2.1. RÖNESANS’TAN 20 YÜZYILA GERÇEKÇİLİĞİN TARİHSEL PARADİGMAS
2.1.1. TRAJİK GERÇEKÇİLİĞİN DOĞUŞU VE ALEGORİ
Ficou esclarecida a presença de Marcial nos comentários à tradução do livro de Ovídio: trata-se de um livro sobre as relações e costumes amorosos, que adota, por vezes, uma linguagem licenciosa, o que abriu espaço para que fosse relacionado aos epigramas latinos do poeta de Bílbilis.
Da mesma maneira que Marcial é conhecido por seus epigramas licenciosos e até mesmo obscenos, e essa se tornou a sua principal característica (AGNOLON, 2010, p.82), ele é muitas vezes tido como um pintor dos costumes de seu tempo, isso dito pelos tradutores e comentadores franceses de Marcial no século XIX e por autores brasileiros e portugueses dessa mesma época30.
São exatamente essas duas vertentes temáticas − uma referente aos hábitos e costumes de seu tempo, outra à licenciosidade − que aparecem na obra paratextual de Castilho José, ou pelo menos são esses os principais grupos. Podemos distinguir entre os epigramas de costumes epigramas voltados à poesia, ao poeta e ao próprio livro, poemas sobre costumes propriamente ditos, de etiqueta, de aparência, mas em especial a sátira a tipos sociais e seus vícios. O segundo grupo, de epigramas licenciosos, apresenta poemas sobre o amor, sobre a mulher e os relacionamentos.
Em Castilho José, a quantidade de epigramas relacionados aos hábitos e costumes romanos é significativamente superior à dos epigramas de temática amorosa (35 de costumes contra 14 amorosos). Embora se trate de comentários para uma obra de caráter mais licencioso, Castilho José segue a linha das leituras de Marcial no século XIX e mantém o epigramatista como uma referência dos hábitos da vida romana na Idade Antiga, se valendo de seus epigramas para ilustrar como se fazia a barba, como se cortavam as unhas, como eram os jantares, entre muitos outros aspectos sociais e individuais da vida cotidiana em Roma.
Pode-se observar que mesmo os epigramas mais licenciosos presentes na obra de José Feliciano de Castilho trazem em si uma carga de retrato dos costumes amorosos dos antigos. Como nos versos de VII, 75, inseridos no comentário “Harpia31” com a intenção
de exemplificar “rapazes que se dedicam a namorar velhas ricas” (CASTILHO, 1862, v.3, p.267):
‘Stá boa a mestra abelha!32 De graça! quer brincar33? Estuporada34 a velha, quer dá-lo e não quer dar!
(CASTILHO, 1862, v.3, p.267)
31 Harpia: [3] “Pessoa ávida, avarenta e de má índole, capaz de extorquir as outras
pessoas” (CA).
32 Mestra abelha: [abelha-mestra. 2] “mulher astuciosa, cheia de artimanhas para
controlar e dominar tudo” (CA).
33 Brincar: [9] “ter relações libidinosas” (CA). O uso do verbo brincar para traduzir
o verbo futuere (futui, verbo que alude à penetração vaginal) pode estar relacionado à primeira acepção do verbo ludere: dar-se aos prazeres sensuais (Saraiva).
É evidente na tradução de Castilho José o jogo com as palavras e a ambiguidade na utilização do verbo “dar”; no entanto, o tradutor destina esse epigrama à ilustração de moços que se aproveitam de senhoras, ou seja, um dado de cultura dos relacionamentos.
Essa utilização dos epigramas mais licenciosos, com a presença de verbos como o futuere35 como dado de cultura, ocorre em Castilho
José com bastante frequência, até porque seus comentários se destinam aos costumes, sejam eles do cotidiano romano em relação ao seu, no século XIX, sejam eles sobre os relacionamentos ou sobre a mulher.
A relação com o feminino, em diversos aspectos, é tema de um grande número de epigramas, entre eles o I, 101, o II, 9; II, 25, o II, 26, o VI, 31, o IV, 24, entre outros; e é nesses epigramas que costumam aparecer os verbos e expressões licenciosas e ambíguas de Marcial. Um aspecto interessante, que confirma o que acabou de ser dito, é a coincidência em grande número de epigramas apresentados por Alexandre Agnolon em seu estudo e os presentes na Grinalda da Arte de Amar.
O livro O Catálogo das Mulheres: os epigramas misóginos de Marcial de Alexandre Agnolon apresenta um panorama do tema da misoginia entre os antigos, culminando no tratamento que Marcial deu a esse assunto. É curioso que haja entre Castilho José e
35 Os epigramas serão apresentados mais adiante com a sua versão em latim, a
Alexandre Agnolon quinze epigramas em comum, justamente por se tratar de uma temática de invectivas contra a mulher,por vezes apresentando poemas bastante licenciosos e obscenos.
Essa curiosidade traz à tona a noção de que não há, da parte de Castilho José, uma preocupação em não publicar epigramas com conteúdos impróprios, uma vez que se trata de um livro sobre as práticas amorosas, e que já traz explícita a proibição para jovens36. O trato com os temas de Marcial nas notas do tradutor português traz, sim, uma realocação temática, o que em Marcial é temática licenciosa é aproveitada por José Feliciano de Castilho como dado importante de cultura, de como se davam os relacionamentos, quais eram as queixas dos amantes, os costumes das mulheres.
José Feliciano de Castilho apresenta uma leitura dos temas de Marcial condizente com a sua realidade do século XIX; assim como E. T. Simon (MARTIAL, 1819, p.VII) e Verger (MARTIAL, 1834, p.vij- viij), ou como Figueiredo (1862, p.132), para os quais o poeta de Bílbilis é fonte inesgotável dos costumes de sua época, e, para essa finalidade, aproveita-se da quase totalidade de sua obra37.
36 Há na segunda capa da Arte de Amar a seguinte indicação: “Endereçada
exclusivamente aos homens feitos e estudiosos das letras clássicas.” (CASTILHO, 1862).
37 Curiosidade: apenas cinco livros de Marcial não são contemplados nos