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Gazi Mısırlı: “Türkiye’nin Şu An İzlediği Politika ileride Meyvesini

Cumpre salientar, inicialmente, que a análise da desconsideração da personalidade jurídica no âmbito falimentar será feita, necessariamente, em face das disposições legais constantes no Código Civil Brasileiro, uma vez que o mesmo promoveu a regulamentação da personalidade das pessoas naturais e jurídicas. Nesse diapasão, vale destacar, por oportuno, que é assegurada à pessoa jurídica, no que couber, a proteção dos direitos da personalidade, conforme preceituado pelo art. 52 do Diploma Civil vigente.

É de bom alvitre mencionar que referido diploma legal traz à baila o princípio clássico da autonomia da pessoa jurídica em relação aos sócios que a compõem, havendo o reconhecimento legal expresso da existência da personalidade jurídica da sociedade, adquirida a partir da inscrição dos atos constitutivos desta no registro próprio e na forma da lei, senão vejamos:

“Art. 985 – A sociedade adquire personalidade jurídica com a inscrição, no registro próprio e na forma da lei, dos seus atos constitutivos (arts. 45 e 1.150).

Corroborando com tal entendimento, observa-se o posicionamento de Gladston Mamede 37:

“...(1) há personalidade jurídica própria da sociedade, distinta da personalidade jurídica de seus sócios; (2) há um patrimônio jurídico – econômico e moral - próprio da sociedade, distinto do patrimônio jurídico de seus sócios; e (3) há uma existência jurídica própria da sociedade, distinta da existência jurídica de seus sócios”.

Diante do exposto, não restam dúvidas quanto à existência da separação entre a pessoa jurídica e seus membros, como regra geral. O legislador brasileiro disciplinou as hipóteses e as condições em que a exceção se opera. A propósito:

“Art. 50 – Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica”.

Note-se que a desconsideração da personalidade jurídica não possui efeitos genéricos, não alcançando de maneira distinta a todos os sócios ou administradores, mas, apenas e tão somente, àqueles que, em decorrência de ação ou omissão eficaz podem ser responsabilizados pelo uso ilícito ou fraudulento da personalidade jurídica. Não se pode olvidar que o instituto supracitado constitui medida de exceção, a ser utilizada apenas em hipóteses de caráter específico, entre as quais merece destaque o uso ilícito (doloso) ou fraudulento da pessoa jurídica.

Impende registrar, desse modo, o posicionamento adotado pelo Egrégio Tribunal de Justiça do Distrito Federal:

“EMENTA: RESPONSABILIDADE PESSOAL DOS SÓCIOS. JUÍZO DA FALÊNCIA. ARTIGO 82 DA LEI 11.101/2005. LEGITIMIDADE. MINISTÉRIO PÚBLICO. LACUNA. INÉPCIA DA INICIAL. INOCORRÊNCIA. 1. Constata-se uma lacuna legislativa quanto aos legitimados à propositura da ação de responsabilização pessoal dos sócios de responsabilidade limitada em sociedade falida. Contudo em uma leitura sistemática do ordenamento jurídico, por aplicação analógica dos artigos 132 da Lei 11.105/05 e 50 do CPC, não tem sentido falar-se em ilegitimidade do Ministério Público para propor ação de responsabilidade pessoal dos sócios de sociedade em processo de falência, por atos praticados em desconformidade com a legislação de regência ou contrato social da empresa. 2. A causa de pedir restou devidamente declinada, não padecendo a inicial de qualquer vício, pois a peça de ingresso apresenta-se apta, mormente porque dela se infere qual o pedido, a narrativa fática e correspondente adequação jurídica. Especificamente

em relação ao réu em apreço, a exordial expôs que o mesmo, como sócio da empresa falida, deixou de zelar pela escrituração mercantil, pela guarda dos documentos obrigatórios e pela regular dissolução da empresa. 3. Constatou-se que um dos sócios abusou da personalidade jurídica da empresa então inativa em proveito exclusivamente próprio, restando caracterizado o desvio de finalidade e também a própria confusão patrimonial, porquanto, simulou uma dívida creditória de uma empresa que não contraiu tal obrigação, ou seja, criando para ela um passivo patrimonial, com transmissão de ativos em beneficio de outra empresa na qual detém a quase totalidade do patrimônio social. Nessa esteira, resta caracterizado o abuso de personalidade, caracterizado pelo desvio de finalidade da sociedade ora falida, com transferência e confusão patrimonial em proveito próprio, tudo na forma do que preconiza o artigo 50 do CCB. 4. A declaração de responsabilidade ilimitada, deve cingir-se ao sócio que praticou o ato irregular de desvio, permanecendo, outrossim, a limitação de responsabilidade ao sócio que não incorreu na prática de tal ato. 5. Rejeitadas as preliminares de ilegitimidade ativa e inépcia da petição inicial. 6. Deu-se provimento à apelação de Clair Emílio Debuz, para, reformando a sentença, julgar improcedente o pedido quanto à sua responsabilização pessoal. Por conseqüência, inverteu-se os ônus da sucumbência e determinou-se a liberação dos veículos apreendidos nos autos. 7. Quanto ao recurso de Ruben Cauzim Rivera, negou-se provimento mantendo sua responsabilização pessoal. (Apelação Cível nº. 2009.01.1.035313-8, de Brasília. Relator: Des. Lécio Resende. Data da decisão: 16.02.2011). (Destaquei).

Na mesma toada, observa-se o posicionamento do Superior Tribunal de Justiça:

PROCESSO CIVIL. RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA DE SOCIEDADE EMPRESÁRIA. SÓCIOS ALCANÇADOS PELOS EFEITOS DA FALÊNCIA. LEGITIMIDADE RECURSAL. A aplicação da teoria da desconsideração da personalidade jurídica dispensa a propositura de ação autônoma para tal. Verificados os pressupostos de sua incidência, poderá o Juiz, incidentemente no próprio processo de execução (singular ou coletiva), levantar o véu da personalidade jurídica para que o ato de expropriação atinja os bens particulares de seus sócios, de forma a impedir a concretização de fraude à lei ou contra terceiros. O sócio alcançado pela desconsideração da personalidade jurídica da sociedade empresária torna-se parte no processo e assim está legitimado a interpor, perante o Juízo de origem, os recursos tidos por cabíveis, visando a defesa de seus direitos. Recurso ordinário em mandado de segurança a que se nega provimento. (RMS 16.274/SP, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 19/08/2003, DJ 02/08/2004 p. 359).

Faz-se importante ressaltar a influência do tipo societário no processo de responsabilização dos sócios. Conforme já mencionado no presente trabalho monográfico, de modo semelhante ao falido, que, a partir da decretação da falência fica afastado da administração de seus bens, bem como impossibilitado da livre disposição dos mesmos, os sócios também ficam impedidos de deliberar sobre assuntos relacionados ao gerenciamento da empresa, assim como ao patrimônio do qual a sociedade seja titular.

Assim sendo, pode-se afirmar que aos sócios são aplicadas as mesmas restrições impostas ao empresário individual falido. Contudo, salienta-se que aqueles integrantes de sociedade limitada sofrerão penalidades, no que tange à responsabilidade pessoal, nos termos do disposto na lei específica de constituição da sociedade empresária. Nesse caso, os bens pessoais dos sócios, bem como os pertencentes a seu cônjuge, não são afetados pela falência. Entretanto, caso seja entendida como válida pelo juiz, poderá haver a desconsideração da personalidade jurídica, já abordada nesse tópico, fato que permitirá a responsabilização patrimonial pessoal dos sócios de sociedade de responsabilidade limitada. Sem a mesma sorte, os sócios de responsabilidade ilimitada respondem pessoalmente pelos prejuízos causados a terceiros. Importante frisar que, nesse caso, as mulheres casadas sofrem perda da meação, uma vez que, dependendo do regime de comunhão de bens, as mesmas poderão concorrer com seus bens para a satisfação dos créditos dos credores da sociedade falida. Desse modo, os respectivos cônjuges atenderão a quatro situações jurídicas distintas, quais sejam: isenção de responsabilidade , quando da adoção do regime de separação de bens; responsabilidade limitada à razão dos proveitos que houver auferido e aos bens adquiridos na constância do casamento, no regime de comunhão parcial; responsabilidade limitada à razão dos proveitos que houver auferido e aos bens adquiridos anterior e posteriormente ao casamento, caso verificado no regime de comunhão universal; e, por fim, isenção de responsabilidade por dívidas contraídas posteriormente ao casamento, salvo se houver prova de reversão, parcial ou total, em seu benefício, situação verificada quando do regime de participação final nos aquestos.