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1 - MADDENİN FİZİKSEL HALLERİ

SORU 14 Gazlarla ilgili

O poema parece seguir o itinerário tradicional do gênero no modo como o diabo é tratado. Inicia o relato procurando ocasionar pavor nos ouvintes (até aqui nada de novo). Isto pode constatar mediante a introdução que diz: “Senhores quem é poeta/ está sujeito a encontrar com espírito maconheiro/ Cheio de truque e azar (p. 304). Observe o termo maconheiro usado não à toa, certamente – visto o preconceito do povo. Assim como o medo também é processado ao usar na estrofe segundo qual diz ter caído numa emboscada (p. 304); que se assustou pelo aspecto estranho e feio do Negro (p. 305); que o suor caiu pela testa e pelos arrepios sentidos ao ouvir o Negro falar (p. 305).

Todo o roteiro parece ser condizente com os tradicionais: medo (no início), diálogo e tópicos um tanto engraçados no desenvolvimento do poema. Cabe ressaltar quanto ao desenvolvimento que o diabo é sempre ridicularizado e vestido como inimigo da humanidade – conforme F.S mesmo apresenta. Ademais nos poemas tradicionais o próprio diabo encabeça no roteiro esta idéia presente no imaginário católico. Todavia, isto não ocorre neste poema – e aí está uma das quebras com o roteiro tradicional. Tirando a manutenção da figura do diabo em conformidade com a tradição cristã (dinamizada por FS), o diabo não assume os ares de maldade. É um espírito cônscio de si, sem interesse por questões de religião, amante da capacidade argumentativa manifesta na peleja. Por sinal, muito condizente com a pesquisa de Migliavacca (2003) que estabelece paralelos comparativos entre Satã (da tradição judaico-cristã) e Prometeu (da cultura grega) onde expõe que “a ação satânica traz consequências irreversíveis ao curso da vida

humana, e a primeira delas é a consciência (MIGLIAVACCA, 2003, p. 38)”. Observando um dos diálogos do N. com F.S podemos constatar este dilatar da consciência.

N. Essa sua natureza Eu conheço a ela a fundo Sou capaz de descrever Toda a origem do mundo Desde o mais potente ser Ao mais péssimo vagabundo. F.S Você faz parte da fera Que iludiu Adão e Eva Manchando a lei do dever Com o fruto da reserva

Mas não pense que me arrasta Para o caminho da treva. N. Adão e Eva pecaram Por uma contradição Mas aquilo foi somente Para haver a geração Mesmo sem haver pecado Não havia salvação. F.S Mas a culpa de Adão Foi por causa da serpente Que atacou de surpresa A pobre Eva inocente E fez ambos se perderem Pelo pecado somente. N. Mas o eteno por ser um juiz tão poderoso para que deixou Lusbel entrar no jardim mimoso e botar Adão e Eva no pecado rigoroso? F.S Negro não seja tão [ruim

querendo a Deus maltratar Você sabe que Lusbel Foi autor de todo azar Por se ver perdido quis A nosso pai complicar. N. É certo que Adão tem [culpa porque a lei transgrediu mas quando Lusbel pecou e lá do trono caiu

pra não entrar no jardim por que Deus não proibiu? F.S E por que foi que [Lusbel quando ficou lá no trono substituindo a ordem de Deus eterno patrono orgulhou-se e propôs guerra querendo do céu ser dono? N. Aquilo foi pra poder Dar começo as gerações Pois o eterno podia Ter privado essas razões Ms deixou Lusbel assim Para cumprir-se as lições. F.S Negro você não tem jeito de se chegar na verdade mas eu vou tirá-lo agora com o credo da trindade para nunca mais zombar

do grande deus de bondade (p. 306 e 307).

A temática do pecado original é chamada para a discussão. A fé cristã reza que “o pecado entrou no homem (GS 13, 239-240), causando nele um profundo desequilíbrio (GS 10ª, 230; 13b, 240); vulnerou a liberdade (GS 17, 249) feriu a vontade (GS 78 a, 466), obscureceu e enfraqueceu a inteligência (KLOPPENBURG, 1969, p.278)”. O pecado original consiste no ato de soberba e desobediência do homem para com Deus. Aquele quis ser como Deus. Com este ato volitivo dos primeiro pais, segundo a fé cristã, o pecado se estendeu a toda a humanidade. Assim, na dinâmica da teologia cristã, “A maioria dos Padres estavam de acordo em afirmar que o pecado original se transmitia não por imitação, mas por propagação, e entendeu propagação como sinônimo de geração (KOSER, 1961, p. 44)”.

Ora, os pelejantes – partindo de FS.- abordam a culpa do surgimento do pecado original que pôs toda a humanidade no pecado rigoroso como diz o N.. Conforme dito, esta acusação inicia-se e fica restrita, todavia, em FS.

Primeiro F.S acusa N. de ter iludido e manchado a vida dos primeiros pais. Em contrapartida N. explica – numa versão bem popular – que o pecado se fazia necessário visto que era para haver a (procriação da) geração humana – coisa querida por Deus (conforme mesmo se delineará em estrofe posterior):

N. Aquilo foi para poder Dar início às gerações Pois o eterno podia Era privado essas razões Mas deixou Lusbel assim

Para cumprir-se (sic) as lições (p. 307).

Nada mais saliente num poema nordestino do que evocar a sexualidade. Um assunto tabu. O diabo, para esta questão tão particular e escondida, apresenta o argumento da vontade da divindade em seu ato. Mas soa este impulso (a da geração por ato sexual) como algo degradante para a cultura do pudor nordestino. Ora, no degradante Deus não se intromete, mas pode intrometer outro (que no caso, conforme diz N., pelo poder divino foi concedido a Lusbel essa tarefa de provocar a geração). E o próprio diabo evoca esta contradição ao dizer em estrofe anterior à citada: “N. Adão e Eva pecaram /Por uma contradição... (p. 306)”. Ora, a contradição não foi de Lusbel, mas de Deus que podia ter privado o humano destas razões, como bem diz o diabo, mas ele assim não o quis.

De modo hilário o poeta chama a atenção para a medida da força e do poder de Deus então inoperante no caso do pecado original. F.S em contrapartida, numa mente imbuída da noção de blasfêmia observa nesta colocação um gesto de maltrato para com a pessoa divina e logo, sem dialogar sobre a culpa de Deus, já joga a culpa na serpente apoiando-se, mais uma vez, na tradição.

Procurando retomar a discussão acerca da culpa de Deus o diabo novamente questiona a onipotência divina que não impediu Lusbel de entrar no paraíso para, assim, evitar a queda humana. E mais uma vez o poeta se esquiva da resposta do enunciado e propõe outro questionamento. Em suma: o diabo levanta muitos questionamentos e o poeta de todos se esquiva com uma afirmação destoante do enunciado, mas usual na catequese cristã (desprovida de senso para levantar questionamentos a Deus).

F.S é o protótipo do homem refeito pelo discernimento da gravidade do afastar-se da vontade de Deus, imagem do homem convertido e convicto, salvo pelas águas do batismo (puro e perseverante em sua fé)77. E é este homem com

77

Somente para recordar o cerne dessa temática teológica : “a ligação Batismo – penitências que tem o mesmo efeito: a remissão dos pecados; a consciência da santidade dos batizados” (PARISSE, 1966, p. 606).

quem o diabo procura diálogo. Diversamente do ocorrido com as gerações humanas onde, devido o pecado, ouvindo satanás, o homem se deu conta

(...) de seu estado, seus olhos abrem-se para tudo o que nunca vira antes (...) [onde a partir de então] terá de enfrentar a si mesmo e lidar com a sua existência em outro plano; ele precisará incluir tudo o que nele é resultado de sua convivência com a ação satânica; “cólera, rancor, suspeitas, ódios, raivas, discórdias, hórridas tormentas que furibundas se lançam na alma (MIGLIAVACCA, 2003, p. 37)

Destarte, negando a sociabilidade gerada pela opinião alheia (a não-verdade execrada pela religião) F.S caminha no inverso do proposto para o homem embebido do vigor de Satanás que,

(...) perceber-se de um modo novo, ele desperta para o fato de que a sua realidade ultrapassava aquilo que estava ao seu alcance antes perceber. É um despertar avassalador, e desse deslumbramento resulta tudo o mais. A criatura divina, que e movida do paraíso da não-consciência78, para o inferno da consciência, é um ser que tem de se enfrentar, que tem de se haver com a sua agressividade, sua violência, seu medo, necessidades corporais, com suas contradições, com sua existência, enfim. Ele passa a lidar com os seus conflitos da via, incluindo-se ai a possibilidade de matar e de matar-se (MIGLIAVACCA, 2003, p. 38).

De fato, não é isto que acontece com F.S, mas é isto que inspira as falas do diabo.

Mas o que importa neste poema (visto o seu diferencial) é que o diabo é pintado pelo poeta de modo neutro a questões religiosas – propiciando ao leitor uma revisão da definição da identidade deste79. Esta neutralidade pode ser contemplada na justeza acerca de Adão enquanto errante: “N. É certo que Adão tem culpa/ porque a lei transgrediu... (p. 307)”. Na medida em que procura, dentro de uma compreensão popular, encontrar respaldo valoroso para o que é tido em demérito (a geração por procriação sexual) – abstendo-se assim do tabu sexual de então que obscurecia a dignidade humana (manifestando, assim, a sua justa neutralidade em questões que então eram colocadas socialmente de modo pejorativo).

78 Visto que a sua consciência está impregnado do discernimento cristão que na visão contemporânea e que

acompanha a dinâmica mítica de Satã e de Prometeu é uma não-consciência.

79 Dentro da retórica de Perelman (2004, p. 239) o tipo de definição que aqui cabe é a intitulada por “definição

complexa” – visto que elementos (como as definições normativas- que remete o uso da palavra no texto; definições descritivas – que indicam o sentido conferido as palavras; e , por fim, as definições por condensação – que indicam elementos essenciais da definição descritiva) são apresentados acerca do diabo na revisão de sua identidade.

E, por fim, o uso do exorcismo onde o diabo é expulso e sempre vencido por uma invocação à Virgem Maria (LOURENÇO, 2009, p. 3) é aqui alterado – o roteiro de A Malassombrada quebra com a linearidade clássica. Ora, o diabo vai embora por haver cansado de tanta “maçada” (p. 311) – conforme já comentado.