Fonte | The Missionary, dezembro de 1901
Ela teve sua formação no Ensino Secundário, fazendo parte da história da abertura do Atheneu Norte-Rio-Grandense Feminino, em 1903, um dos poucos espaços de Ensino Secundário destinado à educação da mulher potiguar. Estavam entre as primeiras moças
matriculadas: Sidrônia de Carvalho, Maria Arminda Caldas, Edilbertina Figueira e Albertina Avelino. Elas foram aprovadas no Exame de Humanidades. A abertura dessa instituição denota a inserção da mulher no cenário educativo numa época, enfatizamos, em que eram poucas as escolas públicas destinadas à educação das moças e, mais, que ofereciam formação intelectual científica para estas.
Este aspecto nos permite problematizar a oferta de um Curso Normal em Natal por professoras não habilitadas pelas instituições do Rio Grande do Norte. Desde 1901, ou seja, antes mesmo de receber a formação secundária no Atheneu, a professora Sidrônia de Carvalho estava envolvida com a formação de normalistas. Ela registrava em setembro do referido ano no The Missionary que, ao lado da missionária Senhorita Reed, contribuía para a formação de moças professoras.
Acreditamos que o funcionamento desta Classe Normal estava em consonância com a determinação do Regulamento de Instrução Primária e Secundária (1892, p. 210) o qual asseverava que todos os estabelecimentos de ensino do Estado estavam sujeitos às suas determinações, acentuava o ensino será leigo e gratuito, como também afirmava:
Art. 6º. O ensino particular é completamente livre e independente. Qualquer pessoa, nacional ou estrangeira, poderá abrir estabelecimento de ensino, sujeito apenas às seguintes condições:
1ª. Comunicação prévia ao Diretor Geral da Instrução Pública declarando o nome do proprietário e Diretor, sua denominação e o local em que funcionará;
2ª. Apresentar no prazo improrrogável de oito dias, sempre que lhe for pedido por aquele funcionário, mapas circunstanciados da matrícula e frequência; indicados os nomes, idades, naturalidades e classes dos alunos; 3ª. Remeter anualmente ao Diretor Geral, de 10 a 20 de dezembro, o mapa do movimento anual do estabelecimento com as condições acima;
4ª. Exibir certificado de boas condições higiênicas do edifício, passado por autoridade competente.
Parágrafo Único. A falta de qualquer destas exigências acarretará multa de cem mil réis pela primeira vez, de duzentos pela segunda, e o fechamento do estabelecimento pela terceira.
As senhoritas Sidrônia de Carvalho, Maria Arminda Caldas, Edilbertina Figueira eram professoras primárias na Escola Presbiteriana, instruídas pela missionária americana Senhorita Reed. Em correspondência com o senhor Rankin, a professora Sidrônia acentuava:
A senhorita Reed nos ensina fora da escola. Temos atualmente apenas três salas de aula, e estamos muito apertados. Vamos nos mudar para uma casa maior em novembro; teremos então cinco boas salas de aula [...] a escola não
crescerá rapidamente, mas, aumentará com certeza. Temos alunos suficientes para dar a cada uma de nós experiência em como ensinar e em como administrar. Temos setenta e nove alunos matriculados este ano. Estamos aprendendo a amar nosso trabalho como a senhorita Reed faz. (NORMAL CLASS, 1901, p. 556).
No início do século XX, a história da Escola Normal de Natal esteve relacionada à Reforma do Ensino Primário que permitiu sua reabertura para a formação de professores e professoras, e a institucionalização de uma rede de Grupos Escolares, sendo o primeiro do gênero o Grupo Escolar Modelo Augusto Severo. A instituição primária servia de modelo às demais instituições elementares do Estado.
A história da Escola Normal mantém uma estrita relação com a implementação da instrução pública, em especial, com a instrução primária, uma vez que ela tinha por fim formar os professores que atuariam na instrução da infância.
No Rio Grande do Norte, particularmente em 1906, era reclamada uma instituição específica para habilitar professores para o magistério primário. O professor Francisco Pinto de Abreu, e então diretor do Atheneu Norte-Rio-Grandense, apresentava no relatório anual da Instrução Pública uma preocupação com os professores, especialmente com sua formação, como evidencia o relatório:
Urge providenciar sobre o preparo dos mestres, garantindo-lhes vencimentos compensadores; definir a competência municipal nessa matéria; rever os regulamentos para simplificar os programas e adotá-los às nossas condições de vida; reformar o sistema defeituoso de inspeção; restabelecer o fundo escolar, escriturado especialmente no tesouro, sabiamente previsto por uma lei de 1892, com a contribuição forçada de todos os municípios, incumbindo- se no Estado da construção de escolas e custeio do Instituto Profissional. (RIO GRANDE DO NORTE, 1906).
Em sua visão, a função do mestre deveria ser privilegiada através da garantia do seu bem-estar no exercício “da nobre missão social de ensinar”. Para ele, o professor deveria ser tão respeitado “como o vigário da freguesia, por ser um órgão indispensável de civilização” (RIO GRANDE DO NORTE, 1906). Sendo os poderes municipais os responsáveis pelos docentes, através dos quais se alcançariam a moral, o direito e a política que honrasse e felicitasse o povo.
Finalmente, a Escola Normal de Natal foi criada em 13 de maio de 1908 com o objetivo de preparar os professores e aperfeiçoar a Escola Primária do Estado. Instalou-se nas dependências do Atheneu Rio-Grandense com suas cadeiras providas mediante contrato e a
sua direção confiada ao Diretor Geral de Instrução Pública do Estado, Francisco Pinto de Abreu, que também era um dos lentes do Atheneu e foi, portanto, o primeiro seu diretor.
A primeira turma formada pela Escola Normal de Natal, em 04 de dezembro de 1910, diplomou os seguintes professores:
Luiz Antônio dos Santos Lima, Severino Bezerra de Melo, Manuel Tavares Guerreiro, Anfilóquio Carlos Soares Câmara, Francisco Ivo Cavalcanti, José Rodrigues Filho, Luiz Garcia Soares de Araújo, Ecila Pegado Cortez, Judite de Castro Barbosa, Áurea Fernandes Barros, Olda Marinho, Stela Vésper Ferreira Gonçalves, Beatriz Cortez, Arcelina Fernandes, Guiomar de França, Anita de Oliveira, Francisca Soares da Câmara, Maria Natália da Fonseca, Maria Abigail Mendonça, Maria das Graças Pio, Clara Fagundes, Maria da Conceição Fagundes, Maria Julieta de Oliveira, Maria Belém Câmara, Maria do Carmo Navarro, Helena Botelho, Josefa Botelho. (O ENSINO, 1910, p. 1).
Dentre os diplomados na primeira turma havia vinte professoras e sete professores. Se acentuava a tendência para a feminização do magistério, notada em outras regiões do país como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. (ALMEIDA, 1998, p. 56). Os homens abandonavam as salas de aula e a feminização do magistério ganhava espaço. A inserção feminina na Escola Normal era a possibilidade que a mulher dispunha de se engajar no mundo do trabalho, uma vez que tal possibilidade não subverteria as funções femininas: ser mãe, esposa e dona-de-casa. Eram funções cumulativas.
Após a diplomação, os professores estavam habilitados a lecionar nos Cursos Primários público e privado. Para ser credenciado como professor público provisório, o docente passava por exames nos quais constavam os principais pontos da prática nestes estabelecimentos primários. Fazia parte da avaliação uma prova escrita com a descrição de um passeio escolar, a apreciação de uma Festa da Árvore e de uma festa nacional realizada na escola, cujo tema seria a influência da educação na formação do caráter nacional.
O estabelecimento de ensino funcionou no Atheneu Norte-Rio-Grandense até 31 de dezembro de 1910. No ano seguinte, mudou-se para as instalações do “edifício escolar de mais amplas e majestosas proporções”, o Grupo Escolar Augusto Severo. À época um moderno prédio escolar instalado na Praça homônima, no Bairro da Ribeira, em Natal. “Todo mundo sabia que era ali a Escola Normal, mas se dizia que era o Grupo Modelo” (MORAIS, 2006, p. 76). Desse modo, além da escola elementar modelo, o prédio passou a abrigar a instituição de formação para o magistério.
Nesse estabelecimento funcionavam os três elementos que compunham uma Escola Normal de segundo ciclo, que era a formação de professores primários em três anos, um Grupo Escolar e um Jardim Modelo, que serviam à prática das normalistas. A partir de 1910 o Ensino Normal passou a ser ministrado em quatro anos e compunha-se das seguintes disciplinas: Português, Francês, Aritmética, Noções de Geometria teórica e prática, Geografia Geral e particular do Brasil, História Geral e particular do Brasil, Educação Moral e Cívica, Noções de Física e Química aplicadas à vida prática, História Natural aplicada à agricultura e à criação dos animais. Este corpo de conhecimentos gerais e científicos era ministrado nos dois primeiros anos. Eram disciplinas especializadas que dotavam o Curso Normal de um caráter propedêutico à profissão docente. As disciplinas que compunham os dois últimos anos consistiam em: Pedagogia, História da Educação, Economia e Leis Escolares, Higiene Escolar, Desenho, Princípios de Música e Cantos Escolares, Trabalhos Manuais, Economia e Artes Domésticas (para o sexo feminino), Educação Física e Exercícios Infantis. Por fim, o local da prática seria no Grupo Escolar Modelo Augusto Severo. Esta experiência prática no cotidiano de uma instituição primária introduzia os docentes no magistério e dava ao Curso Normal aspectos instrumentais.