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1 KAVRAMSAL VE TEORİK ÇERÇEVE: EKONOMİK BÜYÜME VE YEŞİL BÜYÜME

1.1 EKONOMİK BÜYÜME TEORİLERİ

1.1.3 İçsel Büyüme Teorileri

A Vila Vicentina da Estância, também conhecida como Vila Cinzenta, remonta da primeira metade do século XX, tendo sua história ligada ao desenvolvimento do próprio bairro onde está situada, Dionísio Torres9, e a consequente expansão do espaço urbano de Fortaleza.

Conforme Duarte Junior et al. (2017), a Vila Vicentina está localizada em uma área que originalmente pertenceu a Gonçalo Baptista Vieira, o Barão de Aquiraz, posteriormente adquirida pelo farmacêutico Dionísio de Oliveira Torres, em meados de 1906.

Em 1938, o farmacêutico doou parte das terras para a entidade religiosa Sociedade São Vicente de Paula (SSVP) a fim de que fosse construída habitação de cunho social. Até então, a região ainda era marcada pela grande quantidade de áreas verdes, sem a presença de edificações e/ou equipamentos urbanos. Tais aspectos históricos podem ser observados a partir da leitura do cordel “A História da Vila Cinzenta”, escrito pela moradora Maria Onira de Albuquerque, no dia 07 de abril de 197010.

Fonte: Albuquerque (1980).

Atualmente, o bairro Dionísio Torres integra a área da Secretaria Executiva

9 Conforme a Lei nº 3.500 de 09 de dezembro de 1967, sancionada pelo prefeito José Walter Barbosa Cavalcante e secretário municipal de Administração Milton Pinheiro, o bairro que antes se chamava de Estância passa a ser denominado de Dionísio Torres, em homenagem A Dionísio de Oliveira Torres.

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Maria Albuquerque morreu há alguns anos, mas deixou essa valiosa descrição histórica da Vila, por meio da arte, que foi resgatada pelas lideranças da comunidade.

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Num recanto de minha cidade Num bairro pouco além Quase desconhecido por todos

Porém pertencia a alguém. 2

Era de um homem bastante rico Cheio de vida e fulgor Era amigo da pobreza Pois assim o demonstrou

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Doando êle êste recanto Para um grande senhor Passando por tinta e papel Com todo carinho e amor.

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Aqui, vou descrever Os frutos da mais bela ação

Tornando curioso a todos E causando admiração.

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No mundo em que vivemos Diante de tanta pobreza Sempre aparece alguém Dotado de nobreza.

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Falo de uma sociedade De um órgão beneficente Aqui deixo frisado o nome Dos confrades de São Vicente. Que transformaram aquêle recanto

Regional II da Prefeitura Municipal de Fortaleza, onde também estão localizados alguns dos bairros mais ricos da cidade, tais como Aldeota, Cocó e Joaquim Távora. A população do bairro está em torno de 15.600 habitantes, cuja renda média é de 2.700,05 reais (IPECE, 2012). Estruturalmente, dispõe de rede de abastecimento de água, de saneamento sanitário, energia elétrica, coleta de lixo, pavimentação, além da presença de equipamentos e serviços públicos nas proximidades, como unidades básicas de saúde e ampla possibilidade de acesso aos transportes públicos.

Dentro do bairro, a Vila é delimitada pela Avenida Antônio Sales e pelas ruas Tibúrcio Cavalcante, Nunes Valente e Dom Expedito Lopes (Ver Figura 1). A comunidade era composta por 42 casas pequenas de paredes conjugadas, com frentes para a rua e fundos para um grande quintal comunitário. Atualmente, conta com 34 casas, pois oito foram demolidas em outubro de 2016.

Figura 1 – Localização da Vila Vicentina

Fonte: Duarte Junior et al. (2017).

Os moradores relatam que sofrem há anos as ameaças de remoção, no entanto as ações mais efetivas para a retirada começaram em 2016, por meio de assédio moral, pressão psicológica e a efetivação de demolição de casas (CASAS...., 2016). O conflito se inicia quando a SSVP, alegando necessidades financeiras, vende o terreno da Vila para uma construtora de imóveis. Parte do conflito também se dá por não haver “um documento hábil de que a posse do imóvel fosse deles [SSVP]”, que possa “comprovar a propriedade, porque o registro do imóvel está no nome de Dionísio Torres doando para a sociedade São Vicente de Paula”, como relata Mayara Justa (MAIS..., 2018). Sem esse título de propriedade, não é possível a negociação da

área, assim como a instituição não pode reivindicar a pose do terreno da Vila.

Em entrevista concedida ao Observatório das Remoções (APÓS..., 2018), a advogada que acompanha o caso, Mayra Justa, relata que, naquele ano, um representante da construtora BSPAR pressionava os moradores para que aceitassem as negociações (um apartamento na cidade de Maracanaú ou uma quantia de 50 mil reais). Nessa ocasião, os moradores ficaram com medo de que a comunidade fosse vendida e eles não mais tivessem local para morar, então alguns aceitaram as ofertas e outros buscaram apoio no Escritório de Direitos Humanos Frei Tito de Alencar.

As casas negociadas foram demolidas no dia 28 de outubro de 2016, a partir de uma ordem judicial de reintegração de posse (Ver Figuras 2 e 3). Neste dia, pela manhã, chegou à comunidade um oficial de justiça, juntamente com policiais militares e trabalhadores para realizar o processo de reintegração, bem como demolir as casas. Na ocasião, três casas foram completamente demolidas e outras cinco foram destelhadas.

Com o alvoroço, a advogada Mayara Justa somente conseguiu, ao final do dia, suspender parcialmente a ordem de demolição das casas, com a determinação judicial de que qualquer ação de demolição resultaria uma multa de 100 mil reais por dia (MAIS..., 2018). Sobre a suspensão da demolição das casas, por porte do juiz José Cavalcante Júnior, as advogadas da SSVP apontaram que essa decisão foi em decorrência de “uma mídia sensacionalista e descompromissada com a verdade dos fatos”, levando o juiz a agir sob pressão de “[...] ativistas de boutique e políticos que se aproveitam da repercussão da causa para granjear popularidade” (FORTALEZA, 2017, p.6).

Como as casas são germinadas, a demolição ocorrida trouxe problemas para as demais casas, comprometendo as estruturas com infiltrações, rachaduras, etc., além de, no âmbito psicológico, deixar os moradores inseguros não só quanto a retirada da comunidade, mas também quanto a possibilidade de as casas acabarem desabando.

Figura 2 – Demolição de casas 1

Fonte: Diário do Nordeste (2006).

Figura 3 – Demolição de casas 2

Frente à iminência de demolição de toda a comunidade, a Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor) recebeu três pedidos de tombamento da Vila, solicitados, individualmente, pelos os vereadores João Alfredo (Partido Socialismo e Liberdade) e Guilherme Sampaio (Partido dos Trabalhadores) e o pelo professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará Romeu Duarte, sendo o pedido deste último atendido. Com isso, a Vila Vicentina recebeu o tombamento provisório, por um período de seis meses, para que estudos fossem realizados a respeito de sua relevância patrimonial, histórica e cultural para a cidade.

No período de fevereiro a maio, uma equipe, sob coordenação do professor Romeu Duarte, realizou levantamentos históricos, arquitetônicos, etc. sobre a Vila, gerando um relatório denominado Contribuição Técnica ao Tombamento Municipal da Vila Vicentina da Estância, em Fortaleza-CE (DUARTE et al., 2017). Este estudo foi entregue à Secultfor, onde uma equipe técnica da Coordenação do Patrimônio Histórico e Cultural da secretaria deve analisá-lo, juntamente com a realização de outros estudos, a fim de elaborar a instrução de tombamento da comunidade. Após essa análise, o Conselho Municipal de Patrimônio Histórico e Cultural (COMPHIC) emitirá um parecer, aprovando ou não o tombamento definitivo, devendo ser sancionado pelo prefeito Roberto Cláudio e pelo secretário municipal de Cultura da cidade.

Desde agosto de 2016, a comunidade vem recebendo apoio de diversos setores sociais, tais como dos advogados do Escritório de Direitos Humanos Frei Tito de Alencar,

pesquisadores do Laboratório de Estudos da Habitação (LEHAB) da Universidade Federal do Ceará, atores de movimentos sociais e alunos de graduação e pós-graduação de diversos cursos (Direito, Arquitetura, Psicologia, Publicidade, etc.) universidades. Ademais, para conseguir visibilidade e enfrentar as pressões, os moradores se organizaram em um movimento denominado Resistência Vila Vicentina, que realiza diversas atividades na comunidade (como oficinas, palestras, jogos, exposições, etc.) com o objetivo de atrair apoiadores. Após a realização dessas atividades, os moradores publicam fotos em uma página no Facebook, que recebe o mesmo nome do movimento de resistência, para aumentar as repercussões.

Importante pontuar nem todos os moradores fazem parte da Resistência, sendo este também um processo conflituoso dentro da comunidade. Dentre as famílias que moram na comunidade, vinte e uma desejam negociar as moradias e outras quinze resistem pela permanência. Estes últimos moradores, com os quais essa pesquisa foi realizada, afirmam que aqueles moradores que desejam sair, em muitos casos, parecem aceitar as negociações “com medo de sair sem nada da Vila”. No entanto, as negociações com a imobiliária parecem incertas,

uma vez que esta somente concretiza a negociação se todos os moradores aceitarem sair da comunidade.

A partir de entrevistas realizadas com os moradores da comunidade e a advogada Mayara Justa, Rocha (2017) compreende que o dilema principal entre os moradores que querem negociar suas casas se dá sob pressão que os torna polarizados entre o sair da comunidade “com alguma coisa” ou resistir contra “pessoas poderosas” e sair “sem nada”. Tal fato acirra ainda mais os conflitos internos dentro da comunidade.

Outro ponto de destaque sobre o caso da Vila diz respeito à sua localização em uma área compreendida como uma Zona Especial de Interesse Social (ZEIS). As ZEIS foram criadas em 1980 como estratégia para viabilizar a regularização fundiária de assentamentos precários, sendo um instrumento nacionalmente previsto no Estatuto da Cidade, conforme a Lei nº 10.257/2001. No Plano Diretor de Fortaleza (FORTALEZA, 2009, s/p.), são conceituadas como [...] porções do território, de propriedade pública ou privada, destinadas prioritariamente à promoção da regularização urbanística e fundiária dos assentamentos habitacionais de baixa renda existentes e consolidados e ao desenvolvimento de programas habitacionais de interesse social e de mercado popular nas áreas não edificadas, não utilizadas ou subutilizadas, estando sujeitas a critérios especiais de edificação, parcelamento, uso e ocupação do solo.

As ZEIS podem se configurar de três modos distintos, a saber, ZEIS do Tipo I, que são caracterizadas pelas áreas compostas por assentamentos irregulares, precários urbanística e habitacionalmente, construídos por ocupação desordenada, tanto em áreas públicas como privadas, por parte da população de baixa renda. As do Tipo II são compostas áreas parcialmente urbanizadas, onde há loteamentos clandestinos ou irregulares e conjuntos habitacionais (públicos ou privados), habitados por pessoas de baixa renda. As ZEIS do tipo III são compostas por aquelas áreas que apresentam boa infraestrutura, no entanto não há nos terrenos edificações ou imóveis inutilizados/subutilizados, devendo ser utilizadas para a implementação de construções habitacionais de interesse social (FORTALEZA, 2009).

Brasil (2016) apontam que essas áreas dão a oportunidade de efetivar avanços nos direitos relacionados à moradia para as classes mais pobres, previstos na Constituição e no Estatuto da Cidade. Principalmente porque as ZEIS têm como premissa prioritária a regularização fundiária, a fim de buscar diminuir as desigualdades socioespaciais das cidades brasileiras.

Em relação à Vila Vicentina, esta é chamada pelo Plano Diretor de ZEIS Dionísio Torres, que abarca todo o quadrilátero que a comunidade ocupa (FORTALEZA, 2009). Na Lei,

a Vila é concebida como ZEIS do tipo 1, por se tratar de uma comunidade de assentamento precário. Inicialmente, os moradores não sabiam que moravam em uma zona especial. A partir da atuação do LEHAB, os moradores tiveram conhecimento e passaram a se mobilizar, participando do movimento Frente de Luta por Moradia, que possibilitou que a comunidade entrasse para as dez ZEIS prioritárias no processo de implementação previsto no Plano Diretor, discutidas durante o ano de 201711 (APÓS..., 2018). Atualmente, a mobilização tem sido feita

para efetivar o processo de regularização das ZEIS que, juntamente com a possibilidade de aprovação do tombamento, garantirá que a comunidade não seja removida.

No capítulo seguinte, apresento o processo de delineamento dessa pesquisa. O objetivo principal consiste em descrever como a vivência nas atividades desenvolvidas na comunidade foi transformando tanto os instrumentais de pesquisa como o meu modo de enxergar a produção de conhecimento, alterando o curso de desenvolvimento desse trabalho.

11 As ZEIS prioritárias são: Bom Jardim, Mucuripe, Lagamar, Moura Brasil, Pici, Pirambu, Poço da Draga, Praia do Futuro, Serviluz e Dionísio Torres (Vila Vicentina).