Fleury (1996) afirma que algumas situações são potencializadoras da mudança na cultura das organizações. Dentre as situações relacionadas com o ambiente externo, cita as ações do Estado, os momentos de crise, de retração ou expansão da organização dentre outras. No que tange ao ambiente interno, aponta as novas lideranças, reorganizações do processo de trabalho e a introdução de novas políticas organizacionais. Pode-se dizer que a organização estudada, a partir de 1998, está sob o impacto de situações tanto do ambiente externo quanto interno.
Face a essa realidade, a Unimed-Alfa mudou sua forma de gestão para adaptar-se, sobreviver e crescer. Devido às mudanças que estão sendo implementadas, 100,00% dos entrevistados afirmam que a organização mudou seu jeito de ser. A TAB. 27 apresenta como a atual forma de gestão mudou o jeito de ser da cooperativa estudada.
TABELA 27
Como a atual forma de gestão mudou o jeito de ser da Unimed-Alfa
Itens discriminados %
Tornando a Unimed-Alfa uma empresa profissionalizada 50,00% Melhorando a qualidade do atendimento ao cliente / mudando o foco para o cliente 21,43%
Consolidando sua liderança de mercado 14,29%
Implementando a administração compartilhada 7,14%
Mudando o perfil de seus profissionais (pessoas independentes, isentas) 7,14%
Passando a exigir mais dos funcionários 7,14%
Renovando o quadro de funcionários 7,14%
Investindo mais em qualificação 7,14%
Passando a gerir a cooperativa como uma empresa 7,14%
Mudando os critérios para a admissão dos cooperados 7,14%
Aumentando a liberdade para se trabalhar 7,14%
Trazendo mais segurança para o cooperado 7,14%
Passando a ter uma gestão mais aberta 7,14%
Investindo na área de marketing 7,14%
Investindo na área de informática 7,14%
Aumentando a preocupação com a promoção da saúde 7,14% FONTE - Entrevistas realizadas na Unimed-Alfa.
NOTA – A soma das freqüências é superior a 100% por ter sido possível aos entrevistados darem mais de uma resposta.
Para os entrevistados, a Unimed-Alfa mudou seu jeito de ser principalmente tornando-se uma empresa profissionalizada (50,00%), melhorando a qualidade do atendimento prestado ao cliente (21,43%), assim como o perfil e quadro de funcionários, passando a cooperativa a ser gerenciada como uma empresa, por meio de uma administração compartilhada, que investiu em marketing e na informatização (7,14% cada), conforme depoimentos dos entrevistados.
“Agora, se você pegar hoje e comparar a Unimed com um tempo atrás, você vai ver que ela está muito mais profissional do que ela era. Ela está mais empresa do que ela era.[...] que eles passaram do sistema de informática, para de ... realmente de informação. Ela era muito carente disso. Agora as coisas ficaram mais profissionais” (ENTREVISTA 29).
“É uma empresa mais moderna, uma empresa que se preocupa com o relacionamento com o cliente, com os fornecedores, que busca parcerias. Acho que isso é um novo momento” (ENTREVISTA 21).
“... hoje se procura pessoas independentes, isentas, que não estejam em relação de cumplicidade nem com diretores nem com gestores, e que questionem, que façam, que se coloquem na relação com a empresa, com o superior e etc. Esse hoje é o perfil básico do profissional que se procura para cá. E isso é muito diferente. Daí que houve uma renovação muito grande do quadro, em função dessa mudança do perfil” (ENTREVISTA 2).
A Unimed-Alfa muda seu jeito de ser consolidando sua liderança no mercado (14,29%), pois “... a Unimed hoje, apesar de a concorrência ser muito mais intensa, muito mais pesada, a Unimed ela está cada vez aumentando mais. Assim, até agora nós estamos cada vez mais líderes” (ENTREVISTA 9)
“Mudou o jeito de ser da Unimed perante clientes, perante qualquer pessoa. Eu acho que a Unimed ela [...] com a atual forma de gestão, ficou muito mais líder no mercado. Eu acho que mudou, e tem mudado, e vai mudar mais. Porque ela tem se empenhado para isso” (ENTREVISTA 28).
A cooperativa passou a exigir mais dos seus funcionários (7,14%), a investir em sua qualificação (7,14%), aumentando a liberdade para se trabalhar dentro da organização (7,14%), conforme mostram os depoimentos de entrevistados.
“... a demanda é muito grande. Então a gente é bastante exigido tanto em negociações quanto em mudança mesmo em informática e tal” (ENTREVISTA 1).
“... a preocupação da administração atual com a qualificação dos funcionários... mais profissionais e competentes na área de trabalho” (ENTREVISTA 13).
“... eu acho que a partir do momento que você tem mais liberdade de trabalhar, você também dá mais liberdade para as pessoas trabalharem. Então eu acho que é muito melhor. O ambiente hoje é diferente do que era antigamente” (ENTREVISTA 29).
O jeito de ser da Unimed-Alfa muda também no que tange aos cooperados. Os critérios para a admissão (ou credenciamento) de associados não são os mesmos (7,14%) pois
“... você já pensou? Credenciamento. Sorteio para credenciar médico... Onde é que já se viu isso? Sortear médicos. Hoje não. Hoje tem que ter currículo e prática” (ENTREVISTA 25).
“.... agora a porta de entrada aqui é com concurso. Não tem mais condição de ser como era, porque antes era um negócio danado... indicação (ENTREVISTA 17).
Por outro lado, se mudaram os critérios para a admissão, há uma percepção de que a cooperativa hoje traz mais segurança para o médico cooperado (7,14%) porque
“... a Unimed hoje é uma Unimed mais aberta. Acho que a gente que é cooperado sente uma segurança maior. [...] ela [Unimed-Alfa] ficou para a gente muito aberta. Assim, a gente tem muita segurança de onde está pondo o pé. E a Unimed consolidou para a gente como... é o lugar onde a gente trabalha, é o nosso ganha pão, é a Unimed mesmo. Fortaleceu isso assim...” (ENTREVISTA 32).
Essas mudanças no jeito de ser da Unimed-Alfa estão relacionadas com a cultura da cooperativa. Retratam valores, crenças e hábitos que são compartilhados coletivamente. Estes podem ser observados em todas as dimensões da organização, ou seja, na estratégia, na estrutura, nas opções tecnológicas, na autoridade, enfim, em todos os aspectos que o coletivo organizacional compartilha (MOTTA, 2000).
As mudanças mostram que uma nova cultura está em construção na Unimed-Alfa. Diversas dimensões coletivamente compartilhadas, e que singularizam a organização, são expressão de sua cultura. Os valores, hábitos, interesses comuns, crenças, dentre outros aspectos da Unimed-Alfa, estão em transformação. As alterações tanto ligadas ao ambiente externo (a ação do Estado regulamentando a assistência médica suplementar e o aumento da concorrência) como ao ambiente interno (novas lideranças e políticas organizacionais, além da reorganização do processo de trabalho) foram potencializadoras da mudança na cultura organizacional da cooperativa médica estudada.
Considerando-se que a organização é um sistema de poder em que as pessoas ou grupos estão sempre tentando influenciar o processo decisório, essas mudanças que aconteceram na Unimed-Alfa foram o resultado do jogo de forças entre pessoas e grupos que compõem a organização. Essa é a dimensão política da análise organizacional que se examina a seguir.