• Sonuç bulunamadı

I Dünya Savaşı ve Boğazlar

Belgede Montreux boğazlar sözleşmesi (sayfa 49-80)

2.1.1- DO TRIÂNG ULO HISTÓ RIC O AO “C ENTRO NO VO”

O núcleo inicial da cidade de São Paulo, que data do século XVI, cresceu limitado por três triângulos concêntricos. O primeiro definido pelo curso natural dos rios Anhangabaú e Tamanduateí, o segundo delimitado pelos mosteiros de São Bento, Carmo e São Francisco e o terceiro pelas ruas São Bento, XV de Novembro e Direita (BRANC O , 1988, p . 14).

A escolha do espigão escarpado formado pelos dois rios convinha, segundo Bruand, “ à insta la ç ã o d e uma c id a d e fo rtific a d a , p o sto a va nç a d o d e p e ne tra ç ã o p a ra o inte rio r d o p a ís” , uma das primeiras a avançar para além da faixa litorânea de colonização européia. Contudo, essa condição inicial não podia mais atender ao crescimento populacional e às novas necessidades da cidade, “ p a p e l q ue o triâ ng ulo p rimitivo a ssumiu a p a rtir d e 1870” (BRUAND, 2002, p . 326).

Essa plataforma elevada2, marcada pelos conventos, abrigou a cidade em

seus três primeiros séculos. Praticamente todas as edificações estavam comprimidas nas três ruas, que formavam o triângulo, a “ Rua Dire ita d e Sa nto Antô nio , a Rua d o Ro sá rio (d e p o is d a Imp e ra triz e , d e sd e o iníc io d a Re p úb lic a , 15 d e No ve mb ro ) e a Rua Dire ita d e Sã o Be nto (ho je Sã o Be nto ). As d ua s rua s “ d ire ita s” (a d e Sã o Be nto e a d e Sa nto Antô nio ) e ra m p la na s, re ta s e c ruza va m-se e m â ng ulo re to , únic o na c id a d e , ra zã o p o r q ue e ste p o nto e ra c o nhe c id o c o mo “ q ua tro c a nto s” (TO LEDO , 1983, p . 13).

Até o fim do século XVIII, a grande maioria dos edifícios significativos na paisagem urbana foi construída pela iniciativa do governo. O que pode ser em parte explicado pela tentativa da coroa portuguesa de marcar sua presença na

cidade. “ Ta lve z p o rq ue e ntã o e m Sã o Pa ulo c o mo e m Mina s, re g iõ e s a fa sta d a s d a m e tró p o le p o rtug ue sa e ha b ita d a s p o r g e nte d e se ntim e nto s na tivista s p ro nunc ia d o s, fo sse ma is ne c e ssá ria d o q ue no No rd e ste , p o r e xe mp lo , a c o nstruç ã o d e mo nume nto s q ue fize sse m se ntir a p re se nç a d o a b so lutismo d e Lisb o a ” (BASTIDE, c ita d o p o r TO LEDO , 1983, p . 20). E em parte pela atividade econômica preponderante, a mineração, que deslocou, em um primeiro momento, o interesse da população em relação aos assuntos urbanos para a busca pelo ouro3. Porém, no fim desse

mesmo século, as minas se esgotaram, o que fez o país retomar à atividade agrícola com o café produzido no Rio de Janeiro, vale do Paraíba e no Oeste Novo Paulista. A cidade de São Paulo, no entanto, adquiriu uma posição proeminente em relação à economia cafeeira, organizando-se em moldes capitalistas a partir principalmente de 1870.

A estrutura geral4 mantida praticamente inalterada até a então, ou melhor, na

fase inicial do cultivo cafeeiro em que imperava a forte aristocracia territorial, com a fazenda e os terreiros muito mais valorizados do que a cidade (BRUNO, 1991, p.1315) começava a se transformar. A partir de 1870, o desenvolvimento urbano,

“ fa to r e d e c o rrê nc ia d a e xp a nsã o d a e c o no mia c a fe e ira ”, foi seguido de perto por um crescimento fabril de certa amplitude (DE DECCA, 1991, p. 4).

Os fazendeiros do café para “ tra ta r d o s ne g ó c io s fina nc e iro s e c o me rc ia is, p a ra a d ministra r a s e mp re sa s e m q ue a p lic a va m se us c a p ita is (...) e ra m o b rig a d o s a re sid ir ma is te mp o na c id a d e , junto d a s re p a rtiç õ e s p úb lic a s e p a rtic ula re s, e m c o nta to c o m o s o rg a nismo s p o lític o s; a s d e mo ra s no s d o mínio s rura is c o me ç a va m a e nc urta r: a c a sa rura l p e rd ia e m a uste rid a d e o q ue g a nha va e m e le g â nc ia p a ra e sta d a s c o nfo rtá ve is; ma s, a o me smo te mp o , a c a sa d a c id a d e p a ssa va a se r a re sid ê nc ia p rinc ip a l, o b je to d e to d o s o s c uid a d o s, ma nife sta ç ã o e xte rio r d e riq ue za d o se u p ro p rie tá rio ” (MO NBEIG , 1953, p . 187). A fixação definitiva dos fazendeiros, funcionários do governo, além dos imigrantes assalariados e autônomos incentivada pelas novas conquistas, aumentou a soma de recursos aplicados na capital.

Nos anos que se seguiram a cidade recebeu grandes investimentos em melhoramentos urbanos, com o surgimento das primeiras empresas de serviços, financiadas, em grande parte, pelo capital cafeeiro5 e com a substituição definitiva

da construção em taipa pela feita com tijolos6(PEREIRA, 2004, p. 54). Na década de

1870, a Câmara Municipal começou, sob o pretexto de melhorar o aspecto da Capital, a restringir o uso de métodos construtivos tradicionais, como a taipa. Com isso, os edifícios, tradicionalmente construídos de barro, foram substituídos pelas

construções em tijolo cozido e a cidade antiga começou a ceder lugar a outra, que florescia sob si mesma (PEREIRA, 2004, p. 46).

Inicialmente, o aumento da área urbanizada não foi muito significativo. Na realidade, o que ocorreu foi um grande adensamento das áreas já urbanizadas. A produção imobiliária extensiva teve início com o loteamento das grandes áreas de chácaras ao redor da cidade. A divisão da Chácara Mauá, empreendida pelos alemães Glette e Northmann, em 1879, foi a primeira de muitas iniciativas privadas na produção de novos bairros. Pouco a pouco, todas as belas chácaras7 que

ladeavam a colina foram sendo loteadas, sem planejamento adequado ou mesmo infra-estrutura urbana8 (TOLEDO, 1983, p. 67). A construção de bairros residenciais

periféricos ao longo das vias principais de comunicação deixou grandes vazios entre eles e a povoada área central9. A cidade foi se expandindo e adensando ao

sopro dos investimentos privados, que nem sempre foram plenamente controlados. Aliás, o modesto Código de Posturas da Câmara Municipal10, editado em 1876,

não conseguiu dominar por completo o avanço do capital imobiliário. Mesmo sendo a primeira tentativa da administração municipal de legislar sobre a atividade construtiva, praticamente não foi possível conter o adensamento da área central e

1)Afo nso A. d e Fre ita s: P la no histó ric o d a c id a d e d e Sã o Pa ulo , 1800- 1874- fo nte : TO LEDO , 1996; 2)He nry B. Jo yne r: Pla nta d a c id a d e d e Sã o

Pa ulo , 1881-Fo nte : TO LEDO , 1996.

o avanço dos loteamentos, nem sempre adequados às restrições topográficas. (LEMOS, 1983, p. 63).

Sobre a “febre” de investimentos no setor imobiliário paulistano, Henrique Raffard assim a caracterizou: “ o s c a p ita lista s p a ulista s c o nse rva ra m-se tímid o s p o r muito s a no s e só a p a re c ia m q ua nd o g a ra ntid o s p o r b o a s hip o te c a s e juro s e le va d íssimo s (...). Ma s p re ve nd o a e xtinç ã o d a e sc ra vid ã o e , c o nse q üe nte me nte , a d e p re c ia ç ã o d a s p ro p rie d a d e s a g ríc o la s, e te me nd o a b a ixa d e to d o título p a rtic ula r o u p úb lic o (...), o s c a p ita is p a ulista s a tira ra m-se e ntã o so b re o s p ré d io s e o s te rre no s d a Pa ulic é ia (...) a fim d e d a r e mp re g o a se us d inhe iro s d e so c up a d o s” (RAFFARD, c ita d o p o r PEREIRA, 2004, p . 47). Com isso, houve uma elevação dos preços no incipiente mercado de imóveis, atraindo ainda mais investidores e criando a expectativa de preços de monopólio, principalmente para as moradias construídas para fazendeiros e destinadas a aluguel. Esse mercado imobiliário foi agitado ainda mais pela presença dos novos burgueses buscando distinção e dos capitalistas a procura de “bons aluguéis” (PEREIRA, 2004, p. 48).

A construção dos suntuosos palacetes e das casas de aluguel para as famílias enriquecidas era apenas uma das faces do mercado imobiliário. Do outro lado, os capitalistas construíam “ m a is e m a is c o njunto s re sid e nc ia is, ta nto d e c a sa s o p e rá ria s c o mo re sid ê nc ia s p a ra a c la sse mé d ia ” (LEMO S, 1983, p . 63), onde o maior número possível de cômodos garantia o maior rendimento do capital11. Como nos

mostra Nabil Bonduki, “ a urg e nte ne c e ssid a d e d e a lo ja r a g ra nd e ma ssa d e imig ra nte s q ue a fluía a Sã o Pa ulo e m b usc a d e tra b a lho – a p o p ula ç ã o d o d istrito d e Sa nta Ifig ê nia fo i a q ue ma is c re sc e u na c id a d e , p a ssa nd o d e 14.025 ha b ita nte s e m 1890 p a ra 42.715 e m 1893 – fe z c o m q ue se e d ific a sse m d ife re nte s tip o s d e e sta la g e ns. C o rtiç o s e ha b ita ç õ e s o p e rá ria s, q ua se to d a s e la s d e c o nstruç ã o a p re ssa d a e p re c á ria ” (BO NDUKI, 1998, p .23). Além desses alojamentos, havia os casarões convertidos em cortiços com seus cômodos subdivididos e locados muitas vezes para várias famílias; o cortiço-pátio12, com casinhas pequenas que

ocupavam o interior do quarteirão, quase sempre com um quintal e uma venda ou outra atividade qualquer, o hotel-cortiço e as pequenas “casinhas operárias13

(BONDUKI, 1998, p. 23-25).

De qualquer forma, o desejo de europeização da sociedade e da cidade estava explícito, anunciado até mesmo na denominação dada ao primeiro grande loteamento para além do núcleo histórico, cujo “ no me e vo c a Pa ris: C a mp o s Elíse o s” (TO LEDO , 1983, p . 67). A referência à Europa nos dá o tom do processo de

“modernização” da cidade no fim do século XIX e início do XX, quando o culto ao modelo europeu não estava restrito apenas à cópia dos edifícios dos vários estilos da época, mas, também, à imitação dos costumes, da moda européia e do gosto europeu. Assim, era extremamente comum muitos dos artigos produzidos nas indústrias de São Paulo receberem “ e tiq ue ta s e m ing lê s e fra nc ê s” para serem vendidos como produtos desses países. (BANDEIRA JR, 1901, p 20).

A sociedade cafeeira investiu grandes somas de dinheiro em seu projeto de construir uma nova cidade aos moldes europeus14 e, para realizar essa tarefa,

conseguiu convergir “ o s inte re sse s d a c la sse d o mina nte e d a munic ip a lid a d e . O s p ro je to s urb a nístic o s tinha m c o mo mo d e lo o s p a d rõ e s e uro p e us d e c id a d e e p ro c ura va -se re p ro d uzi-lo s na c o njug a ç ã o d e rua s, p ra ç a s e e d ifíc io s q ue c o mp unha m o e sp a ç o c e no g rá fic o d a vid a urb a na q ue se o rg a niza va ” (G RO STEIN, 2000, p . 51).

As novas construções exigiam outros materiais e mão-de-obra “especializada”, que o capitalista cafeeiro não poupou gastos, nem esforços para trazer. Com a ferrovia, os materiais de construção chegavam mais rapidamente de Santos trazendo o “estilo europeu” e, com os imigrantes portugueses, espanhóis, alemães e especialmente italianos15, o fazer arquitetônico estava garantido. Os

novos costumes e hábitos de consumo ampliaram a atividade construtiva e a participação dos estrangeiros que, de maneira geral, era admitida abertamente –

“ e ra fá c il p a ra o e uro p e u se r a c e ito no c o ma nd o d o p ro c e sso p ro d utivo , so b re tud o na c o nstruç ã o , c ujo p ro d uto p ro c ura va se id e ntific a r c o m o e uro p e u, ne g a nd o o p a ssa d o c o lo nia l” (PEREIRA, 2004, p . 67). Assim, o repúdio à taipa e a exaltação da alvenaria eram, de certa forma, a negação aos edifícios e aos trabalhadores coloniais16 (LEMOS, 1999, p. 252). As mudanças na moradia trazidas da nova Paris

de Haussmann17 significaram uma “modernização” na distribuição dos espaços

internos das casas que se estendeu à cidade – “(...) buscava-se a aplicação dos modelos de Paris de Haussmann, com seus quarteirões compactos, superedificados e superpovoados” (REIS FILHO, 1978, p. 80).

Em termos urbanos, no governo de João Theodoro Xavier (1872-1875) foram realizados melhoramentos18 como a construção de passeios públicos, abertura

de ruas interligando bairros, o replanejamento do Jardim da Luz, e a substituição lampiões a querosene pelos primeiros a gás. Na mesma década, outros serviços públicos também foram implementados. O abastecimento de água, por exemplo, foi em parte resolvido com a inauguração da Companhia Cantareira em 1877,

contemplando, em uma década, cerca de 5.000 edificações com água tratada. Digo em parte porque, inicialmente, o abastecimento ficou restrito ao centro e aos bairros da classe mais abastada. Somente com as preocupações higienistas, levantadas pelas epidemias como a de gripe espanhola – que fulminou cerca de seis mil pessoas em 1918 – as redes de água foram estendidas aos bairros operários (BONDUKI, 1998, p.43). Em 1888, a Companhia Paulista de Eletricidade começou a operar causando grande alvoroço nas ruas da cidade, como registrou J.J. Ribeiro: “ Às rua s d e Sã o Be nto , Imp e ra triz e a Bo a Vista a fluiu uma c o mp a c ta multid ã o d e c id a d ã o s e se nho ra s, a tra hid o s p a ra c o nte mp la re m o má g ic o e d e slumb ra nte e fe ito d a ilumina ç ã o ” (TO LEDO , 1983, p . 71).

Poderíamos acrescentar à “febre” de investimentos no setor imobiliário, com a grande produção de casas de aluguel, casas varejistas e outros, o mesmo ardor quanto à atividade industrial e comercial. Muitos cafeicultores aplicavam os lucros provenientes da comercialização do café, em atividades urbano – industriais, diversificando com isso seus interesses. Dados de 188919 já indicavam que o capital

investido nas primeiras fábricas mesclava a participação de fazendeiros, como o Conde Álvares Penteado e empresários, como a família Barros.

Além das empresas de transporte e serviços viários20, a indústria também

esteve fortemente presente na cidade, e de forma bem variada. A proliferação de pequenas fábricas, em paralelo às poucas de grande porte, aumentou a disponibilidade de mercadorias para o comércio varejista. “ É inc a lc ulá ve l o núme ro d e te nd a s d e sa p a ta ria s, ma rc e na ria s, fá b ric a s d e ma ssa s, d e g ra xa , d e ó le o s, d e tinta s d e e sc re ve r, fund iç õ e s, tintura ria s, fá b ric a s d e c a lç a d o s, ma nufa tura s d e ro up a s e c ha p é us, q ue func io na m e m e sta la g e ns, e m fund o d e a rma zé ns, e m re sumo : e m lug a re s q ue o p úb lic o nã o vê ” (DE DEC C A, 1991, p . 23). Aliás, o comércio crescia na mesma proporção que a indústria, chegando a um número de 547 casas comerciais no ano de 1884, entre casas comissárias, agências e companhias de seguro, casas de prestação de serviço e casas varejistas (MATOS, 1954, p. 76).

“ O s ve lho s so b ra d o s, o nd e re sid ia m o s g ra nd e s c o me rc ia nte s e fa ze nd e iro s d e c a fé a té 1880-90, o u se tra nsfo rma ra m e m c a sa s c o me rc ia is, o u fo ra m d e mo lid o s p a ra d a r lug a r a no va s c o nstruç õ e s. (...) O s a ntig o s so b ra d o s d o s b a rõ e s e c o nse lhe iro s d o Imp é rio p a ssa ra m a a b rig a r e mp re e nd ime nto s c o me rc ia is, muito s d e p ro p rie d a d e d e e stra ng e iro s” (RO LNIK, 1997, P.105). Com isso, o Centro Velho passou a desempenhar um novo papel: o de fonte de renda para os antigos

proprietários, que passaram a alugar os imóveis, ou vendê-los para construção dos estabelecimentos comerciais e o de espaço de trabalho para os novos investidores, consolidando assim, “ a s no va s fo rtuna s d a c id a d e : o s c o me rc ia nte s e p ro fissio na is e stra ng e iro s q ue , ve nd e nd o um e stilo d e vid a e uro p e u à s e lite s d o c a fé , a c a b a ra m p o r ne la s se inc o rp o ra r” (RO LNIK, 1997, p . 105).

As inovações nos serviços públicos, com transporte coletivo, iluminação, calçamento e águas tratada, e dos “melhoramentos” em jardins, praças, com novas fontes, chafarizes, coretos, foram completadas “ c o m b o ns ho té is, re sta ura nte s, c o nfe ita ria s, no vo s te a tro s e um c o mé rc io c a p a z d e a te nd e r a o s c o nsumid o re s ma is e xig e nte s” (TO LEDO , 1996, p . 41). O entusiasmo era tamanho que em 1890, o litógrafo e projetista Martin Jules Victor André, conhecido como Jules Martin, apresentou a idéia de construir galerias comerciais interligando as principais ruas do centro, como a José Bonifácio, Direita, rua do Comércio, 15 de Novembro e rua São Bento, em um folheto intitulado Projeto de Galerias de Crystal em São Paulo. Apesar das poucas informações sobre o projeto, a perspectiva ilustrativa apresentada no folheto assemelha-se às galerias monumentais construídas em Milão, Nápoles e Bruxelas no período de 1860 a 1880 (GEIST, 2001, p. 74).

Entre essas duas décadas, Jules Martin, um francês de nascimento, chegou ao Brasil; provavelmente, já tendo conhecido alguns dos exemplares das galerias francesas, as primeiras dessa tipologia construídas em toda a Europa. A própria planta esquemática de implantação do conjunto de galerias demonstra que o litógrafo

Jule s Ma rtin: G a le ria d e C rista l – Pe rsp e c tiva e imp la nta ç ã o .

tinha profundo conhecimento da estrutura urbana de São Paulo, atrelado a um prévio conhecimento dos esquemas de circulação das galerias européias. A proposta de construção da galeria em Y interligando três fases de uma mesma quadra pode ser encontrada em galerias como a Dallmer em Berlim ou na Galeria

Bordelaise em Bordeaux. E a estrutura direta interligando apenas duas faces da

quadra estava presente em galerias como a Monnaie e a Galeria Hubert, ambas em Bruxelas (GEIST, 2001, p. 114- 202).

As referências arquitetônicas européias não estavam limitadas às manifestações individuais como a de Jules Martin ou ao saber manual dos mestres- de-obras imigrantes. Elas foram institucionalizadas na figura da Escola Politécnica e do Liceu de Artes e Ofício de São Paulo. A Politécnica fundada em 1893 contribuiu, juntamente com o Liceu para a criação de um no vo núc le o c a p a z d e a b so rve r a e xp e riê nc ia inte rna c io na l, sinte tiza r e p ro d uzir c o nhe c ime nto , e fo rma r um q ua d ro d e p ro fissio na is ha b ilita d o s “ (TO LEDO , 1996, p . 66). A presença de docentes formados no exterior, como Ramos de Azevedo que havia estudado na Universidade de Gand, na Bélgica, contribuiu para a direção clássica tomada pelo Curso de Arquitetura e também o de Engenharia, “ d e o nd e sa ía m p ro fissio na is q ue “ fa zia m a rq uite tura ” (TO LEDO , 1983, p . 168). Pautados nos postulados dos tratados Renascentistas e Clássicos, esses cursos formavam profissionais em consonância com os cursos tradicionais europeus. Assim, poucos foram, mesmo entre os estrangeiros vindos ao país, aqueles que se interessaram pelo art-nouveau, art-déco ou qualquer outra posição arquitetônica inovadora (TOLEDO, 1983, p. 168).

Além do trabalho como diretor do Liceu, Ramos de Azevedo administrava o seu escritório de arquitetura com a participação de vários italianos21. Como bem

assinalam Haskel e Gama: “ A p re se nç a d e Ra mo s d e Aze ve d o fic o u ma rc a d a na c id a d e d e Sã o Pa ulo , nã o só p e la mo nume nta lid a d e p re se rva d a d e sua s o b ra s p úb lic a s, e p e lo a c e sso à imp la nta ç ã o d e g ra nd e s e d ific a ç õ e s q ue te ve p o r p a rte d e sta instâ nc ia d o p o d e r, c o mo na histó ria d a fo rma ç ã o d e mã o -d e -o b ra té c nic a e sp e c ia liza d a . Se us e m p re e nd im e nto s e p ro je to s a rq uite tô nic o s p e rm ite m a visua liza ç ã o d a me nta lid a d e fo rma d o ra d a b urg ue sia lo c a l e o intuito c iviliza d o r q ue e sta va p o r trá s d a g ra nd io sid a d e d e sua s o b ra s” (HASKEL; G AMA, c ita d o p o r FRÚG O LI, 2000, p . 53)

A influência exercida pelo escritório de Ramos de Azevedo e por essas duas instituições de ensino marcou a arquitetura de São Paulo, sobretudo do centro. Projetos da década de 1890 como as antigas Secretarias da Fazenda e da

Agricultura, o Quartel Tobias de Aguiar, a Escola Normal de São Paulo (hoje Instituto Caetano de Campos), a Escola Politécnica (depois Edifício Ramos de Azevedo) e do início do século XX, como a Pinacoteca do Estado, o Teatro Municipal, o Edifício dos Correios e Telégrafos, o Palácio das Indústrias, o Mercado Municipal e o Palácio da Justiça contribuíram para a construção de uma imagem “européia” como tendência e marca do período.

A cidade, então, foi sendo “embelezada” segundo os preceitos clássicos da “bela arquitetura européia” - da abertura de avenidas à construção de viadutos (o do Chá foi inaugurado em 1898), tudo passava pela idéia da construção de uma nova cidade, aos moldes europeus.

No governo de Antônio da Silva Prado22 (1889-1911), o primeiro prefeito

escolhido de São Paulo, inúmeras intervenções urbanas foram realizadas, em sua maior parte na área central23. Em 1892, o centro histórico finalmente uniu-se à

Vista d o via d uto d o C há - d é c a d a d e 30, sé c ulo XIX e c o nvite

p a ra a sua ina ug ura ç ã o - fo nte : VEJA SÃO PAULO , Esp e c ia l 450 a no s

“cidade nova” através do Viaduto do Chá24. A travessia complicada do vale do

Anhangabaú era uma necessidade antiga da população, mas, para ligar a “cidade” - como era chamado o centro histórico - e a nova ocupação do outro lado do córrego, era preciso vencer um vale com 20 metros de profundidade e 150 metros de largura. A primeira proposta para a construção de um viaduto surgiu com Jules Martin, em 1877 e só pode ser concluída, depois de um período de quinze anos de paralisação, em 6 de novembro de 1892. Contudo, desde sua inauguração, o viaduto se tornou

“ o ma rc o inic ia l d e uma suc e ssã o fre né tic a d e re a liza ç õ e s q ue tra nsfo rma ria m d e finitiva me nte o lug a r” (BUC C I, 1998, p . 45). A ligação entre as duas faces do vale já não era mais um projeto distante e a construção de um novo espaço urbano pode se realizar de forma definitiva.

Nessa região nova e valorizada da cidade, encontramos um grande cuidado com as áreas públicas de recreação e lazer. A Praça da República e a da Luz foram arborizadas e os Largos do Arouche e Paissandu embelezados. Além disso, o Viaduto Santa Efigênia começou a ser construído em 1910, a remodelação do Largo da Sé iniciada e o Teatro Municipal concluído em 1911.

Desde a última década do século XIX, o Poder Público vinha participando de forma mais direta na organização do espaço urbano. A Câmara Municipal, através da criação de uma Intendência de Obras Municipais25, assumiu um papel mais

relevante no controle das intervenções urbanas e na fiscalização das obras particulares. A renovação urbana direcionada cada vez mais pelo Estado passou a condensar “ inte re sse s e nvo lvid o s na p ro d uç ã o imo b iliá ria , ta nto p o r me io d a

Belgede Montreux boğazlar sözleşmesi (sayfa 49-80)