A- AVUSTURYA MACARİSTAN OKULLARI 85
3) II Abdülhamid Döneminde Protestan ve Amerikan Okullarıyla İlgili Zühdü
Antes de iniciar a análise das categorias de criminosas encontradas nas apre- ciações de penitenciaristas e estudiosos da criminologia no período pesquisado, faz- -se necessário explicitar a opção teórico/metodológica de colocá-las em diálogo com
a obra La Donna Delinquente, la Prostituta e la Donna Normale, do médico italia- no Cesare Lombroso. Isso porque são muitas as associações entre os estereótipos cri- minais femininos traçados no país, à época e nos anos seguintes da criação dos pri- meiros presídios femininos, e as definições da “mulher normal”, da “prostituta” e da
“mulher delinquente” delineadas por Cesare Lombroso e Guglielmo Ferrero62 na
obra escrita em 1893.
Nicole Hahn Rafter, criminóloga, e Mary Gibson, historiadora, tradutoras da obra de Lombroso para o inglês, em prefácio escrito em 2004 à tradução ingle- sa de La Donna Delinquente, la Prostituta e la Donna Normale, ressaltam que “esta obra, mais que qualquer outra na história ocidental, determinou direções seguidas nos estudos do crime feminino”, talvez por ter sido a principal referência sobre crimi- nalidade e mulheres em um período de mais de 50 anos, tendo tido muito mais in- fluência nos estudos sobre mulheres delinquentes que sua obra L’Uomo Delinquente
nas análises sobre a criminalidade masculina63 (2004, p. 3). Foi o primeiro livro de
Lombroso traduzido para o inglês, tendo sido o primeiro contato de muitos pensa- dores com o trabalho do criminólogo italiano, e com os ensinamentos da Antropo-
logia Criminal64.
Esta observação das tradutoras é ratificado por Carol Smart, socióloga que publicou, no final da década de 1970, Woman, Crime and Criminology, um dos primeiros trabalhos sobre mulheres e criminalidade em uma perspectiva feminista. Smart realça a influência da obra de Lombroso nos estudos posteriores sobre crimi-
nalidade feminina65, todos marcados por um determinismo biológico pautado na
62 Segundo Gibson e Rafter, muito provavelmente a contribuição de Ferrero para a obra foi de um gradu- ando, muito mais que de um co-autor. (2004, p. 33) Por esse motivo, ao pontuar as principais conclusões do es- tudo citam Lombroso e não Ferrero.
63 A teoria lombrosiana do criminoso nato foi bastante criticada, dentre outros momentos, no 2º con- gresso de Antropologia Criminal de Paris, em 1889. Essas e outras críticas, segundo Gibson e Rafter, justificam, possivelmente, o tom defensivo utilizado pelo autor em La Donna Delinquente, la Prostituta e la Donna Norma- le (2004, p. 12).
64 Vale ressaltar, no entanto, que a primeira tradução feita para o inglês, em 1895, cujo título ficou The Female Offender, omitiu inúmeras partes do original, dentre elas, partes que tratavam de lesbianismo, ciclo mens- trual e relação entre esses e a criminosa (Gibson e Rafter, 2004, p. 4)
65 Smart cita as obras de Lombroso e Ferrero (1895), W. I. Thomas (1923), e Otto Pollak (1950) como sendo estudos pioneiros sobre criminalidade feminina (SMART, 1976, p. 27). Gibson e Rafter citam também a
“natureza feminina”, conceito culturalmente construído que aparece como dado in- questionável nos trabalhos sobre o tema (SMART, 1976, pp. 27 a 30). Igualmente a socióloga Julita Lemgruber, autora do primeiro trabalho sobre criminalidade fe- minina nas ciências sociais brasileiras, escrito na década de 1970, ressalta a presença da perspectiva lombrosiana nas análises sobre o tema na primeira metade do século XX (LEMGRUBER, 1999, pp. 2 e 3).
La Donna Delinquente, la Prostituta e la Donna Normale permitiu uma
associação direta entre a sexualidade feminina, a loucura e o crime66 (GIBSON e
RAFTER 2004, p. 4). Escrita à época do surgimento da sexologia, Lombroso bus- cou conciliar as patologias e os distúrbios sexuais delimitados por sexólogos para ex- plicar os desvios sociais da criminosa. Para o autor o comportamento monogâmi- co representava o topo da cadeia evolutiva feminina, sendo possível pontuá-lo em “mulheres morais”, ou seja, “mulheres normais”. Tratou, assim como Richard Von
Krafft-Ebing67, considerado o pai da sexologia, da sexualidade normal e desviante
nas mulheres, salientando que, quanto mais sexualizada uma mulher mais degenera- da e desviante seria (GIBSON e RAFTER, 2004, p. 22).
Com o objetivo principal de reafirmar sua teoria sobre a criminalidade nata – segundo a qual os criminosos representam retorno a um estágio evolucionário an- cestral, que o autor chama de “estado atávico”, incompatível com as leis da civiliza- ção – Lombroso escreveu La Donna Delinquente, la Prostituta e la Donna Normale, agora buscando assinalar os traços degenerativos femininos (GIBSON E RAFTER, 2004, p. 7). Nas cinco edições de L’Uomo Delinquente, Lombroso havia exposto de maneira cada vez mais detalhada e aprimorada sua teoria sobre o criminoso nato, tendo tratado ainda que brevemente da criminalidade feminina, sendo que já na pri- obra de Sheldon e Eleanor Glueck “Five hundred crimminal careers” de 1930 e outros (GIBSON E RAFTER, 2004, pp. 23 a 29)
66 A correlação entre sexualidade e criminalidade feminina está presente ainda hoje nos discursos sobre criminalidade feminina. A construção da imagem da mulher delinquente a partir de estereótipos sexuais é ressal- tada por Natália Corazza Padovani em sua dissertação de mestrado denominada Perpétuos Espirais: Falas do Po- der e do Prazer Sexual em Trinta Anos (1977 – 2009) na história da Penitenciária Feminina da Capital (2010). 67 Krafft-Ebing catalogou as sexualidades desviantes em sua obra Psychopatia sexualis publicada em 1886 (GIBONS E RAFTER, 2004, p. 21)
meira edição de L’Uomo Delinquente considerava a prostituição o crime típico femi- nino (GIBSON E RAFTER, 2006, pp. 15 e 16).
Por que as mulheres delinquem menos que os homens foi uma questão que guiou Lombroso ao longo de sua carreira de pesquisador. Segundo Gibson e Rafter, em La Donna Delinquente, la Prostituta e la Donna Normale o autor se co- locou uma tarefa complexa, pois, ao afirmar que as mulheres são menos atávicas que os homens, bem como que as mulheres são menos criminosas, pois inferiores a eles, criou um paradoxo: se menos atávicas por que inferiores, e não superiores? A partir desses pontos, lançou-se à pesquisa empírica, tendo como grupo de con- trole “mulheres normais” ou “mulheres morais” e se valeu não só de suas próprias análises, mas do auxílio de dados coletados por outros cientistas, como a médi-
ca russa Pauline Tarnowsky e Alexandre Parent-Duchatelet68 (GIBSON E RAF-
TER, 2004, p. 9).
Ao situar a obra em seu contexto histórico, Gibson e Rafter mostram como Lombroso foi influenciado por fatores externos na tipificação das mulheres delin- quentes. Em especial, o crescimento populacional na recém unificada Itália, princi- palmente das classes baixas, aumentava a preocupação em relação às classes perigo- sas, nas quais estavam inseridas as prostitutas. Para as tradutoras:
a prostituta surge nesse contexto como iconografia das classes perigosas. Para observa- dores da classe média, o número crescente de mulheres desabrigadas e sem emprego nas ruas das cidades fazia parecer que todas fossem prostitutas. Culpadas por espalhar doen- ças venéreas, as prostitutas foram colocadas sob supervisão policial imediatamente após a unificação, tendo sido obrigadas a morarem em bordeis regulamentados pelo estado, nas chamadas ‘casas fechadas’ (GIBSON e RAFTER, 2004, p. 16).
68 De acordo com Gibson e Rafter, Pauline Tarnowsky publicou em 1889 estudo antropométrico em pros- titutas russas, ao qual Lombroso teve acesso. Seu intercâmbio com a autora possibilitou o acesso a fotografias de prostitutas russas, já que a burocracia italiana dificultava a coleta de material desse tipo (LOMBROSO, 2004, p. 135). Já o estudo de Parent-Duchatelet, de 1836 denominado De La prostituition dans La ville de Paris também foi utilizado pelo autor, já nas primeiras edições de L’Uomo Delinquente (GIBSON E RAFTER, 2006, p. 16).
Além disso, Gibson e Rafter chamam a atenção para o fato de que o livro foi escrito em uma época em que o movimento de mulheres por direitos – ao voto, à educação e ao trabalho – se organizava e se fortalecia na Europa. Possivelmente as mudanças estruturais na sociedade, que poderiam ser geradas por uma maior par- ticipação feminina na esfera pública, preocupavam Lombroso, que, apesar de poli- ticamente liberal, temia profundas mudanças sociais. Segundo Gibson e Rafter, ao dedicar a primeira parte de sua obra La Donna Delinquente, la Prostituta e la Don- na Normale a mostrar a inferioridade das mulheres o autor as coloca em seu devido lugar social, inclusive “sua ridicularização do intelecto feminino e sua insistência na maternidade como aspiração própria de toda mulher, cientificamente afirmava os es- tereótipos tradicionais e desafiava diretamente a visão da mulher emancipada” (GIB- SON e RAFTER, 2004, p. 16). Lombroso utilizou suas conclusões científicas para naturalizar as diferenças dos papéis sociais de cada um dos sexos presentes na socie-
dade do período69 (GIBSON e RAFTER, 2004, p. 18).
Influenciado por Darwin e sua A Origem das Espécies, Lombroso tinha uma visão evolucionista do desenvolvimento humano. São inúmeros os momentos em que busca explicar o desaparecimento de determinada categoria ou de determina- dos traços de degenerescência com base na teoria da seleção natural. O autor assu- mia um ponto de vista monogenista, segundo o qual a origem humana era a mesma, apresentando-se o homem em diferentes estágios evolucionários, estando o branco europeu no topo da escala evolutiva e o negro africano no mais baixo degrau (GIB- SON e RAFTER, 2004, p. 17; GIBSON e RAFTER, 2006, p. 17) .
Lombroso certamente incorporou à sua pesquisa preconceitos de seu tem- po, tratando das representações sociais acerca das diferenças entre homens e mulhe- res, entre “raças” e grupos em conformidade com os padrões da época (GIBSON e RAFTER, 2006, p. 15). Assim, não é possível saber até que ponto suas teorias in- fluenciaram criminólogos e estudiosos do tema, pois, por vezes, não se pode identi- 69 De acordo com as tradutoras, a teoria de Lombroso sobre a inferioridade intelectual e física feminina representou um retrocesso para o movimento de mulheres que se fortalecia na Itália e na Europa (2006, p. 17 e 2004, p. 16).
ficar o que é oriundo do senso comum do período e o que vem dos ensinamentos de Lombroso e seus discípulos, a não ser quando explicitamente citados. Até que pon- to a análise de Lombroso não é uma compilação de conceitos e preconceitos presen- tes na época com uma “roupagem científica”, assim como as afirmações dos autores e penitenciaristas nacionais?
No entanto, a opção por explicitar as convergências entre os principais pon- tos da teoria lombrosiana sobre a criminalidade feminina e as análises de criminó- logos brasileiros não perde sua força, pois, seja porque reproduz “cientificamente” (pré) conceitos do momento ou por inovações teóricas por ele propostas, nos tra- çados de Lombroso é possível visualizar um padrão de identificação da criminosa, presente nas falas dos penitenciaristas e autores nacionais, que ajudará a delimitar os estereótipos da delinquente à época da criação dos presídios femininos no país.