Ao projetar o significado no uso e ressaltar que a concepção designativa da linguagem, sintetizada em Santo Agostinho (IF 1), é apenas um jogo de linguagem dentre ilimitados jogos possíveis (IF 23), Wittgenstein apresenta, ao mesmo tempo, o elemento final de seu projeto filosófico e o seu primeiro passo naquela caminhada, que importará em desconstrução, um a um, dos elementos pertinentes à concepção designativa clássica, em especial aqueles relacionados ao processo de significação e às atividades mentais envolvidas no processo linguístico.
Como visto, a ideia de “significado”, ao longo da história, sempre esteve associada, de regra, a uma tríade de elementos. Embora as perspectivas variem bastante e haja, por vezes, fusão dos elementos, é comum que, com a palavra significada, reconheça-se a convivência de um elemento anímico/conceitual e de uma realidade externa, apreendida intelectualmente. É à crítica destes dois últimos elementos, em especial do primeiro deles, que o filósofo se dedica (IF 454).
No que tange à realidade externa, Wittgenstein partira, no Tractatus, da associação entre significado e tal realidade, de forma que a proposição teria significado em
202 “A definição ostensiva pode ser considerada uma regra para traduzir da linguagem do gesto para a linguagem da palavra. Se digo ‘a cor deste objeto é chamada “violeta”’, já devo ter denotado a cor, já a apresentei para o batizado, com as palavras ‘a cor desse objeto’ para que a nomeação possa acontecer. Pois eu também poderia dizer ‘o nome dessa cor você deve decidir’, e o homem que dá o nome, nesse caso, já teria de saber o que deve nomear (onde na linguagem ele está colocando o nome).” (GF, p. 63); “Talvez se diga: o dois pode ser definido ostensivamente somente desta maneira: ‘Este número se chama “dois”’. A palavra ‘número’ indica aqui em que
lugar da linguagem, da gramática, colocamos a palavra. Mas isto quer dizer que a palavra ‘número’ tem que ser
virtude de constituir uma imagem do real (KENNY, 2006, p. 111). Nas Investigações, critica expressamente seu próprio ponto de vista, indicando que a sua perspectiva de objetos simples e compostos resolve-se, em realidade, na “gramática”203 (IF 46-47; STEGMÜLLER, 2012, p. 406), além de fazer, no plano mais geral, uma distinção entre “portador” do nome e significado do nome, impedindo que ambos se confundam (IF 40, IF 44)204. Tal crítica não levanta maiores polêmicas, tendo em vista que, da forma como propostas ambas, a crítica ganharia mais adeptos na filosofia que a concepção originária do Tractatus (STEGMÜLLER, 2012, p. 406).
Um outro fruto dessa concepção designativa, entretanto, seria mais difícil de superar e constituiria sério óbice a que se compreenda a aproximação entre uso e significado, bem como a ideia de jogos de linguagem, especialmente a medida que acaba por se relacionar diretamente ao processo mental também criticado em sequência. No Livro Azul, Wittgenstein batiza esse “fruto” de “desejo de generalidade” e o caracteriza, primeiramente, como a “tendência para procurar algo comum a todas as entidades que geralmente subsumimos num termo geral” (LA, p. 45-46)205, relacionando-o diretamente, logo em seguida, à tendência enraizada de associarmos a compreensão de um determinado termo geral a uma espécie de imagem geral na mente, formada a partir dos particulares206. Nas Investigações, o tema é abordado em diversos pontos, mas agora de modo mais preciso, relacionando-o à questão da “essência”, o que se poderia caracterizar como o combate de Wittgenstein à tendência essencialista que permeia o pensamento ocidental. Esta tendência é comentada por Wittgenstein pela primeira vez em relação à linguagem (IF 1) e é justamente ao postar-se contra uma “essência” da linguagem que inicia a sua crítica
Ao invés de indicar algo que seja comum a tudo o que chamamos linguagem, digo que não há uma coisa sequer que seja comum a estas manifestações, motivo pelo qual empregamos a mesma palavra para todas, - mas são aparentadas entre si de muitas maneiras diferentes. Por causa deste
203 Aqui se trata de perquirir a gramática profunda e não a gramática superficial, distinção que será adiante esclarecida.
204 Vale observar que a tradução do § 44 na edição brasileira utilizada encerra um equívoco, que prejudica a compreensão do texto. Onde está escrito “estes são usados somente na ausência do portador”, deve ser lido “estes são usados somente na presença do portador”. O termo “Anwesenheit”, constante do original, foi equivocadamente traduzido como “ausência”, quando o correto seria “presença”.
205 Por esta colocação do problema evidencia-se como ele se enraíza na solução da filosofia clássica para o embate entre generalidade e particularidade.
206 Aqui, Wittgenstein é explícito na afirmação de que “isto significa, grosseiramente, que consideramos as palavras como se todas elas fossem nomes próprios, e que confundimos, por isso, o objecto nomeado com o sentido do nome” (LA, p. 46)
parentesco, ou destes parentescos, chamamos a todas de “linguagens” (IF 65)
De um modo imagético, Wittgenstein associa a tendência essencialista à concepção comum de que um fio único de propriedades perpassaria todos os elementos subsumíveis a um determinado conceito e propõe que tal concepção seja substituída pela de “semelhanças familiares” (IF 67), tratada também imageticamente com a ideia de um fio composto por inúmeras fibras que se entrecruzam e formam uma unidade sem que nenhuma fibra vá de uma ponta a outra do fio. Assim como os membros de uma grande família não têm em comum uma só característica, ao invés de encontrar uma única propriedade comum a todos os elementos relacionados a um conceito, “vemos uma complicada rede de semelhanças que se sobrepõe umas às outras e se entrecruzam” (IF 66).
Ao elaborar tal crítica à perspectiva conceitual e propor as semelhanças familiares, vislumbra-se diretamente como Wittgenstein se distancia da idéia de análise conceitual própria da filosofia analítica e do Tractatus (STEGMÜLLER, 2012, p. 404; CHAUVIRÉ, 1991, p. 92)207, bem como já engendra o afastamento da perspectiva de certeza relacionada a tal análise, o que iria desembocar no reconhecimento de uma textura aberta dos conceitos (IF 68)208. O que parece mais relevante, todavia, é visualizar o quadro mais amplo, assentando como tal postura vai de encontro à tradição filosófica. A captação da essência comum das coisas ou dos fenômenos e a sua expressão por intermédio de um termo geral da linguagem comum é constituinte da tradição filosófica desde Sócrates e, a despeito da mudança de forma decorrente de atitudes epistemológicas distintas, atravessou a filosofia sem grande modificações. Conhecer, tradicionalmente, sempre foi entrever a essência de algo, de tal sorte que, sob um termo da linguagem, normalmente se pressupôs a formação de um conceito exato e a existência de uma ou mais propriedades comuns, necessárias e suficientes à determinação das coisas por ela designada. O que Wittgenstein sustenta é a superação desse ponto de vista, importando no deslocamento do eixo para a linguagem e sua gramática (aqui, mais uma vez, relaciona-se à gramática profunda).
207 A filósofa francesa retoma a ideia de definição por “Merkmale”, constituintes lógicos do conceito, e aponta como Wittgenstein afasta-se de tal modo de pensar.
208
A ideia de “textura aberta” importa no reconhecimento de uma vagueza necessária dos conceitos da linguagem comum, impossível de ser afastada (OLIVEIRA, 2006, p. 131). É interessante notar, porém, que tal vagueza não se confunde com as semelhanças de família, embora esteja com ela claramente relacionada. A distinção fica evidente no próprio parágrafo 68, em que Wittgenstein, embora admita que os “casos” do conceito matemático “número” se relacionam sob o modo de semelhanças familiares, reconhece a possibilidade de sua limitação como a “soma lógica dos conceitos parciais correspondentes”, o que não ocorreria em relação a “jogo” (BAKER; HACKER, 2009b, p. 156-157).
A regularidade e a rigidez no uso da linguagem pressupunham o reconhecimento de uma “imagem” isomórfica entre linguagem e realidade, que nos mantinha “prisioneiros” (IF 115) e a tarefa do filósofo consiste em conduzir “as palavras do seu emprego metafísico de volta ao seu emprego cotidiano” (IF 116). A mudança de ponto de vista fica evidente em diversos pontos da obra, a exemplo dos parágrafos 89 e 90, quando se posiciona contra a aspiração comum de compreender o fundamento ou a essência de tudo que é empírico e assevera que a investigação, propriamente, não se dirige aos fenômenos, mas às condições de possibilidade dos fenômenos. Meditamos, em realidade, não sobre estes, mas sobre a espécie de asserções que fazemos sobre os fenômenos. A reflexão é, portanto, uma “reflexão gramatical” e a perspectiva da busca da essência é deslocada do plano das coisas para o plano da linguagem e sua gramática.
A “gramática” mencionada por Wittgenstein em diversos momentos das Investigações não se constitui, como ele mesmo faz questão de esclarecer, das regras sintáticas comuns ao uso da língua, o que chama de “Gramática superficial”, mas do conjunto de regras que outorgará critérios para um determinado uso da linguagem, de acordo com as circunstâncias do uso. Esta gramática, que Wittgenstein denomina, em contraposição à superficial, de “gramática profunda” (IF 664)209, está intimamente associada aos “jogos de linguagem” e à questão do sentido das proposições filosóficas em sua obra da maturidade. Os jogos de linguagem serão vistos em sequência, mas cabe ressaltar que, especialmente quando trata da própria tarefa da filosofia, a gramática das Investigações Filosóficas é um contraponto à gramática lógica do Tractatus. Nas Investigações, a gramática adquire autonomia e deixa de espelhar a realidade, de forma que já não se pode falar mais de uma conexão entre linguagem e realidade, ao menos não na forma do Tractatus. Tal ausência de conexão não implica em considerar impossíveis as asserções a respeito do mundo, tampouco em tomar-se Wittgenstein como aderente a alguma espécie de idealismo transcendental, mas em deixar pra trás nossa inclinação natural de justificar as regras de nossa gramática pelas propriedades do mundo (HACKER, 1986, p. 186-187). Não se justifica mais a proposição “branco é mais claro que
209 Como assevera Hacker (1986, p. 182), Wittgenstein não distingue dois tipos de gramática, mas sobretudo fixa campos de investigação e interesse distintos sobre o fenômeno da linguagem, quais sejam aquele do linguista e do filósofo. Esta distinção fica evidente pelas anotações de uma de suas alunas: “Of course there isn’t a
philosophical grammar and ordinary English grammar […] The important difference is in the aims for which the study of grammar are pursued by the linguist and the philosopher” (AWL, p. 31). Também no Big Typescript Wittgenstein realiza uma diferenciação entre o seu trabalho de investigação gramatical e aquele
desenvolvido por um filologista, asseverando que ambos interessam-se por regras distintas de nossa gramática, mas que nenhuma das investigações é mais essencial que a outra. (BT p. 305e)
preto” 210 pela referência ao “branco”, ao “preto” e a alguma espécie de relação “ser mais claro que”, o que pressuporia uma medida isomórfica com a realidade, mas pela própria linguagem. “Branco é mais claro que preto” torna-se uma verdade gramatical, uma regra de gramática que determina o sentido das expressões e a maneira de lidar com elas, não uma expressão necessária da ordem do mundo. Isto longe está de significar que a gramática, ao ser engendrada, não atenda à melhor maneira de lidar com certas regularidades empíricas do mundo, mas apenas que ela não entra, essencialmente, em conflito com a realidade e que suas regras não determinam o que é verdadeiro ou falso, mas o que faz sentido (GF, p. 139-140)211.
Com tal medida de autonomia da gramática, Wittgenstein não apenas “desloca” a essência para a gramática (IF 371), reconhecendo-a como fruto da convenção (e da ação) humana212, mas concebe uma nova maneira de lidar com os problemas filosóficos, especialmente com aqueles normalmente relacionados à metafísica, distinguindo investigações factuais de investigações conceituais. O que pretende o filósofo austríaco é assentar que, a despeito de algumas proposições filosóficas possuírem aparência de proposições sobre fatos da experiência, de parecerem descrições super-empíricas da realidade (HACKER, 1986, p. 197), o seu domínio efetivo é o da gramática, constituindo sistemas de notação convencionalmente estabelecidos pelo homem e não fatos necessários da realidade. O problema seria, justamente, a confusão feita entre estas duas espécies de uso da linguagem,
210 O exemplo está em Hacker (1986, p. 189). Para ser compreendido plenamente o caráter gramatical da proposição “branco é mais claro que preto” é necessário observar que ela lida com conceitos “simples indefiníveis”, que tradicionalmente possuem significado por se relacionar, de forma direta, a uma entidade no mundo, quer dependentes da mente (ideia), quer dela independente (propriedades simples ou relações, como cores, ou localizações).
211 A questão da gramática será retomada adiante, mas o ponto de vista wittgensteiniano pode ser melhor esclarecido com a seguinte passagem sobre a “gramática das cores”: “somos tentados a justificar as regras da gramática por meio de sentenças como ‘Mas há realmente quatro cores primárias’. E se dizemos que as regras da gramática são arbitrárias isso é dirigido contra a possibilidade dessa justificativa. (...) As regras da gramática não podem ser justificadas mostrando que sua aplicação faz uma representação concordar com a realidade. Pois essa justificativa teria, ela própria, de descrever o que é representado. E se algo pode ser dito na justificativa e é permitido por sua gramática – por que não devia também ser permitido pela gramática que estou tentado justificar?” (GF, p. 140-141)
212
Em Remarks on the Foundation of Mathematics Wittgenstein ratifica que essências são produtos de convenção e não uma descoberta da razão e afirma que o que parece ser a profundidade da essência é, em realidade, a profundidade de nossa necessidade de convenções: “If you talk about essence-, you are merely noting a convention. But here one would like to retort: there is no greater difference than that between a proposition about the depth of the essence and one about- a mere convention. But what if I reply: to the depth that we see in the essence there corresponds the deep need for the convention.” (RFM, p. 65). Deve-se reconhecer, entretanto, que a noção de convencionalidade dentro da obra de Wittgenstein é muito mais controversa do que deixa transparecer a transcrição deste trecho, em especial se tal convencionalidade for interpretada como sinônimo de que nossas práticas seriam meramente produto de convenção (CRARY, 2009b, p. 136).
para enunciar regras gramaticais e para enunciar fatos da experiência213. Wittgenstein quer deixar claro que ao enunciarmos, por exemplo, “dois livros tem a mesma cor”, trazemos à baila um sistema de notação, uma regra gramatical, uma convenção acerca da “identidade”, e que poderíamos também afirmar, em um sistema de notação diferente, que dois livros “não podem ter a mesma cor, porque, no fim de contas, este livro tem a sua própria cor; e o outro livro tem também a sua própria cor”, embora este último sistema não esteja de acordo com nosso uso habitual (LA, p. 100).214 As proposições consideradas metafísicas, assim, a exemplo de “nada pode ser verde e azul ao mesmo tempo”, não expressam verdades necessárias a respeito do mundo, mas convenções gramaticais e a tarefa do filósofo a respeito delas é a investigação conceitual e não a investigação empírica215. Afirmar o contrário de uma proposição necessária não significa incorrer em falsidade a respeito do mundo, mas violar regras da gramática acerca do uso das expressões e apresentar, por conseguinte, proposições sem sentido.