• Sonuç bulunamadı

Em 1978 ocorreu um novo choque internacional do petróleo que representou para o país um aumento no peso das importações de petróleo e seus derivados. Evidenciava-se, assim, um dos fatores externos que influenciou diretamente na condução da política

43

nacional do álcool. Nesse mesmo período, chega-se à segunda fase do Proálcool, voltada não mais à produção de álcool anidro misturado à gasolina, mas sim, do hidratado, aliado ao lançamento do primeiro motor de carro movido exclusivamente por esse combustível. Desse modo, contava-se com a colaboração de um novo grupo social representado pela Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA).

As justificativas oficiais do período passaram a convergir com a expansão da produção do álcool a fim de, inclusive, reduzir os gastos com a importação de petróleo e, consequentemente, o déficit comercial a partir da inserção de uma nova matriz energética nacional (SCOPINHO, 2003).

A aliança entre investimentos públicos e capitais privados em tempos de crise, como o caso aqui analisado, se intensificou, sobretudo, quando se acentuou nestes capitais uma “tendência para depositar o dinheiro à sombra da instituição que constituía sua própria garantia” (FRANCO, 1997, p. 146). Com isso, enquanto os capitais privados encontram um “abrigo”, o Estado consegue manter-se em meio às “aperturas financeiras”.

Em sentido amplo, no que concerne ao período do Proálcool, havia uma identificação entre os objetivos em que se empenhavam o Estado e os fins do setor. Os interesses econômicos puderam ser pensados, então, enquanto universalmente reconhecidos como legítimos, uma vez que saíam de um ponto de vista singular para o ponto de vista legitimado pelo Estado (BOURDIEU, 1996). Nesse caso, isso se referia à promoção de um setor que contribuiria para a diminuição do déficit comercial, e também funcionaria como uma alavanca à modernização da agricultura e ao desenvolvimento econômico do país.

Cabe ressaltar que esta alavanca, no que lhe concerne, tem relação com fatores que tangenciam questões socioambientais bastante pertinentes, inclusive, ao debate que se tem nos entornos do Protocolo Agroambiental Paulista, são eles: o trabalho volante e o uso intensivo dos recursos naturais.

O primeiro fator está estritamente ligado ao processo de expropriação e de expulsão dos camponeses da terra, mediante a utilização de mecanismos legais como, por exemplo, a Lei de Terras de 185010, e, posteriormente, a criação do Estatuto da Terra (ET) e do Estatuto dos Trabalhadores Rurais (ETR) em meados da década de 196011. Em conjunto, tais mecanismos não só desencadearam um processo de mudanças nos espaços rurais, mas também nas próprias relações de trabalho, ao passo que regulamentar a expulsão de

10 Ver Smith (2008). 11 Ver Silva, M. (1999).

44

trabalhadores rurais, posseiros, colonos, sitiantes e arrendatários, veio por legitimar a condição de trabalhadores volantes excluídos por essas mesmas leis (SILVA, M., 1999). Ademais, tais trabalhadores,

[...] ao se transformarem em força de trabalho dotada de um equivalente geral, passaram, em contrapartida, a ter suas particularidades e individualidades reduzidas a um denominador comum, ou seja, todos eram livres para vender a força de trabalho sem as amarras anteriores, e, iguais (SILVA, M., 1999, p. 77).

Essa venda da força de trabalho chegou, também, aos canaviais paulistas. Na década de 1970, intensificaram-se os processos migratórios, devido tanto à expropriação de suas terras de origem quanto ao aumento da demanda da mão de obra volante, esta última provocada pelo processo de modernização da agricultura e pelo Proálcool.

Desse modo, a volantização da força de trabalho pôde garantir um aumento da produção e da produtividade mediante o processo de industrialização da agricultura proposto no governo militar. Tal medida, de acordo com Silva, M. (1999, p. 67) foi dirigida em um duplo sentido: “[...] a) conservar o poder político dos proprietários rurais; b) polarizar seus interesses, juntamente com as outras frações de classe dominantes para um interesse comum que consistisse na exploração econômica e na dominação política”.

Para além da questão do trabalho, a alavancagem do Proálcool também é decorrente do uso intensivo dos recursos naturais. Nesse sentido, para analisar os processos de acumulação na produção canavieira, como sugerem Silva, M. e Martins (2010), tem-se a necessidade de articular as esferas social e ambiental, permeadas pela degradação do trabalho e da natureza.

No período aqui analisado, embora tenha se criado um zoneamento agrícola, preocupado com a expansão da cultura canavieira às culturas alimentares, pouco se foi questionado sobre os problemas ambientais decorrentes da expansão dessa lavoura, no que se refere à poluição do ar, do solo e da água. No entanto, tomava-se como justificativa do Proálcool, a redução da poluição nas grandes cidades, o que pôde ser alvo de controvérsias (PAIXÃO, 1995).

Segundo Paixão (1995), por um lado, o álcool como combustível diminui a emissão de gás carbônico e elimina o chumbo-tetra-etila12, o que gera efeitos positivos

12 Este composto orgânico era utilizado em mistura à gasolina para melhorar o funcionamento dos motores dos automóveis, conferindo-lhes uma maior potência e uma maior economia de combustível. Entretanto, tal composto possui um alto grau de contaminação, seja do ar, solo e água, bem como a partir do manuseio daqueles que preparavam tal mistura.

45

sobre a qualidade do ar nas cidades. Por outro, torna-se totalmente poluente, sob diferentes formas, nas áreas em que são implantadas as lavouras canavieiras, devido a fatores como: o uso intensivo de produtos químicos que uma monocultura demanda, contaminando a água e o solo; a queima da palha da cana-de-açúcar, responsável pela emissão de gases poluentes a atmosfera; e o derramamento da vinhaça e da água utilizada para lavagem da cana-de-açúcar nos rios e lençóis freáticos.

Todos esses apontamentos agravaram-se conforme a lavoura canavieira se expandia, sendo acompanhado pelo silenciamento e pela falta de posicionamento da Secretaria Especial do Meio Ambiente (SEMA) - criada em 1973, antecedendo o Ministério do Meio Ambiente – e do Ministério do Trabalho. Tal secretaria poderia vir a representar as demandas socioambientais, entretanto, não fez com que isso compusesse a agenda de debates do período (GONÇALVES, 2005).

Evidencia-se, nessa segunda fase, que tais fatores formaram o conjunto de ações que permitiram o sucesso do Proálcool com base em um processo de acumulação que se deu vinculado a uma determinada dinâmica socioambiental, como brevemente exposto nesse tópico. Porém, como salientado, a política do álcool tinha o petróleo como parâmetro econômico, o que trouxe implicações no decorrer da condução dessa política, independentes tanto de ações estatais como dessa dinâmica de apropriação do trabalho e da natureza.