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VERGİ KAYIP VE KAÇAKLAR

3.3. VERGİ KAÇIRMADA BAŞVURULAN YÖNTEMLER

3.3.2. Güncel Yöntemler

Stockhausen procurou inspiração em diversos conceitos externos àque- les próprios da tradição musical. É certo que a ciência da acústica, como entendida na época, ofereceu subsídios para as fantasias teóricas do jovem

8 “In composition, whenever you come back to the same thing, it’s no longer the same – other things

have occurred in the meantime. And this return is really a confirmation of having gone through completely new insights and experiences. The same isn’t the same, it’s a matter of context, whe- ther it comes before or later.”

compositor tanto quanto a teoria matemática da informação influenciou decisivamente em sua perspectiva metodológica na atividade composicio- nal, especialmente a partir da segunda metade da década de 1950. No en- tanto, não foi Stockhausen o único a sentir alguma necessidade pela conver- gência entre diferentes áreas e disciplinas do conhecimento humano. Desde a obra de Edgard Varèse podemos notar, de uma maneira mais explícita, a emergência de uma poética fortemente influenciada pelas diretrizes do pensamento científico. Hoje, qualquer pessoa que se dedique à experimen- tação no âmbito da música contemporânea faz uso, direta ou indiretamente, dessa profícua relação entre música e ciência, consolidada já há alguns anos.

Uma curiosa referência na trajetória de Stockhausen que merece des- taque diz respeito, justamente, às ciências e inovações tecnológicas. Pro- priamente, a uma das mais importantes máquinas da modernidade, que vem cumprindo papel fundamental na integração e no deslocamento das pessoas ao redor do mundo, o avião. O fascínio de Stockhausen por esse objeto, fruto da engenharia moderna, remonta aos primeiros anos de sua in- fância. Certa vez, em 1932, ainda antes de completar quatro anos de idade, Stockhausen impressionava-se com um pouso forçado de uma pequena ae- ronave nas proximidades de sua residência. Seu principal biógrafo, Michael Kurtz, assim nos conta:

Ele ouviu crianças gritando e também correu ladeira acima. Um estra- nho veículo estava sobre o terreno congelado e, em meio a um aglomerado de homens gesticulando e de crianças fazendo barulho, o piloto tentava reparar pequenos danos do motor. O homem agarrou-se então à asa do aeroplano até que o motor voltou a girar; o “pássaro” rolou montanha abaixo, decolou, e desa- pareceu em meio à névoa. (apud Kurtz 1992, p.11, tradução nossa)9

O garoto que aos 16 anos sonhava em ser piloto mostraria como o mú- sico poderia se relacionar criativamente com a experiência do mundo por meio da porta mais verdadeira para ele, seu ouvido, aproximando-se de maneira peculiar à natureza dos fenômenos ao seu redor. Durante o ano

9 “He heard children shouting, and he too ran up the slope. A strange vehicle was standing on the

frozen soil, and amid a cluster of gesticulating men and howling children the pilot was trying to repair minor damage to the motor. Then the men clung on to the plane’s wings until the motor was revved up; the bird rolled downhill, took off and disappeared into the mist.”

de 1958, utilizando-se de um avião como meio de transporte, Stockhausen realizou sua primeira turnê pelos Estados Unidos onde ministrou confe- rências e se apresentou em concertos por várias universidades americanas. Acerca desse momento, podemos ler em sua entrevista concedida ao jorna- lista inglês Jonathan Cott:

[...] Estava sobrevoando a América de cidade em cidade, viajando por duas ou três horas todos os dias, ao longo de um período de seis semanas, e minha per- cepção do tempo estava completamente invertida, logo após duas semanas. Eu tinha a sensação de que estava visitando a terra e vivendo no avião. Havia apenas pouquíssimas mudanças na coloração [do som] e sempre esse espectro harmô- nico do ruído do motor. Naquele tempo, em 1958, a maioria dos aviões era aero- naves de propulsão, e eu sempre costumava encostar meu ouvido – amo voar, devo dizer – contra a janela, como que ouvindo com fones diretamente as vibra- ções internas [do motor]. E apesar de que teoricamente um físico diria que o som do motor não muda, ele muda o tempo inteiro porque eu era capaz de reconhecer todos aqueles parciais de seu espectro. Era uma experiência fantasticamente bela. E eu realmente descobri a interioridade dos sons dos motores enquanto observava sutis mudanças do azul lá fora e a formação das nuvens, esse cobertor branco sempre abaixo de mim. (apud Cott, 1974, p.30, tradução nossa)10

A sua peça Carré de 1960, para quatro orquestras e quatro coros, teve origem precisamente nessa experiência, e seus primeiros esboços foram realizados durante esse período:

[...] Realizei os sketches para Carré a bordo das aeronaves. Para certos momen- tos musicais, permiti durações de noventa segundos e por vezes até mesmo

10 “[...] I was flying every day for two or three hours over America from one city to the next over

a period of six weeks, and my whole time feeling was reversed after about two weeks. I had the feeling that I was visiting the earth and living in the plane. There were just very tiny changes of bluish color and always this harmonic spectrum of the engine noise. At that time, in 1958, most of the planes were propeller planes, and I was always leaning my ear – I love to fly, I must say – against the window, like listening with earphones directly to the inner vibrations. And though theoretically a physicist would have said that the engine sound doesn’t change, it changed all the time because I was listening to all the partials within the spectrum. It was a fantastically beautiful experience. And I really discovered the innerness of the engine sounds and watched the slight chan- ges of the blue outside and then the formation of the clouds, this white blanket always below me.”

durações ainda mais longas. Noventa segundos para mim naqueles dias pare- ciam-me uma obra inteira! Eu despenderia meses trabalhando no Estúdio de Música Eletrônica para realizar noventa segundos! Ao longo de Carré, ora aqui ora ali, sempre ocorrem lentas mudanças de timbre em uma das quatro orques- tras [...]. (Stockhausen, 1989d, tradução nossa)11

Outras obras compostas posteriormente, como Stimmung de 1968 e Mo-

mente terminada no ano de 1969, podem ser relacionadas, respectivamente,

a essa busca de Stockhausen pela formação das componentes internas do som e pela expansão dos limites da capacidade humana de perceber dife- renças de tempo entre longas durações.

Se por um lado Stockhausen procurou abordar o fenômeno sonoro com base em procedimentos metodológicos eminentemente sistemáticos, aos quais podemos conferir a qualidade de uma espécie de metafísica teológica imbricada em seu próprio metiér composicional – característica essa que de- verá se acentuar continuamente ao longo de sua carreira –, por outro, o mú- sico americano John Cage, também partindo de uma aproximação de cunho religioso diante da composição – em seu caso, a filosofia zen-budista –, procurou definir seu material musical pelo processo de jogar sons no silêncio (Cage apud Nattiez, 1993, p.78),12 com o auxílio de procedimentos de in-

determinação. Ambos, no entanto, embarcavam em uma mesma jornada – fosse por intermédio do pensamento serial, fosse pelo uso de técnicas de composição não-determinadas – em busca da manutenção da infinitude das possibilidades.

No ano de 1964, em uma segunda visita pelos Estados Unidos, Stockhausen e o professor de música e piloto amador Alvin King – que organizava uma série de concertos dedicados ao compositor alemão –, jun- tamente com Mary Bauermeister13 e o pianista David Tudor, decidiram

11 “[...] I made the sketches for Carré in the airplanes. For certain musical moments I allowed 90

seconds or even longer durations. 90 seconds seemed liked a whole piece for me in those days! I would have worked in the Electronic Music Studio for months to realize 90 seconds! And every now and then in Carré slow changes of timbre occur in one of the four orchestras [...].”

12 “Composition becomes ‘throwing sound into silence’ and rhythm [...] becomes now one of a flow

of sound and silence.”

13 Artista plástica alemã que tem seu nome associado ao grupo Fluxos. Foi a segunda esposa de Stockhausen, com quem teve dois filhos, Julika e Simon. Permaneceram casados entre os anos de 1967 e 1971.

cruzar aquele país em um pequeno avião de quatro lugares, recentemente adquirido por King. Sobre essa história, podemos ler:

[...] Nós voávamos acima das Montanhas Rochosas na direção do Grand

Canyon. Enquanto passávamos sobre o norte do Arizona, o combustível come-

çou a acabar e King fez contato por rádio com a estação terrestre mais pró- xima para realizar um pouso forçado numa pequena pista improvisada de uma grande reserva indígena. A cidade de Tuba – povoado mais próximo dali –, que ficava a uma hora de caminhada, revelou-se habitada somente por índios alcoolizados; o hotel era uma espelunca, com funcionários que não passavam muita confiança. Naturalmente, não havia qualquer propelente para aviões, mas usando uma mistura improvisada de combustível de cortador de grama e petróleo, ou algo parecido, organizamo-nos para tomar o controle do manche de volta e alcançar o lugar maior e mais próximo dali, ainda antes de anoitecer, [de forma que pudéssemos] passar a noite por lá. Na manhã seguinte, realiza- mos um voo por sobre os profundos desfiladeiros de arenito do Grand Canyon, Figura 5 – John Cage e Stockhausen “sobrevoando” as Siebengebirge (sete montanhas) loca- lizadas a leste do rio Reno (1964)

com suas várias tonalidades em vermelho, impressionantemente belas. Quanto mais ao oeste voávamos, mais as gargantas rochosas transformavam-se gra- dualmente em suas “imagens negativas”: em pedras singulares e formações rochosas que se elevavam em direção ao céu. De Los Angeles, dirigimo-nos para São Francisco. Naquele dia, o tempo não parecia muito promissor e King optou por um voo por cima do deserto, em direção ao norte. Logo uma tem- pestade apareceu à nossa frente; não falamos nada, somente olhamos para fora apreensivamente. Para nos colocarmos em uma zona mais calma, King levou a máquina acima das nuvens [...] Para piorar as coisas, perdemos contato via rádio. Em um estranho estado de espírito, esperamos por nosso fim até que finalmente, pouco antes de nosso destino, o tempo melhorou e o mar apareceu abaixo de nós. Enquanto King pousava a máquina em segurança na cidade de São Francisco, abraçávamos uns aos outros em regozijo. (Bauermeister apud Kurtz, 1992, p.130, tradução nossa)14