Apresentar dados sobre o encarceramento no Brasil, e principalmente sobre o encarceramento de mulheres no estado de São Paulo, e as questões que envolvem as políticas públicas, ou as instituições de Pseudo Cuidado, implicam na estratégia de retomar dados e análises de pesquisa realizadas anteriormente conforme já mencionado, e abordados em BRAUNSTEIN (2007), e sustentar através destes dados e análises algumas possíveis perspectivas para que se possa pensar sobre algumas Instituições de cuidado para a questão.
Conforme dados da referida pesquisa “Mulher encarcerada”, coletados e analisados numa amostra de 353 entrevistas de um universo de aproximadamente mil entrevistas, foi feito um recorte temporal compreendendo o período entre janeiro de 2001 e setembro de 2002, justificando que o referido recorte foi motivado por questões metodológicas e de viabilidade da pesquisa.
De modo geral, o universo das mulheres então encarceradas no Estado de São Paulo e mais especificamente, da Penitenciária Feminina do Butantã (PFB) na ocasião, revelou que:
Existe uma significativa baixa taxa de encarceramento proporcional à taxa histórica brasileira de encarceramento masculino, sendo que na ocasião da pesquisa segundo os dados do IBGE (Censo 2000) apontavam uma maior população de mulheres em relação a de homens no Brasil. (fenômeno este denominado como o “PARADOXO DO ENCARCERAMENTO DE MULHERES NO BRASIL”).
Que prioritariamente a punibilidade sobre a mulher, e o decorrente estigma que esta carrega durante e após o encarceramento (à prisão) tem forte vínculo com a moral religiosa católica apostólica romana, judaico-cristã, por fatores históricos e culturais geradores de inúmeras representações acerca do pecado, do estigma, do preconceito sobre a mulher que comete delito, ou na condição de encarcerada.
Principais dados coletados e analisados:
A maioria das mulheres eram oriundas da região sudeste do Brasil 77,90% Sendo que 68,84% do total da amostra nasceram no estado de São Paulo. Que a taxa de encarceramento de mulheres no Estado de São Paulo era quatro
vezes maior que a média nacional.
A maioria das mulheres eram Jovens (entre 19 e 29 anos - aprox. 57% ). Possuíam Escolarização – até Ensino Fundamental (84%).
Exerciam trabalho anterior à prisão 61,5% (baixa qualificação). 64% eram oriundas de famílias pobres.
79% eram MÂES, 46 % com até 2 filhos. 77% não tinham Companheiro (a).
Apenas 23% foram condenadas por crimes graves. 75% do total assumiam a condenação.
94% estavam encarceradas há menos de sete anos.
77% foram condenadas com sentenças inferiores a sete anos. 61% foram USUÁRIAS de DROGA / ÀLCOOL.
7% HIV + (Aids).
77% tinham contato com família + apenas 51% recebiam visitas. 81% mencionavam objetivos p/ com a família / filhos.
84% laudos favoráveis ( + p/ RA; LC).
Em relação à Psicologia moral o que tais dados podem indicar?
1- Que os aspectos relacionados a uma cidade ou estado desenvolvido na concepção capitalista, frente ao desenvolvimento econômico, e capacidade produtiva, não contribuem necessariamente para uma sociedade moralmente autônoma, à medida que os aparatos de controle social, policial, prisional são muito mais ostensivos, gerando taxas de encarceramento elevadas, e ao mesmo tempo, taxas de crimes e delitos elevadas, indicando a ineficácia da punibilidade e dos aparelhos de controle social promovido e subsidiados pelo estado e pela iniciativa privada.
2- Que grande parte da população feminina encarcerada, (64,02 da amostra) advém de famílias pobres denotando que não se pode correlacionar à prática delituosa a ausência de juízo moral, pois tal correlação seria reducionista, pois além de complexa, tal correlação é multifatorial e não implica apenas em fatores psicológicos, ou criminológicos, mas também em questões que atravessam a exclusão social, a falta de políticas preventivas consistentes que impeçam a proliferação da vulnerabilidade humana frente ao modelo econômico capitalista, contratualista elitista vigentes.
3- Que o juízo moral está também relacionado aos fatores socioeducativos e culturais associados aos níveis de escolarização, ou educação formal. Identificou-se que grande parte das mulheres da amostra apresentou baixo nível de escolarização (84,42% até o ensino fundamental), ratificando inúmeras pesquisas sobre o encarceramento masculino que apontam para índices semelhantes. Pode-se propor a hipótese que a escolarização formal contribui para a questão informativa, e formativa que viabiliza atuar e assumir papeis sociais mais qualificados, com maior nível de remuneração, bem como com o sentido de cidadania mais consolidado.
4- Que existem contradições entre o juízo moral frente às lógicas capitalistas e contratualistas. Quando analisamos algumas das histórias das mulheres que cometeram delitos, existem narrativas que apontam a prática de furtos para prover alguma falta material, e que se não houvesse tais circunstâncias (de privação material/econômica) a ação delituosa talvez não houvesse ocorrido. Frente a tal possibilidade de não cometer delito, associa-se a análise sobre as narrativas das mesmas mulheres que afirmaram arrependimento sobre o ato, por não terem pensado em alguma alternativa na ocasião. Neste contexto de análise evidencia-se a privação material, ou econômica como motor (motivação intrínseca) para a prática delituosa.
5- Que a realidade concreta dentro de uma lógica capitalista excludente revela os paradoxos contemporâneos sobre o juízo e ação moral, à medida que na narrativa de muitas mulheres aparecem nas práticas delituosas da venda de drogas ilícitas, por exemplo, como forma de subsistência, e sustento da família em detrimento de outros, denotando uma dimensão reduzida de abrangência ética e moral nas perspectivas do cuidado e da conexão humana.
De modo geral, as conclusões e considerações (análise qualitativa a partir dos dados) que foram feitas elucidaram o universo de uma Instituição de Pseudo Cuidado para as mulheres então encarceradas.
Evidenciou-se uma lógica pautada prioritariamente no “vigiar e punir” conforme FOUCAULT (1984), uma ausência de políticas públicas consistentes que pudessem garantir oportunidades de escolarização, e de respeito efetivo às garantias relacionadas aos direitos humanos fundamentais e de cidadania.
A ênfase das rotinas diárias na ocasião estava em grande parte absorvidas pelos rituais de revista, e vigilância, pelo trabalho em oficinas terceirizadas, em que muitos deles consistiam em atividades mecânicas, repetitivas, alienantes, e pelas atividades de higiene, e alimentação. É importante que se diga, que para muitas das mulheres em regime semiaberto as rotinas se davam em grande parte no exercício de atividades externas.
Um aspecto importante, é que a punição por meio do encarceramento era quase uma prática e lógica jurídica hegemônica, e assim, poucas mulheres na ocasião quando acusadas e condenadas por crimes contra o patrimônio, e de baixo potencial ofensivo tinham a possibilidade de terem de assumir penas alternativas, de trabalho comunitário por exemplo.
Atualmente, pode-se considerar que as Centrais de Penas Alternativas são uma realidade viável enquanto forma de punibilidade e eficácia no sentido sócio pedagógico, e da autonomia moral, ainda que sua abrangência seja pequena frente ao universo de encarcerados.
Complementando, seguem dados da referida pesquisa, alguns, atualizados e reorganizados por meio de tabelas e gráficos, a fim de facilitar a leitura e compreensão sobre aspectos relevantes e multifatoriais: