1991 SAS 3.392 1994 SAS 4.549 1996 SAS 5.334 1998 SAS 6.453 2000 SAS 8.706 FIPE 8.088 2003 SAS 10.394 FIPE 10.399 2005 FIPE 13.000 (aproximadamente)
Fontes: Secretaria da Assistência Social Logradouro e Albergues (Cidade de São Paulo) – SAS (abreviatura) - Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas – FIPE.
Segundo o “Blog Sem Teto”, em matéria postada em 06 de dezembro de 2007 Um estudo feito pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) revelou que existem cerca de 18.000 moradores de Rua na cidade de São Paulo. Deles, 84% são homens com idade média de 40 anos e a porcentagem de negros também é maior. Esta instituição busca fazer uma avaliação registrando o número de pessoas que moram nas ruas e sua distribuição pela cidade. Além disso, também colhem informações sobre a assistência que elas recebem e suas condições de vida para poder constatar o perfil socioeconômico dessas pessoas que acabam se tornando invisível aos olhos do resto da população. Moradores de rua não participam do censo do Instituto Brasileiro de Pesquisa de Geografia e Estatística (IBGE) pois, não possuem residência e na maioria das vezes nem mesmo R.G. No primeiro registro feito pela FIPE em 2000, foram constatados 8.088 moradores de rua, sendo que 4.395 passavam as noites na rua e 3.693 em albergues.A segunda pesquisa foi feita em 2003 e constatou 10.399 pessoas, sendo que 4.213 dormiam nas ruas e 6.186 em albergues. Em 2005 o número de desabrigados já estava por volta de 13.000 A maior parte de desabrigados está concentrada no centro de São Paulo, mas a grande maioria busca trabalhar como catador de recicláveis buscando alguma maneira de sobreviver. É muito importante ressaltar esses dados para que haja um planejamento de inclusão onde essas pessoas que vivem uma realidade tão cruel tenham alguma chance de resgatar sua dignidade e voltar a fazer parte do convívio social.
Texto Fonte: Blog Sem Teto: http://semteto.wordpress.com/category/moradores-de-rua/ (acessado em 01/02/2012) Fonte primária: http://www.fipe.org.br/web/index.asp?c=37&aspx=/web/home/noticia.aspx (acessado em 01/02/2012)
Frente aos dados quantitativos apresentados, verifica-se aumento da população moradora de rua em São Paulo, não sendo necessário dentro da perspectiva de um ideal de cuidado ou de uma ética do cuidado, conforme argumentações já expostas, a comparação frente ao aumento relativo da população em São Paulo, pois não se trata de buscar explicações relativas à proporcionalidade, às estatísticas numéricas, ao manejo, ou retórica em torno daquilo que já foi definido como uma condição que implica em injustiça social.
É importante destacar que não se pode buscar discursos normalizadores, naturalizastes relacionados a referida condição de vulnerabilidade social, ainda que pensemos na questão da autonomia, da liberdade que supostamente envolve morar na rua.
É fundamental que se pense no sofrimento expresso nos discursos de quem não tem casa, de quem vive a mercê das intempéries naturais, e humanas, é importante refletir sobre esta condição sem romantizá-la, sem justificá-la como uma condição que envolve opção, escolha.
Morar na rua e enfrentar as agruras das grandes cidades, não implica em escolha, mas na impossibilidade de escolher, implica na imposição decorrente de diversos fatores, marcados na história, na auto-biografia, na memória e narrativa de cada pessoa submetida à esta condição.
Ser morador de rua implica numa condição heterônoma, decorrentes de imposições de coerções de um sistema social que não atinge um ideal de um projeto ético, numa perspectiva de cuidado.
Diversas instituições de Pseudo cuidado contribuem para tal condição, entre elas destaco, o sistema econômico e político neo-liberal capitalista, a lógica consumista, da descartabilidade, da indiferença, do individualismo, da tecnicidade, burocratização e racionalização da relações humanas, entre outras, e que supostamente, são legitimadas em prol do cuidado de alguns em detrimento de outros, ou seja, de uma impossibilidade de efetivação de um projeto ético.
Pertinente a discussão e a questão em pauta, bem como em relação aos comentários e análises acerca dos dados quantitativos expostos, creio que cabe trazer para a reflexão uma citação de DEJOURS (2006, p.142 - 143):
Na filosofia moral, o medo está do lado do mal, sendo tão condenável quanto a fuga. A psicodinâmica do trabalho contesta a condenação unívoca do medo e da fuga. A tradição filosófica opõe ao medo a coragem, que é a resposta da virtude e da razão ao medo. A psicodinâmica do trabalho mostra que, diante do medo, constroem-se também respostas defensivas que concernem à racionalidade pática e não unicamente à razão moral. Mostra igualmente que certas estratégias defensivas contra o medo podem perverter a coragem; e que, entre estas, algumas podem ter consequências trágicas. Pois às vezes elas geram, por seu turno, condutas coletivas que podem se colocar a serviço do mal e da violência, tanto assim que podemos legitimamente nos perguntar se o medo (que aliás pode se manifestar sem que haja violência ou ameaça real e efetiva) não seria ontologicamente anterior à violência, ao contrário da idéia segundo a qual a violência seria antecedente e originária a infelicidade dos homens. Em outras palavras, a ética propõe uma resposta global: coragem quer dizer não ter medo. Tal resposta parece insatisfatória. Ela deveria também segmentar-se e fornecer explicações precisas sobre cada etapa de um processo que, embora concernente à racionalidade prática, oferece no entanto algumas oportunidades para o exercício da razão ética. Somente se pode esperar reação individual e coletiva diante da injustiça infligida a outrem – à feição de solidariedade ou a ação política – se o sofrimento e o sentido desse sofrimento forem acessíveis às testemunhas. Em outras palavras, a mobilização depende principalmente da natureza e da inteligibilidade do drama vivido pela vítima da injustiça, da violência e do mal. Porém o sentido do drama é ainda insuficiente para mobilizar uma ação coletiva contra o sofrimento, a injustiça e a violência. Para tanto é necessário não apenas que o drama e a intriga sejam compreensíveis, mas também que ocasionem o sofrimento da testemunha, que despertem compaixão. Somente então o sofrimento acarreta sofrimento para o sujeito que percebe. Esse é um elemento essencial à formação de uma vontade de agir contra a injustiça e o sofrimento infligidos à outrem. A compaixão não depende apenas da natureza do drama, mas também dos meios empregados para comover a testemunha, para atingir-lhe a sensibilidade.[...]
Embora DEJOURS, esteja enquanto pano de fundo embasado numa discussão formulada por Hannah Arendt, e seu conceito de banalização do mal, a partir de diversas referencias entre elas a questão histórica do genocídio em massa promovido pelo nazismo, não se pode ignorar a pertinência desta reflexão e a realidade atual dos moradores de rua.
Desta forma, pode-se relacionar que o motor ainda que pontual para a mobilização contra a injustiça social, para a mobilização e ação em favor de outrem, requer conforme DEJOURS, coragem, compaixão, sentir em si mesmo o que o outro sofre (empatia), ou seja, requer conforme proposição desta tese uma autonomia moral frente ao dever cuidar, uma amplitude universal de conexão humana, uma ética do cuidado.