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No primeiro capítulo foi feito, sobretudo, um exame consentâneo com o segundo modelo, analisando-se as respostas obtidas, principalmente pela doutrina, para a pergunta sobre o significado jurídico da dignidade. O exame não teve por finalidade, entretanto, descrever, a partir destas respostas, o que seria juridicamente a dignidade, mas tão somente colher elementos que demonstrassem como as respostas jurídicas apresentam um                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          

como um status gerador de obrigações, inclusive para consigo mesmo, e tinha uma natureza dupla, pública e privada.

apelo filosófico e metafísico ou, mais precisamente, em que medida uma concepção ontológica, – e aqui utiliza-se a expressão ontológica com o sentido amplo que se firmou na doutrina jurídica – metafísica e filosófica da dignidade acha-se presente, de forma relevante, na formação de um conceito jurídico, bem como quais os problemas por ela acarretados.

Assentados desta forma os resultados obtidos no primeiro capítulo, fica evidente como o exame lá realizado revelou, através da problematização, de que forma a construção jurídica do conceito de dignidade e a busca pelo significado do termo sempre estiveram, em última medida, associados à perspectiva essencialista da linguagem que permeou a história da filosofia ocidental. Essa perspectiva essencialista pode ser visualizada, principalmente, quando o jurista recorre à filosofia para encontrar o referencial unívoco do conceito, mas não se limita a tal aspecto, revelando-se também quando da tentativa de fixação jurídica de um significado que independa do uso do termo.

A escolha do segundo Wittgenstein, no desenvolvimento do capítulo anterior, deu-se na perspectiva de entender os matizes essencialistas que se encontram na raiz de grande parte dos problemas enfrentados em relação à dignidade da pessoa humana. O jurista, embora não encontre resposta satisfatória ao seu questionamento – o que é a dignidade? –, não cessa de pressupor a existência de uma resposta unívoca, frequentemente vinculada à filosofia/metafísica e que lhe descortinaria, de um só golpe, toda a ordenação jurídica dela decorrente. Buscando esteio no pensamento do Wittgenstein maduro, segundo o qual “toda uma nuvem carregada de filosofia condensa-se numa gota de gramática” (IF XI, p. 287) e para quem a própria pergunta “o que é” revela-se expressão de uma falta de clareza, de um incômodo mental (SPANIOL, 1989, p. 83), abrir-se-ia uma via de análise do problema jurídico que até então se encontrava, em grande medida, vedada pelo recurso à essência. A partir deste novo ponto de vista, em especial pelo abandono da definição por Merkmale e pela tomada de consciência de que o significado não pode ser dissociado do uso, seria possível libertar-se destas pressuposições essencialistas adotadas pelo jurista, deixando-se de presumir um preenchimento unívoco não apenas para o conceito de dignidade, mas também para o princípio jurídico da dignidade.

Com esse aporte não se pretende, obviamente, substituir as respostas jurídicas já existentes sobre o que seja dignidade por outra mais bem elaborada, tampouco alinhar-se com os que afastam a validade do conceito como incoerente, inútil etc, mas tão

somente fornecer alternativa aos obstáculos que foram entrevistos no primeiro capítulo, em especial quando se trata de lidar com o a priori filosófico do conceito de dignidade, vale dizer, com a necessidade de um conceito pré-jurídico. Abandonado o caractere da precisão linguística e a condição meramente representativa da linguagem, encerrar-se-ia a possibilidade de obtenção de um significado unívoco e universalmente válido, mas se viabilizaria uma compreensão do termo mais coerente e próxima do modo de vida de cada sociedade.

3.2.2.1 Um apontamento metodológico preliminar

Deve-se reconhecer que a aproximação que doravante se fará, consistente em examinar-se o tema jurídico da dignidade sob o prisma da filosofia terapêutica do segundo Wittgenstein, não é empreendimento simples. As dificuldades não decorrem, contudo, apenas da problemática conjunção entre um sistema filosófico e um tema jurídico tão relevante, mas também das peculiaridades da segunda parte da obra de Wittgenstein.

Uma das maiores dificuldades ao lidar com a filosofia do segundo Wittgenstein consiste, principalmente, em seu caráter aforístico e não sistemático. No prefácio às Investigações Filosóficas – o único registro de sua filosofia última chancelado por ele próprio – Wittgenstein consignou que nunca conseguiria fundir seus resultados em um todo idealizado e que as observações contidas no livro aproximavam-se de um conjunto de “esboços de paisagens”, em que os pontos tocados eram sempre os mesmos, projetando, a cada abordagem, novas imagens (IF p. 11). Essa ideia já estava presente, outrossim, em outros pontos de suas anotações, quando comparou seus escritos a uma gagueira261

e quando afirmou expressamente que cada sentença que escrevia consistia, sempre, numa tentativa de dizer a mesma coisa de um modo diferente262.

Essa dificuldade em expressar seu pensamento em um todo contínuo e tal necessidade de repetir-se sempre sobre um mesmo objeto revelam um duplo aspecto de sua obra: por um lado, evidenciam que, a despeito da aparente dispersão, subsiste uma vinculação intrínseca entre os elementos centrais, difícil de ser apreendida e que demanda, sempre, a                                                                                                                

261 “I never more than half succeed in expressing what I want to express. Indeed not even so much, but perhaps only one tenth. That must mean something. My writing is often nothing but ‘stammering’.” (CV, p. 16).

262

“Each sentence that I write is trying to say the whole thing, that is, the same thing over and over again & it is as though they were views of one object seen from different angles.” (CV, p. 9)

visão através de um novo ângulo; por outro, criam a aparência de uma certa disponibilidade em seus escritos, que permite ao intérprete, descontextualizando uma determinada passagem, obter suporte para praticamente qualquer ponto de vista que pretenda defender (STERN, 1996, p. 444)263

. Quando se empreendeu, no segundo capítulo, um exame geral do pensamento de Wittgenstein, tentava-se, embora sem a pretensão de afastar completamente a possibilidade destes equívocos, ao menos firmar uma determinada visão acerca do conjunto de sua obra madura e estabelecer as bases que permitem abordar, sob a perspectiva anti- essencialista, o problema da dignidade da pessoa humana. Como importava a visão de conjunto, não foram tematizados alguns pontos específicos com a profundidade necessária – o que se fará, em sequência, na medida do necessário, em especial no que tange à repercussão da desconstrução wittgensteiniana sobre a própria filosofia – tampouco foram discutidas criticamente algumas interpretações alternativas já existentes a respeito das Investigações, sobretudo em relação à possibilidade de seguir regras e ao tema da linguagem privada264

.

O apego ao sentido originário aqui proposto não desconsidera o fato de que determinadas ideias podem ser úteis e eficientes mesmo se desconectadas do contexto em que surgiram, e mais, que podem ser aprimoradas, transformadas etc. O apego é sobretudo metodológico. Quando Baker e Hacker (1980, p. 320) afirmam que uma das ideias wittgensteinianas mais exploradas pelos filósofos contemporâneos é o de semelhança de família, logo complementam, reconhecendo que a “Semelhança de família” é utilizada atualmente de maneiras não sonhadas por Wittgensiten e para propósitos que ele certamente

                                                                                                               

263

A possibilidade de descontextualização parece agravar-se quando se tratam das anotações de Wittgenstein que não eram destinadas à publicação e que foram reunidas postumamente. O próprio Wittgensteim reconhecia que tais anotações eram débeis, embora pudessem ter significados ocultos, comparando-as com a atividade de um barbeiro, que tem que manter a tesoura constantemente em movimento até que possa fazer um corte certeiro (CV, p. 75-76).

264 Certamente, uma das interpretações alternativas mais conhecidas da obra de Wittgenstein é a de Kripke (1982), que a constrói a partir da solução para o paradoxo lançado pelo próprio Wittgenstein no § 201 das

Investigações, considerado por Kripke não apenas como o problema fundamental das Investigações Filosóficas,

mas o mais radical e original problema cético já lançado até hoje. A construção kripkneana pauta-se no paradoxo cético acerca de como seguir uma regra e sustenta que Wittgenstein teria renunciado a uma solução direta, adotando, a exemplo do que já fizera Hume diante do problema da causalidade, uma solução cética para o paradoxo, baseada na regularidade das respostas. Para alcançar sua interpretação, Kripke promove uma reviravolta na organização das Investigações, sustentando que Wittgenstein teria dedicado o que Kripke considera a primeira parte das Investigações (§§ 1-137) ao desmantelamento da imagem agostiniana sustentada no Tractatus, a segunda parte (§§ 138-242) à apresentação do paradoxo e do argumento da linguagem privada e a terceira parte (a partir do § 243) à aplicação do argumento da linguagem privada ao problema das sensações. (op. cit. p. 78-79). Com tal modo de visualizar o trabalho de Wittgenstein, Kripke subverte a interpretação tradicionalmente outorgada, que considera que o argumento da linguagem privada inicia-se no § 243, vinculando tal argumento ao problema de como seguir uma regra e sustentando que se um indivíduo é tomado em isolamento, a noção de uma regra guiando a pessoa que a adota não pode ter qualquer conteúdo substantivo. (KRIPKE, 1982, p. 60-89).

desaprovaria. Não se trata, aqui, de criticar tais desenvolvimentos ou usos mais ou menos contextualizados, mas de reconhecer, em cada um dos conceitos e tema utilizados, a sua vinculação com o todo da filosofia wittgensteiniana da segunda fase e a circunstância de a presentarem, de constituírem nada mais que diversos ângulos de visão, a mesma ideia dita inúmeras vezes, sempre de um modo distinto.