3.2. Tükenmişlik ile İlgili Kavramlar
3.2.2. İş-Yaşam Doyumu
Em cap‚tulos anteriores, salientou-se como tem sido mais prejudicial que benˆfico aos estudos do poeta de Sulmona, o fato de Ov‚dio cercar-se de certa aura de exotismo e de pitoresco. Isso se d† por v†rios motivos, dos quais j† se falou anteriormente. No entanto, convˆm aprofundar um deles em especial, o que trata do suposto ex‚lio do poeta, de Roma para os confins do impˆrio, o Ponto Euxino (atualmente Mar Negro), regi…o hoje pertencente Š Rom‡nia. Tal suposi„…o ˆ prejudicial porque n…o se a sup™e apenas como possibilidade, mas, ao contr†rio, costuma-se tom†-la como certeza absoluta, como verdade inquestion†vel. Mostrou-se antes que a refer‡ncia hist•rica do ex‚lio est† estranhamente embasada nas refer‡ncias liter†rias, nos versos do poeta, e que tal base ˆ, no m‚nimo, merecedora de desconfian„a quando serve a prop•sitos hist•ricos. Mas n…o ˆ o que acontece em geral. Ao contr†rio, o ex‚lio, uma vez estabelecido como certeza, torna-se ponto de partida e passa a ser um viˆs anal‚tico pra se estudar a poesia de Ov‚dio. N…o por sua qualidade estˆtica – ou a falta dela, se fosse o caso – mas principalmente pelo fasc‚nio que a vida romanceada e cheia de peripˆcias do sulmonense, criada por ele mesmo, do modo como ˆ descrita em seus pr•prios versos, traz.
N…o fosse s• o fato de a maioria dos cr‚ticos e historiadores da literatura estar cometendo um prov†vel equ‚voco de ordem biogr†fica – e aqui se pode afirmar tratar-se mesmo da maioria –, j† que a certeza de que tenha ocorrido tal ex‚lio ˆ bem question†vel, ocorre tambˆm uma espˆcie de desvio ou invers…o, pelo fato de que se
ˆ que o motivo de atra„…o de um leitor ou estudioso para com a obra de Ov‚dio, em um primeiro momento, tende a ser o suposto ex‚lio e todo o pitoresco que o fato traz, uma vez que o autor costuma ser apresentado por esse viˆs. Usam-se os versos, geralmente, mais para “provar” o ex‚lio – como se isso fosse poss‚vel s• atravˆs deles – que para analis†-los. Quando isso ˆ feito, no entanto, como j† se viu em parte da cr‚tica mais tradicional, atravˆs dos autores abordados, h† uma desqualifica„…o dos poemas, por “n…o serem cl†ssicos”, mas, ao contr†rio, exagerados, ret•ricos, e toda a sorte de demˆrito, pesando a sombra do idealismo do modelo anterior sobre essa poesia t…o singular. Por essa raz…o, j† se mencionou, aqui, que o ep‚teto do sulmonense ˆ “o poeta do ex‚lio”, antes que qualquer outra caracter‚stica.
H†, ainda, o absurdo de se rebaixarem os poemas ditos “do ex‚lio” como produ„…o tecnicamente inferior, j† que teriam sido escritos no desespero e na pressa do poeta, sem nenhuma outra fun„…o que a bajula„…o para a absolvi„…o junto ao imperador. Dessa maneira, os fatos hist•ricos, tirados dos pr•prios versos, acabam por condenar e determinar a qualidade dessa poesia. Parece que, uma vez tomado o pior caminho, a sˆrie de equ‚vocos entra em l•gico funcionamento. Mas a l•gica n…o elimina o equ‚voco.
Como prova de que, tradicionalmente, o ex‚lio foi tomado como certeza a priori, pode-se citar v†rios excertos, de v†rios autores tradicionais, bem como de outros mais modernos, que partilham do mesmo ponto de vista, que ˆ tambˆm ponto de partida para uma decorrente sˆrie de afirma„™es e ju‚zos temer†rios. Apenas para n…o fugir Š regra, tome-se Bignone uma vez ainda:
Estas poes‚as libertinas y sensuales, juntamente com outro motivo que nunca pudo ser aclarado, al que Ovidio designa con el nombre impreciso de error fueron las causas que indujeron a Augusto, que se propon‚a reformar las costumbres, y debi• estar preocupado por la participaci•n de Ovidio en un esc†ndalo (quiz† los amores de Julia, sobrina de Augusto), a relegarlo en el …no 8 d. C. a Tomi, hoy Constanza, em las orillas del Mar Negro. En vano solicit• el poeta durante a•os, en vida de Augusto y luego durante el principado de Tiberio, que se le concediera el retorno, o outra residencia para su vejez. Del destierro s•lo le liber• la muerte, que lo alcanz• en la tierra odiada, probablemente en el a•o 18 d. C. (1952, pp.317-318)
› uma hist•ria simplesmente romanesca, e Bignone refor„a suas cores, com o torneio estil‚stico de sua frase: “do desterro s• o liberou a morte”. Ov‚dio, parece, foi o
principal personagem criado por ele mesmo. Os rumos da cr‚tica e historiografia futura s• fizeram aumentar o alcance da hist•ria exagerada criada para esse eu-l‚rico que, mais do que brincar com as palavras, tambˆm brincava com sua suposta realidade, mas de forma poˆtica, impr•pria para que, a partir disso, fossem tiradas conclus™es hist•ricas e biogr†ficas. Mas dentro desse devaneio que ˆ tomar um fato liter†rio por hist•rico, h† todo o tipo de suposi„…o, desde o nome de Augusto, que no poema n…o aparece, como os motivos do banimento: “quem sabe os amores de J•lia, sobrinha de Augusto”, ou mesmo as “poesias libertinas e sensuais”. Sobre os poemas, ainda h†, nas Tristia, clara indica„…o a eles. O eu-l‚rico ovidiano fala em “carmen et error”, e de fato d† ind‚cios l•gicos de estar falando de seus poemas de tema mais libertino, como os presentes em A Arte de
Amar. Mas n…o s• isso n…o d† veracidade ao ex‚lio, como qualquer sorte de suposi„™es
sobre o “error” carece de um fundamento mais embasado.
Outro que segue os rumos de Bignone ˆ Poullain: “Ovide •tait ‘relegu•’ pour une
faute myst•rieuse. Fut-il complice de l’ adult•re de la petite fille d’ Auguste, ou d’ intrigues contre Livie, contre Agrippa?” (1948, p. 98). Enfim, uma vez estabelecidos os
contornos do absurdo, qualquer alternativa ˆ v†lida. Ov‚dio cita, como motivo do desterro, um error e um carmen, mas de modo muito genˆrico e deliberadamente impreciso, principalmente quanto ao error. Ao carmen, logo relacionou-se os poemas mais libertinos, e ˆ poss‚vel aceitar-se, com l•gica, que esse eu-l‚rico esteja citando A
Arte de Amar, como pode-se observar no seguinte trecho da primeira elegia do primeiro
livro dos Tristia: “‘Olha o meu t‚tulo’ [Ov‚dio ordena o que o livro Tristia deve dizer aos leitores ao chegar em Roma], diz, ‘n…o sou preceptor de amores; tal livro j† sofreu as penas merecidas’” (Ov‚dio. Poemas da Carne e do Ex‚lio. P. 45. Trad.: Josˆ Paulo Paes. S…o Paulo: Cia das Letras, 1997). Mas sobre o error, toda e qualquer suposi„…o passou a ser v†lida, desde quest™es pol‚ticas, como as citadas por Poullain, como quest™es pessoais, de um suposto esc•ndalo dentro do seio familiar de Augusto, do qual Ov‚dio teria participado de alguma forma, como citam tanto Poullain quanto Bignone.
J† Dina Maria Baptista Abreu, no seguinte excerto, aprofunda ainda mais a verificada ingenuidade na cren„a pia do ex‚lio, j† que chega atˆ mesmo a sentir pena do poeta, em seus percal„os pelo caminho de Roma atˆ o Ponto Euxino, falando da “viv‡ncia” dele, e, mais uma vez, n…o da poesia, atribuindo o ex‚lio a uma “ordem de Augusto”, mesmo que o pr•prio Ov‚dio n…o tenha escrito isso, e, por fim, apresenta o fato, mais uma vez conden†vel, de justificar uma afirma„…o sua, de cunho biogr†fico, atravˆs de versos do pr•prio poeta (et in terra...), como se constata a seguir:
Estes versos autobiogr†ficos, extra‚dos dos Tristia, colocam-nos perante a viv‡ncia sofredora, mas resistente de um poeta que, enfrentando v†rios perigos, se vira obrigado a empreender uma longa viagem por mar desde Roma atˆ Tomos (lugar onde ficara exilado por ordem de Augusto) conhecendo nesta travessia as adversidades dos ventos, das ondas e das tempestades que o conduziram a uma terra b†rbara e de in•spitos litorais, e que n…o era sen…o outra forma do mar adverso (...et in terra est altera forma maris4. Pon. 3.78) (As imagens n†uticas na poesia amorosa e na poesia do ex‚lio de Ov‚dio: a prop•sito dos Amores e dos Tristia. In: Ágora. Estudos Clássicos em Debate 4. Universidade de Aveiro, 2002, pp. 79-80)
Tambˆm no j† citado artigo de Eliana da Cunha Lopes, tratado em cap‚tulos anteriores, h† a confus…o entre o homem Ov‚dio e o eu-l‚rico ovidiano. Nesse caso, a autora ainda refor„a a idˆia dessa mistura, para que n…o restem d•vidas:
Ov‚dio ˆ o pr•prio eu-l‚rico; os d‚sticos eleg‚acos, enquanto express…o da dor, refletiam o sentimento do poeta e do homem, um •nico ser exilado. O poeta convivia no interior do homem, insepar†veis na dor. O homem a pedir clem‡ncia ao Imperador e o poeta transformando este pedido em versos eleg‚acos. Ov‚dio (P•blio Ov‚dio Nas…o), objeto do nosso trabalho, foi o •nico poeta latino que sofreu as puni„™es mais cruˆis impostas pelo Imperador Augusto. O AMOR et DOLOR marcaram a trajet•ria da vida do poeta sulmonense: AMOR, por Corina, na VRBS e DOLOR, no ex‚lio, no Ponto Euxino. (LOPES, s/d)
Para ela, pois, poeta e homem s…o “um •nico ser exilado”, j† que acredita piamente que o ex‚lio, citado por Ov‚dio em seus pr•prios versos, ˆ fato de certeza ineg†vel. E continua com tal proposta em que os n‚veis se confundem, ao afirmar que “o poeta convivia no interior do homem, insepar†veis na dor”. Entenda-se, aqui, “o poeta” como sendo o eu-l‚rico de Ov‚dio. Curioso ˆ que fora dos versos de Ov‚dio, dos fatos liter†rios apresentados por esse eu-l‚rico, n…o h† o homem Ov‚dio. O eu-l‚rico reclama as dores padecidas pelo ex‚lio; o homem, n…o, j† que n…o h† fonte que n…o seja liter†ria para comprovar a suposta informa„…o de que esse homem tenha sido, de fato, exilado. H† que se abstrair primeiro o homem desse eu-l‚rico, para, depois, entend‡-lo como ser hist•rico. Para Lopes, desse modo, o ex‚lio descrito nos versos ˆ verdade mais que
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inabal†vel, portanto, n…o h† o que se questionar, a partir do que ˆ poss‚vel tra„ar uma rela„…o entre o biogr†fico e o liter†rio, mesmo que s• haja o liter†rio.
Depois, a autora ainda cita os fatos do amor e da dolor, presentes na poesia de Ov‚dio, ligando Š VRBS, o primeiro, e ao Ponto Euxino, o segundo. Mas n…o os trata como lugares liter†rios, e, sim, como os lugares f‚sicos, reais. Para ela, amor et dolor n…o marcaram a poesia de Ov‚dio, mas “marcaram a trajet•ria da vida do poeta”. No entanto, mais uma vez ˆ bom frisar, o •nico contexto em que tais locais t‡m vez ˆ o dos poemas. O que segue a isso s…o as mais curiosas abstra„™es, mas que n…o poderiam nunca ser tomadas como verdades a priori para toda e qualquer an†lise.
Se o •nico problema da cren„a cega e absoluta no ex‚lio ovidiano fosse para com os estudos que enveredam por esse caminho, o problema findaria neles, se restringindo a esse tema de an†lise. No entanto, como j† se disse no in‚cio deste cap‚tulo, parece haver uma aura de exotismo e um tom pitoresco no suposto ex‚lio, tornando o tema mais atrativo. Ov‚dio romanceou muito bem a vida desse eu-l‚rico, a ponto de ele ser um personagem interessant‚ssimo, sem d•vida. O fato ˆ, pois, que boa parte dos estudos sobre Ov‚dio tende a enveredar pelo assunto do ex‚lio, com pouco crivo a respeito da veracidade ou n…o do fato. A tradi„…o – em parte representada, aqui, pelos autores j† abordados – acabou por legar o ex‚lio como uma certeza incontest†vel, e Ov‚dio ˆ “o poeta do ex‚lio”, e esse acabou sendo o primeiro fator de atra„…o para sua poesia: o fasc‚nio que esse personagem traz, travestido de biografia. A esse respeito, comenta Mora, em artigo que ser† analisado mais adiante:
Como n…o podia deixar de ser, um tal enigma excitou a imagina„…o e agudizou o engenho dos estudiosos de todos os tempos, tal como aconteceu com outros mistˆrios como o conte•do concreto do segundo livro da Poética de Arist•teles, a autoria dos poemas da Appendix Vergiliana ou a cronologia das comˆdias plautinas. Porˆm, com uma diferen„a essencial: a natureza romanesca dos factos envolvidos na quest…o ovidiana e a total aus‡ncia de dados espec‚ficos deixavam o terreno livre para a especula„…o pura e para a conjectura nua, e davam azo Šs mais atrevidas e atˆ absurdas hip•teses. (O Mistˆrio do Ex‚lio Ovidiano. In: Ágora. Estudos Clássicos em Debate 4. Universidade de Aveiro, 2002, pp. 100-101)
E Mora conclui, de forma contundente, que o chamado “monotematismo”, no caso o tema do ex‚lio, ˆ, sem d•vida, prejudicial aos estudos anal‚ticos de Ov‚dio, visto que as aten„™es acabam por ficarem nele concentradas e, concomitante a isso, a an†lise do texto ovidiano, em si, fica em um claro segundo plano. Quando tal an†lise ˆ feita, ela
A infelicidade que este mistˆrio arrasta consigo ˆ o monotematismo a que, quase de maneira inconsciente, conduz os investigadores, coisa que nos obriga a lamentar o esfor„o malgasto em temas laterais Š pesquisa filol•gica, quando essa energia podia ter sido centrada no estudo das qualidades liter†rias da obra considerada per se. (2002, p. 101)
E se Mora acende uma luz nova sobre essa quest…o, ˆ com ele que se seguir† de ora em diante, e com sua interessante apresenta„…o da teoria de Brown a respeito do tema do ex‚lio, que torna poss‚vel pensar n…o s• que o ex‚lio n…o ˆ uma certeza absoluta, como tambˆm atˆ leva a crer numa maior probabilidade de que ele n…o tenha mesmo ocorrido. N…o que a exist‡ncia ou n…o de um fato biogr†fico deva ser condi„…o t…o importante para a an†lise liter†ria de um poeta, visto que ˆ dado secund†rio. Mas como parte dos estudos ovidianos, como se acabou de ver, acaba sendo, Šs vezes, desviada por esse suposto fato, todo esfor„o em estabelecer uma postura mais honesta, que corrija esse rumo, ˆ louv†vel. Mora “centrou sua energia” nisso tambˆm, e s• h† que admir†-lo por faz‡-lo.
3.2 A (plausível) possibilidade do exílio como mero artifício literário, levantada por