1. KüreselleĢmenin Kentler Üzerindeki Etkisi
1.1. Küresel Kent – Dünya Kenti
Cada autor é sua obra. As cartas de Padre Vieira e de alguns retóricos do século XVII, como François Marie Arouet Voltaire, têm em comum o notável
vínculo com a Oratória Resistente (conforme visado acima). Assim sua poética- epistolar, por exemplo, é um novo portal à imersão na literatura de resistência pela paz e justiça da humanidade, como as cartas de Sêneca (SÊNECA, 1992).
Certamente, cada escritor é filho do seu tempo ou vive à frente dele. Padre Vieira, além de filósofo, teólogo e autor de várias obras, teve uma vida toda engajada. Portanto, cada um ergue sua fortuna crítica e ilumina o tempo segundo suas conveniências mudividentes. Padre Vieira conduz sua oratória sob o viés do político-teológico com notáveis críticas aos antivalores da realeza, dos homens de igreja e em favor dos israelitas, como também mais tarde fez em Cartas Filosóficas, François Marie Arouet Voltaire (2007).
Em linhas gerais, pode-se sintetizar que a retórica das cartas de Padre Antônio Vieira é de caráter informativo-funcional – a qual será tratada, especificamente, adiante (como também sua retórica comum aos grandes epistológrafos de resistência de seu tempo). Esta retórica, com visada pedagógica, constitui-se sob três aspectos notáveis em sua cartografia: a
sociedade, a retórica e a escola, entendida na forma piramidal, conforme o
fragmento seguinte:
Na moléstia das calmas e no aperto dos agasalhos não falo (…). Por dia de Nossa Senhora da Conceição [8 de dezembro] se tornou a confessar a gente da caravela (…). A todos acudíamos com tudo aquilo que trazíamos de regalo, sendo sempre as porções dos doentes as primeiras que se repartiam em nossa mesa. Deu-nos (…) para que nos servisse no mar um índio que tinha vindo do Brasil (…), ao qual servimos mais do que ele a nós, porque adoeceu duas vezes (…), que esteve à morte (…). Também me pediram quisesse pregar outro dia (…) e aceitei. Pela manhã desembarcamos todos a dizer missa (…) e preguei o batismo de penitência. Obrigaram-nos os ouvintes a que não tornássemos para o mar (…) a que nos acompanhavam (…) com grande mágoa nossa os nossos antigos estudantes [de uma casa jesuíta em Cabo Verde, fechada por desavença, em 1642] e com eles seus pais e toda a cidade (…). Deus moveu os corações de todos (…). De dia e de noite não fizemos outra cousa [sic] que ouvir confissões (…) pelas igrejas, já nas casas [e] (…) na cadeia (…) com grande edificação e demonstração dos efeitos da divina graça (…). Fizemos muito [resistimos] em não nos deixar vencer [aos apelos] de ficar ali [em Cabo Verde] (…). Pertencemos à Província do Brasil, e não a de Portugal, a quem pertence Cabo Verde (grifo nosso) (…). Se a alegria de entrar no Céu tem na terra comparação, foi esta (…). Queira Sua Divina Majestade que seja para todos fazermos o [bem] a que viemos e o servirmos como para tudo nos merece (2003, p. 128-133).
Lato-sensu, tem-se nesse fragmento missivístico toda a visada de sua
retórica epistolar informativo-funcional, com fito pedagógico para toda a humanidade. Primeiro, na peregrinação a Cabo Verde, cercada de náufragos perigos, está presente a própria retórica, que almeja salvar a família humana. Segundo, nos gestos de confissões em diversos âmbitos da sociedade (igreja, prisões e residências), a retórica da sociedade, sob o desejo de resgatar a vida social do mal moral, entendido pelo jesuíta como a raiz das calamidades.
De modo inusitado, mas edificante, surge o terceiro aspecto da retórica – a escola: - no autóctone, a quem Vieira se faz de cozinheiro, enfermeiro, pai e
mãe (humano-afetivo) durante toda a viagem; nos doentes, com os quais divide
os próprios regalos e, de per si, no humilde silêncio e indulgência frente à rebelião de egressos estudantes de escolas jesuítas caboverdianas.
Enfim, no próprio lema dos jesuítas está a síntese da tríplice retórica
informativo-funcional-pedagógica: Ad major Dei gloriam – tudo para a maior glória de Deus. Nesse slogan, se esconde cada palavra de Padre Vieira,
simbolicamente a fonte e o ápice tridimensional do retórico-oratório, que, sob a estratégia da pseudomorfose, não aparece na camada superficial dos escritos, mas na estética especifica de resistência, conforme aventado acima.
O corpus epistolar que, em principio, mais parecia um folhetim, assume sua função original de gazeta diária, constitui-se em Romance-Epistolar sob a oratória-triangular: sociedade-retórica-escola, consoante os afetos confidentes. Com base nos modelos tratadistas, a retórica vieiriana, pelas razões vistas e seguintes, é uma escritura autêntica, “mesmo se utilizando das tipologias comuns e consagradas pelo gênero epistolar” (BETTIOL, 2008, p. 90).
Dessa forma, ele traça seu diálogo engenhoso com todos os homens de boa vontade, dos quais alguns já o tinham na conta de grande escritor-orador, dado o empenho ecumênico seiscentista em favor dos homens de nação. Por isso, tece uma reflexão sutil ao comportamento ético-moral, leis e sacramentos da Igreja do seu tempo. No interior dessa carta, vê-se o perfeito enlace da sua
Estética de Resistência com a narração retórico-oratória.
Assim, ele trata, copiosamente, sobre aquilo que há de mais humano e simboliza no centro dos tempos: o ter, o poder e o prazer. Por fim, volta sua reflexão sobre si mesmo. Ao perceber sua missão social, prefere o Brasil Colônia à Metrópole Lusitana. Nesse caso, a carta é feedback retórico, como
se vê nas palavras finais: Queira Sua Divina Majestade que seja para todos
fazermos o [bem] a que viemos e o servirmos como para tudo nos merece.
Sua retórica informativo-funcional revela não apenas vocação escriturística (em um mundo de enormes dificuldades editoriais), mas também zelo autoral redobrado e humanístico, acima da dobrez de recompensa visível, tanto quanto à arte dos grandes tratadistas medievais e renascentistas (Anônimo de Bolonha, Erasmo de Rotterdam e Justo Lípsio), buscando a razão de cem por um com o olhar fixo no devir.
Assim, a análise das epístolas de Padre Vieira acaba sendo, de certa forma, a reconstrução de seus diversos rostos e perfis em virtude das várias retóricas e destinatários. Pode-se dizer, então, que em suas cartas há inúmeras representações pessoais do tempo e dos interlocutores antibarrocos, que revelam “um viés típico de autores apologéticos, retóricos e resistentes do seu tempo” (GODOY, 2005, p. 32).
A maior particularidade entre as visadas de Padre Vieira e demais tratadistas da cartografia é que ele dispõe de um duplo olhar teólogo-filosófico e inconformista, enquanto os outros, apenas filosófico-iluminista. Padre Vieira, fiel ao seu fado até o limite e dado à visada do corpus doutrinário dentro da Igreja Católica, tornou-se paradigma aos pósteros.
Diversamente de outros epistológrafos, como François M. A. Voltaire, que terminou como gnóstico-deísta, o jesuíta foi tributário dos grandes mentores e tratadistas, mas se manteve fiel à Máxima Cartografia – a Sagrada Escritura -, seja para afirmar a própria retórica, seja para refutar a dos demais. Por isso, considera-se, pedagogicamente, a epistolografia seiscentista como precursora do Século das Luzes (Iluminismo).
Embora se tenha consciência de que tudo isso são recortes, e que suas epistolas contêm um rio muito mais caudaloso de significado, ainda assim é motivador contemplar alguns pirilampos desse universo, com a consciência de que “nenhuma tese é plena contribuição própria nem alheia”, conforme Perrone-Moisés (2007, p. 34), mas todo texto é um mosaico de inter-relações dialógicas, que enriquece o próprio ser do antes e do depois, virtualmente.
Certo é que a comunicação organizacional e a retórica sempre andaram unidas ontem e hoje, notavelmente nas cartas de Padre Vieira, que lutava pela restauração da vida em sua pátria e resistia contra sua geografia. Então, ao
final dessa ensaística, espera-se compreender melhor Minhas Memórias
vieirianas ou ecoar o sonido geral de quem cartografou a própria vida em perfis
múltiplos: “Bem vejo que os riscos do mar são grandes, mas alguma cousa [sic] hão-de deixar a Deus os que dedicaram tudo a ele” (VIEIRA, 2003, p. 120).