Na primeira parte da análise, buscou-se observar de que maneira os documentos prescritivos apareciam nos PPPs das línguas, a maneira como eram resgatados e a importância disso para compor o sentido do texto. Nesta etapa, busca-se compreender esse sujeito discursivo que se elabora por intermédio de discursos outros e, no caso específico dessa pergunta que compõe a entrevista, questiona-se a importância dos documentos nacionais para a prática do professor e a intercessão existente entre eles e o PPP.
Eu acho que sim, quando eu cheguei aqui no Pedro II, eu me lembro de ter contato com essa questão da lei, do que se tem que fazer, do programa, e a gente tem que seguir, mas seguir aqui. P5-francês (p.262)
Todos os professores de línguas atribuem importância aos documentos nacionais em sua prática docente, seja pela presença desses documentos nas discussões das reuniões pedagógicas, como citado por P5 (fr), seja pela presença dos documentos prescritivos como uma orientação inicial a seguir:
Na medida em que a escola se propõe à formação cidadã, a contemplar essas aulas nos temas transversais, enfim, eu vejo os documentos contemplados no PPP. P3- Espanhol (p.258)
É porque me interessa saber como é que a coisa é organizada oficialmente, eu gosto de entender o oficial, mas não entender para seguir abaixando a cabeça não, para questionar também, mas ver o que tem de positivo ali, eu acho que os últimos documentos que a gente tem acesso, demonstram uma preocupação com essa formação de um professor e de um aluno mais críticos, mais antenados, mais comprometidos.P4- espanhol (p.259)
Os documentos nacionais, eu acredito, em tudo que eu já li, LDB, PCN, e tudo mais, voltados à língua estrangeira, o que eles buscam, na sua teoria, é desenvolver isso no aluno: acredito que de alguma forma a proposta é uma proposta muito cultural, e trabalhar o intercultural tem algo que é muito natural pra mim. P6-francês (p. 266)
Conforme dito por P3, P4 e P6, os documentos prescritivos se constituem no primeiro te toà a adoàpelaà uest oà ofi ial à P ,àpelaà o a,àpelaà teo ia à P à ueàap ese ta à em sua constituição e estabelece um marco de ensino no entendimento do professor. Ou, por fim, como resultado doà gosto àpelasàleisàeào ie taç es,à o oà itaàP à o oàse doàalgoà pessoal:
Na medida em que a escola se propõe a formação cidadã, a contemplar essas aulas nos temas transversais, e fi ,àeuà ejoàosàdo u e tosà o te pladosà oàPPP. à P -Espanhol)
Então me interessa e eu, sinceramente, revejo muito a minha prática, critico a minha prática, muito embasada nesses documentos e até em alguns pontos dos documentos eu faço alguns questionamentos... (P4-Espanhol) (Idem)
Ou, ainda, quando se revela a importância de determinado documento para a construção do PPP, como enfatiza P1 oàPCNà àoàdo u e toà ueà aisàapa e eà oàPPPàdoà ol gio ).
Esse outro que se materializa nos PCNs e na LDB (citados nas entrevistas) se constitui na maior parte dos discursos como um ponto de referência que dirige o trabalho coletivo do professor, sendo que sua presença se torna mais perceptível na formulação das propostas construídas pelas equipes pedagógicas.
Os textos prescritivos se constituem de uma proposição para a inserção de conceitos, teorias, metodologias que venham a modificar e conduzir o trabalho do professor. Eles aparecem citados como algo a ser reinterpretado e validado segundo a ótica pessoal de cada professor por um lado e, ainda, segundo uma ótica disciplinar, por outro. Portanto, ainda que se elabore em torno de um discurso de verdade (Foucault, 2001) inerente aos documentos legais prescritivos da Educação nacional, os professores questionam sua validade na prática diária, revelando alguns embates inerentes ao discurso subjetivo.
... a gente está tentando se adequar. Agora, fazer um trabalho totalmente voltado para o que diz o PCN é muito difícil, porque na questão da oralidade em sala de aula, algumas são trinta cinco desnivelados, cada um com um nível de língua estrangeira, fica complicado. Mas que há uma pressão pra gente mudar um pouco a linha de trabalho e pensar mais
nesse lado há. E a nossa equipe tem feito reuniões, a gente tem conversado sobre isso (trabalhar a produção escrita), sim. P1-Inglês. (p.252)
Como se pode observar, a colocação de P1- i gl sà o à elaç oà aoà ueà dize à osà PCNs àseà o stituiàe àalgoàdifí ilàdeà ealiza àdia teàdaàsituaç oà ealàdeàsalaàdeàaula,à ueàseà intensifica com o desnível de alguns alunos no tocante ao conhecimento da LE. Os alunos, que também se constituem como o outro no contexto do trabalho pedagógico, não se ap ese taà o oà algoà ho og eo,à segu doà P ,à adaà u à u à í elà dife e te ,à ueà possibilite o trabalho com a oralidade. A fala do docente expressa a contingência que se coloca diante do professor de línguas: para os professores de inglês, o ideal seria trabalhar so e teàaàha ilidadeàdeàleitu a,à o fo eàe pli itadoài lusi eà oàPPP,àe t eta toà h àu aà p ess o àpa aà ueàassu a àu aà o aàat i uiç o,àdese ol e àta àaàha ilidadeào al,à envolvidos por uma circunstância social, reforçada por documentos prescritivos que indicam e valorizam essa possibilidade97.à áà p ess oà pa aà uda ,à o fo eà afi aà P ,à e eteà à relação que as línguas estabelecem entre si dentro do colégio e à importância atribuída a alguns discursos que circundam no contexto de ensino-aprendizagem de línguas.
Diferentemente, os professores de língua espanhola e de língua francesa visam a desenvolver, de alguma forma, a habilidade oral e escrita com os alunos; a primeira com atividades de apresentação oral dirigida (exposição oral 98), esquetes teatrais, bem como leitura de pequenos textos redigidos em sala de aula. A equipe de francês igualmente realiza atividades que incluem a oralidade e a escrita nas turmas regulares do Ensino Básico e, ainda, em turmas específicas de preparação para o DELF (Diploma de Estudos em Língua Francesa) Escolaire99, trabalha todas as habilidades para as provas realizadas pela Aliança Francesa100. Essas práticas são reconhecidas e se tornam discursos distribuídos e reconhecidos, inclusive elogiados pela instância máxima da escola, a Direção de Ensino, por professores e alunos, na medida em que se busca referendá-las e valorizá-las. A forma como
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Nas páginas 151 e 152 das OCEM, listam-se as quatro habilidades, competências e meios para alcançá-las de forma a o duzi àoàestuda teàaàap op ia -se das peculiaridades lingüísti asàeàso io ultu aisàdoàout o p. , -reimpressão)
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Para Dolz e Schneuwly (2007, p. 225), a exposição oral é aquela que se constitui de uma oportunidade privilegiada de exercício do discurso monologal redigido anteriormente.
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Foi a partir do dia 1 de Setembro de 2005 que a Comissão Nacional do DELF e do DALF propõe uma versão do DELF destinada a um público escolarizado num estabelecimento escolar público ou privado. Cada diploma corresponde a um dos quatro primeiros níveis do Quadro europeu comum de referência para as línguas. Para cada nível, uma série de provas avalia as quatro competências de comunicação - compreensão e produção escrita e oral.
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Essas turmas que funcionam como um curso preparatório para o DELF, desenvolvidas com acuidade, já se tornaram uma tradição na equipe de francês, inclusive pelo que representam em termos de política de língua no CPII, fazendo parte inclusive do quadro principal de horários dos professores da disciplina.
essa avaliação (DELF) é recuperada pelas várias instâncias interessadas está em conformidade com o interesse do aluno e na conformação de um currículo mais aprimorado. Entretanto, deve-se pontuar o decréscimo da procura do alunado pela língua francesa na escolha de línguas no Ensino Médio, o que demandou a criação de uma nova e interessante forma de atrair os alunos, compondo-se, dessa forma, como uma política de línguas poderosa no contexto do ensino de LE. Essa política, completamente endossada por órgãos de fomento do ensino de francês, mostra-se como uma política de manutenção de espaços importantes de enunciação dentro desse contexto escolar específico e , ainda como uma política de resistência aos vários mecanismos de exclusão operados pelo governo federal.
Tal contexto se apresenta como um quadro em que as línguas se constituem, cada uma, como um regime de verdade (Foucault, 2007), com práticas e discursos totalmente diferenciados, que se comunicam e interagem, ora compartilhando atributos inerentes a essa conjuntura específica, o Colégio Pedro II, ora incorrendo em embates disciplinares que conferem saber e poder a cada uma delas.
Assim, como as demais línguas desenvolvem, ainda que minimamente, a habilidade oral/escrita, os professores de língua inglesa lidam com uma coação no sentido de oferecerem também aos alunos tal oportunidade, contrariando sua tradição101 em adotar uma abordagem instrumental no ensino de LE. Isso aparece claramente no discurso de P1, que não alude aos documentos de maneira genérica como os demais professores, mas faz saltar um incômodo, uma cobrança estabelecida, não pelo que está prescrito nos documentos, mas pelo jogo de poder que se produz desde os aspectos mais simples aos mais complexos da prática diária do professor.
Já na fala de P2, também professor de inglês, se retoma a perspectiva globalizante dos documentos prescritivos, de como o aspecto global das demandas em Educação interferem no local, ou seja, no contexto específico de cada escola, cada disciplina.
Na verdade acabam guiando o trabalho de todas as disciplinas, porque são documentos que são baseados em documentos internacionais e são orientações que vêm de congressos internacionais, que determinam quais vão ser as metas daqui a tanto tempo...P2-Inglês (p.256)
101 A equipe de inglês prepara seu material para o trabalho com leitura instrumental, que guarda grande tradição há muitos anos, o que faz dessa equipe a única que, em nenhum momento, utilizou livros didáticos para o ensino de LE no Ensino Médio. Isso pode justificar, em parte, um pouco da resistência em desenvolver outras habilidades linguísticas.
P2 atribui as mudanças geradas no ensino-aprendizagem em sua disciplina como um reflexo de metas internacionais, que, por sua vez, se constituem de objetivos que se tornam nacionais (nos documentos prescritivos desse nível) e, por fim, se materializam em prescrições do PPP de cada uma das disciplinas escolares.
Na fala de P3-espanhol, enuncia-se a força dos documentos nacionais e de como a es ola ,à a uià oà usoà daà ªà pessoaà doà si gula ,à oà p opostoà o oà pessoa102
, subtrai o enunciador da esfera do pessoal para referir-se a um princípio que se cumpre nesse espaço:
aàes olaàseàp op eà àfo aç oà idad .àE conclui de maneira categórica, afirmando o cumprimento de uma exigência legal por meio do trabalho com os temas transversais que também estão p opostosà aà LE.à áà es olhaà pelaà pala aà o te plada ,à pa aà efe i -se ao fato de serem inseridos os temas transversais no escopo do ensino de línguas, demonstra uma aceitação dessa prescrição, como sendo algo que participa efetivamente do planejamento do ensino da língua que leciona, o espanhol.
Para P4-espanhol, os documentos nacionais são fonte de estudo e conhecimento, assim, ao ler esses textos, considera que vai encontrar algo novo, que possa nortear seu trabalho.
..., eu gosto de entender o oficial, mas não entender para seguir abaixando a cabeça não, para questionar também, mas ver o que tem de positivo ali, eu acho que os últimos documentos que a gente tem acesso, demonstram uma preocupação com essa formação de um professor e de um aluno mais críticos, mais antenados, mais comprometidos. P4-Espanhol (p. 259)
O olhar crítico para os documentos não conduz P4 a uma prescrição que não mereça avaliação. Pelo contrário, avalia os textos e resgata para sua experiência profissional ou acadêmica aquilo que se constitua como novo e, para o enunciador, o fato de a abordagem dos últimos documentos revelarem uma proposta de formação mais crítica passa a ser de interesse do professor.
Pode-se verificar que a avaliação sobre o conteúdo dos textos legais passa a fazer parte da concepção de trabalho do professor, assim, mesmo que considere a importância
das prescrições e sua influência em seu trabalho, P4 explicita a existência de autoprescrições que acabam dialogando com as prescrições institucionais.103
Então me interessa e eu, sinceramente, revejo muito a minha prática, critico a minha prática, muito embasada nesses documentos e até em alguns pontos dos documentos eu faço alguns questionamentos, e por isso também não mudo a minha prática, porque eu acredito em algumas coisas da minha prática, mas revejo também, outras coisas que eu vejo que realmente não fazem muito sentido, se tem uma situação aqui que realmente não faz muito sentido, o discurso não corresponde à prática, vamos lá, vamos rever. P4- Espanhol (p. 258,259)
Igualmente, para P5- francês, as prescrições são fonte de conhecimento, de um saber orientador, que pode modificar a prática do professor.
...eu me lembro de ter contato com essa questão da lei, do que se tem que fazer, do programa, e a gente tem que seguir, mas seguir aqui. Eu acho que mudou até minha prática nos outros estabelecimentos, porque comecei a trabalhar aqui ainda nova, não tinha experiência... P5-Francês (p. 261)
As considerações sobre seu trabalho e sua performance como docente se relacionam com o conhecimento dos textos prescritivos, e P5 enuncia a importância deles em sua experiência em outros espaços de seu trabalho, visto, assim, como instrumento de crescimento, como ferramenta que possibilita o esclarecimento de propostas e objetivos educacionais no ensino público. O enunciador também traz para o contexto de seu trabalho sua relação com os textos prescritivos e a equipe disciplinar, vista como outro (a colega, os olegas à ueàp efigu aà o oà aàge te à euà+àosà olegasàdaàe uipe ,àdesig a doàaài lus oà desses participantes no contexto do trabalho pedagógico. Na fala de P5, apreende-se a compreensão da prescrição como imbuída de um contrato implícito de verdade, de garantia de sucesso; é o contrato de felicidade do qual fala Adam (2001).
...eu tive sorte de cair numa equipe que também estava muito preocupada com isso, a maneira que me incentivou a procurar, a ler, a me mostrar, eu me lembro de uma colega que trouxe numa ocasião um PCN, a gente discutiu numa reunião a importância desse momento pra uma reunião pedagógica semanal, e sempre foi abrindo caminhos, e eu até agradeço a essas colegas, agradeço que tenham podido acontecer. P5- Francês (p.262)
Percebe-se que P5 compreende que, pelos documentos legais, seja possível enriquecer e melhorar a sua prática, bem como fazer deles um guia para o planejamento do trabalho em sala de aula. A apreensão do que seja um bom professor é a de alguém que precisa conhecer e reconhecer o trabalho prescrito como o caminho para o ensino-
103 O trabalho prescrito é definido por Clot (1999, 2006) como qualquer demanda ou prescrição feita ao professor por outrem. CLOT, Y. La fonction psychologique du travail. Paris: PUF, 1999. Tradução: Adail Sobral, 2006.