Durante o processo de pesquisa e da reflexão em torno das informações levantadas, com o objetivo de compreender as práticas educativas confessionais, pudemos perceber que as pessoas envolvidas nesses processos são, em diversos momentos de suas vidas, tanto agentes quanto objetos de ações educativas, emanadas de outros sujeitos atuantes dentro do campo educativo. Se, em alguns casos, estes papéis são exercidos dentro de uma linha de tempo, em relação a uma formação escolar, em outros casos, podem ser desempenhados simultaneamente, em processos não formais de aprendizagem. Ou seja, ao longo de uma linha de tempo da vida de cada sujeito, podem-se encontrar essas pessoas, tanto emitindo diretrizes comportamentais quanto, por outro lado, sendo receptoras criativas, destas.
No centro do fenômeno sócio-religioso do Cariri, e especificamente de Juazeiro, algumas pessoas, com determinado tipo de prática religiosa, foram tanto agentes do processo quanto, ao mesmo tempo, passíveis de ações sócio-educativas formais ou informais, como aqui já destacado. Ao deixar de ser apenas um fenômeno local, e ao se articular com outros espaços, este fenômeno gera uma série de reações de agentes formativos de outros espaços e de outras esferas, tanto públicas quanto privadas, tanto em um nível local quanto mais amplo.
Foi a partir desta constatação que pudemos entender as várias publicações sobre os referidos eventos miraculosos e dos fatos posteriores a eles que, em grande parte, seguindo uma linha de crítica, apontavam para as expressões religiosas populares como representantes de um atraso, de um tempo a ser superado pela onda civilizacional, que emanavam dos centros urbanos supostamente mais desenvolvidos. Seria a cruzada civilizadora do litoral conquistando os Sertões.
Interessantíssimo foi observar, também que no próprio espaço local, que era visto como homogêneo pelos que estavam fora dele, encontravam-se diversos projetos sociais em desenvolvimento, que se consubstanciavam em experiências de vida. Nos dois polos desta experiência complexa, podemos ver, por um lado, os setores populares que se identificavam com as experiências dos beatos/beatas e penitentes, e, por outro lado, os membros da elite econômica e política local que, em alguns casos, possuíam também uma formação escolar de nível superior e podiam se contrapor, no todo ou em parte, à experiência do “populacho”. E estes setores populares, por seu lado, poderia em parte, recepcionar elementos oriundos dessa cultura de elite importada, exatamente, por esses elementos culturalmente não integrados às classes populares e interessados em controlar a criatividade dos romeiros.
Para acompanhar como este confronto local se dá, retomemos o texto de Floro Bartolomeu da Costa (1923) e de sua defesa de Juazeiro e do Padre Cícero, diante das análises feitas publicamente por um dos membros da comissão de fiscalização federal de
obras no Nordeste, o senhor Paulo Moraes e Barros. Este senhor, após o seu retorno ao Sudeste, proferiu uma série de palestras, nas associações do comércio do Rio de Janeiro e de São Paulo. Em seu texto, Floro levanta a hipótese de que o cidadão, ao preparar o seu discurso e para fundamentar suas palestras, teria lido para tanto o livro Beatos e Cangaceiros, de Antônio Xavier de Oliveira, em que teria encontrado, quando aquele autor fala de um beato específico, o beato José da Cruz, as seguintes passagens:
... É um sujeito celibatário, que faz voto de castidade, (real ou aparente), que não tem profissão, porque deixou de trabalhar e que vive da caridade dos bons e das explorações aos crentes. Passa os dias a rezar nas igrejas, a visitar os enfermos, a enterrar os mortos, a ensinar orações aos crédulos, tudo de accôrdo com os preceitos do cathecismo!
Veste a maneira de um frade uma batina de algodão, tinta de preto, uma cruz as costas. Um cordão de São Francisco amarrado a cintura, uma dezena de rosários, uma centena de bentinhos de São Bento, uns saquinhos com breves religiosos e com orações poderosas, tudo pendurado ao pescoço.
São, geralmente, indivíduos vagabundos, hipócritas, delirantes, religiosos ou bandidos. (OLIVEIRA, apud Costa, 1923, p. 115).
Esta suposição poderia também ser válida para o caso de Lourenço Filho (1926), que reconhece ter tido acesso ao texto de Floro Bartolomeu da Costa, e que apresenta os beatos quase com as mesmas palavras aqui transcritas e já apresentadas anteriormente, neste trabalho. Retirou Lourenço Filho (1926) esta descrição da transcrição de Costa (1923) ou diretamente de Xavier, também citado por Floro? Não temos esta resposta, mas, à semelhança do texto, apresenta-se como um caso claro do que podemos chamar de recepção das ideias, a partir da leitura dos textos, ou, um pouco mais grave, um desrespeito ao direito autoral, já que Lourenço Filho não explicita a fonte de suas informações, apesar de que seu texto tenha ganhado um prêmio da Academia Brasileira de Letras136.
De qualquer forma, Costa (1923), ao citar o beato José da Cruz, e ao apresentar a história de vida do mesmo, tem a intenção de isentar o Padre Cícero e a cidade de Juazeiro da responsabilidade pela existência deste tipo social. Para tanto, defende a ideia de que a experiência dos beatos era conhecida, no Brasil, desde os primeiros tempos de nossa história, ou seja, dos primeiros tempos coloniais. Refere-se ao fato de que, em outras partes, estes
136 No prefácio de apresentação da obra de Lourenço Filho (2002), publicada pelo INEP/MEC, na
coleção Lourenço Filho (V. 5), Carlos Monarcha dá mais detalhes sobre a carreira literária de Lourenço Filho. No ano de 1927, este tinha recebido o prêmio “Ensaios” da Academia Brasileira de Letras, pela obra de sua autoria aqui citada: Joaseiro do Padre Cícero: scenas e quadros do fanatismo do Nordeste. Já no ano 1929, Lourenço Filho foi indicado para a Academia Paulista de Letras. “E, pouco tempo depois publicaria, pela Melhoramentos, aquele que viria a ser seu livro capital, Introdução ao estudo da Escola Nova (1930), um dos livros chave do movimento de idéias, então ascendente, denominado Escola Nova, com seu ideal de educação científica e moderna.” (MONARCHA, In: Lourenço Filho, 2002, p. 15).
existiam, até mesmo enquanto Cristo ainda andava no mundo, e que alguns deles foram canonizados pela Igreja Católica e se tornaram santos. Costa (1923) informa, inclusive, que, antes de ir para Juazeiro, já tinha encontrado na Bahia e em Pernambuco beatos e beatas.
E os de hoje são da mesma ordem dos daquelles tempos homens bons, na maioria virtuosos, humildes, desinteressados e incapazes do mal.
O que se lhes pode attribuir como causa de sua profissão, é um certo desequilíbrio mental, pelo qual nem elles nem ninguém é culpado. (COSTA, 1923, p. 116).
Observar que, nesta citação de Costa (1923), vemos transparecer a vertente teórica de sua profissão. Floro é médico, e é natural, que entre os critérios utilizados para a sua análise, entrem as variáveis que leva em consideração, estejam as que compõem o quadro referencial teórico de sua formação, ou seja, o desequilíbrio mental, que é um dos aspectos que, segundo sua concepção, entra na composição da caracterização dos beatos. Este sintoma não é responsabilidade de ninguém, nem do próprio indivíduo que o apresenta, nem muito menos de outras pessoas, como seria o caso do Padre Cícero, a quem tentavam atribuir o tipo de expressão de religiosidade que existia em Juazeiro.
Por outro lado, o próprio Costa (1923) fala da existência de “loucos mansos” na Cidade, que apresentavam um comportamento de extrema reverência diante do Padre Cícero, podendo vir, inclusive, a se ajoelharem diante dele e a beijar a barra de sua batina, mas isto se dava, pois o Padre Cícero tinha muita paciência com estes e os tratava muito bem. As famílias, inclusive, como forma de se verem livres desse problema, enviavam os loucos para Juazeiro, ou os deixavam aí, após as suas romarias, quando retornavam aos seus locais de origem.
... Já porque o padre é extremamente caridoso e se compadece desses infelizes. Já porque elle tem um dom especial de dominar qualquer louco, por lá se ficam, sustentados por elle, havendo diversos casos de cura completa ... (COSTA, 1923, p. 128).
... Não há quem desconheça a dedicação e a obediência dos loucos para com as pessoas que os não maltratam e, ao contrário, lhes dão o que comer... (COSTA, 1923, p. 129).
... Ao tempo que eu residia em sua casa, innumeras foram as noites que o vi levantar-se alta hora, para atender algum doido que batia à porta... (COSTA, 1923, p. 130).
Entretanto, Floro Bartolomeu da Costa (1923) não faz referência à organização de locais de internação criados pelo Padre Cícero, de “hospital” para internamento de doentes e loucos, apesar de ser médico, como acima já referido. Esta informação se encontra em Maria da Conceição Lopez Campina (1985, p. 39). Nesta obra, aqui já citada, acha-se inclusive,
uma pequena descrição do funcionamento desse sistema e do tratamento dispensado a essas pessoas. Como, por exemplo, o fato de ficarem amarrados para não “darem trabalho” aos seus cuidadores, que eram uma mulher e seu filho. Esses internados para tratamento seriam os loucos não-mansos, os que podiam colocar em risco a integridade de outras pessoas, mas os loucos mansos podiam ficar soltos, e este podia ser o caso dos identificados por Floro, dos quais alguns podiam ser beatos, como o beato José da Cruz.
Citando os beatos que viviam em Juazeiro, Costa (1923) dá os seguintes nomes: “... Zé da Cruz, Manoel João, Elias Italiano, José Leôncio, Manoel Izidro, Domingos Vitorino, Antônio do Monte, Oliveirinha, José do Padre e Manoel Cego...” (COSTA, 1923, p. 116). Observar que entre estes não está incluído o nome de José Lourenço. José Lourenço que, nessa época, se encontrava à frente de um grupo de pessoas vivendo no Sítio Baixa Dantas (desde o ano 1894), em Crato, e pode ter sido por isso excluído da relação elaborada por Floro. Ou simplesmente, os critérios que levavam Floro a classificar uma pessoa como beata, naquele tempo não incluíam José Lourenço, o que, no futuro, outros analistas o fariam.
Tentando descrever melhor a caracterização dos beatos que vivem em Juazeiro, Costa (1923) diz que os trajes dos que aí circulam é o mesmo de sempre, à exceção da cruz, pois somente o Zé Beato a conduz. Quanto à sobrevivência deles, informa que “... exceptuando José da Cruz, José Carneiro e Manoel Cego que pedem esmolas e José do Padre que é sustentado pelo Padre Cícero, os demais vivem por sua conta, trabalhando nos sítios sem auxílio de ninguém” (COSTA, 1923, p. 116). Ressalta, inclusive, que Manoel Cego construiu, com as esmolas recolhidas, ao lado do cemitério dos varilosos em Juazeiro, uma capela cujo padroeiro é São Miguel.
Para fundamentar, de forma mais aprofundada, o seu ponto de vista, Costa (1923) conta a história de vida do Beato José da Cruz, que seria natural de Afogados de Ingazeira, Pernambuco, sendo que já teria chegado a Juazeiro como beato, o que confirma a argumentação de Floro. Para reconstruir a história de vida dele, e comprovar a veracidade das informações que recolheu, Costa (1923) declara que estas foram dadas pelos seus parentes e por uma afilhada de sua mãe, e que estas estão devidamente reconhecidas e firmadas em cartório137.
Na infância, o beato José da Cruz teria sido acometido de meningite, teria se salvado, mas, a partir de certa idade, passou a apresentar certa perturbação mental, consubstanciada
137 Esta comprovação de declarações em cartório, o reconhecimento da firma do depoente, é um cuidado
tomado por Floro Bartolomeu da Costa (1923), em vários momentos do seu discurso publicado, o que denota a preocupação deste de instituir um campo de veracidade, em torno do fenômeno de Juazeiro, em confronto com o campo da inverdade dos detratores.
em um apego excessivo aos santos e à Igreja. A mãe tomava muitos cuidados com ele e, após a morte do seu pai, enquanto estes estavam morando em Recife, voltaram para Afogados de Ingazeira. Após a morte da mãe, teria brigado com os seus irmãos e passado a levar uma vida errante, porque estes não teriam permitido que ele tivesse como herança o oratório dos santos “... junto ao qual desde criança fazia as suas orações.” (COSTA, 1923, p. 118).
Uma das peculiaridades do Beato José da Cruz, além da de carregar uma cruz de madeira, de quase duas toneladas de peso, era a de que ele conduzia alguns carneiros que portavam pequenas cangalhas com cassuás, nos quais depositava as esmolas recebidas e as transportava para distribuí-las com pessoas necessitadas, pobres e enfermas. Na revolução de Juazeiro, este beato teria sido, inclusive, de grande ajuda para Floro, pois, por sua ordem, ficou encarregado de ir com seus carneiros em socorro dos necessitados que não pudessem trabalhar.
Segundo Floro Bartolomeu da Costa (1923), esta medida foi tomada para que estes desvalidos não viessem a morrer de fome, naqueles dias agitados, em que a caridade estava suspensa. E podemos completar: naqueles dias conturbados, em que essas pessoas que apresentavam este tipo de devoção, que então eram subliminarmente criticadas por Costa (1923), formaram a maior parte do contingente que lutou ao seu lado, e em defesa, como os próprios voluntários acreditavam, do Padre Cícero e da Cidade da Mãe de Deus.
De volta ao beato José da Cruz.
Este teria chegado, pela primeira vez, a Juazeiro, com cerca de trinta anos, mas aí não tinha fixado residência. Passava dias e meses em fazendas “... de cujos donos sempre foi estimado.” (COSTA, 1923, p. 118). Floro declara tê-lo conhecido, no ano 1908, quando seguia para o Cariri, na então propriedade do Sr. Pedro Cardoso dos Santos, a cinco léguas distantes da Vila de Brejo dos Santos, ou seja, fora de Juazeiro.
O beato José da Cruz conheceu a violência policial. Segundo Costa(1923), depois do início das perseguições religiosas ao Padre Cícero, a polícia espancava barbaramente os beatos. A última surra que ele tinha tomado deu-se entre os anos 1909 e 1910, em Maurity, então povoado de Milagres. Quando este fato se deu, estaria em visita pastoral, naquela cidade, o então bispo interino do Ceará, o Sr. Dom Manoel Lopes. Teria este fato influenciado a ação da polícia? Talvez, mas teria sido, por outro lado, o Padre Manoel Furtado Maranhão, a pessoa que havia tratado o beato gravemente ferido, e isto em sua própria casa. A partir de então, o Padre Cícero teria impedido que o beato deixasse Juazeiro.
Em relação a esta violência física da polícia contra os beatos, não se pode apenas considerar esta ligação apresentada por Costa (1923) entre a perseguição ao Padre Cícero e a
violência contra eles. Esta perseguição era bem mais antiga e bem mais disseminada. Para comprovar isto, podemos citar o caso de Conselheiro que, após ser preso, no interior da Bahia, em 1876, e remetido para Fortaleza, acusado de réu por crime de morte, o que posteriormente foi averiguado como improcedente, teria sido barbaramente espancado pelos policiais que fizeram a sua escolta138.
Para Flora Bartolomeu da Costa (1923), pelo menos no que este declara em seu discurso ao parlamento brasileiro, as razões que levavam a polícia a agir, daquela forma, contra o beato José da Cruz “... era tão somente por que carregava a sua cruz e orava, chorando, ao pé dos cruzeiros, à frente das egrejas.” (COSTA, 1923, p. 119). E Floro também contesta a informação divulgada de que este beato andaria armado. E mesmo que assim fosse, diz Floro, isto seria legítimo, já que, nos sertões, agressões eram constantes, não só por parte das autoridades policiais, mas também de outras procedências, e estas eram desferidas até mesmo contra membros consagrados da Igreja Católica.
... O Padre Manoel Felix de Moura, que foi victima de duas ou três emboscadas, em Villa Bella, no estado de Pernambuco, salvando-se miraculosamente, nunca deixou de andar suficientemente armado de rifle e mais apetrechos bellicos, nem de ser acompanhado até na egreja, de cangaceiros bem equipados. (COSTA, 1923, p. 121).
Apesar desta fala de Floro, que tenta esclarecer a razão da presença dos beatos em Juazeiro, desvinculando-os, a princípio, da pessoa do Padre Cícero e apresentado-os de certa forma, positivamente, já que os mostra trabalhando e sendo responsáveis pela realização de obras, nem só de reconhecimento foi a vida dos beatos e dos penitentes, na cidade. Durante a pesquisa, pudemos perceber que não foi apenas o projeto externo civilizacional139 que entrou em choque com a religiosidade dissidente. Determinados eventos que ocorreram, inclusive, durante o período de vida do Padre Cícero, indicam que, após a chegada de Floro Bartolomeu da Costa, a independência de Juazeiro de Crato (1911), a guerra de 1914 e a eleição do Floro como Deputado Federal, em 1921140, houve um choque interno entre um
138 “Em 1876, em Missão de Saúde que ficava em Itapicuru, Antônio Maciel foi preso sob a falsa
acusação de ser um foragido da justiça do Ceará onde teria assassinado a mãe e a esposa...” (MONIZ, 1988, p. 31). “Durante o percurso foi duramente espancado pela escolta, mas não se queixou de ninguém. Sabia, perfeitamente, como solicitador, que poderia em Salvador, dar parte dos soldados que o maltrataram. Mas preferiu o silêncio.” (MONIZ, 1988, p. 31).
139 Este projeto externo civilizacional aqui está sendo entendido, pelo menos, em duas vertentes; tanto a
tentativa de romanização do catolicismo popular, a partir das ações da hierarquia católica, no Ceará, quanto a proposta por intelectuais liberais, como é o caso do educador Lourenço Filho, aqui referido, que via a “educação” como o instrumento capaz de acabar com este estado de coisas.
140 “... Floro, após sua breve atuação como presidente estadual na legislativa do Ceará (1914-1915), foi
núcleo ligado às posturas assumidas por Floro Bartolomeu e os setores mais populares do catolicismo, como o liderado pelo beato José Lourenço.
Este choque foi identificado por nós, pelo menos a partir do momento em que, preocupado com a imagem do Padre Cícero, a de Juazeiro e a sua própria, no cenário político nacional, Floro Bartolomeu passou a agir para disciplinar as práticas da própria população de Juazeiro. Estas medidas disciplinares tiveram como consequência a repetição, dentro do próprio espaço da cidade e de seus arredores, de uma perseguição a determinadas práticas sociais e culturais, que eram vistas como mais exacerbadas e fundamentavam as acusações de fanatismo, na imprensa. Esta disciplinarização, que já se dava em outros espaços urbanos, e visava principalmente a expressões culturais sincréticas, de influência indígena, negra e portuguesa colonial, e que, durante certo período de tempo, não foi tão radicalmente adotada em Juazeiro, permitiu que estas práticas pudessem ocorrer, de forma mais livre, sob a complacência do Padre Cícero, mas, a partir do surgimento de novos interesses, principalmente políticos, passaram a ser alvo desta ação disciplinadora.
E do ponto de vista da ação disciplinar interna, percebe-se, também, além da ação contra as práticas mais exacerbadas do catolicismo dissidente141, a ação dirigida a um outro grupo de pessoas, de homens identificados por Floro como “cabras”142, ação que teria por base as práticas ilegais deles, que viveriam da violência, do “cangaço”. A ação contra eles foi tanto a institucionalmente constituída quanto uma outra, a que se desenvolvia, de forma clandestina, e tratava da questão também pelo uso da força e da execução sumária dessas pessoas, na estrada de rodagem. Os “cabras desordeiros”, que podiam ser pessoas armadas a serviço de si mesmas, e não dos potentados, foram, a partir de determinado momento extremamente incômodos e, portanto, passíveis de repressão, mas destes casos trataremos mais à frente.
Apresentamos um exemplo do primeiro aspecto da disciplinarização interna, ou seja, o da repressão ao catolicismo dissidente, supostamente mais exacerbado, a partir da versão de um dos implicados neste processo, ou seja, Floro Bartolomeu da Costa, já que a versão dos outros membros do conflito não foi registrada, de forma escrita, por estes, pelo fato de ‘independente’ (pelo Cariri) na Câmara Federal, para a qual fora derrotado nas eleições de 1916. Floro exerceu o seu mandato federal até a sua morte prematura em março de 1926...” (DELLA CAVA, 1976, p. 255).
141 Ver nota 44, em que está explicado o sentido da expressão catolicismo dissidente, em substituição do
termo catolicismo popular.
142 O termo “cabras”, no uso que lhe é dado por Floro Bartolomeu da Costa (1923), tem uma conotação
pejorativa, ligando-os à prática de atos de violência, no interesse de outra pessoa ou de seu próprio. Em Irineu