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Na Amazônia Brasileira os primatas totalizam 58 espécies, sendo 54 endêmicas (93,10%). Esta diversidade esta distribuída em três famílias, sendo uma delas endêmica (Callimiconidae) (FONSECA et al, 1996). Existe um gradiente de diversidade de primatas no sentido leste-oeste da Amazônia Brasileira sendo que as áreas de maior riqueza localizam-se no sudeste do Acre e sudoeste do estado do Amazonas. Estas áreas concentram 11 spp., de um total de 80 (considerando as subespécies), sendo que 19 delas estão ameaçadas de extinção (23,75%). Lamentavelmente 15 espécies (17,2% das 80) de primatas amazônicos ocorrem fora de qualquer unidade de conservação (FURLANI, 1998).

A Amazônia engloba uma área de ambientes arbóreos muito maior que a Mata Atlântica. Mesmo assim encontra-se comunidades de primatas amazônicas com apenas três ou quatro espécies, em ambientes intactos não florestados. Por outro lado, comunidades de até quatorze espécies, as maiores conhecidas em qualquer continente, podem ser encontradas na Amazônia ocidental (TERBORGH, 1983).

Na parte oriental da Ilha de Marajó (Rio Jutuba), por exemplo, cuja vegetação natural assemelha-se com o cerrado típico do Brasil Central, encontramos apenas três gêneros: Alouatta,

Aotus e Saimiri (PERES, 1989). A aparente ausência de Cebus é curiosa, uma vez que ele ocorre

oriental e ocidental da ilha, é provável que pressões antrópicas diferenciadas estejam envolvidas nesta aparente “anormalidade”.

A diversidade de primatas é reduzida também em florestas inundadas: várzeas, igapós e mangues. Em Mamirauá (AYRES, 1993), e.g., as ilhas mais novas de várzea são habitadas por apenas quatro gêneros: Alouatta, Cacajao, Cebus e Saimiri. Sendo que Cacajao e Saimiri são os verdadeiros especialistas de ambientes inundados, enquanto Alouatta e Cebus são oportunistas, ecologicamente flexíveis, e de compleição física que permitem atravessar rios e colonizar novas ilhas. Os pequenos calitriquídeos foram os últimos a colonizar estas áreas (AYRES e CLUTTON-BROCK, 1992). Como prevê a teoria de Biogeografia de Ilhas, o número de espécies encontradas na várzea cresce na medida em que a idade da ilha aumenta.

A diversidade de primatas é baixa também no mangue, onde possivelmente somente

Cebus apella consegue colonizá-lo de forma permanente (FERNANDES ; AGUIAR, 1993),

embora Alouatta e Chiropotes também sejam encontrados esporadicamente neste hábitat. A baixa diversidade de primatas neste hábitat reflete também uma redução na diversidades de outros grupos de fauna e flora, em comparação com a floresta de terra firme. Se pensarmos em um gradiente arbóreo, os manguezais representariam um dos extremos e as florestas tropicais, o outro. Naqueles solos hidromórficos de água salobra vicejam apenas três espécies: Avicenniia

tomentosa, Laguncularia racemosa e Rhizophora mangle (ODUM, 1988).

Independente da influência do hábitat, existe um gradiente de diversidade dentro da Amazônia aumentando de leste para o oeste, paralelo a fatores como precipitação, riqueza dos solos e a própria diversidade de outros grupos de fauna e flora (AYRES 1993; EMMONS 1984; GENTRY 1988; PRANCE 1992). Na Pré-Amazônia maranhense (Gurupi), encontramos apenas sete espécies de primatas, metade das quais ocorrem em regiões da Amazônia Ocidental, como o Rio Urucu.

Fora este gradiente e os padrões gerais, a ocorrência ou não de um dado gênero em uma região especifica pode refletir alguns fatores históricos, especialmente a distribuição e dinâmica dos rios, as principais barreiras geográfica na Amazônia (AYRES ; CLUTTON-BROCK, 1992). No estudo supracitado os autores atestaram que a variação no tamanho (largura e/ou descarga), a cor da água (negra, marrom ou branca) e a distância da cabeceira são fatores determinantes do grau de similaridade da comunidade primatologica de ambas as margens dos rios amazônicos. E ainda que tais fatores são correlacionados com a compleição física e a habilidade dos primatas de

explorar diferentes ambientes (florestas inundáveis versus florestas de terra firme). Estas correlações acabam determinando a capacidade desses animais arborícolas de transpor barreiras fluviais e expandir suas áreas de distribuição geográfica.

Ferrari (1995) hipotetiza que ausência de Ateles e Pithecia do sudeste da Amazônia esteja relacionada a história de suas irradiações em relação a distribuição dos rios, embora em alguns casos específicos, como a ausência de Alouatta entre os Rios Ji-Paraná e Madeira seja de difícil interpretação, a não ser por fatores como epidemias. Cabe lembrar que este gênero é muito susceptível a febre amarela, grupos inteiros sucumbiram na IBC (MILTON, 1982). Por outro lado PERES (1997a) acredita que exista uma amostragem insuficiente de estudos com barreiras não fluviais na Amazônia que suporte previsões sobre distribuições dos primatas. Tal hipótese é suportada por inúmeras ausências de primatas em sítios dentro de sua área de distribuição, bem como grandes variações de densidade populacional dentro do bioma amazônico quando se compara sítios em terra firme com sítios permanentemente alagados.

Alguns autores (e.g. ANDERSON, 1978; HILL, 1962; JONES ; GEORGE et al., 1988) acreditam que a grande extensão de alguns rios amazônicos, como, por exemplo, o Rio Tapajós funcione como uma barreira geográfica. Tais estudos sugerem que o rio limitou a dispersão de vários grupos de vertebrados, inclusive primatas. Pithecia hirsuta, Cebus albifrons, Ateles

paniscus chamec, Callithrix humeralifera estão restritos a margem esquerda (oeste) do Rio

Tapajós no Parque Nacional da Amazônia (PARNA), próximo a Itaituba (PA). Por outro lado,

Ateles marginatus e Callithrix argentata leucippe estão restritos a margem direita (leste) na

Floresta Nacional do Tapajós (FNT). Os gêneros Alouatta e Callicebus exibem diferentes espécies nos dois lados do rio Tapajós. Alouatta nigerrina e Callicebus molock hoffmansi na margem esquerda (PARNA) e Alouatta discolor e Callicebus moloch moloch na margem direita (FNT). É provável que outras diferenças sejam encontradas com levantamentos mais intensos e de longo prazo (GEORGE et al., 1988).

Fora do Brasil os estudos de Terborg (1983, 1985, 1986), Terborg e Stern (1987) descrevem a comunidade de primatas melhor conhecida. Além dos estudos peruanos supracitados em Cascha Cochu, os estudos de Van Roosmalen (1985) no Suriname, embora auto-ecológicos (Ateles paniscus paniscus) merecem um olhar cuidadoso, pelo descrição botânica, de alto nível, de seus itens alimentares. Por outro lado, os estudos na IBC, embora abundantes, precisam ser encarados com alguma cautela, uma vez que o único primata residente,

depois do isolamento artificial da Ilha (abertura do Canal do Panamá) era Alouatta palliata.

Ateles geoffroy foi introduzido posteriormante, de modo que fenômenos ecológicos elementares,

como competição e compressão de nicho (FIGURA 18), colocam a famigerada Ilha sob suspeição, no que tange a sua “comunidade” de primatas. Sem falar nas epidemias de febre amarela e fome (e.g. FOSTER, 1982; MILTON, 1985). Eisenberg et al., (1979) escreveu “a sucessão vegetal, extinções locais e o desaparecimento de grandes predadores na IBC produziram uma comunidade zoológica um tanto artificil”.

Espécie A

Espécie B

Comunidade pobre em espécies Comunidade rica em espécies

H á b i t a t H á b i t a t Alimentos dentro do hábitat Alimentos dentro do hábitat Espécie C Espécie D Espécie A Espécie E Espécie G Espécie H Espécie I Espécie B Espécie F Espécie C

Figura 18- Ilustração esquemática da “hipótese da compressão”. A medida que aumenta o número de espécies que invadem um hábitat, a competição interespecífica força cada espécie a diminuir a gama de hábitats que explora; não obstante, a gama de alimentos ingeridos deve aumentar ou permanecer mais ou menos constante. Inversamente, se uma espécie invade um hábitat que está empobrecido em quantidade de espécies, a redução da competição interespecífica freqüentemente deve permitir uma expansão da variedade de hábitats ou microhábitats explorados. Está hipótese só é válida para o tempo ecológico e não faz referência as variações evolutivas do nicho Fonte: MacArthur e Wilson (1976)