Sem fazer uma afirmação forte sobre os resultados e os valores promovidos pela discussão pública, é possível estabelecer que ela é um fato social da vida política democrática. A ação política depende, antes de mais nada, do conhecimento que os agentes possuem sobre o mundo social em que estão inseridos. Este tipo de ação tem por finalidade produzir e impor representações que sejam
capazes de intervir sobre o mundo social e as representações dos agentes a respeito deste. A linguagem tem, portanto, um poder constituinte e estruturante, sendo capaz de modificar a realidade social ao transformar a representação que os agentes têm a respeito dela e dos próprios sujeitos. As formas de capital simbólico (prestígio, carisma, sedução etc.), mas também as trocas mediantes as quais este capital se acumula, são vulneráveis à intervenção das palavras. Contudo, a eficácia de um discurso decorre menos da força imanente à linguagem – como a força ilocucionária, de Austin (1989) – do que da dialética entre linguagem autorizante e autorizada, bem como das disposições de determinado grupo de autorizá-la.
Democracia significa, literalmente, governo do povo. Mas o que significa dizer que o povo governa, que o povo é soberano? Para que isso ocorra, é preciso haver um processo de governo e, portanto, estabelecer quais as características que definem um procedimento democrático. Um ponto básico de acordo sustenta que as decisões vinculantes devem ser tomadas por aqueles a quem as regras se aplicam, aos que estão sujeitos a essas decisões. Essa afirmação baseia-se no princípio elementar da equidade, de acordo com o qual leis não podem ser impostas às pessoas por indivíduos que não estão, eles mesmos, sujeitos a essas leis. Quando decisões coletivas são tomadas, as reivindicações de cada cidadão acerca da desejabilidade das políticas a serem implementadas devem ser válidas e consideradas igualitariamente (DAHL, 1989: 106-9).
Partindo de uma proposição geral e bastante conhecida de Dahl (1970: 20), a “[d]emocracia é o sistema político em que a oportunidade de participação em decisões é amplamente partilhada por todos os cidadãos adultos”. Restaria, contudo, discutir mais à fundo os condições necessárias à garantia de que essas decisões não seja arbitrárias ou gerem resultados ilegítimos. Seria necessário assegurar certos direitos e liberdades independentemente das decisões coletivas? De que modo seria possível fazê-lo sem ameaçar a autonomia moral de cidadãos livres e iguais? Como poderíamos avaliar o grau de participação dos cidadãos sobre os resultados finais? De acordo com Young (2010: 5-6), “a legitimidade normativa de uma decisão democrática depende do grau em que os afetados por ela foram incluídos no processo decisório e tiveram a oportunidade de influenciar os seus resultados”23.
Normativamente, esta seria uma norma de respeito moral, segundo a qual a igualdade moral exige que as pessoas não sejam obrigadas a aceitar regras ou sujeitar a sua conduta a decisões das quais as suas vozes foram excluídas. A democracia implica uma norma de igualdade política segundo a qual todos os afetados devem ser não apenas incluídos nos processos decisórios, mas devem sê-lo em
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No original: “the normative legitimacy of a democratic decision depends on the degree to which those affected by it have been included in the decision-making processes and have had the opportunity to influence the outcomes”.
termos equitativos. A base de legitimidade do governo democrático se assenta, destarte, na noção de autogoverno, isto é, “a razão por que se argumenta que a democracia se justifica é a de que as pessoas devem ter voz nas decisões que lhes afetam” (SHAPIRO, 2003: 219)24.
A igualdade, segundo Young (2010: 23-5), se expressa como uma norma de não-dominação: nenhum participante do processo deliberativo deve estar em uma posição que lhe faculte coagir ou ameaçar os demais a aceitar determinadas decisões. Há uma extensa lista de desacordos acerca do caráter coletivo das decisões e do alcance dos ideais de liberdade e igualdade política. No entanto, há um compromisso fundamental com o procedimento democrático e a sua importância fundamental para a legitimidade política. Segundo Shapiro,
the democratic tradition offers better resources than the going alternatives for ensuring that political claims and counter-claims are tested for their veracity in the public arena, and for protecting those individual rights that best embody the aspiration for human freedom (2003: 6).
O ideal de democracia diz respeito aos procedimentos políticos e aos direitos básicos associados à igualdade e ao exercício das liberdades políticas por todos os cidadãos. Ao reconhecer a democracia como um ideal a ser buscado, não podemos nos abster de almejar também alguma forma de igualdade política. Na medida em que a democracia é um sistema em que se exige, por definição, que as decisões não sejam impostas aos cidadãos contra a sua vontade, faz-se necessário um componente de legitimidade nas mesmas. Nos próximos capítulos, vou considerar as respostas oferecidas pelas distintas concepções sobre a democracia para as questões relacionadas à compreensão dos ideais de igualdade, legitimidade, entre outros, procurando relacionar tais perspectivas à relação entre democracia e comunicação pública. De modo geral, boa parte das teorias da democracia se posicionam entre dois polos: de um lado está a concepção de que a democracia seria uma forma de competição domesticada entre interesses; de outro, se classifica a democracia como um modelo no qual os cidadãos devem suspender temporariamente os seus interesses e afiliações para formar um público comunicativo (ELSTER, 1997). Cada perspectiva teórica oferece uma interpretação diversa e dá um peso diferente para as liberdades iguais para todos, a participação democrática e o governo pela opinião pública. Segundo a tradição utilitarista, por exemplo, a legitimidade do governo está ligada à sua disposição e capacidade de maximizar a felicidade ou o bem-estar dos cidadãos. Já no marxismo, um governo legítimo é aquele que promove a liberdade humana, eliminando a exploração perpetrada pelas relações de produção. Na tradição contratualista que remonta, a legitimidade se sustenta numa ideia de acordo e no
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No original: “the reason why democracy is argued to be justified is that people should have a say in the decisions that affect them”
consentimento dos governados (SHAPIRO, 2003: 2).
Decisões coletivas tendem a ser ubíquas em sociedades complexas e marcadas pelo fato do pluralismo. Métodos tão distintos quanto eleições, referendos e outros mecanismos de participação direta, legislaturas, cortes e outros foram defendidos como mais adequados política ou moralmente. As pessoas discordam umas das outras em diversos níveis, desde quais decisões devem ser tomadas até por que uma escolha deve ser feita em detrimento das outras alternativas. Os teóricos políticos ofereceram uma diversidade enorme de formas por meio das quais decisões vinculantes devem ser tomadas, assim como formularam respostas distintas acerca do que confere legitimidade às mesmas. Decerto que questões diferentes podem exigir procedimentos específicos e critérios de legitimidade particulares, o que não impede, obviamente, que haja uma discordância mesmo em relação ao método mais adequado para conferir legitimidade a decisões sobre um problema idêntico.
As diferenças se traduzem em trade-offs entre a necessidade de um equilíbrio razoável dos interesses conflitantes e a demanda pelo oferecimento de razões aceitáveis a todos. Além disso, a literatura discute o alcance e os limites da esfera do uso público da razão e o seu papel na legitimidade de uma associação política. Nos próximos capítulos, a minha preocupação se voltará para as diferentes interpretações sugeridas nas teorias da democracia para o lugar da comunicação em um sistema politico democrático. Partindo de um esquema proposto por Christiano (1997), vou tomar três concepções ideais sobre a importância da comunicação para a democracia, procurando identificar cada uma delas com uma concepção específica sobre os critérios necessários a uma associação democrática: (1) a tese da contribuição afirma que a discussão pública não é uma condição necessária e tampouco suficiente para a democracia; (2) a tese da exclusividade afirma que a comunicação pública é o valor por excelência da democracia, a sua raison d'être; e (3) a tese
da necessidade afirma que a deliberação é uma condição necessária à democracia, ou que uma
sociedade que toma decisões sem a deliberação pública é um arranjo indesejável (CHRISTIANO, 1997: 246).
II – A tese da contribuição
Como adepto da navalha de Ockam e inveterado desbastador de conceitos flácidos, ... oferecerei uma definição deliberadamente simples – e mesmo simplista. Defino democracia como uma
combinação de regras de maioria, sufrágio universal e voto livre … A minha definição de democracia leva em conta puramente procedimento. Uma sociedade é democrática porque suas decisões políticas são (fundamentalmente) tomadas segundo um procedimento que satisfaz às três condições mencionadas, e não porque essas decisões produzem um determinado resultado substantivo (VAN PARIJS, 1995: 109).
For in the end, democracy is but a framework within which somewhat equal, somewhat effective, and somewhat free people can struggle peacefully to improve the world according to their different visions, values, and interests (PRZEWORSKI 2010:18).
2.1 Introdução
É possível identificar na teoria democrática diversas interpretações minimalistas sobre o papel da comunicação pública no sistema política democrático. Elas variam na intensidade de seu minimalismo, mas também nos lugares mais adequados à discussão, tanto do ponto de vista teórico quanto do ponto de vista prático. De modo geral, essa perspectiva sustenta que a discussão pública é (em maior ou menor frequência) secundária, desnecessária, infactível ou mesmo indesejável a uma sociedade democrática. Se em algumas questões há discordância quanto ao grau, em boa parte não são conflitantes quanto à conclusão geral. Gostaria de sugerir nesse capítulo que é possível encontrar certa unidade interna no que se refere às teses segundo as quais a comunicação não é nem suficiente, nem necessária à democracia – mas pode representar, em determinadas circunstâncias, uma contribuição ao processo político democrático.
Todo e qualquer conceito de democracia se configura como uma evolução da ideia fundamental de que o povo deve governar a si mesmo. Ao longo da história, o significado desse termo ganhou conotações distintas, ao mesmo tempo em que a forma de praticá-lo também modificou-se deveras. Enquanto determinadas tradições lhe conferiram um viés depreciativo, outras emprestaram ao termo uma acepção de horizonte utópico a ser tomado como norte ao desenvolvimento das relações sociais e políticas. Se, de um lado, Madison sustentava, na Convenção da Filadélfia de 1788, que o papel do povo devia ser meramente o de eleger o governo, de outro Hannah Arendt afirmava ser a participação no autogoverno a atividade que define o homem enquanto tal.
Dahl (1989) e Manin (1995) procuraram distinguir os sistemas atuais de um ideal de democracia impraticável nas sociedades modernas. Para o primeiro, os governos que encontramos hoje no mundo podem ser situados em um continuum de um sistema que ele chamou de poliarquia, para diferenciá-lo do modelo ideal de democracia. O segundo, por sua vez, argumenta que uma denominação mais adequada seria a de governos representativos, cujos princípios básicos as
sociedades compartilham desde o “governo representativo de tipo parlamentar”25. As diferentes concepções sobre a democracia se sustentam em entendimentos distintos sobre questões como o pertencimento à cidadania e o que torna uma decisão coletiva legítima. Cada perspectiva entende de maneira particular o significado da ideia democrática fundamental de que as instituições por meio das quais tomamos decisões coletivamente vinculantes devem tratar a todos como iguais.
Em uma definição ampla da legitimidade democrática, Cohen (1998: 185)26 afirma que “a ideia fundamental de legitimidade política democrática é a de que a autorização para exercer o poder estatal deve emergir de decisões coletivas dos membros de uma sociedade que será governada por esse poder”. Tendo em vista a impossibilidade de a democracia moderna se assentar nos marcos de referência tradicionais, ela inaugura uma dinâmica interativa na qual há sempre uma indeterminação última sobre os fundamentos da vida em comum. Nesse sentido, a democracia se sustenta e se estrutura na crença daqueles que estão submetidos às decisões coletivas de que tais decisões devem ser acatadas, mesmo que contrariem as suas escolhas ou preferências. Em um certo sentido, portanto, governos democráticos devem operar de tal forma que os cidadãos acreditem na legitimidade de sua autoridade. Devem fazer crer, entre outras coisas, que o povo governa a si mesmo, que os representantes de fato representam os cidadãos. Mas uma crença como essa não pode guardar relação tão somente com o mundo das ideias, ela deve ser sustentada por fatos a que os cidadãos tenham acesso. A legitimidade deve ser perceptível. Segundo uma concepção competitiva da democracia, o que confere, aos olhos de todos, legitimidade a uma decisão coletiva é o fato de que o arranjo por meio do qual ela emerge oferece consideração igual pelos interesses de cada pessoa submetida aos seus resultados. Caberia, portanto, à teoria política elaborar maneiras de as instituições políticas apresentarem resultados que reflitam a agregação ou o sumário de preferências políticas na sociedade. Há diferentes formas de interpretar essa ideia.