II. Eserleri
2.1. Milli Dinler
2.1.8. Hint Dini/ Hinduizm
O Centro Ideal Ferroviário foi criado na cidade de S. Paulo, como entidade beneficente e congregacionista dos ferroviários. Ele surgiu “primitivamente em 23 de julho de 1927, sob a denominação de Associação Ideal de Auxílios Mútuos, passando em 16 de fevereiro de 1929 a chamar-se Centro Ideal Ferroviário”206. Suas primeiras notícias demonstram o caráter pretendido por seus organizadores:
“Com referência ao abaixo assinado datado de 5 de janeiro último [1928], (…) que trata da fundação de um Centro Ferroviário na Contadoria desta Estrada, cabe-me declarar que nada tenho a opor, desejando à nova Associação prosperidade que a tornem útil a todo o seu pessoal.
Saudações,
Gaspar Ricardo Júnior”207
“Depois de tomar conhecimento dessas valiosas palavras do Sr. Diretor da Estrada”, é que se formou o Centro Ideal. Podemos ver claramente o caráter submisso dessa entidade, que procurava ser apenas mais um centro de beneficência dos ferroviários, entretanto, com planos mais ambiciosos. Sua submissão pode ter sido uma estratégia de controle do conjunto da Administração da empresa, visto que surgiu dentro de uma das sessões mais próximas da Diretoria, instalada no mesmo espaço físico e contando em sua direção com ocupantes de altos cargos na empresa, além da receptividade demonstrada por Gaspar Ricardo Jr. e da promoção pela EFS ao longo dos anos.
205
Letícia B. CANÊDO, O sindicalismo bancário em São Paulo. No período de 1923 – 1944: seu significado
político.
206
O Apito, n.° 12 de 30/06/1931.
207
Revista Nossa Estrada, Maio de 1930. Essa revista era o órgão oficial de imprensa da Estrada de Ferro Sorocabana.
Em maio de 1930, o Centro Ideal possuía o “elevado número de 235 sócios”. Contava com os seguintes departamentos: “1.º Beneficência; 2.º Médico Cirúrgico; 3.° Farmacêutico; 4.º Odontológico; 5.º Biblioteca; 6.º Instrução; 7.º Cooperativa; 8.º Pecúlios; 9.º Construção; 10.º Recreativo, Esportivo e Musical e 11.º Identificação”. Suas propostas eram, até maio de 1930, “1.º [criar] o dia do ferroviário; 2.º seleção [do pessoal] ferroviário; 3.º [confecção de] distintivo; 4.º [criar] tipo único de caderneta e identificação”, além de planejar construir a “Cidade Ferroviária”208.
Para esse último projeto, o Centro Ideal pleiteou, mas sem sucesso, a doação por parte da empresa, de uma área para a construção de sua “Cidade Ferroviária”209. Esse ambicioso projeto, não realizado, estava em consonância com seus objetivos expressos em Estatuto, no “Artigo 2.º - A sociedade, cujo principal fim é o bem-estar e o progresso dos servidores da Estrada, deverá proporcionar aos sócios e suas famílias, defesa de interesses da classe ferroviária, habitação em casas higiênicas e modernas, instrução, diversão e assistência: beneficente, cooperativista, jurídica, dentária, médica especializada etc.”
Não poderíamos deixar de notar a pretensão de tom sindical desse Artigo 2.º do Estatuto do Centro Ideal: “defesa dos interesses da classe ferroviária”. Com a legalização e oficialização do sindicalismo a partir do decreto de março de 1931, mesmo ano de publicação da revista, podemos supor, com base na literatura a respeito, que trata do sindicalismo de grupos “amarelos” ou mesmo favoráveis ao patronato, que a direção do Centro Ideal pretendia tornar-se o sindicato oficial da categoria, pois seu grupo dirigente era composto por homens que só atuariam legalmente e sob o consentimento e patrocínio da empresa.
Em junho de 1931, o Centro Ideal mandou ofício a Gaspar Ricardo Jr., Diretor da EFS, cumprimentando-o e solicitando um “necessário, sem dúvida nenhuma, incentivo oficial” em apoio à “florescente agremiação ferroviária”, “que veio preencher enorme lacuna”. Expôs sobre o bairro ou cidade ferroviária ambicionada e pediram uma sala para sede própria na estação de São Paulo ou no prédio da Caixa de Aposentadorias e Pensões dos Ferroviários da EFS e desconto em folha das mensalidades seus sócios210.
208
Nossa Estrada, Maio de 1930.
209
O Apito, n.º 4 de 28/04/1931.
210
Mesmo existindo e atuando o Sindicato Ferroviário do Estado de São Paulo, lançou- se a idéia da formação de um Sindicato dos empregados da EFS a partir da estrutura e aproveitamento dos elementos da direção do Centro Ideal.
“Causou grande entusiasmo entre os funcionários da Estrada de Ferro Sorocabana, a notícia da organização de um sindicato, com os elementos atuais do Centro Ideal Ferroviário e de conformidade com a legislação do Decreto Federal 19770 de 19 de março de 1931.
(…)
Por todos esses motivos e outros que, ao seu tempo, iremos demonstrando, urge que trabalhemos, nós ferroviários, para que o Sindicato dos Empregados da E. F. Sorocabana se transforme em promissora e radiante realidade”211.
Antes mesmo dessa notícia, em novembro de 1931, o Centro Ideal procurou lançar uma campanha de formação de uma Caixa para construção de casas para seus associados. Em outros momentos, o vemos assumindo a representação da categoria, assim como o redator da revista O Apito, no que se refere a formação de comissões de chefes para tratar junto à diretoria da EFS, ou, junto ao Secretário de Viação, de aumentos salariais, supressão da cobrança de imposto sobre o ordenado e salários dos trabalhadores da EFS.
Um dos fatores que provavelmente barraram a pretensão dos diretores do Centro Ideal Ferroviário foi a baixa adesão inicial da massa dos trabalhadores à entidade. Há notícias periódicas nas revistas O Apito e Nossa Estrada, sobre o baixo comparecimento de seus sócios nas Assembléias Gerais, que deveriam eleger a Diretoria de cada mandato de dois anos. Às vezes, a realização da Assembléia era adiada para outra data, outras vezes, realizadas com o baixo número de sócios presentes.
Em setembro de 1931, a redação de O Apito criticou severamente a condução da direção do Centro Ideal, no fato da excessiva permanência de um triunvirato provisório, até a reforma do Estatuto da associação:
“(…) Esse regime ditatorial a que está sujeito o Centro Ideal Ferroviário anda há meses em conflito com os propósitos iniciais dos que o dirigem atualmente”.
E tanto contrasta com o bom senso essa eternização no poder de quem a ele ascendeu para uma gestão transitória, que ficamos a conjeturar, muito ao nosso pesar, na possibilidade de os triúnviros (…) se terem deixado empolgar pela altitude da missão, como se ela,
211
enchendo-os de honrarias, levasse-os inesperadamente ao apego dos que se empolgam pelo fastígio e dele é um caro custo conseguir que se apeiem”212.
A partir daí, podemos supor que o elitismo e exclusivismo daqueles que organizaram e dirigiram o Centro Ideal, tenham impedido, durante muitos anos, a filiação de grande número de trabalhadores. Talvez, essa baixa associação em geral também fosse reflexo da conduta submissa da entidade em relação à empresa.
Em 1933, houve polêmica entre os sindicalistas ligados ao SFEFS, legalmente reconhecido e a diretoria do Centro Ideal, que também enviou memorial ao Ministério do Trabalho, solicitando reconhecimento da entidade como sindicato de classe oficial. Nos trechos transcritos abaixo, os sindicalistas parecem sugerir-nos que as atitudes dos diretores do Centro Ideal lhes eram hostis e guiadas por interesses antiproletários.
“Ainda há inconscientes?”
“[…] O Sindicato dos Ferroviários da Estrada de Ferro Sorocabana Foi Reconhecido Pelo Ministério do Trabalho A 22 de maio de 1933. É-nos de dever, entretanto, analisar a atitude bastante criticável daqueles nossos colegas, cujo lugar deveria ser ao nosso lado .
[…] Dizer que desconheciam as nossas finalidades, que ignoravam o verdadeiro sentido da nossa organização? Preferimos não acreditar. Os vários milhares de trabalhadores que compõem o nosso quadro de associados, evidentemente, constituem uma opinião muito mais apreciável, mais real, que a de alguns funcionários que formam a diretoria de um centro de beneficência. (…) No entanto, foi ao nosso lado que se formou a grande massa operária da Sorocabana - Porque o Sindicato não se fundou para arranjar associados. Foi das aspirações dos ferroviários da Sorocabana que nasceu a necessidade de um Sindicato de Classe. Por isso que ele não se confunde. Inúmeras Associações se têm formado com intenção de minorar os sofrimentos dos operários. A própria Sorocabana dispõe de várias. Entre elas o Centro Ideal Ferroviário.
(…) Por isso que os nossos colegas da diretoria do Centro Ideal Ferroviário erraram [ao confundir sindicato com beneficência]. E os erros podem ser corrigidos. As portas do Sindicato dos Ferroviários da Estrada de Ferro Sorocabana estão abertas a todos os trabalhadores de estrada de ferro”213.
Se antes havia um interesse não muito claro, foi a partir da instituição da representação classista na Assembléia Nacional Constituinte de 1933, que os dirigentes do Centro Ideal Ferroviário decidiram transformar sua entidade em Sindicato.
212
O Apito, n.º 18, Setembro de 1931.
213
“O memorial do Centro Ideal Ferroviário, apresentado intempestivamente, no momento em que se publica o Decreto regulamentando a representação classista para a Assembléia Nacional Constituinte, deixa transparecer patentemente, a falta de sinceridade que ditou a sua confecção, notadamente quando as vagas na representação profissional começam a despertar interesses estranhos às classes organizadas”214.
Pelo que diversos autores apresentam a respeito das articulações patronais e partidárias, além das sindicais, em especial Ângela Araújo215, para a participação e defesa de seus interesses nessa Constituinte, podemos considerar razoável a acusação dos sindicalistas contra o pessoal do Centro Ideal, especialmente tendo em vista seu caráter de submissão à empresa216. Veremos, em sub-item referente à formação e crescimento do SFEFS que, durante o ano de 1933, até a eclosão da greve em janeiro de 1934, houve atritos entre ele e a Diretoria da EFS, especialmente no que se refere ao reconhecimento do Sindicato pela Administração de Gaspar Ricardo Jr. Podemos supor que o Centro Ideal tenha se envolvido nessa querela e pleiteado seu reconhecimento oficial como sindicato, com o objetivo de esvaziar o SFEFS, talvez a serviço da Administração da EFS.
Outra hipótese, mais complementar do que diversa, é a de que o pessoal do Centro Ideal tivesse objetivos ideológicos nesse pleito, já que muitos elementos das chefias da Sorocabana demonstraram ao longo dos anos de nosso recorte temporal, simpatia aos ideais da “Revolução Constitucionalista” de 1932 e como elementos da classe média alta, alinhados politicamente à burguesia e cafeicultores.
De fato, a massa dos trabalhadores da ferrovia, estava, pela documentação consultada, com os sindicalistas. Derrotadas as pretensões do Centro Ideal em tornar-se sindicato oficialmente reconhecido, voltou novamente suas atenções principais às atividades beneficentes.
Voltamos a encontrar notícias do Centro Ideal em julho de 1934217, envolvido em atividade exclusivamente beneficente. A pretensão de construir a planejada “Cidade Ferroviária” foi esquecida e não se tocou mais no assunto. A partir desse mês, até o final do
214 Idem, ibd. 215
Ângela C. ARAÚJO, A Construção do Consentimento. Corporativismo e trabalhadores nos anos trinta.
216
Notemos que, boa parte dos diretores da EFS e dos ocupantes dos altos cargos dentro da empresa, apoiaram ativamente a chamada “Revolução Constitucionalista” de 1932. Foi instalada em oficinas na Capital, uma divisão de munições e nas oficinas de Sorocaba, foram montados os famosos “trens blindados”, além de se ensaiar a formação de pelotão de voluntários ferroviários, que seriam instruídos pelo MMDC, cf.
Nossa Estrada, números dos meses de Agosto e Setembro de 1932.
217
ano de 1939, a entidade desenvolveu a uma malograda campanha para a construção de um Sanatório para tratamento de ferroviários tuberculosos. Projetou fazer festivais e festas dançantes para arrecadar fundos; campanha pela doação de um dia de salário; pleiteou a doação de terrenos do Governo do Estado, através da Direção da EFS218, tudo para a construção do sanatório. Contudo, nos números dos meses e anos seguintes, foi registrada a dificuldade de arrecadar os fundos necessários para tal empreitada.
“Eu já não apelo. Exijo de cada um de vós, meus companheiros, concorrais com um dia de vosso trabalho para a campanha de nosso SANATÓRIO [sic]. Nosso sim, porque afinal de contas, não sabemos o que o destino nos reservou a cada um de nós em particular”219.
Em agosto de 1936, o articulista da Nossa Estrada lembrou a proposta de Gaspar Ricardo Jr. de aplicar 3% dos lucros dos armazéns de abastecimento, que deveriam ser distribuídos entre os consumidores trabalhadores em cotas. Propôs juntar esses recursos com os fundos acumulados até então pelo Centro Ideal, que eram ainda insuficientes para levar adiante o projeto do Sanatório. Consta que o fundo acumulado era de 13 contos de réis.
Inicialmente, o município escolhido para a construção do Sanatório para tratamento de ferroviários tuberculosos foi Campos do Jordão. Depois, considerou-se a possibilidade de construí-lo em S. Roque, município atendido pela EFS e considerado também portador de boas condições climáticas para o intento.
Em 1939, reuniram-se em esforço conjunto as entidades Centro Ideal Ferroviário, Sociedade 25 de Julho, Sociedade 25 de Dezembro, Sociedade Beneficente dos Maquinistas e Foguistas, Sociedade Beneficente União Protetora dos Empregados da EFS e ainda pretendiam conseguir o apoio moral e material do Governo, da EFS e da Caixa de Aposentadorias e Pensões220. Pouco mais tarde, o SFEFS também se uniu ao conjunto. Nesse mesmo ano, as entidades beneficentes e o sindicato se uniram para tentar levar adiante tal empreendimento e pleitearam junto ao Ministro do Trabalho, convidado à uma visita às oficinas de Sorocaba e à sede da Delegacia Regional do SFEFS221 nessa cidade.
218 Nossa Estrada, Junho de 1935. 219
Idem, ibd.
220
Nossa Estrada, Abril de 1939.
221
Supostamente para elevar seu número de sócios, o Centro Ideal reformulou seus estatutos, inserindo o parágrafo único do Artigo 1.º, de seu Estatuto222, para aceitar o ingresso de ferroviários de outras estradas pertencentes ao Estado223.
Através dessas reformas e de propaganda semi oficial da empresa em seu favor, durante quase todos esses anos, o Centro Ideal chegou entre abril e julho de 1939, ter aproximadamente 4 mil sócios224; “já pagou 4:500$000 de pecúlio funeral”. “Como se vê, eis aí uma instituição de valor inconteste”.
“Sustentada pela iniciativa dos ferroviários da Sorocabana e sob direção de esforçados e abnegados colegas, o volume de benefícios financeiros que espalha entre os desafortunados companheiros (…), coloca o CENTRO IDEAL [sic] no mais alto conceito e apreço de todos os que mourejam nesta enorme colméia, que é a Estrada de Ferro Sorocabana”225.
O Centro Ideal foi criado antes do SFEFS e sobreviveu a este, embora não o tenha vencido, pois ao final de 1933, a primazia sindical sobre os ferroviários da Sorocabana estava totalmente decidida em favor do segundo.