Iniciou-se o capítulo anterior apontando, sob inspiração de Warat, ainda que de forma rápida, um descompasso entre a teoria geral do direito e a dogmática jurídica no que tange ao modo de lidar com os seus conceitos, atribuindo-se à dogmática uma orientação realista e à teoria geral do direito a associação com o que se poderia chamar de teses nominalistas. Em um plano mais específico foram analisadas as distinções entre definições nominais e definições reais, assentando-se que as primeiras aproximam-se, ao menos em alguma medida, das estipulativas, próprias de uma determinada ciência, enquanto as segundas traduzem uma pretensão de travar conhecimento total com os atributos essenciais das coisas. Das definições, o exame avançou para as discussões a respeito do significado, concluindo-se com a reviravolta de Wittgenstein, que permitiu superar várias questões, inclusive pondo em xeque a possibilidade de uma definição dissociada do uso específico de um determinado termo. Lá ficou evidente, outrossim, que as definições lexicográficas não constituem senão um catálogo dos usos registrados, que de forma alguma substitui o uso da linguagem nos variados jogos dos quais se compõe. É só na dinâmica destes jogos que um determinado significado pode ser aferido e só nestes faz sentido tratar-se de significado.
Quando Warat analisa, já em outra obra, as definições reais e sua correlação com o direito, qualifica como alienante a pretensão de produzir critérios significativos que revelem os atributos essenciais da coisa e vincula tal pretensão a “inconscientes tendências jusnaturalistas” dos juristas, tendências que teriam sido revertidas a partir da projeção, no direito, das modernas teorias sobre definição, desmistificadoras do essencialismo no sentido de que esclarecem, pragmaticamente, a função das definições no ato de interpretação
(WARAT, 1995, p. 58-59)250. Buscar a essência dos termos jurídicos constituiria, segundo Warat, parte de um mecanismo de fetichização que se caracteriza pela tentativa de apresentar uma base real para problemas de valor e de justiça; as análises desenvolvidas a partir da filosofia da linguagem ordinária teriam contribuído para desvelar tais intenções do emissor, sobretudo porque revelam a carga emotiva contida nos conteúdos valorativos, o que desemboca na discussão travada por Warat a respeito dos estereótipos e das definições persuasivas (WARAT, 2005, p. 69-74). Aqui, o autor argentino salienta que as definições persuasivas encobrem juízos de valor sob a aparência de definições empíricas e que normalmente se valem de estereótipos, expressões que, a exemplo de “abuso de direito”, “legítima defesa”, “democracia” e “segurança”, apresentam uma anemia significativa e que não apresentam, à margem de um ato de valoração, uma denotação clara251.
É possível que uma análise ideologicamente crítica a respeito da dignidade da pessoa humana, centrada nas intenções do emissor, permita qualificá-la como um estereótipo, termo cuja carga conotativa apresenta associações tão fortes que a sua mera evocação já desperta reações de comportamento ou de opinião nos ouvintes, e que se qualifica, precisamente, por se haver tornado esclerosada ou ausente a significação de base. Embora a discussão em torno da dignidade centre-se, normalmente, não na esclerose da significação de base, mas em sua riqueza excessiva (MALUSCHKE, 2007, p. 95-96), há de se reconhecer que a linha que separa uma e outra ideia é extremamente tênue, o que pode ser constatado, inclusive, nas inúmeras críticas acerca de a dignidade haver se revelado como conceito inútil no campo do direito e da ética. Não se enveredará, contudo, pelo caminho de fazer uma análise do uso emotivo da dignidade, embora esta constitua uma aproximação bastante razoável para explicar, ao menos em parte, as ocasiões em que a dignidade opera como um “conversation stopper” (item 1.4.3).
Ao se ultrapassar, no capítulo anterior, a díade definição real/definição nominal, que representaria, segundo Warat, o descompasso entre a dogmática e a metodologia jurídica, não se atuou com intuito de demarcar as limitações da teoria jurídica, nem a
250
Para Souza (2005, p. 277) estes desenvolvimentos da filosofia da linguagem teriam implicado a percepção do caráter veladamente ideológico das definições reais, postulando-se em termo de essência aquilo que se reputa importante sob o ponto de vista prático.
251 Ele assim define estereótipo: “Estereótipo é uma expressão ou uma palavra que pretende gerar adesões valorativas, comportamentos ou opiniões a partir de um processo de significação, no qual o receptor da mensagem a aceita de modo acrítico, baseado em solidariedades significativas epidérmicas”. (WARAT, 2005, p. 72)
tendência objetivante geral dos juristas quando tratam dos próprios conceitos252, mas pela tomada de consciência de que as peculiaridades da dignidade da pessoa humana não permitiam tomá-la como um conceito jurídico ordinário. Mesmo quando positivada expressamente, a exemplo do Brasil e da Alemanha, a dignidade da pessoa humana continua sendo considerada um conceito misto, que não se resolve apenas no plano jurídico e que continua, em grande parte, a remeter, direta e necessariamente, à condição e à essência do homem ou, ao menos, a uma condição pré-jurídica. Esse tratamento diferenciado está em consonância com a posição de peculiar predominância da dignidade apontada no primeiro capítulo, no qual ela ressoa não como um conceito jurídico, mas como o conceito que fundamenta os direitos humanos e, de certa forma, o próprio sistema jurídico253.