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Realizado este breve aporte acerca da crítica filosófica wittgensteiniana sob a perspectiva do sentido, já causa menos estranheza a aproximação entre a filosofia do segundo Wittgenstein e a abordagem de um tema prático-jurídico, como a dignidade humana. O jurista recorre à filosofia para responder à questão sobre o que é a dignidade humana, tomando-a por um problema filosófico; Wittgenstein ataca precisamente esses problemas filosóficos e metafísicos tradicionais, considerando-os fruto de algum mal-entendido                                                                                                                

313 No Big Typescript Wittgenstein afirma que o objetivo da filosofia é erigir uma parede onde a linguagem já para de qualquer forma (BT p. 312). No § 119 das Investigações afirma que “Os resultados da filosofia são a descoberta de um absurdo simples qualquer e as mossas que o intelecto arranjou ao bater contra o limite da linguagem. Elas, as mossas, fazem-nos reconhecer o valor daquela descoberta”.

gramatical (SPANIOL, 1989, p. 136, 138), cuja superação deveria fazê-los desaparecer completamente (IF 133). O que se considera o questionamento filosófico por excelência, a pergunta a respeito do “que é”, não seria, para Wittgenstein, necessariamente decorrência de uma pergunta legítima pela coisa, mas consequência de a filosofia postar-se como um jogo autônomo, em que a linguagem “folga” (IF 38), ou está em “ponto morto” (IF 132), com desprezo do contexto e dos jogos de linguagem em que determinada palavra exista (SPANIOL, 1989, p. 107). O filósofo, trabalhando com a linguagem em férias – e justamente por conhecer a frase e por poder imaginar os contextos em que ela pode ser empregada –, cederia à tentação de outorgar à frase sentido absoluto, dissociado do contexto, vinculando-a à expressão de uma verdade de âmbito metafísico. É esse exercício que Wittgenstein propõe seja superado através de sua filosofia terapêutica, em que tais problemas seriam dissolvidos pela consideração gramatical.

Este método terapêutico parece apresentar-se sob um viés estritamente negativo, já que esta nova filosofia não seria mais destinada a explicar, através de teorias, os grandes problemas tradicionalmente levantados na história do pensamento, mas a denuncia- los como fruto de um mal-entendido gramatical, não passível de solução, mas de dissolução. Pela aplicação do método, os problemas tenderiam a desaparecer, levando consigo a filosofia tradicional (ou ao menos uma parte dela) e, no limite, a própria filosofia terapêutica, que se tornaria desnecessária à medida que cumprisse sua função314

.

Tomar-se esta nova filosofia apenas como um exercício estéril de negatividade, todavia, constitui um grande equívoco. É certo que Wittgenstein parecia pôr em xeque o valor da filosofia e a sua capacidade de influir concretamente na realidade315

; é certo,

                                                                                                               

314 Chauviré (1991, p. 131) chega a qualificar a obra do segundo Wittgenstein como aparentemente “suicida”, já que sua tentativa de superação da filosofia tradicional estaria vinculada ao declínio de toda uma cultura e sua superação por uma nova, que não secretaria mais problemas filosóficos a serem resolvidos e na qual mesmo a filosofia terapêutica não teria mais razão de ser. Spaniol (1989, p. 139), embora não trate do assunto com o mesmo enfoque, parece discordar de Chauviré, afirmando expressamente que a concepção terapêutica não significaria o fim da filosofia, tendo em vista que o método terapêutico não se destinaria apenas à filosofia profissional, mas também aos problemas do dia-a-dia, apresentando sua utilidade onde quer que usemos a linguagem, seja nas ciências, seja na comunicação diária. Parece, neste particular, que os dois pontos de vista são compatíveis e que Spaniol apenas não cogitou da magnitude da mudança cultural afirmada por Chauviré. atentado para a imiscuidade entre a filosofia e nossa cultura ocidental.

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Wittgenstein não se limitava a por em xeque o método filosófico tradicional, mas também tentava pôr em relevo o que se poderia qualificar como uma impotência da própria filosofia em sua tarefa: “The philosopher

says ‘Look at things like this!’--but first, that is not to say that people will look at things like this, second, he may be altogether too late with his admonition, & it's possible too that such an admonition can achieve absolutely nothing & that the impulse towards such a change in the way things are perceived must come from another direction” (CV, p. 70). Essa impotência, inclusive, voltava-se para a própria filosofia: “Most likely I could still

também, que sua filosofia não se destinava à elaboração de teorias ou a explicações – ao menos não as classicamente estabelecidas – e que ao cabo das reflexões não se chegava a algo como conclusão ou resultado (CHAUVIRÉ, 1991, p. 125). Não se pode olvidar, contudo, que a sua filosofia tinha uma faceta positiva inegável, que se revela não apenas no exercício de criatividade de seu método terapêutico, que envolvia o retrabalho da língua (CHAUVIRÉ, 1991, p. 132), a criação de conceitos fictícios (CV, p. 85) e de jogos de linguagem artificiais316

, mas sobretudo no conhecimento mais aprofundado da linguagem (SPANIOL, 1989, p. 117), que tornaria os homens aptos a perceber seu componente mitológico. A destruição propugnada por Wittgenstein, que parecia atingir tudo que é relevante, teria por alvo, segundo o próprio filósofo, apenas “castelos no ar” (Luftgebäude)317, pondo a descoberto o fundamento da linguagem sobre a qual repousavam (IF 118). É nessa revelação do caráter elusivo da linguagem, e de como os problemas surgem do fato de o filósofo não perceber esse enfeitiçamento, que reside o grande mérito da terapia wittgensteiniana e, também, o próprio caráter “terapêutico” (de feições psicanalíticas) do método.

Embora seja cediço, no meio filosófico, que Wittgenstein não estava confortável com a equiparação de seu método à psicanálise, afirmando que são duas técnicas diferentes (MALCOM, 2001, p. 48), bem como que tal equiparação, se exagerada, pode levar a conclusões equivocadas (BAKER, HACKER, 2009a, p. 286)318

, não há dúvida de que a menção constante no § 133 das Investigações, em que se compara o método a uma terapia, tem bastante proximidade com a terapia psicanalítica, em especial no que tange à atenção com o paciente e ao que é exigido dele. No Tractatus este aspecto de compreensão com as dificuldades e confusões de um eventual interlocutor que insistisse no discurso filosófico clássico já havia ficado patenteada, ainda que incipientemente. Na segunda fase de sua filosofia, dado o caráter ainda mais radical da reviravolta que se propunha, essas dificuldades                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          

achieve an effect in that, above all, a whole lot of garbage is written in response to my stimulus & that perhaps

this provides the stimulus for something good. I ought always to hope only for the most indirect of influences”(CV, p. 71). Chamando atenção para este ponto, também Chauviré (1991, p. 152).

316 O uso de jogos de linguagem “inventados” ou artificiais está presente no início das Investigações Filosóficas, mas foi uma técnica utilizada sobretudo no “Livro Castanho” (Brown Book) que Wittgenstein ditou aos seus alunos. Para uma análise da estrutura geral desses jogos, vide Baker e Hacker (2009a, p. 61-62).

317 A expressão “castelos no ar” consta da tradução brasileira das Investigações. Spaniol traduz como “castelos de areia”, enquanto na tradução inglesa já mencionada, optou-se pela expressão “house of cards”. O que importa assentar é que a ideia geral é a de denunciar o caráter fantasioso do que se destruía, e não apenas a sua mera fragilidade, como se pode constatar nesse trecho: “Compare the solution of philosophical problems with the fairy

tale gift that seems magical in the enchanted castle and if it is looked at in daylight is nothing but an ordinary bit of iron (or something of the sort).” (CV, p.13).

318 Das dessemelhanças apontadas pelos autores merece atenção, especialmente, o fato de a psicanálise freudiana envolver uma teoria complexa sobre a psique humana, ao revés da filosofia de Wittgenstein, que não encerra qualquer teoria sobre o assunto.

foram assentadas como pertinentes à vontade e não ao intelecto, de modo que não poderiam ser removidas de um só golpe, por uma solução súbita, mas apenas mediante um trabalho sobre o indivíduo, sobre sua compreensão e sobre o modo como vê as coisas (BT p. 300). Nesse trabalho, não adiantaria apresentar respostas prontas, sendo necessário antes encontrar o erro, traçar a sua fonte e mostrar o caminho que conduz do erro à verdade319 (RO, p. 192), já que só poderíamos provar que alguém cometeu um equívoco se ele efetivamente reconhecer a expressão deste erro como a correta expressão de seu sentimento (BT p. 303). Por isso o próprio Wittgenstein afirmaria, em um de seus escritos, “Eu não estou lhe ensinando nada; eu estou tentando persuadi-lo a fazer algo. O que nós fazemos é muito mais parecido à Psicanálise do que você poderia dar-se conta” (MS 158, p. 34 apud RO, p. 215)320.

A filosofia terapêutica não se confunde, por conseguinte, com a filosofia clássica em sua tentativa de convencimento e de formulação de respostas para os problemas através de teorias. Por um lado, o tipo de confusão enfrentada e o seu enraizamento na cultura filosófica demandavam um método distinto, que tratasse o problema sob a perspectiva do indivíduo. Por outro, o tipo de resposta oferecida por esse método, tida como única possível, também demandava um trabalho de aceitação peculiar que não descurasse do interlocutor. De certa forma, o reconhecimento do aspecto terapêutico é o reconhecimento de que muitos dos problemas filosóficos manifestam uma pouco consciente falta de clareza conceitual e de que constituem antes questões em busca de sentido que de respostas (BAKER; HACKER, 2009a, p. 274). Se se diz que a filosofia pouco progrediu desde a Grécia antiga, isto se deveria, para Wittgenstein, ao fato de a linguagem ter remanescido constante e nos seduzido a elaborar, sempre, as mesmas preguntas (BT, p. 312).

A principal tarefa do filósofo terapeuta, portanto, não seria mais desenvolver teorias explicativas, mas um pensamento crítico, adquirindo consciência reflexa da gramática de nossa linguagem, ciente de que as questões filosóficas, que parecem perguntas a respeito da realidade, são na verdade perguntas a respeito do emprego de nossas palavras (SPANIOL, 1989, p. 143). Subir a este degrau de consciência a respeito da gramática e de seus equívocos, entretanto, não é tarefa simples, tendo em vista que as regras de uso das                                                                                                                

319 Conforme observa João José Almeida, em nota de final sobre o mencionado dispositivo dos Comentários ao Ramo de Ouro (RO p. 214-215), a utilização dos termos “erro” e “verdade” revelam um certo ar socrático na técnica então exposta. Esta nomenclatura, entretanto, acabou dando origem aos termos “confusão” e “esclarecimento”.

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O trecho transcrito encontra-se no Manuscrito do Nachlass wittgensteiniano e foi trazido pelo Tradutor do Ramo de Ouro, João José Almeida, em comentário ao texto traduzido.

palavras tampouco o são. Penetrar em tal labirinto de caminhos (IF 203) é estar em permanente luta contra a linguagem ou ao menos contra a mitologia que lhe é inerente e nos mantém cativos (CHAUVIRÉ, 1991, p. 129); e o modus filosófico nessa luta não é o desenvolvimento de explicações, a análise da linguagem que persiga sua essência ou a busca de novas experiências, mas o compilar recordações (IF 127), o combinar o que já é há muito conhecido (IF 109) em prol de que seja desenvolvida uma visão clara da gramática (IF 122). Nessa nova filosofia, já não se tenta decompor linguagem para encontrar o que nela está essencialmente oculto (IF 91, 126), como Wittgenstein fizera no Tractatus,321

tampouco se teoriza a respeito do significado de um determinado termo; a tarefa consiste em descrever-se o uso real das palavras (IF 124), à luz do entendimento de que é no contexto do uso, na prática cotidiana, e não em uma teoria, que se podem encontrar as conexões entre as palavras e os significados (MONK, 1990, p. 308). A teoria é substituída por uma morfologia do uso que parece conduzir a uma “sinopse de trivialidades” (MONK, 1990, p. 303), mas é a partir dessas trivialidades, que passam despercebidas ao homem comum (IF 126)322

, que se torna viável a “exposição de conjunto” (übersichtliche Darstellung) almejada por Wittgenstein e que conduz a um novo entendimento, consistente em “ver as conexões” internas da linguagem. É com esse objetivo que o filósofo empreende sua tarefa de recordar, descrever, inventar conectivos e jogos de linguagem, ganhando uma visão do todo no qual a estrutura da linguagem teve seu começo (MONK, 1990, p. 304). Já não se trata de analisar a frase ou um contexto específico, mas de descrever-se, ainda que de forma não sistemática (SPANIOL, 1989, p. 124)323

, um grande número de contextos e jogos de linguagem, inclusive imaginados, na tentativa de visualizar e compreender os papéis que as palavras realmente desempenham na linguagem324.

Diante de uma tal proposta metodológica, é evidente que não se trata, aqui, de tomar partido de alguma das teorias filosoficamente desenvolvidas sobre a dignidade em detrimento das outras, tampouco de apreciá-las sob o binômio verdadeiro/falso, mas de libertarmo-nos “de dependências supersticiosas em relação a formas de expressão

                                                                                                               

321

Aqui Wittgenstein reporta-se, claramente, à sua atitude anterior, defendida no Tractatus, em que buscava visualizar a sintaxe lógica da linguagem.

322 Como bem lembra Spaniol (1989, p. 104), não atentamos, ao falarmos, à estrutura profunda da nossa linguagem.

323 Não se trata, por conseguinte, de uma exposição completa das regras, mas apenas do necessário para abordar os aspectos da linguagem que levaram ou facilmente levam a determinados enigmas ou erros filosóficos.

324 Este intuito fica evidente do seguinte trecho, colhido do Livro Castanho de Wittgenstein: “Vê-lo-emos facilmente se examinarmos o papel que esta palavra de facto desempenha no nosso uso da linguagem, mas esse papel permanecerá pouco claro se, em vez de examinarmos o jogo de linguagem na sua totalidade, tomarmos apenas em consideração os contextos, as frases da linguagem em que a palavra é usada.” (LC, p. 46) .

indevidamente privilegiadas” (CHAUVIRÉ, 1991, p. 130). Uma das causas da doença filosófica é a dieta unilateral, alimentarmos o pensar só com uma espécie de exemplo (IF 593)325

, e dessa falta de uma Übersicht, de uma visão panorâmica, é que surgem os problemas e os mal-entendidos filosóficos. A pergunta pela dignidade e as teorias filosóficas formuladas para respondê-la, assim, resultariam, na perspectiva wittgensteiniana, de mal-entendidos sobre o funcionamento de nossa linguagem e sobre nossa relação com ela.