3. Hisar Şiirinde Çocuk Temaları
3.10. Köy ve Şehir Hayatı
Dentre todas as relações possíveis que um texto pode manter com outro, Genette define cinco categorias, descritas por ordem crescente de abstração. Estas categorias serão brevemente descritas para que se justifique a escolha deste autor para analisar as formas transtextuais observadas em duas obras de Aluísio Azevedo: A mortalha de Alzira e “Inveja”.
A primeira categoria descrita é a intertextualidade, por ele definida “de uma maneira indubitavelmente restritiva, por uma relação de co-presença entre dois ou mais textos, isto é,
42 Transcendance textuelle du texte, [...] tout ce qui le met en relation, manifeste ou secrète, avec d’autres textes. (tradução nossa)
43 Un texte peut toujours en lire un autre, et ainsi de suite jusqu’à la fin des textes. Celui-ci n’échappe pas à la règle: il l’expose et s’y expose. Lira bien qui lira le dernier. (tradução nossa)
[...] pela presença efetiva de um texto em outro.”44 (GENETTE, 1982, p. 8). Esta presença concreta de um texto em outro pode ser observada em sua forma mais explícita e literal, a tradicional prática da citação (com ou sem uma referência precisa), onde um trecho de um texto anterior é inserido no texto “novo”. A intertextualidade pode ser realizada também de uma forma menos explícita e menos canônica, como o plágio, “um empréstimo não declarado, mas ainda assim literal”45 (ibid, p.8), onde há uma apropriação do texto de outra pessoa. A intertextualidade faz-se presente também pela alusão - um processo menos explícito e menos literal que a citação e o plágio – onde é possível notar a relação de um texto com outro, mas sem a transcrição dos trechos do texto aludido.
A segunda categoria descrita por Genette é a paratextualidade, sendo esta menos explícita e menos evidente que a intertextualidade. A paratextualidade depende do leitor para que seja notada na obra. O paratexto assinala os elementos na entrada de um texto, fato que ajuda a guiar a recepção do leitor. A paratextualidade ocorre nos títulos, subtítulos, prefácios, notas, epígrafes, comentários, autógrafos e ilustrações de uma dada obra. O termo paratexto pode ser definido como um elemento que está além do texto, aquilo que o rodeia ou acompanha marginalmente e que pode ser determinado pelo autor ou pelo editor do texto original.
A metatextualidade, terceira categoria definida por Genette, consiste na relação de comentário ou crítica que une um determinado texto a outro do qual se fala, sem necessariamente o citar ou nomear. Existe, no metatexto, uma interseção de informações e conceitos de uma mesma área de conhecimento.
Avançando para a quinta categoria (como o faz Genette em Palimpsestes, para demonstrar a ordem crescente de abstração) encontramos a arquitextualidade, a relação mais abstrata e mais implícita de todas as categorias definidas pelo autor. Trata-se de uma menção
44 D’une manière sans doute restrictive, par une relation de coprésence entre deux ou plusieurs textes, c’est-à- dire, [...] par la présence effective d’un texte dans un autre.
paratextual que diz respeito à designação de um texto como parte de um gênero ou subgênero literário. A relação de um arquitexto com outro é estabelecida então pelo leitor ou pelo crítico, e as expectativas do leitor e sua recepção são de fato importantes. Esta categoria de transtextualidade é a mais abstrata e implícita e exige um co-enunciador para que se faça o reconhecimento, pois o texto nem sempre anuncia seu tipo de gênero ou de discurso. Em alguns títulos, podem ser encontradas indicações paratextuais, como em sonetos intitulados Sonetos, por exemplo.
Voltando para a quarta categoria encontramos a hipertextualidade, que é o foco do estudo de Genette ao longo de sua obra Palimpsestes. Segundo o autor, a hipertextualidade consiste em uma relação de derivação textual, onde um texto inicial A (o hipotexto) dá origem a um texto B (hipertexto). A existência do texto inicial A é imprescindível para que o texto B seja construído, sendo exclusiva do autor a responsabilidade deste processo. Ao se fazer a leitura do texto A, inevitavelmente faz-se a leitura de B. De acordo com Genette, todas as obras são, de alguma forma, hipertextuais, podendo haver a existência simultânea de vários tipos transtextuais em uma mesma obra, visto que a presença de um tipo não exclui o outro. O hipertexto não contém necessariamente uma citação, porque possui uma integridade textual própria. É também conhecido como texto de segundo grau, pois deriva de um outro texto pré- existente.
Ainda mencionando a hipertextualidade, ela pode ser dividida entre transformação e imitação. A transformação refere-se a textos que tratam de um mesmo assunto, mas que são apresentados de formas diferentes. Já a imitação refere-se a textos com assuntos diferentes, mas apresentados de forma semelhante. Para Genette, quando se realiza a transformação de uma maneira lúdica, satírica ou séria, o resultado é, respectivamente, a paródia, o travestissement e a transposição. Quando é realizada a imitação de maneira lúdica, satírica ou séria, o resultado é, respectivamente, o pastiche, a charge e a forgerie. Segundo Genette, a
paródia tem um estilo nobre e um tema vulgar, não tem a intenção de ser agressiva; já o travestissement tem um estilo vulgar e um tema nobre, com intenção agressiva. A transposição é conhecida também como transformação séria. O pastiche pode ser visto como uma imitação, feita de modo grosseiro, do estilo de outros autores, devendo ser compreendido como tal pelo leitor enquanto a forgerie caracteriza-se por uma imitação de caráter sério. A charge é mais que uma caricatura, é um pastiche satírico.
De certa forma, ao realizar seus trabalhos a respeito da intertextualidade (termo este que ele definiu apenas como uma das categorias da transtextualidade), Genette retomou alguns pontos dos estudos de Júlia Kristeva e Mikhail Bakhtin. Ao cunhar o termo transtextualidade, ele abre caminhos para que se entendam os processos de inclusão de um texto em outro, e para que fique caracterizado o funcionamento de cada um desses processos. O que o diferencia de outros estudiosos é o fato de, por meio de suas categorizações, ser possível analisar tanto o diálogo de um texto com outro texto de autores diversos, ou mesmo obras escritas por um mesmo autor.
Como Genette não limita seus processos a textos de autores diferentes ou com títulos diferentes, as categorias dadas pelo autor serão usadas para a análise transtextual de duas obras de Aluísio Azevedo: o romance A mortalha de Alzira e o conto “Inveja”.
7. ANÁLISE TRANSTEXTUAL DO ROMANCE A MORTALHA DE ALZIRA E DO