O governo federal, preocupado em melhorar os índices referentes à qualidade do sistema educacional do Brasil, implementou políticas e ações na educação do país. Dentre elas, será mencionado o sistema de avaliação em larga escala que foi implantado desde 1991 como subsídio para conhecer a realidade educacional do país.
A avaliação externa deve ser compreendida como um indispensável instrumento de reflexão sobre as políticas, práticas e ações implementadas no âmbito do sistema educacional; é um precioso instrumento que produz informação sobre o que se ensina e o que se aprende nas escolas. [...] oferecem subsídios para que os gestores de políticas públicas, bem como diretores e professores, efetuem mudanças necessárias para melhorar a qualidade da educação. (MARCILIO, 2005, p.359)
O primeiro e mais abrangente sistema de avaliação foi o SAEB (Sistema Nacional da Avaliação da Educação Básica) que começou a ser aplicado, em caráter de teste, em 1988, nas escolas públicas de 1º grau, hoje ensino fundamental. A partir de então, o SAEB se repetiu a cada dois anos a partir de 1991, levantando informações dos alunos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, dando início à cultura de avaliação no Brasil. O objetivo era avaliar o desempenho em Língua Portuguesa e Matemática de alunos de quinto e nono anos do Ensino Fundamental, e da terceira série do Ensino Médio.
Surgiu, com o SAEB, a elaboração da primeira “Matriz de Referência para a Avaliação” para orientar o processo de construção dos itens que compõem as provas. Pode, também, servir de orientação para organização do currículo e planejamento das escolas. A avaliação se transformou em um instrumento diretamente relacionado à melhoria na educação, o que não significa que um melhor sistema de avaliação necessariamente origine um melhor sistema de ensino.
A Avaliação Nacional da Educação Básica (ANEB) e a Avaliação Nacional de Rendimento Escolar (ANRESC) vieram a substituir o antigo Sistema Nacional da Avaliação 14 Disponível em <http://napratica.inep.gov.br/>.
da Educação Básica (SAEB). Por manter as mesmas características, a ANEB recebeu o nome do SAEB em suas divulgações. A ANRESC é mais detalhada e extensa que a ANEB, sendo realizada em todas as escolas públicas do país. Por seu caráter universal, recebe o nome de Prova Brasil em suas divulgações.
Participam da Prova Brasil todas as escolas com 20 ou mais estudantes matriculados no 5º ano (4ª série) e no 9º ano (8ª série) do regular da rede pública, localizadas na zona urbana e rural. Já para a amostra do SAEB são avaliadas as escolas que tenham de dez a 19 alunos matriculados no 5º ano (4ª série) e no 9º ano (8ª série) do ensino fundamental regular público e os estabelecimentos de ensino com no 5º ano (4ª série) e no 9º ano (8ª série) do ensino fundamental regular da rede privada. As escolas com dez ou mais estudantes na 3º série do ensino médio regular das redes pública e privada também participarão da amostra. Os resultados obtidos nas avaliações são usados no cálculo das médias do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) de cada unidade escolar pública, município, unidade da Federação e país.15
Conhecer os resultados do SAEB e da Prova Brasil permite comparar os dados de uma escola com os de outros estabelecimentos. Tais provas a avaliam competências construídas e habilidades desenvolvidas, detectando possíveis dificuldades de aprendizagem (BRASIL, 2011).
Para cada unidade escolar participante da Prova Brasil, calcula-se uma média, em uma escala de 0 a 500, da proficiência dos estudantes que participaram da avaliação. É fundamental proceder com uma interpretação pedagógica do significado dos dados apresentados, o que configura os níveis de aprendizagem. Para isso, exige-se a construção de uma matriz de referência.
Essa matriz é o referencial curricular do que será avaliado em cada disciplina e série, informando as competências e habilidades esperadas dos alunos, constituindo os parâmetros para elaboração dos itens da Prova Brasil. Item, por sua vez, é a denominação adotada para as questões que compõem a prova. Para a produção dos itens do SAEB e da Prova Brasil, estabeleceu-se uma conexão entre os conteúdos da aprendizagem e as competências utilizadas no processo de construção do conhecimento.
Cada matriz de referência apresenta tópicos ou temas com descritores que indicam as habilidades de Língua Portuguesa e Matemática a serem avaliadas. “O descritor é uma associação entre conteúdos curriculares e operações mentais desenvolvidas pelo aluno, que traduzem certas competências e habilidades” (BRASIL, 2011, p. 18). A Matriz de Referência de Língua Portuguesa da Prova Brasil e do SAEB é composta por seis tópicos: procedimentos de Leitura; implicações do suporte, do gênero e/ou do enunciador na compreensão do texto; relação entre
textos, coerência e coesão no processamento do texto; relações entre recursos expressivos e efeitos de sentido; e variação linguística (BRASIL, 2011). Em 1995, foi incorporada uma nova metodologia estatística conhecida como Teoria de Resposta ao Item (TRI), que tem permitido, entre outros aspectos, a comparabilidade dos diversos ciclos de avaliação.
A organização dos dados bem como sua divulgação permitem algumas possibilidades de comparação: entre municípios, regiões e estados; com as médias brasileiras. São, assim, oferecidos parâmetros para avaliação do trabalho que está sendo realizado nas escolas. Tanto o SAEB quanto a Prova Brasil, desde 2005, utilizam a mesma Matriz de Referência16, a mesma metodologia de composição das provas e tratamento e apresentam resultados na mesma escala de proficiência. Por isso, análises comparativas são possíveis.
Um dos problemas detectados pelo SAEB é o fato de que muitos alunos até chegam a se alfabetizar, mas não desenvolvem adequadamente suas habilidades de leitura e escrita ao longo do ensino fundamental, não atingem o letramento. São alunos que têm baixo desempenho nas avaliações, dificuldade de compreender o que leem e de se expressar. Os níveis de proficiência para o SAEB são divididos como mostra o Quadro 1:
Nível Pontuação Descrição
Abaixo do Nível 1
Menor que
150 Não atingiu as habilidades básicas que o SAEB objetiva mensurar.
1 Entre 150 e200 Identificar informações centrais em posições destacadas.
2 Entre 200 e250
Resolver problemas de leitura a partir da compreensão global do texto, incluindo inferências. Localizar informações secundárias. Reconstruir uma narrativa, encadeando vários fatos na ordem de aparição. Reconhecer efeitos de sentido de recursos variados.
3 Entre 250 e300
Distinguir “fato” de “opinião”; problema de solução; tese de argumento; causa de efeito. Fazer transformações estruturais e estabelecer relações de correspondência. Compreender explicações mais abstratas.
4 Entre 300 e350 Comparar textos afins, identificando e avaliando as estratégiasargumentativas e a finalidade de cada um.
5 Entre 350 e400
Trabalhar com linguagem figurada/conotativa em nível global, articulado. Identificar diferentes níveis de tratamento temático, reconhecendo tópicos e subtópicos. Analisar o efeito da seleção lexical em uma argumentação.
QUADRO 1: SAEB – níveis de proficiência (ensino Fundamental e médio) Fonte: INEP (2006)
16 A matriz de referência que norteia as provas de Língua Portuguesa do SAEB está estruturada com FOCO LEITURA, que requer a competência de apreender o texto como construção de conhecimento em diferentes níveis de compreensão, análise e interpretação. Ao contrário da simples reprodução de procedimentos e do acúmulo de informações, a matriz de referência que norteia as provas de Matemática do SAEB está estruturada sobre o FOCO RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS, a partir da convicção de que o conhecimento matemático ganha significado quando os alunos têm situações desafiadoras para resolver e trabalham para desenvolver estratégias de resolução (BRASIL, 2011, Manual do candidato, p. 9-10, destaque no original).
Em Língua Portuguesa, na avaliação de 2007, segundo Klein e Fontaine (2009) apenas 27,9% dos alunos da 4º série apresentaram proficiências acima do nível esperado. Pode-se verificar ainda que em torno de 25% dos alunos da 8ª série e 13% dos alunos da 3ª série do Ensino Médio não alcançaram o nível adequado para a 4ª série. Na 8ª série, o porcentual de alunos no nível recomendado (275) é de cerca de 20%, enquanto a 3ª série do EM apenas 24,5% estão no nível 300. Na avaliação de 2009, apenas 34,2% dos alunos da 4ª série têm proficiência acima do nível recomendado. Na 8ª série, esse percentual é de 26,3%, enquanto na 3ª série do Ensino Médio o índice é de 28,9%.
Tais resultados se revelam muito preocupantes, sobretudo com relação ao ensino médio. Juntamente com as avaliações apresentadas, houve a criação de uma avaliação específica destinada a esse segmento de ensino.
Criado em 1998, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) tem o objetivo de avaliar o desempenho do estudante ao fim da escolaridade básica. Há a aferição do desenvolvimento de competências e habilidades nos diferentes componentes curriculares17. Podem participar do exame alunos que estão concluindo ou que já concluíram o Ensino Médio em anos anteriores. O ENEM é utilizado desde 2005 como critério de seleção para os estudantes que pretendem concorrer a uma bolsa no Programa Universidade para Todos (ProUni)18. Além disso, cerca de 500 universidades já usam o resultado do exame como critério de seleção para o ingresso no Ensino Superior, seja complementando ou substituindo o vestibular.
Outra avaliação criada foi o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (ENCCEJA). Tem como objetivo avaliar as habilidades e competências básicas de jovens e adultos que não tiveram oportunidade de acesso à escolaridade regular na idade apropriada. O participante se submete a uma prova de cada componente curricular e, alcançando o mínimo de pontos exigido (100 em uma escala de 60 a 180) é considerado apto na disciplina do Ensino Fundamental. Obtém a certificação de conclusão do Ensino Fundamental quando conclui todas as provas correspondentes às áreas de conhecimento, estabelecidas na Base Comum Nacional: Língua Portuguesa, Língua Estrangeira (geralmente o Inglês), Educação Artística, Educação Física, História, Geografia, Matemática e Ciências Naturais.
17O primeiro modelo de prova do Enem, utilizado entre 1998 e 2008, tinha 63 questões e uma redação aplicadas em um dia de prova. O novo Enem (2009) passou a ter 180 questões e uma redação aplicadas em dois dias de prova. Todas as questões são de múltipla escolha, com 5 alternativas. O Enem é uma prova que tem como característica a transdisciplinaridade, uma abordagem científica que visa à unidade do conhecimento. Dessa forma, procura estimular uma nova compreensão da realidade articulando elementos que passam entre, além e através das disciplinas, em uma busca de compreensão da complexidade (ROCHA FILHO, 2007).
Esse exame é aplicado anualmente e as certificações são feitas diretamente nas secretarias municipais e estaduais de educação que aderem ao exame. Os brasileiros residentes na Europa e no Japão podem obter certificação escolar para os Ensinos Fundamental e Médio por meio do ENCCEJA. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC) trabalha em parceria com a Secretaria de Educação do Estado do Paraná na realização do exame. O ENCCEJA foi aplicado na Suíça em 2005, no formato piloto, pela primeira vez. No Japão, haverá a sétima edição do exame.
Em 2011, o movimento “Todos Pela Educação”, em parceria com o Instituto Paulo Montenegro/Ibope, a Fundação Cesgranrio e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), realizou a Prova ABC (Avaliação Brasileira do Final do Ciclo de Alfabetização). A Prova ABC aferiu o aprendizado das crianças para o Brasil e cada região ao fim do 3º ano do Ensino Fundamental em leitura, escrita e matemática.
A seguir, o Quadro 2 apresenta uma síntese das avaliações em larga escala nacional desde sua origem.
Prova Início Série Periodicidade Foco Resultados
SAEB* 1991 4ª, 8ª - EF 3ª - EM Bienal Português Matemática Sistemas Estaduais de Ensino
ENEM 1998 egressos3ª - EM Anual
Português Matemática Física Química Biologia História Geografia Sociologia Filosofia Arte Redação Indivíduos Prova Brasil19 2005 4ª e 8ª EF 3ª - EM Bienal Português Matemática Ensino Fundamental
ENCCEJA 2002 EF e EM Anual Todas as áreas
Indivíduos Nível Fundamental e
Médio
Prova ABC 2011 3º ano EF Leitura, escritae Matemática FundamentalEnsino
QUADRO 2: Avaliações em larga escala nacional
19 As avaliações utilizam escala de desempenho de 0 a 500 que descrevem as competências e as habilidades que os alunos são capazes de demonstrar.
Essas são as propostas de avaliação nacional. Há, ainda, avaliações nos âmbitos estadual e municipal, as quais não serão discutidas neste trabalho. No item a seguir, serão apresentados os resultados globais da avaliação do PISA (Program for International Student Assessment)20, com o objetivo de comparar os resultados brasileiros com outras nações.