BÖLÜM IV Bulgular ve Yorumlar
4.4. GMOÖAÖ ve GMOGPT Verilerinin İncelenmesi GMOÖAÖ MADDE 1 ve GMOGPT SORU 1:
O significado do político, desde a sua ideia original remontada às primeiras civilizações ocidentais, passou por uma série de transformações até a constatação de um esvaziamento de sentido, no apogeu da instalação de regimes políticos totalitários da modernidade e da crise mediática que os distorceu. Tal crise esteve atrelada a uma série de outras tensões, com destaque para aquela cultural, retraçada pelo pensamento sobre as mudanças nas sociedades no período de transição entre a modernidade e aquilo que diversos teóricos, a exemplo dos citados Jean-François Lyotard e Gianni Vattimo, denominam como pós-modernidade, ganhando peculiar ênfase a tecnologização da experiência humana.
Embora distanciando-se do signo do pós-moderno42 para tratar das mudanças
vivenciadas na atualidade, a qual define como “a maneira como a experiência se constitui em relação, positiva ou negativa, a um acontecimento fundamental, que derrama a sua tonalidade sobre todas as coisas”, Bragança de Miranda (1998, p. 9), no livro Traços: Ensaios da crítica da cultura, aproxima-se em determinados pontos daquele pensamento expresso por Lyotard, especialmente quando indica que a constituição da experiência passa – na visão do autor português ainda que não exclusivamente – pelas máquinas contemporâneas.
Os pensamentos de José Bragança de Miranda e de Jean-François Lyotard encontram-se no momento em que ambos afirmam, cada um a sua maneira, que o pensar, num tempo em que os sintomas de mudanças se universalizam – com a superação de distinções como público e privado, trabalho e prazer, prosaico e estético
42 No texto “Marshall Berman e a tradição da Modernidade”, Bragança de Miranda (1998) tece uma
crítica à ideia de pós-modernidade, argumentando que a “avidez de novidade por parte daqueles que
não estão para mais demoras com ‘a paciência dos conceitos’, de que falava Hegel, talvez os tivesse também levado a ‘superar o pós-moderno’ – situação estranha, a de um pensamento de tal modo célere que se esgota na enunciação dos problemas, confiante de que colocar o problema é solucioná-lo. Mas a leitura de Berman tem, no mínimo, a vantagem de mostrar que nenhum problema efectivo é superável por acção da vontade ou do gesto teórico” (p. 37). Para o autor português, não é possível deixar de
questionar a modernidade, uma vez que ela é o fundo de todo o questionamento; porém, esta não pode ser apresentada por nenhuma interpretação, uma vez que cada pensamento é uma forma de suspendê- la: “(…) algo que o pós-modernismo intuiu, mas não podia realizar; por ser uma interpretação definitiva,
como todas, da modernidade” (p. 42). Cf. Bragança de Miranda, J. (1998). “Marshall Berman e a tradição
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etc. – deve ultrapassar as paredes dos prédios científicos e deixar para trás uma ideia ensimesmada de ciência para simplesmente estar nas ruas, por todos os lados.
(…) agora os próprios lugares multiplicam-se e desagregam-se, cada vez mais vertiginosamente, tendo cada vez menos estabilidade ou duração. Em menos de 50 anos o número de profissões e de categorias sociais que desapareceram é impressionante. A tecnologia desagrega todas as posições e deslocaliza todos os lugares, ao mesmo tempo que produz outros em catadupa, mas com duração cada vez menor. Como culminará este processo, é precisamente o que ninguém sabe e que clama pelo pensamento (Bragança de Miranda, 1998, p. 22).
Para este autor, cujos contributos mais recentes voltados para o estudo do net- ativismo e das ações colaborativas nas redes digitais serão tratadas em parte mais oportuna desta investigação43, nas últimas décadas do século XX tudo e todos estavam
a ser arrebatados pelo torvelinho da técnica – aquela que faz da atualidade o modo crucial da temporalidade contemporânea, que ao mesmo tempo em que desloca os lugares fixos da modernidade cria uma espécie de “hiperespaço”, cada vez mais avassalado pelo ciberespaço característico do surgimento das redes telemáticas. Neste sentido, o pensar, recém-saído dos escaninhos onde se acolhia para finalmente se dedicar à experiência e ao mundo, deveria ser conduzido no interior deste redemoinho que a todos arrasta.
Por estarmos totalmente imersos neste mundo, pelo qual somos responsáveis queiramos ou não, qualquer tentativa de afastamento é considerado algo politicamente inaceitável sob o seu ponto de vista. “As casas de campo em que os cansados do poder e do dinheiro descansam, nos fins de semana, não são baseadas num cordão policial que os protege e, ao mesmo tempo, os cerca?” (Bragança de Miranda, 1998, p. 10). Deste modo, o próprio pensar, para o autor, torna-se um assunto político, na medida em que chega ao fim a ilusão de que podemos ficar de lado ou de fora do mundo. “Pensamos para agir e porque somos agidos, e às vezes coagidos. Estão à solta forças que nos percorrem em corpo e alma, e agem no nosso agir. Somos agidos no nosso agir” (Bragança de Miranda, 1998, p. 17).
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Entretanto, mais uma vez aqui, a viragem do pensamento está voltada para a concreticidade: tudo deve servir para pensar numa época em que as categorias fortes, nomeadamente as ciências, ensimesmadas44 até ali, deixaram de funcionar ou
ganharam poderosos concorrentes, sobretudo da cultura de massa, como as imagens do cinema, as músicas pop, ou como destacaria em outro momento, frente à concorrência das novas ligações. Embora siga ao encontro da questão da multiplicação de visões de mundo em razão do advento dos mass media abordada por Gianni Vattimo (1992), a perspetiva do autor português desde logo assinala uma preocupação maior com as ligações proporcionadas pelas novas tecnologias.
Depois da crise das ligações tradicionais, onde imperava o teológico político, com a sua hierarquia forte (que regia o que era elevado e baixo, terreno e divino, normal e anormal, etc.), entra em dissolução a ligação burocrático-racional do moderno, ameaçado pela ligação técnica (por todo lado se nos exige que estejamos “ligados”, on, “conectados” e “interactivos”). Uns voltam para o teológico e querem impô-lo à viva força, outros, para o Estado e o direito, e abafam toda a liberdade. Falta a ligação humana (…) (Bragança de Miranda, 1998, p. 13).
Num contexto cada vez mais transformado pelas ligações tecnológicas, em que tudo parece determinado pela atualidade, numa época em que são mais os escolhidos que aqueles que escolheram, um dos caminhos apontados pelo autor português para não nos distanciarmos politicamente da tarefa de pensá-lo pode passar, inicialmente, por uma tomada de posição45 – problematizada desde os gregos, em relação ao
mundo, aos outros e sobretudo à linguagem, deslocada cada vez mais dos seus lugares fixos ao longo da modernidade. Assim, no lugar da ideia de choque que regeu todo o século anterior, Bragança de Miranda sugere que imperem os encontros e os desencontros destes encontros, isto é, que a maquinaria da dialética46 seja substituída
pela inclusão das novas figuras que determinam a composição da experiência.
44 Sobre o assunto, destacamos a seguinte passagem: “Nenhuma questão particular, por importante que
pareça, exercita o pensar. São simples afobamentos que podem servir de pontes para o essencial, mas não o podem realizar ou dar a ver. Não ver isso é o problema dos realistas ou pragmáticos” (Bragança de
Miranda, 1998, pp. 15-16).
45 A respeito deste tema, Bragança de Miranda (1998) endossa Hans Blumenberg (1986), ao afirmar que
“todas as posições são parcelares, são respostas possíveis a problemas permanentes” (p. 123).
46 Da qual destacamos os posicionamentos teóricos que separam o mundo e a natureza, o humano e o
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“Nestas dialécticas sábias perde-se de vista o crucial. É que no instante desastroso em que o tempo urge, muitos poucos continuarão a questionar” (Bragança de Miranda, 1998, p. 28). Para alargar o conceito de divisão, sugere-se que esta inclua camadas mais finas que possibilitem uma outra política – não mais polarizada entre “ricos” e “pobres”, “dominantes” ou “dominados”, por exemplo –, aquela em que se redivida, de outro modo, o que está mal dividido. Dito de outra maneira, no interior da atualidade a questão da divisão deve ser compreendida como algo infinito, uma vez que em cada uma das suas camadas podemos descobrir um mundo possível.
(…) dividir é repetir e, portanto, redividir; é o gesto vital de escolher e de ser escolhido; é uma forma de trazer o negado, dando-lhe outra oportunidade; é o acto de partilha onde se cria toda a comunidade que dá e recebe. Assim, a verdadeira comunidade dos que agem livremente vai-se traçando através de todos os arabescos que a divisão activa, arabescos que constituem as figuras que habitamos e nos habitam (Bragança de Miranda, 1998, p. 28).
Ao tratar daquilo que denomina como uma crise irremediável do sujeito, disparada por uma série de fatores relacionados à técnica – com destaque para a biotécnica – o homem enquanto sujeito é desdobrado numa miríade de simulacros. Como exemplo, somos convidados a refletir a partir daquilo que os heterónimos representaram na poesia de Fernando Pessoa, fundamentada da ideia de “poder destruir para continuar a realizar” (Bragança de Miranda, 1998, p. 109). Este é apenas um dos inúmeros deslocamentos acentuados numa sociedade que, no final da década de 1960, Guy Debord (2003)47 chegou a denominar como sociedade do espetáculo.. O
problema da atualidade, para Bragança de Miranda, não está restrito apenas à questão das divisões – acrescentando aqui aquela relacionada à separação entre ator ativo e recetor passivo, que no final do último século tendia exponencialmente ao desaparecimento – englobando ainda o tema da fusão, da hibridização ou da indiferenciação, numa experiência mediada por suportes tecnologicamente estáveis.
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No livro A sociedade do espetáculo *1967+(2003), do referido pensador francês, o espetáculo não é tratado apenas como um conjunto de imagens, mas como uma relação social entre pessoas, mediatizada por estas imagens. É neste sentido que o espetáculo se torna, ao mesmo tempo, parte da sociedade, a própria sociedade e o seu instrumento de unificação.
Cf. Debord, G. *1967+(2003). A sociedade do espetáculo (versão online). Projeto Periferia. Disponível em
30 Hoje está em causa não apenas o controlo dos homens, mas o controlo do controlo, que alimenta a ilusão de alimentar a tecnologia, apenas a potenciando. O novo espaço cibernético tende a inscrever-se na sua estrutura virtual o espaço da vida, todos os locais, como o espaço da visão e das paixões. A tendência à fusão das máquinas com as paixões, a todos amarrando pela imagem, mostra que a resposta passa pela divisão, pela desagregação, pelos pequenos vincos que possamos fazer nessa superfície extensa e ligada que é a da mediação. A categoria de espetáculo pressupunha ainda uma distância, uma separação, entre o que era espectáculo e o que não era. A sua aplicação é mínima, pouco se podendo esperar dela (Bragança de Miranda, 1998, p. 130).
Superar também esta dialética do espetáculo, num mundo onde as linhas das palavras e dos sentimentos são entrecortadas pelas máquinas, coloca-se como o desafio estético e político de uma época na qual a hybris da técnica é interpretada por diversos autores nihilistas (inspirados em Shakespeare e Nietzsche)48 como o
encerramento da história e a morte do passado. Tal nihilismo, se observado a partir de um ponto de vista positivo, afirma a cidade humana, a pólis, como um espaço de imanência onde tudo se joga. Aparte a ilusão moderna de dominar a transcendência dentro dos processos de controlo daquilo que estava por vir, tal processo teria implicado na desinserção do apocalíptico49 dentro da esfera do religioso para inscrevê-
lo na política, na degradação do ideal a partir do qual se substituiu o transcendente. “A utopia é a forma política dessa idealidade. Mas, isso hoje está a decompor- se, como disse algures Nietzsche, e os efeitos estão à vista, a pura acidentalidade de tudo, a interiorização da catástrofe no mais mínimo acto, na menor figura” (Bragança de Miranda, 1998, p. 152). Com tal afirmação, o autor não pretende anunciar que antes da cesura moderna não existisse crise, mas indica que esta não era tão absoluta nem tão intrínseca como aquela que agora se revela no torvelinho da técnica.
Ora, a afecção da totalidade é apocalíptica, e a política, que governa tudo e todos, só depois da sua separação do teológico, pôde capturar a força das energias utópicas que
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O tema é abordado por José Bragança de Miranda em diversos ensaios do livro Traços: Ensaios de
crítica da cultura (1998) dos quais destacamos “Crash, de J. G. Ballard: uma experiência do choque” (pp.
132-146) e “Do apocalíptico, hoje” (pp. 147-166).
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O apocaliptismo é relacionado pelo autor, neste livro, no âmbito da incapacidade de o espírito moderno afrontar o “vazio” de princípio e fim que o meio representa, responsabilizando-o absolutamente pelas figurações que lhes confere (Bragança de Miranda, 1998, p. 156). Em outro momento da obra, este trata da sua origem: “o apocaliptismo advém mesmo desta indicação dos fins,
fim da virtude, das palavras, da política, da resistência, do indivíduo, em resumo, da Identidade. A indicação dos fins, e sabe-se como a nossa época tem sido fértil em certidões de óbito (...)” (p. 212).
31 o apocalíptico consegue armazenar. Esta força só se liberta através da permanente anulação da distância implícita na representação (Bragança de Miranda, 1998, p. 156- 157).
A visão positiva proposta pelo teórico diz respeito ao fato de que, diante de todo o figural produzido historicamente, abre-se uma outra possibilidade entre estas figuras, uma espécie de “demora” por onde pode vir o acontecimento, colocando a atualidade como problema decisivo na qual tudo se joga, em cada ato. Tanto que o desafio que Bragança de Miranda coloca ao pensamento atual é o dever de passar pelo insólito ao nível do fragmento, como também pelo exercício analítico ao nível das formas de experiência. Em suma, para o autor, no domínio do atual – aquilo que deve ser o alvo de qualquer crítica minimamente séria – todo o enunciado vago é considerado meramente ornamental, portanto relevo da (má) política.
Como dito anteriormente, é preciso estar atento ao que existe entre as divisões. Se as possibilidades realizáveis até então se situavam no âmbito teológico, ou em seguida político, no estágio ulterior da modernidade estas se consolidam cada vez mais como algo tecnológico. Isto teria vindo a revelar um choque entre o espaço clássico de realização (cujo conceito político central era o de dominação) e o espaço atual de controlo (apresentado pelo autor como transpolítico). “Hoje o virtual50 está em tensão
com a potencialidade. E de duas uma: ou o virtual é uma intensificação do potencial que suportava a realização, ou é uma forma de o menorizar, aligeirando a experiência da grande maquinaria da dominação” (Bragança de Miranda, 1998, p. 216).
O problema, na visão do teórico, agrava-se quando o controlo se separa do poder, se considerarmos que tal poder, enquanto dominação, utilizava-o como auxiliar, sendo agora usado por este mesmo controlo como simulacro para melhor se disseminar. Isto se diferencia, dos tempos modernos, da tentativa do poder de vigiar todo o espaço, razão pela qual forjava um espaço de segurança total, logo fracassado. “A resposta a este fracasso passa pela intensificação do controlo (e da técnica, que tem
50 Embora sublinhe a relativa consistência que a tecnologia da informação começava a dar ao virtual, o
autor ressalta que este é uma categoria com longa história filosófica e teologicamente, tanto que o analisa na sua diferença com o “espaço de controlo” ou ciberespaço. “O cyberspace opera uma espécie
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aqui analogias surpreendente, tendo passado de auxiliar a directora)” (Bragança de Miranda, 1998, p. 219).
No cenário delineado pelo pensador português no final dos anos 1990, aproximadamente duas décadas anteriores a esta investigação, já se problematizava a fusão do virtual, controlado tecnologicamente como ciberespaço, com a Terra e com o inorgânico. Naquele que surgira como um espaço “outro”, de queda de tudo e de fragmentação de toda a totalidade, o real sem princípio nem fim, o virtual representava ainda a sombra da experiência, uma possibilidade de libertação de séculos de violência e de nihilismo. O ciberespaço, por sua vez, representaria uma negação da exterioridade, a imediaticidade da ligação de tudo com tudo.
A vontade de controlar o controlo apenas o potencia. Mas também não é possível abandonar o espaço aberto pela tecnologia. (…) É preciso saber responder a este perigo. Daí que se precise de uma arte da distância, de uma política da divisão, de uma lógica da declinação, que salve tudo o que fizemos de nós, que ficou suspenso na sua exterioridade virtual (Bragança de Miranda, 1998, p. 224).
Afinal, o que poderíamos esperar desta iminência da técnica retratada pelo autor? Ao invés de fazermos como os modernos, que aboliram a esperança para programar a espera, a previsão, o planeamento, como efeito controlável de antecipação do futuro tão característico do seu racionalismo, o autor sugere que por nós seja rompido o ciclo entre desapontamento e esperança. Isto, na sua visão, exigiria uma política paradoxal, de resposta à urgência do instante, cada vez mais achatado pela técnica. Já em relação aos objetos, deles esperaríamos outras ligações, diferentes pesos e ponderações, novas quantidades e transfigurações. “Ou seja, um ‘outro’ mundo que quase não se distingue do existente. A esperança emerge da espera do objeto ‘esperançoso’, que anuncia outros modos, novas maneiras” (Bragança de Miranda, 1988, p. 249).
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