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Antes de caracterizar a pesquisa e descrever a metodologia utilizada, far-se-á uma breve contextualização epistemológica e teórica. Não obstante implícitos em todo o trabalho, exige-se esse rápido posicionamento para os leitores não habituados com os aspectos do como conhecer. Conforme demonstrado no capítulo 3, as bases teóricas da administração, utilizadas para análise, partem das críticas estruturalistas aos preceitos burocráticos, chegando até as concepções sistêmico-contingenciais que fundamentam a tese. Ou seja, embora a Instituição Universidade seja perene, sua estrutura modifica-se constantemente. No caso, buscou-se a análise dessas mudanças na relação entre pressões ambientais e capacidade dos sistemas abertos em manter-se em equilíbrio.

No âmbito metodológico, esta pesquisa caracteriza-se como descritivo-analítica, segundo os seus objetivos, adotando um processo de pesquisa qualitativo (COLLIS; HUSSEY, 2005), com o uso da estratégia do estudo de caso (YIN, 2005) e escolha da Universidade Federal do Ceará como campo empírico. Foram analisadas três experiências gestadas a partir da LDB de 1996, conforme exposto no capítulo 2, a partir do impacto sobre a estrutura organizacional. As experiências analisadas foram: implementação da Educação a Distância (EAD) e do Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) e expansão e reestruturação das universidades (REUNI).

Cervo e Bervian (1996, p. 49) afirmam que cabe à pesquisa descritiva “observar, registrar, analisar e correlacionar fatos e fenômenos sem manipulá-los”. Dada à natureza deste estudo, a compreensão da dinâmica que a gestão universitária desenvolveu nos últimos anos é

mais importante do que a pretensão de propor ou testar modelos. Porém, a simples descrição dos fenômenos seria insuficiente para a compreensão da natureza e intensidade das relações e arranjos implementados nas instituições, necessitando-se de uma análise explicativa sobre a relação entre as ocorrências relevantes identificadas no campo e as diretrizes teóricas.

Na pesquisa analítica, ou explicativa, vai-se além da descrição de características, analisando-se porque ou como os fatos ocorrem. Objetiva entender os fenômenos (COLLIS; HUSSEY, 2005), aprofundando-se na compreensão das soluções e relações desenvolvidas ou preconizadas nas universidades, cuja complexidade torna inócua a importação de modelos (mesmo que flexíveis). Enquanto pesquisa qualitativa, pauta-se pela concepção de que a universidade é uma organização complexa na qual coexistem diversas correntes ideológicas e áreas de conhecimento, não se adequando a testes de modelos preditivos.

Na pesquisa qualitativa pauta-se não apenas os aspectos formais da mudança, mas o processo em si e a forma como se dá sua implementação. As contribuições e modificações ocorrem conforme os atores interajam com a mudança na organização, reinterpretando as ações cotidianas e redefinindo continuamente os planos. No caso, os atores seriam os gestores que teriam a missão de conduzir as ações em consonância com as deliberações legais, ou seja, as ações devem corresponder a resoluções das instituições as quais devem ser compatíveis com a legislação educacional do país.

Segundo Richardson (2009, p. 90), “pesquisa qualitativa pode ser caracterizada como a tentativa de uma competência detalhada dos significados e características situacionais apresentados pelos entrevistados, em lugar da produção de medidas quantitativas de características ou comportamento”. A pesquisa qualitativa é feita em seu meio natural, mediante observações e interações com os atores. Necessita de um nível de aprofundamento que permita identificar não apenas os fenômenos, mas os significados que os atores lhes atribuem.

Pugh et al (1968), ao estudarem estrutura organizacional, identificaram e classificaram quantitativamente suas dimensões, porém constataram limitações no método. A variável flexibilidade foi excluída do estudo de campo por esta necessitar de uma pesquisa mais aprofundada e longitudinal. Também indicaram que o uso de entrevistas em um número muito grande de organizações tende a gerar dados superficiais e com generalidades. Da mesma forma, a utilização de dados objetiváveis, mediante utilização de dados estatísticos que revelem relações de causa e efeito não deixam de ser questionados, seja pela impossibilidade

de contar com amostras de todos os tipos de organizações ou porque a agregação dos dados obscurece particularidades e produz homogeneidades artificiais.

Do mesmo modo, Aiken, Barach e French (1980), em um estudo de burocracias belgas, analisaram a existência de inovações em repartições públicas, realizando um estudo transversal com uso de formulários estruturados, porém, abordando um período de tempo de dez anos, com vistas a identificar os relatos de propostas de inovação em um período maior.

Neste estudo, buscou-se abranger o período compreendido entre 2004 e 2010. Dessa forma, utilizou-se o que Richarson (1999) denomina de estudo de corte transversal, que focaliza na coleta de dados em determinado ponto do tempo, porém resgatando a evolução de fatos desde o momento anterior. Dessa forma, as pessoas podem fornecer informações relevantes em relação a situações passadas ou permitir comparações que se aproximem dos estudos longitudinais. Porém, na primeira situação, podem ocorrer dois problemas: “a falta de precisão nas respostas obtidas; e o pesquisador deve lembrar que a informação não pode ser considerada como uma amostra de corte transversal, escolhida anteriormente. Ela está limitada à população presente” (RICHARDSON, 1999, p. 149).

Mesmo possuindo limitações, a utilização de um plano transversal considerando um dado período de tempo anterior à coleta é vista como a melhor solução para captar não apenas o relato dos fatos ocorridos, mas a reflexão das mudanças no período.

A seguir são destacados três aspectos que devem ser discutidos antes de se detalhar o processo de pesquisa: a) a importância da amostragem na pesquisa qualitativa; b) quais generalizações ou comparações são pretendidas; c) como os aspectos de validade, credibilidade e autenticidade impactam na qualidade da pesquisa.

A pesquisa qualitativa utiliza mais de uma seleção intencional de sujeitos, cujo objetivo é ter maior representatividade sobre os fenômenos a serem analisados, do que produzir amostras homogêneas. Por esse motivo, em muitas pesquisas, uma criteriosa escolha de um único caso, e dos entrevistados fornece os elementos necessários para que sejam discutidos os aspectos teóricos pretendidos. Questões como confiabilidade e validade da pesquisa apresentam-se na identificação de unidades e variáveis homogêneas e mensuráveis (RICHARDSON, 1999).

Flick (2009) considera que a amostragem na pesquisa qualitativa pode abordar a seleção de pessoas para serem entrevistadas, de situações para serem observadas e também dos lugares onde espera-se encontrar e interagir com as pessoas e situações. Para o caso da maioria das entrevistas, a amostra é intencional, sendo que:

[…] Os entrevistados também devem ser capazes de refletir sobre sua experiência, verbalizar essa reflexão e estar prontos para passar mais tempo sendo entrevistados. Nos estudos com entrevistas, o participante individual é considerado o caso, mas, muitas vezes, também buscamos grupos de casos […] A amostragem para estudos com entrevistas, na maioria dos casos, significa encontrar uma variedade de casos e experiências e, por vezes, casos semelhantes para comparação” (FLICK, 2009, p. 108).

No caso de pesquisas qualitativas, cujo caráter é mais subjetivo e interpretativista, a objetividade dos fenômenos não pode ser identificada de forma clara, utilizando-se outros critérios como credibilidade, transferibilidade, confiança e conformabilidade. A validade na pesquisa qualitativa é fornecida pela correção dos critérios, e precisão na definição de suas etapas, na condução do processo e consistência dos resultados obtidos.

A crítica à pesquisa qualitativa muitas vezes funda-se exatamente em seu caráter subjetivo, o que pretensamente comprometeria a sua cientificidade. Porém, Vieira (2004, p. 18) refuta a ideia de que a subjetividade representa a falta de procedimentos científicos, argumentando que tal pode ser mantido; e utiliza uma “definição explícita das perguntas de pesquisa, dos conceitos e das variáveis, bem como uma descrição detalhada dos procedimentos de campo garantem à pesquisa qualitativa uma certa 'objetivação' dos fenômenos estudados, permitindo até mesmo, replicação”. Embora seja possível captar objetivamente os fenômenos na pesquisa qualitativa, esta não é a prioridade nem argumento para sua invalidação, uma vez que segue critérios próprios.

Outra importante característica da pesquisa qualitativa é que ela geralmente oferece descrições ricas e bem fundamentadas, além de explicações sobre processos em contextos locais identificáveis […]. Mesmo tendo uma natureza mais subjetiva, a pesquisa qualitativa oferece um maior grau de flexibilidade ao pesquisador para a adequação da estrutura teórica ao estudo do fenômeno administrativo e organizacional que deseja (VIEIRA, 2004, p. 18).

Assim, ao utilizar-se uma organização, porém representativa, puderam ser captadas experiências que revelaram uma dinâmica de discussão e implementação de ações que permitiu um debate mais rico da teoria. Embora com alguns respondentes predefinidos, a flexibilidade do processo de seleção de novos atores permitiu coletar informações relevantes para a compreensão do fenômeno e identificar novas linhas de investigação.

Nos tópicos seguintes expõe-se a estratégia de pesquisa, detalhando o processo de seleção do caso; os métodos de coleta de informações; e a identificação dos atores a serem entrevistados associados ao tipo de informação visada.