento a priori (ibidem, p. 23).
parafraseando o próprio Wittgenstein, obter a libertação de uma determinada imagem, que nos mantinha prisioneiros e que reside na própria linguagem (IF 115).
Logo que Wittgenstein retornou à filosofia, em 1929, escreveu em um de seus cadernos que aquele método constituía, em essência, a transição da pergunta pela verdade para a pergunta pelo sentido (BAKER; HACKER, 2009a, p. 275). Pode-se discutir, dado o momento da assertiva, se ela ainda se referia à filosofia tractariana ou se já dizia respeito às suas novas ideias, mas parece inequívoco, conforme exame feito no capítulo pretérito, que o problema do sentido das proposições permaneceu como uma preocupação central de Wittgenstein ao longo de toda a sua produção filosófica312, constituindo, inclusive, o eixo sobre o qual ocorreu a guinada em seu pensamento. No Tractatus, os limites do sentido eram aferidos pelo significado dos sinais constantes da proposição, cotejados dentro da perspectiva de espelhamento lógico entre linguagem e mundo (TLP 6.53). O sentido estava vinculado, por conseguinte, a essa gramática profunda e totalmente delimitada que encontrava par com o mundo. Na segunda fase de seu pensamento, as possibilidades de sentido continuam sendo determinadas pela gramática, mas esta já não mais reflete, como visto no segundo capítulo, as propriedades essenciais do mundo. Antes, são o que se considera as “propriedades essenciais do mundo” que são colocadas à sombra da gramática, não mais composta por uma estrutura essencial e profunda, especular da realidade, mas por um mosaico de jogos de linguagem, jogados em consonância com uma determinada forma de vida.
A ideia tradicional de que a linguagem tem uma estrutura que se encaixa na realidade decorre, em grande medida, da distinção entre regras intragramaticais e outras que parecem conectá-la com a realidade, em especial as definições ostensivas (BAKER; HACKER, 2000, p. 91). Wittgenstein, entretanto, esforça-se amplamente para demonstrar que as definições ostensivas são instrumentos da gramática, que não deixa de ser qualificada, por se valer de tais instrumentos, como um “cálculo à deriva”:
“A gramática, para nós, é um cálculo puro (não a aplicação de um cálculo à realidade). [...] Não há nenhuma questão, no caso, de uma ligação com a realidade, que mantenha a gramática nos trilhos. A ‘ligação da linguagem com a realidade’ por meio de definições ostensivas e coisas assim não torna
312 No Big Typescript, Wittgenstein assere, no que parece ser uma confirmação do dito trazido por Baker e Hacker, que tudo que constitui requerimento para a compreensão pertence à gramática e constitui requerimento para o sentido, afastando-se tão somente aquilo que torna a proposição concretamente verdadeira ou falsa (BT, p. 38e).
a gramática inevitável nem provê uma justificativa para ela. A gramática continua a ser um cálculo à deriva, que só pode ser estendido e nunca sustentado. A ‘ligação com a realidade’ meramente estende a linguagem, não força nada nela” (GF p. 245-246)
A explicitação do papel desempenhado pela definição ostensiva, entretanto, envolve apenas um aspecto do que Wittgenstein pretendeu superar em sua imagem pretérita da linguagem. Com ele, ultrapassa-se um certo referencialismo imediato, mas não se combate a perspectiva mais profunda, que conduz à sublimação da lógica de nossa linguagem. Admitindo-se o espelhamento entre linguagem e realidade, na forma do Tractatus, é natural que a gramática transparecesse como um conjunto de regras perfeitamente determinadas e claras, ainda que só reveláveis mediante análise (IF 102). A superação da perspectiva explicitamente ontológica lá pressuposta, todavia, não implica, necessariamente, a dessa imagem do perfeccionismo lógico que parece estar arraigada, de modo ainda mais profundo e menos consciente, no imaginário filosófico (FOLGELIN, 1996, p. 50). É isso que Wittgenstein tematiza ao longo dos parágrafos 103 a 107, afirmando que este ideal está fixado em nossos pensamentos de modo irremovível e que ele nos leva tanto à busca pela “essência do signo propriamente dito” quanto à impressão de que teríamos que descrever “as últimas sutilezas que nós, por nossa vez, não poderíamos descrever com nossos meios”. É esse perfeccionismo lógico que Wittgenstein propõe superar ao convidar o leitor a ver que ele não é o resultado de qualquer investigação sobre a linguagem, mas uma exigência que está em constante conflito com a linguagem real (IF 107).
Folgelin (1996), ao tratar sobre a crítica de Wittgenstein à filosofia tradicional, divide-a em duas categorias amplas, delineando, ao lado do que considera ataque ao referencialismo, também um ataque ao perfeccionismo lógico, categoria que alberga a ideia de que a linguagem seria uma atividade governada por regras claras, completas e consistentes. Admitida a linguagem como uma atividade governada por regras, seria natural supor que estas regras são determinadas, completas e consistentes, podendo ser encontradas mediante análise ou investigação. Wittgenstein, entretanto, teria percebido que estes caracteres não resultam de investigações sobre a linguagem, mas antes são pressupostos na linguagem, sem qualquer evidência que lhes dê suporte. Na filosofia, conduzem-se investigações conceituais ao modo de uma investigação factual, buscando-se uma regra única e elementar, escondida na gramática (ou na realidade), capaz não apenas de explicar todos os usos de uma determinada expressão – e aqui o combate realizado através do símile
wittgensteiniano do Bedeutungskörper adquire extremo relevo –, mas também, por vezes, de garantir a outorga de um novo sentido, completamente dissociado da linguagem cotidiana. Esta confusão entre uma investigação conceitual e uma investigação factual é que seria, para Wittgenstein, o problema da metafísica (Z §458), cumprindo à nova filosofia por ele proposta precisamente combatê-la, conduzindo as palavras de seu emprego metafísico de volta ao seu emprego cotidiano (IF 116). É nesse sentido, por exemplo, que Wittgenstein postula estar errado quem disse que não se pode ingressar no mesmo rio duas vezes, apontando para um alargamento indevido do conceito de identidade e dos próprios termos utilizados na expressão (BT, p. 304).
Esta visão do perfeccionismo lógico exposta por Folgelin, embora limitada por si mesma, já deixa entrever, em linhas gerais, em que consiste a transição da verdade para o sentido. Como ficou claro no exemplo do rio, a filosofia tradicional tem uma tendência a transgredir as fronteiras do sentido (BAKER, HACKER, 2009a, p. 285) e a explorar conceitos como se investigasse verdades a respeito da essência do mundo. O método wittgensteiniano importaria em uma mudança nessas investigações, revelando que ao investigar a gramática não se deve ter por objetivo alcançar a ordem a priori que justifique o uso da linguagem, mas simplesmente descrever a gramática real, que está à mostra (IF 126), atividade que permitiria visualizar as fronteiras do sentido313 e como os conceitos se comportam e se relacionam dentro destas. Essa atividade, que teria como objetivo a formação de uma visão panorâmica da geografia conceitual, delineando os limites do sentido, é que permitiria dissipar as ilusões filosóficas mais arraigadas e dissolver (BT p. 310) os problemas filosóficos.