• Sonuç bulunamadı

Logo acima se disse que o recurso à história, em se tratando de dignidade da pessoa humana, busca iluminar o significado atual do conceito, consignando-se uma distinção entre aqueles que pretendem fazê-lo através de uma evolução conceitual e os que se propõem, com tal finalidade, a resgatar um dos significados pretéritos de dignidade. Uma segunda distinção, todavia, parece passar despercebida quando se trata do recurso à evolução e, a despeito da ausência de limites precisos, é importante que seja feita, considerando os objetivos do presente trabalho.

Não há dúvida de que um primeiro exame sobre a expressão “dignidade humana”, corrente no direito, pode ser formulado seguindo-se um padrão estritamente linguístico, a partir do qual nela se reconhece um substantivo (dignidade) e um predicado

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         

religiosa, em virtude da qual se concebe o homem como imagem e semelhança de Deus; de uma dimensão ontológica, na qual se considera o homem como ser dotado de inteligência racional, consciência de si mesmo e

de sua superioridade; ética, no sentido de autonomia moral e; social, que promana da estima decorrente de uma conduta valorada positivamente. Saliente-se que, não obstante tal multiplicidade, a autora não deixa de iniciar o texto considerando que a dignidade é um signo da identidade do ser humano e complementar, adiante, que é uma qualidade de que se predica toda pessoa.

267 Alexy recorre, aqui, à diferença entre conceito e concepção propugnada por Rawls quando trata da Justiça. Rawls (2008, p. 5-6) reconhece que, apesar de haver discordância a respeito dos princípios que devem compor uma concepção pública de justiça, retora da sociedade bem organizada, cada pessoa tem uma concepção própria, de sorte que o conceito de justiça, que não se confunde com as distintas concepções, seria especificado pelo papel que esses diferentes conjuntos de princípios, constantes das diferentes concepções, têm em comum. 268Além da menção expressa de Alexy, registram-se, também em outros autores, a associação entre a ideia de

semelhança de família e o conceito dignidade, a exemplo de Mccrudden (2008, p. 679) – que a nosso ver

emprega a ideia de modo bem distinto, senão diametralmente oposto, daquele proposto por Wittgenstein ao sustenta-la com intuito de reconhecer um núcleo mínimo universal da dignidade – e Leslie Henry (2011), que empreende um extenso estudo da jurisprudência da Suprema Corte Americana, nela identificando, a partir da ideia de semelhanças de família, cinco concepções distintas para a dignidade.

(humana) que o qualifica, determinando o tipo de dignidade de que se trata, ou seja, de dignidade humana269

. É justamente a partir da maneira como estes dois componentes do conceito se relacionam que se pode delinear duas grandes linhas de pesquisa histórica possíveis: de um lado, as que se pretendem efetuadas sobre o conceito atual de dignidade humana, destinadas a uma busca essencialista na história do pensamento e, de outro, as que tem por objeto o conceito dignidade, desenvolvidas sobre o próprio termo, independentemente de suas relações – eventuais – com o homem.

De acordo com o primeiro tipo de pesquisa, buscar-se-ia, na história, a confirmação de uma linha evolutiva do pensamento que tem por norte o valor atualmente reconhecido ao homem e, portanto, o próprio conceito de dignidade hoje considerado, em sua vertente humanista. É nessa toada que se percorre o pensamento filosófico desde a Antiguidade Clássica, sempre na tentativa de compreender como a ideia de valor do homem, reunida sob o signo unívoco e moderno de uma dignidade humana, desenvolveu-se até atingir o patamar atual, de universalização dos Direitos Humanos. Já sob a segunda vertente da pesquisa histórica, o objeto não seria a dignidade humana, i.e. o valor reconhecido no ser humano ao longo dos tempos, mas o próprio termo “dignidade”, em seus variados usos e significados construídos através da história. A partir da compreensão destes elementos históricos é que se faria possível compreender a complexidade e o significado atual do conceito dignidade em seus variados contextos270

.

Assentada a possibilidade desta distinção entre modelos de pesquisa histórica, o que merece especial atenção, em primeiro plano, não são os resultados distintos passíveis de serem obtidos a partir de cada um destes modelos, mas sobretudo a circunstância de tal distinção raramente ser pensada no curso de uma pesquisa jurídica, o que constitui claro sintoma do caráter essencialista deste tipo de exame. Quando se inicia uma pesquisa a respeito da dignidade humana perquirindo-se acerca do valor do homem na história271

, e se prossegue examinando os vários usos do termo “dignidade” através dos tempos, fundem-se os                                                                                                                

269 Desse modo inicia Lebech (2006) as suas considerações fenomenológicas a respeito da dignidade, alcançando, todavia, resultados bastantes distintos dos aqui pretendidos.

270

Nessa linha, Rosen (2012, p. 7) sustenta haver razões sistemáticas por trás dos diferentes (e muitas vezes opostos) usos do termo dignidade e que, para desembaraçar a ideia, o melhor a fazer seria voltar às raízes históricas do conceito.

271 Peces-Barba Martínez (2003, p. 22-23), por exemplo, inicia o capítulo chamado “La dignidad humana en la historia del pensamiento" recorrendo ao Gênesis e a Antígona com intuito de assentar as raízes da ideia de superioridade do homem. Esse mesmo caminho é seguido por Comparato (1997, p. 8-9), que também assenta a dignidade nas tradições judaica e grega, consideradas parcialmente antagônicas.

dois modelos mencionados, o que contribui para o acirramento da entonação essencialista que alcança, sobretudo, o próprio termo “dignidade”. Nessa linha, dignidade, vista como valor do homem, é tomada como uma ideia sempre presente, que permeou a história e se foi revelando paulatinamente até alcançar a projeção ocidental moderna. É evidente que este pensamento, em que se misturam os dois tipos de pesquisa, pressupõe e reforça a percepção da dignidade – ao menos no bojo do direito272 – como algo relacionado exclusivamente ao homem. Esta aproximação acaba por resvalar, normalmente, na ideia de uma essência, presente em todo ser humano e que lhe garantiria igualdade de tratamento, mas mesmo quando ausente o recurso a essa essência metafísica, acaba contribuindo para que a dignidade seja tomada como um conceito unívoco e associada inexoravelmente, do modo essencialista comum à filosofia ocidental, ao valor do homem273.

Esse resultado essencialista não é exclusividade, todavia, das retrospectivas que se iniciam examinando o valor do homem na história do pensamento e que misturam os modelos, também se fazendo presente quando se analisam, preponderantemente, os usos pretéritos do termo “dignidade”. Mesmo aqui é comum que se construa uma explicação essencialista, denominada por Rosen (2012, p. 8) como narrativa do “círculo em expansão” (expanding circle) e que se caracterizaria pela percepção de que a dignidade, outrora qualidade restrita a uma elite social, estendeu-se até ser aplicada a todos os seres humanos. A condição essencialista manifesta-se, aqui, exatamente por essa restrição da dignidade ao valor dos seres humanos, deixando de reconhecer que o conceito, ao longo da história e ainda hoje, tem outras notas que a ele ainda se integram, impedindo, se não descritas adequadamente, uma visão clara274

.

3.3.2 As origens do termo e sua (ir)relevância

É certo que as tentativas de explicação histórico-evolutivas do conceito dignidade dificilmente se justificariam sob a filosofia wittgensteiniana, avessa às                                                                                                                

272 Por isso, quando a dignidade comparece, na Idade Média, associada à honra, nobreza etc, considera-se que ela constitui, em realidade, uma outra ideia. (MARTÍNEZ, 2003, p. 21).

273 Tal associação entre dignidade e valor intrínseco do homem constitui, como veremos logo em sequência, inequívoca herança kantiana, a partir da qual se assentou, no campo da ética, definição estipulativa de dignidade. Reconhecendo este fato e chegando a falar de um “platonismo kantiano”, confira-se Rosen (2012, p. 10).

274 O próprio autor reconhece que a narrativa do “círculo em expansão” é sedutora e que não traduz uma perspectiva completamente incorreta, mas que deixa de fora elementos importantes, especialmente relacionados ao fato de a dignidade ser utilizada em contextos não relacionados ao homem.

explicações275. Um exame sobre a história do termo “dignidade”, todavia, constitui peça de relevo para o exame aqui pretendido, não apenas por coincidir, ao menos em parte, com o material filosófico do qual se extraem diversas tentativas de definição jurídica da dignidade, mas também por permitir uma visão mais ampla do conceito, tendo em vista que muitos destes usos remanescem até os dias de hoje. Deveras, é muitas vezes a partir deste material, especialmente dos usos que se outorgou ao termo “dignidade” dentro de determinados contextos filosóficos – culminando no emprego kantiano no final do século XVIII – que o jurista tenta situar a dignidade e conferir-lhe forma. Assim, ainda que se decline, por impertinente, a pergunta abstrata pelo que é a dignidade, não se pode tomar como irrelevante tal material, tendo em vista ser dele que o jurista extrai as bases para sua resposta ou mesmo, algumas vezes, a própria resposta. Ademais, embora tal exame histórico seja feito principalmente sobre teorias filosóficas que se valem do termo “dignidade” – mas que não versam, propriamente, sobre dignidade276

–, não se pode deixar de reconhecer que tais teorias já constituem um registro do uso que se outorgou ao termo ao longo da história, tendo algumas delas, inclusive, espraiado-se, exercendo influência para além de seus estritos lindes.

O primeiro dos problemas que se enfrenta quando se tenta analisar um determinado termo sob uma perspectiva mundial consiste nas diferenças linguísticas enfrentadas. Deste o início deste trabalho tentou-se contornar o problema da tradução entre idiomas através de uma equivalência no uso, buscando-se como referencial a Declaração de Direitos Humanos de 1948. As limitações dessa proposta de equivalência são evidentes e foram apontadas, por exemplo, por Waldron (2009a, pos. 363), que põe em xeque a bem estabelecida prática de traduzir-se “Würde” por “dignity”, ponderando que os termos têm conotações ligeiramente distintas e que a primeira remete, dada a sua etimologia, mais à ideia

                                                                                                               

275 Vale consignar que segundo Chauviré (1991, p. 137) Wittgenstein dispensaria, ao agrupar-se os dados para uma visão panorâmica, a hipótese de evolução. Nesse sentido, o próprio Wittgenstein consigna, em seus comentários ao “Ramo de Ouro”, de Frazer, que “A explicação histórica, a explicação como uma hipótese da evolução, é só uma espécie de resumo dos dados – a sua sinopse. Assim como também é possível ver os dados na sua relação uns com os outros e resumi-los numa imagem geral, sem fazê-lo na forma de uma hipótese sobre a evolução temporal” (RO, p. 200).

276

É interessante anotar em relação à dignidade humana que tal expressão, a despeito da relevância assumida nos últimos setenta anos, não constitui, tradicionalmente, um dos objetos de investigação da filosofia, o que pode ser constatado, dentre outros fatores, não apenas pela ausência de referências à dignidade nos dois dicionários filosóficos constantes das referências bibliográficas, mas também na Enciclopédia iluminista de Diderot e D’Alembert (MARTÍNEZ, 2003, p. 46). Reconhecendo fato semelhante, vide Lebech (2006, p. 2) e Rosen (2012, p. 4), que compartilha expressamente a opinião aqui exposta e exemplifica a falta de interesse precisamente pelo fato de a dignidade não constar da Routledge Encyclopedia of Philosophy.

de “worthy” que de dignity277. Considerações da mesma natureza poderiam ser empreendidas, com variações, entre o idioma português e o inglês, como por exemplo a percepção de que a tradução mais adequada da palavra americana “worthy”, em variados contextos, poderia ser o termo em língua portuguesa “digno”. Não se vislumbra possibilidade de contornar, de modo definitivo, tais dificuldades e é importante que fiquem registradas.

Já quando se trata de traçar os contornos históricos de um determinado conceito, estas dificuldades permanecem e a elas são acrescidos os empecilhos relativos à pesquisa etimológica, que importam no reconhecimento de uma diferença contextual relacionada não apenas à diversidade cultural, mas também a um necessário aspecto diacrônico, de difícil apreensão sem uma pesquisa aprofundada. Efetivando-se um exame superficial a respeito das origens do termo “dignidade” e do adjetivo correlato “digno”, obtém-se que ambas tem origem latina, respectivamente nas palavras “dignitate” e “dignu” (FONTINHA, 1960, p. 590), esta última vinculada, por sua vez, à raiz grega DIK ou DEIK, que remete à ideia de mostrar (ALENCAR, 1961, p. 198). Assim, dignus estaria em lugar de dícnus, aquele que se pode mostrar e, portanto, justo, honesto, aquele que merece etc, enquanto dignitas e dignitátis se vinculariam à ideia de mérito, honra, distinção, consideração, nobreza, excelência e beleza (ALENCAR, 1961, p. 198). Observe-se que uma outra raiz da palavra “dignidade” é trazida por Lebech (2006), que assenta que dignitas foi, paradoxalmente, o termo utilizado no campo da lógica para a tradução latina do termo grego “αχιοµα”, o que é tomado pela autora como elemento indicativo de que a dignidade (dignity), a despeito de seu aspecto de mostrar, seria algo a ser tomado, desde sempre, como um princípio primeiro, que se impõe a si mesmo e não pode ser reduzido ao que o fundamenta.

Uma tal espécie de aprofundamento etimológico, entretanto, especialmente o último, é de utilidade bastante limitada para o tipo de pesquisa aqui empreendida, inclusive porque tem como ponto de partida uma perspectiva estática da língua e uma determinada relação entre a linguagem e a realidade que mais se aproximaria da fenomenologia heideggeriana pós virada que do pensamento de Wittgenstein ou da matéria jurídica, mesmo reconhecendo-se, nesta última, um viés essencialista. A pesquisa etimológica, assim, presta-se mais a firmar uma relação formal de continuidade entre os termos atualmente utilizados em diversos idiomas e sua raiz latina e é nesse contexto que será levada em consideração.

                                                                                                               

277

O fato de Waldron referir-se ao uso de Würde por Kant e de empreender esse exame na tentativa de caracterizar a dignidade como um status não afeta a utilidade de seu comentário.

3.3.3 Um pequeno catálogo de usos históricos

É comum que as pesquisas jurídicas, pautadas pela consideração do valor do homem na história do pensamento, cruzem seu caminho com a dignitas latina a partir de Cícero, que utiliza expressamente o termo (e sua variável dignam) para dar entonação à ideia da superioridade do homem, especialmente em relação aos animais.

“Ex quo intellegitur corporis voluptatem non satis esse dignam hominis praestantia, eanque contemni et reici oportere; (…) Atque etiam si considerare volumus, quae sit in natura excellentia et dignitas, intellegemus, quam sit turpe diffluere luxuria et delicate ac molliter vivere quamque honestum parce, continenter, severe, sobrie” (CÍCERO, De Officiis, Livro I, XXX)278

É difícil (e desnecessário) elucidar o quanto deste uso específico da palavra por Cícero – vinculando a dignidade a todos os homens – incorporava-se no uso comum do termo, mas é certo que, à época, dignidade continuava sendo, preponderantemente, um termo relacionado a um alto status social, bem como ao tratamento respeitoso e às honras devidas em virtude deste (MARTÍNEZ, 2003, p. 25). É nesse sentido que o termo fazia-se presente, inclusive, em outros pontos da obra de Cícero, denotando a ideia de um status particular e dissociado do tom de universalidade presente no trecho transcrito (ROSEN, 2012, p. 11)279

.

Fixado o uso de dignitas como se reportando a um status específico, pode- se questionar – e comumente se o faz – do que decorre este status e como ele deixou de se referir a um grupo específico de indivíduos selecionados por sua posição social, função etc, estendendo-se a todos os seres humanos, indistintamente, pela sua mera qualidade de humanos. É nessa senda que se desenvolvem boa parte das pesquisas, daqui se originando a mencionada ideia de um círculo em expansão e a ideia da passagem de uma dignidade heterônoma (dignidade baseada no cargo, posição social, na semelhança com Deus etc) para

                                                                                                               

278

A tradução que se segue foi feita a partir da tradução para o inglês, contida na obra mencionada (CÍCERO, 1913, p. 108-109): “Disto, vemos que o prazer sensível não é compatível com a dignidade do homem e que nós devemos execrá-lo e afastarmo-nos dele; (...) E se tivermos em mente a superioridade e dignidade de nossa natureza, perceberemos como é errado abandonar-nos ao excesso e viver em luxúria voluptuosidade, e quão correto é viver em frugalidade, auto-negação, simplicidade e sobriedade.”

279

O autor transcreve trecho do De Oratore em que Cícero faz menção a “prazer com dignidade”, claramente reportando-se a um status.

uma autônoma, originada no próprio indivíduo (MARTÍNEZ, 2003, p. 27-28)280

. É este, também, o ponto de partida do qual se delineia, como visto no primeiro capítulo, a intuição de uma marcha constante na história do pensamento e na própria auto-compreensão do homem, cogitando-se de inúmeras obras filosóficas, políticas e jurídicas que, da Renascença até o Iluminismo281

, trouxeram a ideia da dignidade para mais perto do que há de comum a todos os homens, com o que se desfez a vinculação entre a dignidade e um status social específico, ao tempo em que todos, definitivamente, passaram à condição de valiosos.

A visualização dessa fascinante e quase contínua marcha na história do pensamento não é, de per se, problemática, desde que temperada com a consciência de que a evolução aqui vislumbrada constitui resultado da aplicação dos critérios de julgamento hoje considerados válidos. Da atitude de postular-se uma conexão necessária entre esta marcha e o conceito dignidade, entretanto, não se pode dizer o mesmo. Esta atitude tem por consequência uma unilateralidade que implica o desprezo tanto de nuances conceituais relevantes como de diversas concepções que, não obstante tomadas como superadas, sobrevivem (e convivem) nos dias atuais. Nesse modo de pensar tradicional, parte-se de uma diferenciação entre o conceito atual de dignidade humana e o conceito dignidade e, pressupondo-se um preenchimento conceitual unívoco para aquele, deixa-se de lado todos os elementos que não se relacionem ao núcleo de sentido pré-estabelecido282. Com tal comportamento, engendra-se um raciocínio cuja consequência última acaba sendo, em grande parte, a reunião dos dois conceitos, mas desta feita ocorrendo a assimilação do conceito dignidade pelo conceito dignidade humana. “Dignidade” torna-se, precipuamente, dignidade humana, em sua face

                                                                                                               

280 Essa mudança é condizente com a concepção de Martínez, para quem os Direitos Humanos (e a dignidade) são conceitos próprios do trânsito à Modernidade.

281 Martínez (2003, p. 30-56), embora tendo por referência mais a idéia pré-concebida e moderna de dignidade que o uso do termo, faz um extenso catálogo de obras renascentistas que exaltam a dignidade do homem, incluindo os italianos Lorenzo Valla (“De Libero Arbitrio”), Angelo Poliziano (“Lamia, la Bruja”), Giordano Bruno (“Expulsión de la Bestia Triunfante”) e Pico de La Mirándola (“Oratio de ominis dignitate”), e os espanhóis Fernán Pérez de Oliva (“Diálogo de la dignidad del Hombre”), Francisco Decio (“De Scientarum et academia Valentinae laudibus”) e Juan Luis Vives (diversas obras). Durante o Século XVII, segundo o autor, teria ocorrido um retrocesso, com a sobrevivência, contudo, de elementos do pensamento renascentista, como em Pascal (“Pensées”), que a vincula à racionalidade, embora mantendo algumas notas de religiosidade, e nos jusnaturalistas racionalistas, a exemplo de Pufendorf, para quem o “homem” supõe, em linguagem ordinária, uma ideia de grandeza, dignidade. Já ingressando na Ilustração, o autor destaca o pensamento de Wolff, que não tematiza expressamente a dignidade, mas pugna por uma universalidade do direito tendo por base a essência comum do homem, além de diversos outros autores iluministas, ainda que não tematizem expressamente a dignidade (Georges Louis Leclerc, Voltaire, Rousseau), culminando em Kant.

282 É nessa linha, por exemplo, que o próprio Martínez (2003, p 28) afirma que a dignidade medieval, de origem externa, heterônoma ou derivada, não é propriamente dignidade humana, porque não é autônoma, não impulsiona o desenvolvimento individual da condição humana e não parte do próprio indivíduo.

atual, e todos os vieses incompatíveis tendem a ser afastados, inclusive quando se tenta elucidar seu significado jurídico.

Fazer um exame não essencialista sobre a história da dignidade importaria, precipuamente, escapar da armadilha ontológica que conduziu o conceito dignidade a confundir-se com um atributo necessário do homem, libertando-o para que transpareça em seus variados contextos, não apenas ao longo da história, mas também nos dias de hoje. A alternativa extrema deste exame consistiria em meramente descrever, sem a pretensão de fomentar uma compreensão unívoca do conceito, a totalidade dos usos históricos, tarefa que encerra, em si, o germe da sua inutilidade e que se revela extremamente dificultosa, tendo em vista a extensão e variedade de usos. Para que esse exame não essencialista tenha êxito, todavia, basta dissipar-se a névoa ontológica que cerca o conceito, assentando-se que sua relação com o ser humano não é necessária e que, mesmo quando utilizado nesse contexto, remonta a uma variedade de usos que não se encerra em uma ideia fixa e unívoca.

Michael Rosen (2012), ao realizar análise histórica sobre o tema, identifica três “tipos” distintos de dignidade, um deles relacionado ao status, um ao valor e um terceiro