Concluir esta tese implicou num desafio, de superação cognitiva frente a necessidade auto imposta de análise sobre uma grande diversidade de dados.
Assim, incluindo o apêndice desta tese, busquei consolidar elementos que pudessem, ilustrar, exemplificar, fazer refletir, sensibilizar a respeito do cuidado e da conexão humana.
Tendo como tarefa metodológica o registro por meio de narrativas, um processo que conforme Roberto Cardoso de Oliveira (2000, p.17-35) envolveu o olhar, o ouvir e o escrever dentro de um longo espaço de tempo, compreendido ao longo de minha existência, pessoal, profissional e acadêmica.
Nesta tese está envolvido, um espaço de vida profissional e acadêmico significativo, e dela muitos fazem parte, muitos contribuíram, enquanto sujeitos de pesquisa, informantes, colaboradores, orientadores, portanto, tenho consciência plena que não é produto exclusivo meu, e sim de uma infinidade de pessoas que me proporcionaram seu legado escrito, seus pensamentos em livros, em textos os quais tive o privilégio de ler, de muitos Mestres, Professores que tive a felicidade de conviver, de inúmeras pessoas, agentes institucionais, institucionalizados (crianças e adolescentes em condição de abandono, vulnerabilidade social, econômica, mulheres e homens encarcerados) pessoas (sujeitos de pesquisa) com os quais tive a possibilidade de partilhar dores, sofrimentos, alegrias, bem como de toda uma diversidade de apoios de Colegas profissionais Docentes, alunos, amigos e familiares queridos.
Desta forma as considerações finais implicam num conjunto que envolve a vivência pessoal, acadêmica e profissional partilhada conforme descrevi, bem como de forma objetiva sobre os dados e aportes teóricos abordados.
Considero que a metodologia adotada contribuiu para atingir alguns dos objetivos, propostos, sendo que prioritariamente permitiu identificar enquanto objetivo geral, que na perspectiva da Psicologia existem dimensões que possibilitam definir e descrever a ética do cuidado enquanto conceito útil no campo das Instituições Socioeducativas e Sócio assistencial, e que podem ser definidos conforme segue nos resultados abaixo:
Apontar a realidade da exclusão social que permeiam os espaços institucionais, enquanto redutos de sujeitos que em grande maioria estão em condição de vulnerabilidade social, possibilitou atestar que apesar de todas as tecnologias sociais e econômicas contemporâneas, e do espaço urbano de maior índice de desenvolvimento no Brasil (a cidade de São Paulo), tais realidades (da exclusão social, e da vulnerabilidade) ainda é crescente.
Tais constatações fundamentam a perspectiva de pseudo cuidado, das contradições que envolvem a realidade de exclusão social aos conceitos da ética do cuidado e da conexão humana enquanto elementos psicológicos (subjetivos) instituídos.
Retomar alguns dados teóricos e dos resultados de pesquisa de minha dissertação, bem como de outras pesquisas relatadas, possibilitou o aprofundamento sobre a questão de que ainda que GILLIGAN não tenha proposta uma teoria a respeito da “conexão humana”, creio que foi possível evoluir no pressuposto sobre a correlação entre o “cuidado” , “conexão humana” e a questão ética e moral, e da importância destes elementos no processo psicológico de construção da auto regulação humana, de forma dinâmica e interligada com as esferas sociais e institucionais (individuais-sociais – interacionais).
Conclui-se também que outro objetivo alcançado través da metodologia adotada, foi estabelecer a correlação entre o conceito de ética do cuidado que envolve a dimensão universal de conexão humana, com as questões educacionais e culturais.
Ficam ratificadas as questões relacionadas frente a necessidade de superação do preconceito, e da aceitação do diferente, da diversidade e da pluralidade para a efetivação de um ideal de cuidado, e ampliação do campo de abrangência moral, de auto regulação na esfera do cuidado e da conexão humana.
Verifica-se uma correlação entre as capacidades de conexão humana, e cuidado com o desenvolvimento psicológico moral e ético.
Da mesma forma, esta correlação implica em contradições, e que podem contribuir ou não para a autonomia ou heteronomia moral, bem como para ampliação ou reducionismo da conexão humana na perspectiva do cuidado.
Analogamente, tais correlações implicam nas dinâmicas e práticas profissionais e institucionais, principalmente no campo da Psicologia e educação.
Nesta trajetória de pesquisa foi possível identificar que o cuidado e a conexão humana estão incorporados no ordenamento jurídico das modernas democracias, especialmente sob a perspectiva dos direitos humanos.
É possível identificar a importância dos marcos legais consolidados a partir de uma ética do cuidado, permitindo estabelecer a necessidade de metas institucionais que possam romper as assimetrias atualmente existentes, e apontadas por meio das estratégias metodológicas e de análise teóricas adotadas.
Esta questão impôs situar a interface entre Psicologia e Educação, e das variáveis psicológicas implicadas no cuidado e na conexão humana.
Neste aspecto, os dados abordados apontam que atualmente, no campo das políticas públicas, e das instituições públicas, as assimetrias entre o querer cuidar e o dever cuida são evidentes em diversas das instituições concretas citadas.
É possível afirmar também que as possíveis negligências institucionais em relação ao direito de ser cuidado por parte dos institucionalizados (excluídos socialmente) se referem a questões conjunturais e não propriamente estruturais, ficando evidenciada a necessidade da adequação das instituições (do reordenamento institucional, humanização das prisões, prevalência do educativo ao punitivo), da formação de recursos humanos, e da implantação de programas pedagógicos adequados, entre outras ações, com o objetivo de contribuir para a formação moral e ética dos agentes institucionais envolvidos.
Relacionado às escolas, verifica-se seu papel fundamental enquanto processo secundário de socialização e de contribuição no processo de construção psicológico na perspectiva ética do cuidado, considerando-se os dados de análise e reflexão segundo Roberto da Silva (2000, 2001), e o conceito de “cidadania vulnerável”, bem como os dados do expressivo numero de adolescentes e adultos institucionalizados compulsoriamente (nas Prisões e Fundação Casa) e que evadiram, ou passaram pelas escolas públicas; seria importante repensarmos sobre o papel social da escola, do compromisso frente ao seu objetivo fundante no aspecto ético e de instrumento de transformação social.
Em relação a função social da escola, seu objetivo não pode estar vinculado meramente e exclusivamente às logicas utilitaristas, produtivas, da ideologia e modelo econômico liberal e capitalista, pois tais paradigmas não atendem, e são ineficazes para o desenvolvimento de uma auto regulação, uma perspectiva moral autônoma, e muito menos para qualquer pretensão de uma ética do cuidado.
Assim, associado a função social da Psicologia, a interação com a comunidade, o incentivo às práticas, aos diálogos envolvendo a participação plural, da diversidade, admitindo e respeitando as diferenças entre todos os envolvidos (alunos, familiares, comunidade, professores, gestão, poder público), pode contribuir significativamente de forma prática para o desenvolvimento da autonomia numa esfera de conexão humana ampliada, e não individualista.
Atividades formais (programáticas, curriculares), e informais especificamente sobre temas morais e éticos, envolvendo as diferenças culturais e dentro de paradigmas universais de cuidado, respeito, reciprocidade enquanto direito, também poderiam potencialmente trazer a escola para uma perspectiva de Instituição de cuidado, e frente a sua missão, frente ao compromisso fundante original, de uma instituição transformadora numa perspectiva ética.
Também, segundo o levantamento sobre os elementos e dados analisados, verifica-se que o cuidado enquanto dimensão de auto regulação e ética se desenvolve a partir de um processo sócio interacional, comunitário que envolve elementos aprendidos, valores específicos (do cuidar em si, frente aos direitos humanos, da preservação ambiental, entre outros) em torno do respeito, da reciprocidade, e do compromisso coletivo autônomo (do dever transformado em querer) no plano universal, sugerindo-se então que as lacunas desta tese sobre tais constatações, possam ser melhor compreendidas a partir de novas pesquisas.
Diante desta conclusão, é possível sugerir sobre a importância da perspectiva da Pedagogia Social (SILVA; SOUZA NETO & MOURA, 2009) associado a perspectiva de uma Psicologia social Comunitária, e Psicologia Política, enquanto proposta concreta frente à contribuição em prol de concepções teóricas e práticas que permitiriam potencialmente intervenções institucionais, pessoais formais e informais em vários espaços sociais, comunitários e instituições, as quais a escola ou o ensino regular não abrange.
Por meio da referida proposta, pode-se desenvolver atividades, reflexões, trocas, interações, vivências que promovam e contribuam para uma ampliação do campo de conexão humana na perspectiva ética do cuidado.
Significa concluir que, a perspectiva de uma ética do cuidado esta vinculada a proposta de ações transformadoras na Psicologia, e na Pedagogia, de “uma educação para a liberdade” (FREIRE, 1974, 2007), de uma visão socialmente e politicamente compromissada, com um projeto ético, de uma ética do cuidado. (LANE & CODO 1984; BARÓ, 1996).