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Grosso modo, assim, a perspectiva da contribuição considera que “o autogoverno coletivo se realiza não quando cada cotante tem influência causal sobre o resultado final, mas quando a decisão coletiva é o resultado da agregação de vontades individuais” (PRZEWORSKI, 2006: 15)29. Para avaliar a medida em que os cidadãos, de fato, governam a si mesmos, devemos lançar luz sobre dois tipos de relação: entre o governo e os representados, e entre os ramos distintos do governo. A

28 No original: “the validity of ... the norms accepted by the individual human being is generated by the individual

himself through his free consent”.

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No original: “collective self-government is achieved not when each voter has causal influence on the final result, but when collective choice is a result of aggregating individual wills”.

estrutura administrativa do governo, as relações entre Executivo, Legislativo e Judiciário, e as normas de funcionamento de cada uma dessas instâncias, impõem custos de agência que muitas vezes foram criados e operam – propositalmente, vale dizer – contra a vontade da maioria tal como expressa nas eleições ou em pesquisas de opinião. Como veremos abaixo, parte da literatura identifica nesses mecanismos uma restrição à democracia, enquanto uma outra parte os enxerga como necessários à garantia dos direitos de minorias30. Além disso, embora as eleições sejam o momento de autorização e o que assegura a legitimidade das decisões governamentais, é certo que elas permitem certa autonomia aos representantes (MANIN, 1995).

Essa perspectiva toma o processo democrático como um processo cuja tarefa principal é fazer o Estado operar de acordo com o interesse da sociedade, que, por sua vez, é dado pela agregação das preferências dos cidadãos mediante a expressão de vontades individuais. O Estado é entendido como um aparato administrativo especializado no emprego do poder político para garantir fins coletivos. O status dos cidadãos define-se pelos direitos subjetivos que possuem diante do Estado e de seus concidadãos, que lhes garante a proteção necessária para perseguir seus interesses nos limites da lei. Os direitos políticos são semelhantes e permitem aos cidadãos influenciar as decisões coletivas mediante o sufrágio universal. Da agregação surge a vontade política capaz de exercer influência sobre o poder do Estado. Nessa visão, a legitimidade política se assenta na luta por posições que assegurem algum grau de influência sobre o poder administrativo; é, portanto, na concorrência entre atores políticos que se dá o processo de organização das alternativas disponíveis à escolha dos eleitores. A expressão de preferências dos cidadãos se dá através do voto, cuja decisão tem estrutura semelhante à decisão de um consumidor escolhendo produtos no mercado (SCHUMPETER, 1961).

A escolha de governantes através do voto não garante – e não tem por objetivo garantir – a igualdade, decisões racionais ou a implementação de um critério de justiça31. Mas isso tem uma razão de ser. As teses minimalistas representam – e têm por objetivo fazê-lo – a rejeição dos ideais associados às teorias clássicas da democracia, como a possibilidade de uma harmonia de interesses, a descoberta do bem comum através de um processo de deliberação racional ou a fusão das autonomias pública e privada em uma vontade geral. Se aceitarmos, como o fazem os autores que caracterizam a democracia dessa maneira, que as sociedades contemporâneas organizam-se a partir conflito de valores e interesses presumivelmente irreconciliáveis, a estabilidade política e a

30 Vale lembrar, é claro, que se hoje eles garantem os direitos de minorias ameaçadas de opressão, estes mecanismos

foram criados para garantir privilégios e frear o ímpeto da massa que conquistava direitos políticos.

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Embora, é claro, as normas que garantem peso igual aos interesses de todos expresse, de alguma maneira, todos esses ideais.

aceitação pacífica dos resultados obtidos através do processo eleitoral se apresenta como quase um milagre (PRZEWORSKI, 2010).

Para defender essa concepção, Przeworski (2010) estrutura o seu argumento em dois passos: primeiro, toma como óbvio que não é absolutamente desejável a resolução dos conflitos inerentes à sociedade pluralista através da violência; depois, afirma que a mera possibilidade de se substituir periodicamente um governo evita a violência e que a possibilidade de votar assegura, tanto quanto possível nesse contexto, a realização do autogoverno. A substituição periódica do governo, por sorteio, digamos, levaria a um equilíbrio self-enforcing na medida em que cada grupo tem incentivos para não recorrer à violência caso perca (e aceitar uma nova eleição após o período estabelecido), pois poderá vir a chegar ao governo após o atual mandato – tomando como dado que a pior situação a que se pode chegar seria um estado de natureza hobbesiano, por exemplo (Ibidem: 45-6). Mas por que adotar um método de escolha dos governantes que não seja aleatório? Porque o voto?

Conforme observa Przeworski (2010: 48-9), é o voto que autoriza a coerção, não as razões que estão por trás dele. O sufrágio universal, na ausência de coerção aparente, é o que impõe a todos a obrigação de respeitar os resultados de uma votação e aquiescer com as decisões tomadas pelo governo legitimamente escolhido pelos que se submeterão a elas. A democracia, nessa concepção, persiste porque as pessoas em geral se sentem racionalmente convencidas a obedecer aos resultados de um processo de decisão do qual participaram voluntariamente; os cidadãos aceitam o conteúdo das decisões pois participaram do processo em que elas foram tomadas. Na democracia, embora o voto não revele uma vontade coletiva singular, ele é capaz de assegurar que as decisões coletivas, mesmo na ausência de um processo comunicativo perene a julgá-las, sejam aceitas como procedimentalmente corretas.