• Sonuç bulunamadı

3.4. YEREL GÜNDEM 21 UYGULAMALARI’NIN

3.4.2. İşlevlerin Dönüşümü

3.4.2.3. İhtisas Komisyonları ve Stratejik Planlamada Kent Konseyi

A chegada do homem branco português, ou dos bandeirantes paulistas nesse território ocorreu em circunstâncias de perseguição às tribos ali estabelecidas. Alguns criadores de gado e vaqueiros representantes da Casa da Torre, como Francisco Dias de Ávila e Domingos Afonso Sertão (CHAVES, 2005, p. 136), já estabelecidos às margens do rio São Francisco na Bahia, utilizavam como pretexto das ocasiões em que afugentavam os índios das terras nas quais haviam estabelecido seus currais para, nas mesmas ocasiões, penetrarem mais profundamente ao território denominado por eles de sertão de dentro, dantes nunca penetrado pelo branco colonizador. O empenho pertinaz pela conquista da terra levou-os a enxotar os indígenas sob a alegação de que os mesmos teriam saqueado suas propriedades e seu gado, fatos estes relatados pelo colonizador, entretanto esses locais eram habitação temporária daquelas mesmas tribos, as quais estavam sendo banidas, pois os índios sempre voltavam para os lugares anteriormente habitados (MIRANDA, 2012, p. 32). De acordo com o processo de colonização, os aldeamentos estariam dentro do projeto português de ocupação do território. Entretanto os fazendeiros ali instalados os transformaram em mão de obra disponível e acessível ao colonizador.

Diferentes nações e tribos indígenas ocupavam os vales e as margens férteis dos rios Piauí, Canindé, Gurgueia, Uruçuí-Preto e Vermelho, Poti, Parnaíba, Longá, Surubim, Jenipapo e ali viviam livres nos campos e às vezes guerreando entre si pela disputa de

território antes da chegada do colonizador. Os deslocamentos das tribos pelas margens desses rios estavam associados às fontes de alimento ali abundantes por meio das quais poderiam suprir o seu sustento, especialmente nos períodos das chuvas. Esses espaços foram também os preferidos pelos colonizadores para a instalação das suas fazendas de gado, assim como de sítios para plantação de culturas de subsistência.

Figura 3 – Mapa da Província do Piauí – vilas, rios, serras e caminhos das tropas

A pretensão do colonizador em acumular riquezas a qualquer custo contrapõe-se à cultura naturalista das tribos que habitavam essas paragens. O regime sesmarial (BRANDÃO, 1995, p. 48) adotado para a distribuição das terras fomentou a fuga, a perseguição e o extermínio de inúmeras tribos como a dos Acoroás, Gueguês, Jaicós, Timbiras, Tremenbés, Alongás, que existiam no Piauí, além de instalar o latifúndio, que impedia o desenvolvimento e estimulava a centralização e concentração da terra e das riquezas (MOTT, 2010, p. 148- 149). Há registros históricos de iniciativas da Capitania do Piauí para a constituição de aldeamentos dos índios Acoroás em São Gonçalo do Amarante, os quais tendo iniciado em 1772, com o Mestre de Campo João do Rego Castelo Branco, somavam um total de 1.237 índios (MIRANDA, 2012, p. 38), chegando ao ano de 1774 com menos de quatrocentas pessoas (IDEM, 50-1). Enquanto os Gueguês, em número de 434, haviam sido aldeados em São João de Sende, próximo a Oeiras. Estes eram os remanescentes que haviam sido capturados depois de um grande massacre no qual sua nação havia sido quase toda exterminada pelo mesmo tenente – coronel João do Rego Castelo Branco, nas proximidades do rio Uruçuí-Preto, em 1765 (IDEM, p. 33). Entretanto, a direção arbitrária e cruel nos aldeamentos a que foram submetidas essas tribos conduziu-as a constantes deserções, fato este que induziu à perseguição e aos massacres em massa, contrariando o Diretório dos Índios do Pará e Maranhão, o principal documento da época, notadamente vigorando a partir de 1757. O referido Diretório refletia a política indigenista da era pombalina. Entretanto, quando esse documento entrou em vigor, o Piauí ainda estava vinculado ao Maranhão e, nessas terras, já se cometiam crimes bárbaros contra centenas de índios que não se submetiam a regimes de trabalhos forçados. O mesmo não autorizava a guerra ofensiva, apenas a defensiva, sendo esta última a mais praticada. Todavia, as leis da Coroa que protegiam as tribos indígenas e deveriam lhes garantir a sobrevivência e a liberdade não prevaleciam nessas terras (IDEM p. 59-60). Entre as autoridades dos índios e dos brancos havia acordos pautados no Diretório para manter a paz e o trabalho visando à prosperidade nos aldeamentos. Todavia, os brancos eram sempre os que descumpriam esses acordos, provocando a rebeldia das tribos aldeadas, notadamente nas questões relacionadas ao respeito às mulheres, aos trabalhos forçados e à falta de alimentos para a manutenção da comunidade. O desrespeito à cultura tribal indígena, a tentativa de submissão forçada e o descumprimento do diretório foram as razões principais das rebeliões indígenas, seguidas de saques e destruição das fazendas e povoações.

Pelos caminhos e trilhas, ora às margens dos rios, riachos, brejos e lagoas, ora no topo ou nos sopés das serras, nas matas, nos vales e nos campos do imenso “Sertão dos Rodelas”, ficaram vestígios, como os nomes do rios e de algumas localidades, além daqueles gravados

nas rochas (MARTIN, 1996, p. 209) ou se perpetuaram nas lendas e hoje são testemunhas dos antepassados daquelas diferentes tribos que migravam sazonalmente quando os colonizadores começaram a se estabelecer no Piauí e no Nordeste como um todo, pois, naquele trânsito constante, os indígenas percorriam grandes áreas que abrangiam grande parte dos estados do Nordeste. Esse mesmo território no qual os indígenas viviam foi também o mesmo cenário por onde adentraram portugueses, fazendeiros, sesmeiros, arrendatários, vaqueiros, agregados, sitiantes, agricultores, negros e escravos, mestiços, mulheres, crianças, viajantes (MIRANDA, 2012, p. 135) e padres em desobrigas como o Padre Miguel de Carvalho, que veio ao Piauí com a incumbência de fundar a primeira Freguesia, a de Nossa Senhora da Vitória na Vila da Mocha (NUNES, 2007, p. 101).

Antes de o Padre Miguel de Carvalho percorrer as terras do Piauí e estabelecer a Freguesia de Nossa Senhora da Vitória, em 1697 (CARVALHO, 2009, p. 18), outros padres, especialmente da Companhia de Jesus, já haviam deixado registros nessas paragens, notadamente em sua estada no aldeamento da Serra da Ibiapaba, o qual se tornou uma referência por ser um dos maiores existentes no Brasil colonial, inferior apenas ao existente no sul em áreas de litígio entre portugueses e espanhóis. O aldeamento localizado no topo da Serra da Ibiapaba, na divisa entre o Ceará e o Piauí, acolhia centenas de índios que buscavam refúgio contra a perseguição e exploração dos fazendeiros e colonizadores portugueses. Nos aldeamentos também havia regimentos organizados para a defesa da própria povoação, entretanto, os fazendeiros viam-nos como uma espécie de exército de reserva, os quais eram solicitados pelo governo para lutarem em momentos críticos de guerra contra outras tribos não domesticadas ou que haviam se rebelado e realizado saques e incendiado propriedades. Em circunstâncias de guerra, o índio era o melhor soldado e sem ele não havia como desencadear a guerra. Esse tipo de exploração causou o maior mal aos aldeamentos, levando à sua descaracterização e extinção em fins do século XVIII, afetados também pelos problemas da miscigenação com a entrada no Piauí de uma grande leva de migrantes das capitanias vizinhas, como cearenses e pernambucanos que fugiam da seca (MIRANDA, 2012, p. 95-8).

Sobre essas questões, se pode observar uma prática recorrente do colonizador de tentar convencer os índios aldeamentos para guerrearem contra os índios de tribos inimigas. Essa era uma prática constante adotada pelo Mestre de Campo do Piauí e administrador do Aldeamento de São Gonçalo do Amarante, João do Rego Castelo Branco. O mesmo fato ocorreu nos demais aldeamentos, inclusive no da Ibiapaba, quando o mesmo chegou a ser anexado por ordem real à Capitania do Piauí em 1715 (NUNES, 2007, p. 118) com a finalidade exclusiva de os índios aldeados colaborarem com o processo de apaziguamento

entre índios e brancos, ao tempo em que combatiam os demais índios que se rebelavam e saqueavam fazendas e povoações. Como se pode perceber, os aldeamentos sofriam com essa manipulação dos fazendeiros que obtinham o apoio dos governadores das capitanias, submetendo-os a combates no qual, sem o reforço dos índios, seria fatalmente confirmada a derrota.

Naquela época, por volta de meados do século XVII, não havia uma delimitação exata dos territórios entre Ceará, Maranhão e Pará, sendo que o lado ocidental da serra que delimitava a fronteira entre o Ceará e o Piauí era compreendido como uma extensão do Maranhão (NUNES, 2007, p. 74). Os Jesuítas que administravam o aldeamento da Ibiapaba mantinham contatos com tribos indígenas do norte do Piauí, por onde já faziam desobrigas em 1696 e introduziam o gado antes da passagem do Padre Miguel de Carvalho quando o mesmo percorreu o Piauí, registrando tudo o que viu, cumprindo assim sua tarefa junto ao bispo de Pernambuco, Dom Francisco de Lima. Os Alongás, os quais habitavam os vales banhados pelos rios Longá e Poti ao norte da Capitania do Piauí, passaram a buscar proteção no aldeamento da Ibiapaba. Depois dos confrontos com o colonizador branco, eles costumavam descer a serra e percorrer até a foz do Rio Poti, terras essas que posteriormente passaram a pertencer à Freguesia de Santo Antonio do Surubim, localidade situada na confluência dos rios Longá, Surubim e Jenipapo na qual o Mestre de Campo Bernardo de Carvalho Aguiar havia montado um arraial militar e fixado moradia por volta de 1691, depois da campanha militar contra a tribo dos Pracatis, ou Percatis (MELO, 1988, p. 8-11).

O Padre Miguel de Carvalho, quando da sua passagem pelo norte do Piauí, relata a existência de vários sítios instalados nas terras dos Alongares e de gado que havia sido conduzido pelos jesuítas da Ibiapaba. Para ele, essas terras ainda não haviam sido conquistadas. Logo depois da passagem do Padre Carvalho, os paulistas e representantes da Casa da Torre que já haviam passado por aquelas terras começaram a fixar fazendas e currais e avançaram em direção à Serra da Ibiapaba com a intenção de chegar ao mar e, a partir de então, passaram a entrar em choque com a ação catequética dos jesuítas. Os padres da Companhia de Jesus estabelecidos no aldeamento da Ibiapaba encaminham reclamação ao Bispo do Pernambuco e este a encaminha em forma de denúncia à Metrópole contra a ação intimidadora e ávida dos bandeirantes sempre desejosos de impor o seu domínio por mais terras onde deixavam seus arrendatários.

O Padre Ascenso Gago se expressa a respeito dos representantes da Casa da Torre dizendo:

[...] “que mais zelam seus gados que o bem das almas”. [...] “Porém tudo se pode crer dos que em este sertão tão distante, fora das justiças e governadores, e tão esquecidos de Deus, vivem à lei da vontade, sem obedecer a outra alguma, mais que à Casa da Torre, de quem dependem” [...] NUNES, 2007, p. 105-106).

Em face dessas denúncias, o conselho Ultramarino tomou as seguintes deliberações: “[...] que os possuidores de terras no Piauí que as não cultivassem por si, seus feitores, colonos ou constituintes, as perdessem, e que as mesmas terras fossem doadas a quem as denunciasse [...]” (NUNES, 2007, p. 105-6). Com essa decisão, pode-se prever o desencadear de uma série de conflitos entre sesmeiros e posseiros.

A ação e o poder dos representantes da Casa da Torre já haviam sido denunciados pelo Padre Miguel de Carvalho na sua Descrição do Sertão do Piauí, de 1697, na qual ele assim se pronuncia:

De todas essas terras são senhores, Domingos Afonso Sertão e Leonor Pereira Marinho, que as partem de meias. Têm nelas algumas fazendas de gados seus, os mais arrendam a quem lhe quer meter gados, pagando-lhe dez reis de foro, por cada sítio e, dessa sorte estão introduzidos donatários das terras, sendo só sesmeiros, para as povoarem com gados seus, em tanto que até as igrejas querem apresentar, e esta nova queria fundada debaixo do título da sua (CARVALHO, 2009, p. 22).

Dessa forma e a partir de uma política adotada pela Coroa Portuguesa de concessão de sesmarias aos desbravadores das terras desconhecidas foram se configurando no território piauiense os grandes latifúndios doados pelos governadores do Pernambuco, da Bahia, do Pará e Maranhão e surgindo a partir daí um grupo detentor do poder além dos limites piauienses.

A porção do território brasileiro que hoje corresponde ao Piauí era conhecida como o “alto sertão do São Francisco” ou como o “sertão dos Rodelas”, de “Cabrobó”, no Pernambuco (CHAVES, 1998, p. 133). O sertão dos Rodelas, assim chamado em razão da presença da tribo dos Rodeleiros, como foi denominada pelo colonizador em razão do seu corte de cabelo arredondado, porém, tratava-se da tribo dos Acoroás que foram aldeados em São Gonçalo do Amarante a partir de 1772 pelo mestre de campo, o capitão João do Rego Castelo Branco, o qual preou, aldeou, explorou, perseguiu e exterminou cruelmente centenas de Coroás, Gueguês, Timbiras, Jaicós, Jenipapos e tantas outras existentes no território piauiense e que não aceitaram a submissão e se confrontaram com os apresadores, na totalidade das vezes por não concordarem com a invasão das suas terras e não aceitarem a

prática cruel com que eram tratados os seus semelhantes. Sentindo-se desrespeitados, organizavam a fuga dos aldeamentos em busca de liberdade nas matas (MIRANDA, 2012, p. 43).

O Piauí passou a configurar-se oficialmente quando, no final do século XVII, foi estabelecida a sua primeira freguesia no vale da Mocha (BRANDÃO, 1995, p. 33-5), na região centro do atual Estado, com abrangência para o sul do território, o qual naquela época ainda permaneceu por muito tempo tendo o sul vinculado à jurisdição do Pernambuco e da Bahia e o norte ao Maranhão. Dessa forma, parte do Piauí era compreendida como uma extensão das capitanias vizinhas, e, na política colonial, justificava-se a doação de várias sesmarias no Piauí arranjadas pelo governo do Pernambuco e da Bahia, motivo esse que contribuiu posteriormente para múltiplos conflitos entre posseiros e sesmeiros, razões essas que favoreceram a mudança da Jurisdição do Piauí, anteriormente vinculada ao Pernambuco, para a jurisdição no Maranhão, pois “os posseiros do Piauí, o que queriam de fato era fugir do foro da Bahia e Pernambuco, onde sentiam o peso da prepotência dos sesmeiros” (NUNES, 2007, p. 111).

Em meio a essas questões relacionadas à doação de terras, os vaqueiros e posseiros estavam sempre em desvantagem em relação aos sesmeiros, pelo simples fato de que os

Ricos sesmeiros, senhores de grande prestígio, viviam em Salvador e Olinda, onde frequentavam os salões dos governantes e sabiam como conduzir seus pedidos solicitamente acolhidos pelas autoridades quase sempre comprometidas em virtude da liberalidade dos magnatas. Já os posseiros não tinham por vezes recursos materiais para tão longa viagem em busca das capitais, e não eram afeitos aos rebuliços da cidade, quanto mais às lides pragmáticas dos paços governamentais. Transferidos seus litígios para a jurisdição do Maranhão, de mais fácil acesso e longe dos potentados da Bahia e Pernambuco, esperavam mais facilmente obter e fugir da opressão que padeciam (NUNES, 2007, p. 111).

As reclamações tinham como argumentos favoráveis o fator da proximidade do Piauí com o Maranhão. Na estada do Padre Manuel de Carvalho no Piauí, por ocasião da instalação da Freguesia da Mocha, ele tomou conhecimento desses fatos e conduziu as queixas dos colonos, dos índios e dos padres do Piauí a Lisboa. Entretanto, em Carta Régia de 3 de março de 1700, a mudança já estava efetuada em favor dos moradores do Piauí (NUNES, 2007, 110- 112). A partir daquela resolução, os dízimos da Freguesia da Mocha, que outrora se destinavam a Pernambuco, passariam a pertencer ao Maranhão. Todavia vai se perceber que,

por conta desses mesmos dízimos, o bispado do Maranhão se opôs à criação do bispado do Piauí.

Como se pode perceber, o período da instalação da primeira freguesia no território que atualmente corresponde ao Piauí ainda não se encontrava juridicamente definido nem seu governo devidamente estabelecido. Com a criação oficial da Capitania do Piauí em 1718 (BRANDÃO, 1995, p. 33), ainda não se resolveram de imediato essas questões mencionadas, pois o primeiro governo somente se instalou em 1759, sendo que, em 1761, o governador recebeu, a 19 de junho, a Carta Régia que reiterava a determinação para a criação das seis primeiras vilas, numa tentativa de se estabelecer na capitania os primeiros núcleos urbanos. Todavia, na avaliação do governador João Pereira Caldas, naquele mesmo ano, somente a Vila de Parnaguá e Surubim apresentavam condições favoráveis para tal empreendimento. Porém, como era uma determinação Régia, o governador procedeu à execução de tal medida. A Vila da Mocha foi elevada à categoria de cidade e capital da Capitania com o nome Oeiras do Piauí e as demais vilas ficaram assim estabelecidas: Nossa Senhora do Livramento de Parnaguá, em 3 de junho; Vila de Jerumenha, no local em que se julga ter sido o antigo Arraial dos Ávilas, em 22 de junho; Vila de Campo Maior na sede da Freguesia de Santo Antonio do Surubim, em 8 de agosto; na localidade Testa Branca, na Freguesia de São João da Parnaíba, na qual havia apenas quatro casas, instala-se a Vila de Parnaíba que posteriormente é transferida para o Porto das Barcas às margens do rio Igarassu, um dos braços do rio Parnaíba no Delta, local mais povoado, no qual foi instalado o Pelourinho em 18 de junho; na Freguesia de Nossa Senhora do Desterro, funda-se a Vila de Marvão do Piauí, a 13 de setembro; e na Freguesia de Nossa Senhora dos Aroás, a Vila de Valença do Piauí, em 20 de setembro (NUNES, 2007, p. 152-5). E assim estava organizada a Capitania de São José do Piauí, até então sujeita à interferência das capitanias vizinhas.

Entretanto, para Melo (1993, p. 25), a vinculação com o Maranhão, notadamente religiosa, vai perdurar até a instalação do bispado do Piauí em princípio do século XX, depois de quase um século de empenho do clero piauiense nesse propósito, sem o devido apoio e interesse da diocese do Maranhão, que, em certos momentos, até boicotou o projeto, justificando que no Piauí não havia recursos para tanto, enquanto que os recursos do Piauí alimentavam os cofres daquela diocese. Muitos entraves políticos, administrativos e religiosos impossibilitaram o Piauí de gerenciar sua autonomia desde o princípio da sua colonização.

Importante é notar, também, que o período de instituição efetiva do governo na Província de São José do Piauí aconteceu em um período de crise política, econômica e religiosa com a expulsão dos Jesuítas do Brasil. Consequentemente, o imenso patrimônio

doado aos padres da companhia de Jesus por Domingos Afonso Mafrense havia sido confiscado e passaria a integrar o patrimônio da Coroa, devendo o mesmo ser administrado pelo governador da Capitania (DIAS, 2008, p. 27). A partir desse período, há um predomínio da organização e administração local, sendo João Pereira Caldas, cidadão português, o primeiro a governar o Piauí. João Pereira Caldas destacou-se por suas qualidades pessoais e administrativas e forte influência na monarquia portuguesa, fato que corroborou para que o mesmo governasse o Piauí por cerca de dez anos ininterruptamente, de 1759 a 1769, quando foi transferido para a capitania do Gão-Pará com sede em Belém, chegando a concentrar em 1777 a administração de três capitanias: a do Grão-Pará, Piauí e Maranhão, época em que Portugal e Espanha encerraram, pela assinatura do Tratado de Santo Idelfonso, as querelas pelo domínio das terras no sul do Brasil nas fronteiras com os países vizinhos, onde estavam instaladas as missões jesuítas (CARVALHO, 2008, p. 64).

A perseguição ao índio já vinha sendo executada desde a entrada dos primeiros exploradores e catequizadores no “Sertão dos Rodelas”, em princípio do século XVII, e, a partir de então, os confrontos e massacres se prolongaram por todo o século XVIII. No primeiro quartel do século XIX, a condição dos indígenas havia se agravado ainda mais pelos novos problemas que passaram a enfrentar: o pequeno número nos aldeamentos, a invasão das suas terras pelos retirantes das capitanias vizinhas que fugiam da seca, como pernambucanos e cearenses, a miscigenação que se tornou mais acentuada nessa época e a falta de uma ação efetiva do governo no sentido de protegê-los em suas pequenas propriedades e núcleos familiares.

Sobre essas questões, Chaves (2005, p. 136) relata que desde 1674 os índios já viviam uma “grande inquietação”. Os Gueguês foram atacados e houve matança de cerca de quinhentos homens em 1676. Mulheres e crianças foram escravizadas. Em 1679, os Tremembés mantinham o controle na costa, nas ilhas do Delta e impediam o tráfego dos brancos entre o Ceará e o Maranhão. A expedição de Vidal Maciel Parente empreendeu sobre os Tremembés atos de maior crueldade: “Os índios aliados, travando das criancinhas pelos pés, mataram-nas cruelmente, dando-lhes com as cabecinhas pelos troncos das árvores, e de uma maloca de mais de 300 só escaparam 37 inocentes” (CHAVES, 2005, p. 136). Nesses confrontos, com perdas irreparáveis, aumentavam o ódio e a rivalidade entre brancos e índios. O branco, além de invasor, detinha maior poder em armas de fogo. Entretanto, os índios