Conforme já informamos, estamos focalizando as identidades sociais e discursivas.
b) Personagens identificadas no catálogo Vale Registrar 2006-2007:
Benjamin Nicomedes de Oliveira – ferroviário triste, trabalhador abnegado, fazedor de “biscate” e preocupado em manter a família;
Duílio Ferreira – filho de ferroviário e trabalhador responsável;
José Benigno de Souza – maquinista, trabalhador realizado/satisfeito, amigo, esforçado com os estudos e o trabalho;
José Fernandes Dutra – chato, rigoroso, cumpridor de deveres, servidor público, amigo e vereador;
José Gomes Perreira – trabalhador realizado/satisfeito, esforçado com os estudos e o trabalho;
José Siqueira Alves – descendente de ferroviários e dedicado;
Nilson Lourdes de Oliveira – trabalhador realizado/satisfeito, estruturado financeiramente, chefe de família, amigo e trabalhador “desdeixado”.
b) Personagens identificadas no catálogo Vale Registrar 2007-2009:
Célia Nazareth de Souza – mantenedora do livro do pai, professora, amiga e divertida;
Geraldo da Purificação Gomes – trabalhadeira e professora; Maria de Lourdes Walter – alegre, trabalhadeira e professora; Maria Zulena Pinheiro Alves de Brito – exigente e protegida; Marília Barbosa Dias – protegida, obediente e professora; Marília Bastos da Silva – denunciadora, realista e professora.
Feitas as análises dos discursos jornalísticos e biográficos, teceremos algumas considerações sobre a pesquisa realizada.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
No decorrer desta pesquisa fizemos um estudo sobre os discursos jornalísticos (duas reportagens publicadas na revista História Viva – Caminhos do Trem) e biográficos (quatorze relatos biográficos publicados nos catálogos Vale Registrar 2006- 2007 e 2007-2009) com o objetivo de investigar:
as imagens e representações dos trabalhadores ferroviários que são projetadas nesses discursos sobre formação profissional ferroviária e outros ofícios afins, visando a entender as condições situacionais e históricas de produção desses discursos: suas finalidades, as identidades sociais dos seus produtores, suas visadas;
como cada gênero textual atualiza, reconstrói e lida com a memória associada à profissão, aos ofícios e à vida desses profissionais;
quais seriam as possíveis estratégias de credibilidade e de captação presentes em tais discursos que visariam a projetar uma visão positiva da profissão com o intuito de despertar o interesse de futuros profissionais;
contrapor as duas “vozes” identificadas (imprensa e catálogos Vale Registrar) para analisar as semelhanças e diferenças presentes nesses discursos com relação ao objeto pesquisado.
Para atingir nossos objetivos, realizamos uma pesquisa de natureza discursiva representacional-interpretativista e nos utilizamos das bases teóricas da Análise do Discurso, mais precisamente da Teoria Semiolinguística, focalizando os estudos realizados por Charaudeau, em colaboração com outras teorias que investigam a relação entre linguagem e trabalho.
A análise dos corpora nos revelou que tanto o discurso jornalístico quanto o biográfico apresentam imagens positivas sobre o ser e o fazer ferroviário, nos quais o trabalhador algumas vezes é apresentado como um herói, outras como um abnegado e a maioria deles se mostrando tristes com o fim ou o fechamento da Rede Ferroviária Federal.
As condições situacionais e históricas de produção desses discursos, bem como as suas finalidades, as identidades sociais de seus produtores, suas visadas são bastante diferentes.
No discurso jornalístico foram investigadas duas reportagens intituladas “Uma profissão do futuro”, escrita pela jornalista Aryane Cararo, e “Ferroviário: cruzamento de linhas”, escrita pela socióloga, cientista social e educadora Batistina Maria de Souza Corgozinho. Só pelas identidades sociais dos seus produtores, já é possível perceber que, pela sua formação, provavelmente elas apresentam pontos de vista diferenciados. Essa visada foi percebida nesses discursos quanto ao conteúdo informativo apresentado nas duas reportagens. Na primeira, as informações são apresentadas de uma maneira mais “superficial” e idealizada. Para construir o seu discurso e defender a tese de que “ser ferroviário já é a profissão do futuro”, a jornalista insere na reportagem o relato de três trabalhadores da Vale (um maquinista, um engenheiro e uma analista de Recursos Humanos) e apresenta o maquinista Bruno como um modelo de ferroviário ideal, isto é, um ser ferroviário totalmente satisfeito com a profissão escolhida e que vive muitas aventuras em seu fazer profissional. Ao agir dessa forma, ela adota uma visada de caráter mais persuasivo e tenta convencer o seu enunciatário, o leitor da revista, a se espelhar em Bruno e também a se tornar um ferroviário.
Já Corgozinho apresenta um discurso com mais conteúdo informativo e menos idealizado. Ao construir a reportagem, ela não seleciona e nem nomeia uma personagem em especial, pois o seu discurso é construído de maneira indireta referindo-se sempre ao coletivo, ou seja, à classe ferroviária em geral. Além disso, ela o faz a partir de uma visada mais informativo-histórica e adota um tom sociocrítico. Nessa reportagem, além de informar sobre o ser e o fazer ferroviário, ela destaca a importância da família, principalmente o papel das mulheres, na luta por melhores condições de trabalho na ferrovia. As mulheres são apresentadas como “heroínas” e desempenham muitas ações ao se juntar aos movimentos grevistas, como, por exemplo, passar sabão na linha para que os maquinistas fossem obrigados a parar o trem para não descarrilar, vestir uma saia nos ferroviários rendidos como símbolo de dominação, enrolar a bandeira em seu corpo durante o confronto com a polícia para que esta não as atingisse, pois, se assim o fizesse estaria insurgindo contra um símbolo nacional etc. Cabe destacar que nem todos os trabalhadores podiam participar das greves, principalmente os maquinistas, mas eles não ofereciam resistência quando dominados e as suas esposas participavam mesmo assim. O modelo de ferroviário apresentado nessa reportagem, de acordo com a ideologia vigente na época, era aquele que colocasse a empresa, a Rede Mineira de Viação, acima de tudo e de todos, especialmente da família, porque ela incutia na mente dos ferroviários a ideologia de que ela agia e os amava como uma “mãe”. Por essa razão, ela
os punia severamente quando eles se mostravam indisciplinados durante a realização das tarefas. Para a empresa o modelo ideal de ferroviário ou de “filho” era aquele que realizasse um trabalho bom e disciplinado, que não tirasse licença e nem férias, mesmo quando estivesse doente, que evitasse pedir socorro, que tivesse horário para entrar no serviço, mas que não tivesse para sair, que estivesse disposto a se mudar com a família sempre que a ferrovia exigisse etc. Enfim, o modelo ideal era o de um “escravo assalariado”.
No outro discurso que investigamos, o biográfico, a instância de produção é a Vale em parceria, principalmente, com o Santa Rosa Bureal Cultural. Fazem parte desse discurso quatorze relatos biográficos distribuídos da seguinte maneira: oito pertencentes ao Vale Registrar – Catálogo de Entrevistas 2006-2007 e seis ao Vale Registrar – Catálogo de Entrevistas 2007-2009. Segundo consta nesses catálogos, o principal objetivo dessas publicações é o de registrar a memória do patrimônio imaterial das cidades de Mariana, Ouro Preto e distritos vizinhos. Porém, no decorrer das análises verificamos que o objetivo maior parece ser o de projetar imagens positivas sobre o ser e o fazer ferroviário e, consequentemente, da Vale, por se interessar pelos sujeitos biografados e dar-lhes voz.
Identificamos também nesses catálogos a presença de vozes masculinas e femininas que apresentam pontos de vista diferentes. O catálogo de 2006-2007 tem como personagens biografadas os trabalhadores ferroviários que se aposentaram ou perderam os seus empregos com a extinção da Rede Ferroviária Federal. Nesse caso, são eles, por intermédio do biógrafo, quem relatam sobre o ser e o fazer ferroviário, ou seja, sobre as suas experiências na época da ferrovia. Apesar do rigor exigido, do trabalho árduo e das mazelas, aos quais alguns deles estavam sujeitos, todos eles guardam lembranças positivas da época em que trabalhavam e sentem saudades. Nesse catálogo, o modelo ideal de ferroviário era aquele que se colocava sempre à disposição da ferrovia, que fosse disciplinado, não fizesse greves, seguisse todas as ordens e buscasse crescer hierarquicamente dentro da ferrovia, sendo promovido de acordo com o seu desempenho profissional.
O catálogo 2007-2009, por sua vez, tem como personagens biografadas as ex- esposas ou filhas de ferroviários já falecidos. Nesse caso, são elas quem falam sobre o ser e o fazer ferroviário deles, associados às recordações que elas mantêm daquela época. No espaço do relato, a vida dessas personagens se mistura à dos parentes já falecidos e cria imagens positivas sobre eles. No relato delas também é possível
perceber a satisfação e o orgulho cultivados pelos maridos ou pais em trabalhar na ferrovia. Elas também demonstram ter orgulho e saudades de pertencer à ferrovia e de morar nas suas instalações. Nesse catálogo, o modelo ideal de ferroviário é o marido ou o pai falecido.
De um modo geral, nos dois catálogos percebemos a presença do biógrafo adotando uma visada mais persuasiva e projetando uma visão saudosista com relação ao fazer ferroviário e outros ofícios afins. Isso é feito a partir de um resgate de seus hábitos, rotinas de trabalho, costumes e vidas social e cultural.
Nesta pesquisa defendemos a tese de que nos corpora investigados existem pelo menos duas vozes distintas e com interesses distintos: a da imprensa e a dos produtores dos catálogos Vale Registrar. Para mostrar o modo como a memória esteve presente nos discursos jornalísticos e biográficos e, mais particularmente, em cada gênero textual investigado (reportagem e relato biográfico) adotamos os conceitos de memória individual e memória coletiva, também estudados por Namer (1987) quando ele cita o sociólogo Maurice Halbwachs. Segundo ele, a memória dos outros é a primeira forma sob a qual se manifesta a origem social da memória individual. Uma das hipóteses do sociólogo é a de que a nossa memória se conserva a partir das memórias dos outros. Para Namer, a nossa memória possui uma origem social porque opera um movimento pelo qual o sujeito se esforça para tentar compreender de maneira atual as circunstâncias da lembrança (um presente impessoal e na exterioridade) em direção ao passado que é reconstruído. Halbwachs salienta que, quando o sujeito se lembra, ele parte do presente, do sistema de ideias gerais que está a sua disposição naquele momento.
Correlacionando esses conceitos às analises feitas podemos dizer que tanto no discurso jornalístico quanto no biográfico, a memória é reconstituída a partir da visão dos enunciadores através das lembranças do passado trazidas para o momento presente, o do relato. Mas, em cada um desses discursos a memória opera de maneira diferente, pois ora se mostra individual, oracoletiva.
No que se refere aos discursos jornalísticos, Aryane, a autora da primeira reportagem, parte da memória individual, isto é, a apresentada por cada uma das personagens, para construir a memória coletiva. Nesse sentido, Bruno, principalmente, representa a classe dos maquinistas. Porém, na segunda reportagem, Corgozinho faz o inverso, porque ela não apresenta as personagenns individualmente, ele constrói o seu discurso trazendo à tona a memória evocada pelo coletivo, ao se referir aos ferroviários, aos trabalhadores de tal setor, à empresa, à família etc.
No que diz respeito aos discursos biográficos, todas as personagens são apresentadas individualmente e relatam as suas memórias, mas essa memória não deixa de ser coletiva. Isso porque elas sempre se colocam em relação ao social, isto é, falam em nome de uma época e de todos aqueles que fizeram parte dessa época.
O estudo dessas memórias nos permitiu identificar que o interesse principal de cada instância de produção não era simplesmente o de informar ou de resgatar a memória ferroviária, mas sim, persuadir o leitor a projetar imagens positivas sobre o ser e o fazer profissional. Talvez isso tenha ocorrido porque todas as duas publicações a revista e os catálogos são produzidos para um público específico, o ferroviário e aqueles que se interessam por ferrovia.
Essas memórias também nos possibilitaram investigar os possíveis imaginários sociodiscursivos e as possíveis identidades que emergem dos discursos jornalísticos e biográficos associadas ao ser e ao fazer ferroviário.
Então, respondendo à questão: “Quais são os traços identitários e os imaginários sociodiscursivos projetados a partir dos discursos jornalísticos e biográficos enunciados pela revista História Viva – Caminhos do Trem e pela Vale sobre o processo de formação ferroviária e outros ofícios afins?”, podemos dizer que, de um modo geral, os traços identitários revelam características positivas. Os trabalhadores são identificados como dedicados, heróis da ferrovia, altamente disciplinados, hierarquizados, militarizados, militantes etc. As ex-esposas ou filhas dos ferroviários são identificadas na segunda reportagem como militantes e no segundo catálogo como trabalhadoras, privilegiadas pela ferrovia e, agora, desprotegidas pelos ferroviários que não estão mais presentes.
Nesta tese, os imaginários sociodiscursivos foram identificados, inicialmente, a partir de uma pesquisa sobre o surgimento das ferrovias, do ser ferroviário e de algumas conversas informais com trabalhadores da Vale e da FCA, com base em alguns signos- sintoma como, por exemplo, o relógio, presente nas estações ferroviárias como sendo símbolo da pontualidade exigida dos maquinistas, e o quepe, como símbolo de elegância, hierarquia e status social. Posteriormente, a partir da reflexão feita sobre os três modos de organização do discurso selecionados para análise: o enunciativo, o descritivo e o narrativo, bem como dos signos-sintomas identificados nos corpora.
Na primeira reportagem surge o imaginário sociodiscursivo de aventura e heroísmo, o de um mundo idealizado, representado pelo maquinista Bruno. Na segunda, surge um imaginário de luta aguerrida e de um mundo mais “real”, representado pelos
trabalhadores grevistas e pela família dos ferroviários, principalmente as mulheres, e de subordinação, representado pelos trabalhadores que estavam sujeitos à disciplina do militarismo imposto pela ferrovia. Nos catálogos observa-se a projeção de um imaginário de saudosismo, representado por todos os biografados quando se referem à época em que trabalhavam na ferrovia e moravam próximos a ela.
Através desta pesquisa, acreditamos ter atingido de modo significativo os interesses da pesquisadora que era o de investigar quais são os imaginários sociodiscursivos e as identidades que giram em torno do trem, considerado um símbolo de mineiridade e extremamente importante para a história do Brasil. Buscando fontes históricas, utilizando algumas teorias da Análise do Discurso francesa e analisando os corpora, podemos conhecer melhor a história dos profissionais que direta ou indiretamente deram vida à máquina de ferro e continuam mantendo o trem “vivo” na memória dos mineiros.
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