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“A resposta certa, não importa nada: O essencial é que as perguntas sejam certas.”

(Mário Quintana)

A Perspectiva Eco Relacional (PER), teoria desenvolvida por Figueiredo (2007), me chamou a atenção antes mesmo de pensar em fazer o Mestrado em Educação. Durante a minha pesquisa na Especialização em Agroecologia, Desenvolvimento Rural Sustentável e Educação do Campo, numa das minhas visitas ao assentamento São Gonçalo, desenvolvi uma atividade com as crianças, pré-adolescentes e lideranças mais experientes da comunidade. Fomos visitar a Reserva Legal (RL). Advinda de uma apresentação sobre a PER no Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Ambiental Dialógica, Educação Intercultural, Educação e Cultura Popular (GEAD), essa atividade no assentamento foi usada como análise relacionada à teoria.

Diante dessa experiência, percebi que deveria tentar um aprofundamento na prática com essa teoria e fui estudar. O mais interessante é que me senti desafiada por perceber que não seria uma tarefa fácil. Essa fragmentação do mundo, onde já relacionei nas páginas iniciais desse capítulo, e toda a crise de valores e a falta de uma alternativa comum de sociedade, unificada em termos oníricos para uma sociedade mais justa para a maioria das pessoas, faz da PER um desafio em sua prática. Vejamos, então, como essa proposta surgiu.

A PER foi proposta, inicialmente, no campo da pesquisa em educação ambiental, num contexto cuja peculiaridade principal do povo do lugar era a cultura oral, uma cultura sertaneja marcada pelas dificuldades da seca. A matriz popular e intercultural, presente nesta perspectiva, favorece a valorização dos saberes, e da cultura popular local, do diálogo que reconhece esse saber tão importante quanto o conhecimento cientifico. (SILVA, 2012, p. 144).

E é nesse contexto do rural, das dificuldades do povo nordestino, que a teoria toma significado. O autor esclarece:

[...] estou propondo desde 2002, estudos que se pautam na PER, uma proposta epistemo-pedagógica que traz contributos para os processos educativos ao pensar a inclusão da dimensão ambiental, pedagógica, afetiva, relacional, popular, descolonializantes e intercultural para além da dimensão cognitivista ainda tão explorada no contexto educacional. (FIGUEIREDO, 2009, p. 10).

Esses contributos proporcionam fios dessa teia de aranha que Figueiredo (2007) nos oferece.O autor nos aponta, ainda, pensadores que o ajudaram na elaboração da PER:

Encontramos desse modo, uma contribuição para este pensar na PER e sua consequente Pedagogia Eco-Relacional, já que um dos aspectos que a proposta trata é da relação entre epistemologia e processos educativos num perfil paradigmático que dialoga com Maturana (1998), Moraes (1998); Prigogine (1997); Sheldrake (1993), Capra (1983, 1992, 1996); Boff (1995). (FIGUEIREDO, 2009, p. 10 e 11). Esta perspectiva é epistemológica e desemboca numa abordagem educativa. Ela vem repleta de Paulo Freire (...), acrescida de Brandão (1994) e suas reflexões antropológicas acerca de certas culturas autóctones que consideram relações sociais entre humanos e não humanos. Contempla ainda Maturana (1998) e Lane (1995) com a ênfase na dimensão afetiva como foco imprescindível para uma educação verdadeira. (FIGUEIREDO, 2009, p. 11).

O trabalho no assentamento São Gonçalo envolvendo a produção coletiva e individual se dá em um contexto histórico difícil vivenciado hoje pela conjuntura política na qual o Brasil atravessa. Com o impedimento de uma presidenta eleita democraticamente através do voto popular e com políticas públicas de beneficiamento para a classe trabalhadora. Um golpe se instaurou no país e o Ministério de Desenvolvimento Agrário foi extinto, ministério esse que servia aos interesses do pequeno e da pequena produtora rural brasileiro.

Diante dessa realidade, projetos e acompanhamentos técnicos dentro do assentamento foram suspensos. Isso significa um retardamento no processo de emancipação da comunidade, no enfraquecimento de entidades para defender os interesses dos trabalhadores da agricultura familiar. O trabalho com propostas contra-hegemônicas que una os saberes tradicionais e as práticas agroecológicas que representam uma revolução epistemológica no campo e, consequentemente, fortaleça a Educação Popular, sofreu um

ataque frontal pela classe abastarda do país. No que a PER poderia fortalecer no trabalho dentro da comunidade?

Ainda de acordo com o autor, a PER foi desenvolvida pela necessidade de construir cientificamente conceitos para pesquisas que se fundamentam na Educação Popular.

Utilizamos esse arcabouço teórico para responder à necessária superação da crise de paradigma nas ciências. Na ultrapassagem do paradigma cartesiano, a fragmentação do conhecimento humano que fundamenta a maioria das intervenções e gestões ambientais necessitava ser superada por um novo olhar e ação. Era essencial que aprimorássemos nossa visada incluindo as dimensões históricas e políticas singularizadas na busca da perspectiva popular, que não se evidenciava adequadamente na proposta anterior, a ecocêntrica. (FIGUEIREDO, 2007, p. 49-50). Vejamos, então... No entendimento dos conceitos da teoria, inspirado nas categorias de Paulo Freire, onde tem seu principal alicerce, em Maturana na dimensão afetiva e Carlos Rodrigues Brandão, com sua visão antropológica diferenciada da visão eurocêntrica, Figueiredo (2007) elege categorias metafóricas para desenvolver o estudo na Perspectiva Eco- Relacional. E elege como eixo principal a relação dentro de um contexto de mundo vivido e sentido, na constituição ontológica e epistemológica do ser, que interage com o outro, com a natureza e consigo mesmo.

Essa proposta diferencia-se porque considera importante formar para a práxis, na dimensão humana de uma Educação Ambiental Dialógica. Figueiredo (2007) apresenta alguns conceitos que se somam às categorias da PER: a Supra Alteridade, que valoriza e reconhece a diversidade e pluralidade de pensamento, onde a contribuição de cada um para o conhecimento se faz importante na amplitude recíproca; o Saber Parceiro, que contribui através do diálogo para a formação de novos saberes pela troca de experiência entre o grupo; a Afetividade, na qual o autor considera essencial para as pessoas em formação, onde o estímulo e motivações dão sentido à ação e à comunicação; a Contextualização, que representa o saber dos educandos para o ensino, onde há a valorização das suas relações, do seu dia a dia, da sua comunidade e da sua cultura, para que se ampliem suas concepções e se trabalhe sua realidade; o Ser Aprendente, que representa a ideia nas relações, os seres aprendem e ensinam ao aprender, rumo à construção e reconstrução de seus saberes; o Círculo Dialógico, que valoriza o grupo enquanto conjunto de sujeitos com interesses individuais e coletivos para o desenvolvimento do próprio grupo, onde a equidade significa que se deve dar mais a quem mais necessita. A ecopráxis, que significa uma práxis ampliada no caminho da transformação individual e coletiva, que potencializa pensar a ação dentro de uma

compreensão que se amplia de forma perene por ser uma constante no reconhecimento de seus limites transitórios.

Essas categorias metafóricas foram trabalhadas aos longos dos meses que se seguiram a minha pesquisa para a escrita desse trabalho. Uma construção nada fácil para os problemas individuais e coletivos da comunidade, com dimensões socioambientais, econômicas e políticas. Cada categoria foi trabalhada, tanto nas entrevistas como no círculo dialógico com, inicialmente, dez pessoas inscritas em cada atividade, tiradas em assembleia organizada pela associação de São Gonçalo. Através das categorias, observei as diversas opiniões com diferentes olhares de cada participante. Em item posterior serão analisados os resultados.

No item que se segue, mostro um pouco do histórico da educação rural e o surgimento da Educação Popular como uma mudança de modelo inserida em contexto nacional onde, até os dias de hoje, sua influência tornou-se sólida para a educação brasileira e inspira pensadores de outros países.