2.3. FEN ÖĞRETĠMĠNĠN KURAMSAL TEMELLERĠ
2.3.1. Jean Piaget ve BiliĢsel GeliĢim Teorisi
Diferentemente da questão da moradia que permeou o processo de urbanização brasileiro, apresenta-se a questão ambiental no Brasil, que somente a partir da década de 1980 pode ser tratada como tal, motivada pelas repercussões do debate internacional iniciado no final de década de 1960, época em que começou a ocorrer uma tomada de
consciência quanto aos limites do crescimento econômico e à capacidade de suporte dos recursos naturais do Planeta. (DUARTE, 2003, p. 41).234
A partir de uma proteção pontual e utilitária aos recursos naturais (especialmente flora e fauna), ainda no Brasil colonial, chega-se, no final do século XX, especialmente a partir da década de 1980, a um completo regramento de proteção e defesa do ambiente, em sua ampla concepção (sustentabilidade), sem que, contudo, a preocupação ambiental tenha se instalado na sociedade como um todo, especialmente nas classes populares, sendo geralmente conduzida pela classe média, intelectuais e pesquisadores ligados ao tema ambiental235.
No âmbito das normas constitucionais, pode-se dizer que as Constituições anteriores a de 1988 apenas faziam menções a recursos naturais (águas, minérios, solo, florestas, flora e fauna) e a atividades correlacionadas (caça, pesca, atividade agrícola, mineração e outras), geralmente quando tratavam da competência legislativa da União. Contudo, é de se destacar que naquelas Constituições, a partir do ano de 1934, registra- se expressa proteção às belezas naturais e ao patrimônio cultural e paisagístico do país.236
No campo da legislação infraconstitucional brasileira, constata-se que até o ano de 1981 existia uma esparsa e setorizada proteção dos recursos naturais, posta de forma pontual na legislação. Com a edição da Lei Federal 6.938/81 (Política Nacional de Meio Ambiente) e, posteriormente, com a Constituição Federal de 1988 e a legislação subseqüente, esse quadro passa a mudar; o que nos permite elencar cinco momentos históricos bem determinados.
234 Encontra-se na obra citada uma compilação dos eventos marcantes ocorridos a partir dos anos 1960 até a realização da Conferência de Estocolmo em 1972, para a qual em muito contribuiu a Conferência da Biosfera (1968) realizada em Paris sob a coordenação da UNESCO e a publicação do relatório do Clube de Roma denominado “Limites do Crescimento”, que recomendava uma política mundial de contenção do crescimento – denominada “Crescimento Zero”, diante da previsão de que “no século XXI a humanidade se depararia com graves problemas de falta de recursos naturais e grandes níveis de poluição se fossem mantidos no mesmo ritmo os aumentos populacional e industrial e a conseqüente utilização desmedida de recursos” (DUARTE, 2003, p. 44).
235 Ainda que se reconheça o crescimento do movimento ambientalista brasileiro, o que se evidenciou principalmente por ocasião da realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (1992) e momento posterior, proporcionando um significativo aumento da consciência ambiental na sociedade brasileira.
Figura 2 – Linha do tempo da legislação infraconstitucional brasileira até 1981 e o marco da Constituição de 1988: os cinco momentos da proteção dos recursos naturais.
Fonte: Autoria própria (2010).
O primeiro, até a década de 1930, quando se encontram algumas disposições proibitivas do corte de árvores (nas Ordenações Alfonsinas) e no Regimento do Pau- Brasil (1605)237; de proibição de caça de perdizes, lebres e coelhos com meios que pudessem causar-lhes sofrimento (Ordenações Manuelinas) e de proteção às águas (Ordenações Filipinas).
O segundo, entre a década de 1930 até a década de 1960, coincidente com o início e o desenvolvimento do processo de industrialização do país, onde se encontram leis de proteção à fauna (Decreto nº 26.645/34), às águas (Decreto nº 24.643/34 – Código de Águas) e à flora (Decreto-Lei nº 23.793/37, considerado o primeiro Código Florestal Brasileiro), em que tais recursos eram concebidos sob uma visão
eminentemente utilitarista, além do Decreto-Lei nº 25/37 (proteção ao patrimônio histórico e artístico nacional), onde se incluía a proteção aos monumentos naturais e às paisagens de feições notáveis.
O terceiro, na década de 1960, quando foi editado o Código Florestal (Lei nº 4.771/65) e a Lei de Proteção à Fauna (Lei nº 5.197/67) no contexto da consolidação do processo de industrialização e de fortes investimentos no crescimento econômico do país.
O quarto, a partir de 1981, com a edição da Lei da Política Nacional do Meio Ambiente (Lei nº 6.938). Destaca-se que nessa década ouve um nítido reflexo da preocupação ambiental posta na esfera internacional, especialmente sob inspiração das concepções de ambiente, sociedade e desenvolvimento derivadas dos debates internacionais até aquele momento promovidos pelas Nações Unidas, destacando-se a Declaração sobre Meio Ambiente Humano (1972), resultado da Conferência de Estocolmo e o Relatório Brundtland (publicado com o título “Nosso Futuro Comum”, em 1987), advindo dos trabalhos da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD) das Nações Unidas.
Por fim, tem-se o momento histórico iniciado a partir de 1988, com a introdução de um sistema constitucional de proteção ambiental e a consagração de importantes normas ambientais, como a Lei nº 9.433/97 (Política Nacional de Recursos Hídricos); a Lei nº 9.605/98 (Crimes Ambientais e Infrações Administrativas); a Lei nº 9985/2000 (Sistema Nacional de Unidades de Conservação), dentre outras.
Desse modo, ainda que a Constituição Federal de 1988 tenha se consagrado como um marco divisório no tratamento sistêmico e holístico da matéria, prevendo um verdadeiro sistema jurídico de tutela ambiental238, pode-se dizer que a inserção da temática do meio ambiente na legislação brasileira se reporta ao ano de 1981, quando foi editada a Lei Federal nº 6938/81 (Política Nacional do Meio Ambiente) que, de forma inovadora, veio instituir um importante regime de proteção ao meio ambiente, considerado em sua concepção abrangente. Nos postos por Medauar (2005, p. 704),
238 O que comportaria a ideia de que, diante das questões ambientais da contemporaneidade e, no Brasil, a partir da vigência daquela Carta Maior, se impõe um novo modelo de Estado de Direito, assentado na proteção do ambiente e dos direitos sociais básicos. Sem minimizar a importância de outros doutrinadores que tratam da matéria, a respeito do Estado Socioambiental do Direito, consideramos objetivos e esclarecedores os apontamentos de Fensterseifer (2008, p. 93-171). Em uma brevíssima abordagem, esse novo modelo estatal se assenta numa visão sistemática das normas constitucionais relativas ao ambiente inter-relacionadas com aquelas referentes à ordem econômica, aos princípios fundamentais da República Federativas, às normas de repartição de competências e outras contidas no texto constitucional, onde o meio ambiente é posto de forma expressa ou implícita. Curioso, contudo, é não encontrarmos nos escritos sobre o tema expressa consideração sobre as questões socioambientais urbanas.
“esta Lei é considerada como lei-âncora ou lei-tronco, por serem textos de amplo alcance nas questões ambientais do país, irradiando seus preceitos em grande espectro”.239
A partir da PNMA, a visão restrita da Natureza passou a dar lugar a uma concepção ampla de meio ambiente, inserida no contexto de uma Política Nacional que, além de conter objetivos e princípios240 voltados a uma ideia de promoção da qualidade ambiental associada à dignidade da vida humana e ao desenvolvimento socioeconômico, trouxe instrumentos necessários à viabilização de seus objetivos241. Isso coloca em âmbito nacional a ideia de sustentabilidade já presente há muito no debate e nos documentos internacionais voltados à proteção do ambiente.
Importa destacar que a PNMA incluiu conceitos importantes242 para possibilitar a implementação das normas ambientais, dentre os quais está o de meio ambiente, entendido como “o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas”243 (inciso I do artigo 3º). Associada a essa compreensão, tem-se, na mesma Lei, a concepção do meio ambiente como patrimônio público244 a ser necessariamente
239 É válido lembrar que no esteio dessa Lei veio a ser editada, em 1985, a Lei nº 7.347 (Ação Civil Pública) voltada à apuração da responsabilidade civil por danos ao meio ambiente, aos bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico, a qualquer outro interesse difuso ou coletivo, dentre outros. É importante também recordar que a partir do Estatuto da Cidade foi incluída a “ordem urbanística” como objeto da Ação Civil Pública.
240 Art. 2º. A Política Nacional do Meio Ambiente tem por objetivo a preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida, visando assegurar, no país, condições ao desenvolvimento socioeconômico, aos interesses da segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana, atendidos os seguintes princípios: I - ação governamental na manutenção do equilíbrio ecológico, considerando o meio ambiente como um patrimônio público a ser necessariamente assegurado e protegido, tendo em vista o uso coletivo; II - racionalização do uso do solo, do subsolo, da água e do ar; III - planejamento e fiscalização do uso dos recursos ambientais; IV - proteção dos ecossistemas, com preservação de áreas representativas; V - controle e zoneamento das atividades potencial ou efetivamente poluidoras; VI - incentivos ao estudo e à pesquisa de tecnologias orientadas para o uso racional e a proteção dos recursos ambientais; VII - acompanhamento do estado da qualidade ambiental; VIII - recuperação de áreas degradadas; IX - proteção de áreas ameaçadas de degradação; X - educação ambiental a todos os níveis do ensino, inclusive a educação da comunidade, objetivando capacitá-la para participação ativa na defesa do meio ambiente.
241 Como o estabelecimento de padrões de qualidade ambiental, o zoneamento ambiental, a avaliação de impactos ambientais, o licenciamento ambiental e a revisão das atividades efetiva ou potencialmente poluidoras, dentre outros. Destaca-se que a introdução do instrumento da criação dos espaços especialmente protegidos veio com a Lei nº 7804/89, editada com base na Constituição Federal, que tratou expressamente da obrigação de instituição de tais espaços por parte do Poder Público (art.225, §1°, inciso III).
242 Como os conceitos de degradação da qualidade ambiental, poluição, poluidor, e recursos ambientais (artigo 3º), que se tornam particularmente relevantes na análise quanto à aplicação das normas ambientais. 243 A expressa menção à vida em todas as suas formas traz para dentro do conceito de meio ambiente também o elemento humano. Essa compreensão é expressa em Duarte (2003).
244 Tem-se entendido que, especialmente após a Constituição de 1988, a expressão patrimônio público não deve ser assemelhada a de bem público, mas associada à natureza difusa da qual se revestem os bens ambientais. Esclarecendo essa compreensão, citamos Figueiredo (2009, p.100), segundo o qual a
assegurado e protegido, tendo em vista o uso coletivo (inciso I do art.2º). Ainda que essa definição legal por si só suscite várias vertentes de análise, o que cabe aqui destacar é a amplitude que ela adquiriu a partir da edição daquela norma federal, que evidentemente a distingue da concepção restrita de meio ambiente, associado aos recursos naturais que o compõem e destinado ao atendimento de fins exclusivamente privados, e lhe confere um caráter de bem de natureza difusa245, que alberga as características de inapropriabilidade246, indisponibilidade247 e indivisibilidade248.
Nesse contexto, é importante ainda pontuar que no âmbito da doutrina geralmente encontramos uma subdivisão do conceito de meio ambiente, a partir do aspecto objeto de proteção, resultando nos seguintes tipos: natural, artificial, cultural e do trabalho249. Essa subdivisão pode ser admitida apenas do ponto de vista do interesse didático, vez que, sendo o meio ambiente um conjunto de condições, leis, influências e interações (nos termos de sua conceituação legal), não há como, a rigor, se distinguir com clareza esses diferentes aspectos.250 Assim, fica evidente que o meio ambiente natural é apenas uma de suas vertentes; devendo o direito ser visto na perspectiva da sustentabilidade.
Por outro lado, para a devida compreensão dos espaços ambientais protegidos, é importante considerar que os conjuntos urbanos e os sítios de valor histórico, paisagístico, ecológico, dentre outros, integram o conceito de patrimônio cultural brasileiro251, colocando-se, portanto, como objeto de proteção das normas ambientais,
expressão “patrimônio público” associada à consignação de sua função (uso coletivo) tem o mesmo
significado de “bem de uso comum do povo”; sendo mais adequada a substituição daquelas expressões por “direito difuso”. Também tratamos dessa questão em nossa obra Meio Ambiente Sadio: direito
fundamental em crise (DUARTE, 2003).
245 Nos termos da Lei nº 8078/90, os direitos e interesses difusos são aqueles, de cunho transindividual, de natureza indivisível, de que sejam titulares pessoas indeterminadas e ligadas por circunstâncias de fato (art.81, parágrafo único, I), que se diferenciam dos direitos coletivos e individuais homogêneos ali também conceituados.
246 Segundo a qual sua titularidade se espraia, de forma difusa, por toda a sociedade e sobre cada um de seus membros, ainda que não seja passível de uma apropriação exclusiva por quem quer que seja. (DUARTE, 2003, p. 100). Podemos tomar como exemplo desse atributo a água, compreendida como bem público (em sua acepção difusa) na Lei nº 9433/97; o equilíbrio térmico obtido das florestas ou as praias. 247 Decorrente da inapropriabilidade, a indisponibilidade consiste na impossibilidade de disposição da qualidade do meio ambiente (bem de natureza difusa) por parte de proprietários (pessoa pública ou particular) de seus elementos constitutivos, pelo fato de que tal qualidade não integra o patrimônio disponível daqueles. (DUARTE, 2003, p.100-101).
248 Que se expressa no fato de que os bens ambientais se caracterizam por não poderem ser partidos sem alteração de sua substância ou mesmo de seu valor. (DUARTE, 2003, p.101). Como exemplos, temos o ar atmosférico ou o patrimônio paisagístico que se constitui uma paisagem notável.
249 Alguns doutrinadores não incluem o meio ambiente do trabalho na tipologia apresentada. 250 No que acompanhamos Figueiredo (2009, p. 45).
251 Nos termos contidos no artigo 216 da Constituição de 1988, seguindo a tendência do referido Decreto- Lei nº 25/37.
não somente em razão de seus atributos ambientais, mas também em face de sua valorização cultural.
O aperfeiçoamento do conceito de meio ambiente vai ocorrer a partir da normatização introduzida pela Constituição de 1988 que, como já dito, veio constituir um verdadeiro sistema de proteção ambiental; onde encontram-se os fundamentos para uma tutela eficaz da sadia qualidade de vida e do equilíbrio ecológico252.
Visto que a proteção ao meio ambiente se espraia por todo o texto constitucional, importante considerar aqui os aspectos centrais contidos no Capítulo do Meio Ambiente, no qual se apresentam três conjuntos de normas253: o primeiro, composto do caput do artigo 225254, em que reside sua norma-matriz; o segundo, materializado no §1°255 do mesmo artigo, em que estão consignados os instrumentos e garantias de efetividade do direito consagrado, representando um conjunto de obrigações de fazer; e o terceiro (contido nos §§2° a 6º), que contém um conjunto de determinações particulares quanto a objetos e setores, no qual se inclui a tríplice responsabilidade por danos ambientais256 e a proteção especial a biomas importantes ali especificados257.
252 Conforme enfatiza Benjamin (2005). 253 Essa visão é posta por Milaré (2005).
254 Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.
255 Art. 225...
§1º - Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público:
I - preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e prover o manejo ecológico das espécies e ecossistemas;
II - preservar a diversidade e a integridade do patrimônio genético do País e fiscalizar as entidades dedicadas à pesquisa e manipulação de material genético;
III - definir, em todas as unidades da Federação, espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos, sendo a alteração e a supressão permitidas somente através de lei, vedada qualquer utilização que comprometa a integridade dos atributos que justifiquem sua proteção;
IV - exigir, na forma da lei, para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente, estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará publicidade;
V - controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente;
VI - promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente;
VII - proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais à crueldade.
256 Art.225...
§ 3º - As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados.
257 Art.225...
§ 4º - A Floresta Amazônica brasileira, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal Mato-Grossense e a Zona Costeira são patrimônio nacional, e sua utilização far-se-á, na forma da lei, dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos recursos naturais.
Quanto à norma-matriz assentada no caput do artigo 225, importante enfatizar que através dela o meio ambiente ganhou um tratamento especial, sendo considerado bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida, direito subjetivo das presentes e futuras gerações e direito de natureza difusa, constituindo-se como pressuposto para o atendimento do direito fundamental à vida258.
Com relação ao seu tratamento como bem de uso comum do povo, importante considerar que o meio ambiente sadio é considerado como bem público porque se serve a todos os cidadãos, e de forma indistinta a toda a coletividade – daí a sua natureza difusa – e não porque pertença ao domínio de um determinado ente público. Desse modo, os bens ambientais essenciais à sadia qualidade de vida deixam de ser res nullius (coisas de ninguém) para se tornar res omnium (bens de todos).
Discorrendo sobre a matéria, Silva (2009, p. 24) chama a atenção para a qualidade do meio ambiente que se converteu num bem jurídico (ou patrimônio), segundo a norma constitucional, cuja preservação, recuperação e revitalização se tornam um imperativo do Poder Público para assegurar uma boa qualidade de vida que abrange as condições necessárias ao bem-estar e desenvolvimento humano (como boas condições de trabalho, lazer, educação, saúde e segurança).
Ampliando a análise do tema, Cristiane Derani (2003, p. 2822) diz que:
Na expressão constitucional bem de uso comum do povo para qualificar o conteúdo jurídico do meio ambiente ecologicamente equilibrado está a idéia de um patrimônio cuja apropriação, embora se faça por seus elementos e, no mais das vezes, de maneira individualizada, interessa a toda a coletividade, que, de alguma forma, tem direito de fruição sobre aquele bem.
Desse modo, para a autora, a disciplina de apropriação do meio ambiente tem que conter um equilíbrio entre a apropriação para fruição individualizada e o direito de fruição de toda a coletividade; não podendo haver “destruição dos aspectos ambientais de um bem com sua apropriação por um sujeito, pois isso fere o direito dos demais”. (DERANI, 2003, p. 2822).
Nesse contexto, impende compreender as noções de macrobem e microbem que a doutrina pátria259 vem extraindo da interpretação daquela norma fundamental. Vejamos: o meio ambiente sadio ecologicamente equilibrado essencial à sadia qualidade
258 Como expressamente já consideraram Silva (2009), Milaré (2005), dentre outros.
259 Sobre o tema, importante é a lição de Benjamin (1993), o qual inaugurou o estudo daqueles conceitos e que instrui a abordagem aqui realizada.
de vida se constitui no macrobem, bem ambiental (imaterial), de interesse público, submetido a um peculiar regime jurídico de uso e fruição, diferente do estabelecido no Código Civil260, se revestindo, como já visto, das características de inapropriabilidade, indisponibilidade e indivisibilidade, dada a sua natureza difusa e o interesse transindividual que o perpassa. Seriam macrobens ambientais, por exemplo, as características ecológicas que advêm de uma floresta (ainda que de propriedade particular), como a beleza cênica, a produção de oxigênio, o equilíbrio térmico gerado pela floresta etc., essas sim de uso público e que não integrariam o patrimônio disponível de seu proprietário e cujos atributos não podem ser objeto de apropriação privada, mesmo quando seus elementos constitutivos pertençam a particular.
Por sua vez, os microbens constituem-se em entidades materiais, de titularidade dominial pública ou privada, como um rio, um bosque, uma casa de notável valor histórico, o mar, a água potável etc.; constituindo-se em elementos indispensáveis à proteção do meio ambiente, quando destinados a uma finalidade pública (a garantia da sadia qualidade de vida).
Em outra análise, Tiago Fensterseifer diz que o conteúdo conceitual e normativo do princípio da dignidade humana está intrinsecamente relacionado à qualidade do ambiente (ou sadia qualidade de vida261), só sendo possível a vida e a saúde humanas:
[...] dentro dos padrões mínimos exigidos constitucionalmente para o desenvolvimento pleno da existência humana, num ambiente natural onde haja qualidade ambiental da água que se bebe, dos alimentos que se comem, do solo onde se planta, do ar que se respira, da paisagem que se vê, do patrimônio histórico e cultural que se contempla, do som que se escuta, entre outras manifestações da dimensão ambiental. (FENSTERSEIFER, 2008, p. 61).
Nessa mesma trilha de pensamento, porém, sob uma perspectiva mais crítica, Azevedo (1999, p. 136-149) considera a necessidade de ver as normas ambientais correlacionadas aos fatos sociais, desvendando os interesses e ideologias que se colocam na base das normas e objetivos que visam realizar, “de modo a prevalecer em ultima instância, o direito fundamental ao ambiente ecologicamente equilibrado,