Inicialmente, foi realizada a identificação das crianças de zero a dois anos de idade e que estavam em situação de descontinuidade do seguimento ambulatorial. Na busca dos contatos junto aos serviços, foi localizado um total de 55 mães de crianças de risco, em condição de descontinuidade do seguimento ambulatorial. Destas, 32 crianças haviam descontinuado o seguimento no ambulatório do hospital “A”, e 23 no ambulatório do hospital “B”.
Após levantamento das crianças, realizou-se contato telefônico para convidar as mães a participarem do estudo. Neste primeiro contato, a pesquisadora se apresentava como aluna do mestrado da Escola de Enfermagem da UFMG e informava como obteve acesso aos contatos, por meio dos serviços de seguimento ambulatorial. Após esta apresentação, a pesquisadora realizava o convite para a participação no estudo. Neste momento, também era confirmado o endereço das residências com os seus responsáveis.
Sobre o propósito da pesquisa, era informado aos contatos, na ligação telefônica, que se referia a um estudo com crianças egressas de UTIN e que haviam sido encaminhadas para o acompanhamento ambulatorial.
O contato com essas famílias teve a interferência de alguns fatores como: número de telefone inexistente ou que não correspondiam mais à pessoa do cadastro nas fichas do serviço, e ligações encaminhadas ao serviço de caixa postal. Neste caso, optou-se pela ajuda dos centros de saúde (CS) de referência, tendo como base o endereço cadastrado nos ambulatórios. Para isto, localizaram-se os telefones dos CS e, em seguida, realizou-se o contato telefônico. Após o contato com esclarecimentos sobre a pesquisa, todos os CS se disponibilizaram a oferecer as informações referentes ao endereço, para a localização das famílias. Sete famílias foram contactadas com a ajuda do CS.
O processo de localização por meio do CS nem sempre foi exitoso. Algumas vezes, os CS referiam que as mães haviam se mudado de suas áreas de abrangência. As famílias são cadastradas segundo o critério da territorialidade, os CS possuem a informação de mudança registrada, portanto a consulta a estes registros pelo CS foi o que permitiu afirmar que elas não mais constavam naquela área de abrangência. Isso impossibilitou o contato com 06 famílias.
Nos casos em que o CS informou telefones atualizados, conseguiu-se o contato com o responsável da criança em descontinuidade ambulatorial para marcação de entrevista no domicilio.
De todos os contatos realizados, 08 responsáveis pelas crianças em descontinuidade do seguimento ambulatorial, que atenderam à pesquisadora, relataram que não estavam mais morando na região metropolitana de Belo Horizonte, haviam se mudado para cidades do interior de Minas Gerais como Pompéu, Pará de Minas, Oliveiras, Serra do Cipó e Peçanha, o que pode indicar o motivo do afastamento do acompanhamento. Uma dessas mães, segundo informações dos familiares, havia falecido há um ano e, por isso, a criança estava sob a guarda dos avós, em outra cidade.
Estas interferências percebidas na captação dos contatos sinaliza mais do que a existência da descontinuidade do seguimento ambulatorial. Estas informações, já obtidas durante o trabalho de campo, sinalizam para a complexidade da manutenção de contatos com as famílias e suas crianças e, consequentemente, uma ação mais efetiva para a continuidade do seguimento.
Outros aspectos merecem ser ressaltados na etapa do contato telefônico para agendamento da entrevista: embora a pesquisadora se apresentasse como membro da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (EEUFMG), algumas mães ficaram receosas quanto ao fato da pesquisa ser realizada em suas casas. Duas delas relataram medo de alguma atividade criminosa, por parte da pesquisadora. Destas, uma mãe concordou em participar depois de ter ligado em um dos serviços do seguimento e certificar-se, junto à coordenação, da existência da pesquisa, e outra concordou, após pesquisar o perfil da pesquisadora nas redes sociais.
Além dessa questão que envolvia o medo de algumas mães, a pesquisadora sentiu resistência na marcação de algumas entrevistas, devido ao próprio desinteresse da mãe. Uma mãe relatou que a criança se encontrava bem e não precisava receber visitas. Outras duas questionaram qual era a relação da pesquisadora com o serviço ambulatorial.
Portanto, a pesquisadora, nestas situações explicava aos contatos o objetivo e a importância do estudo e que não possuía vinculação com o serviço.E, era reforçado, junto aos contatos que o estudo não traria nenhum prejuízo em atendimentos futuros, em quaisquer serviços de saúde. A pesquisadora também colocou à disposição das mães, os telefones dos Comitês de Ética da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e das duas instituições envolvidas.
A mãe que informou que a criança não precisava de visitas, após a explicação da pesquisadora, pediu que retornasse a ligação em outro dia porque gostaria de pensar sobre o assunto. Neste caso, foi necessário, portanto, a realização de mais de um contato telefônico com a mãe, com o objetivo de oferecer esclarecimentos acerca do estudo e de como seria a sua participação. Somente depois de sanadas todas as dúvidas, foi obtida a autorização e agendada a entrevista. Embora em algumas situações tenha havido a necessidade de mais de um contato telefônico, eles ocorreram no sentido de oferecer esclarecimentos acerca da pesquisa de forma a possibilitar uma decisão informada das participantes, sendo reiterada e deixada livre a escolha dos participantes em autorizar ou não o agendamento das entrevistas.
Cabe mencionar que uma participante que, de início, aceitou participar, posteriormente, retornou a ligação informando que o marido não havia permitido sua participação e, por isso, estava desmarcando a visita. A pesquisadora se
disponibilizou para esclarecer quaisquer dúvidas para o esposo, contudo, como a participante indicou que preferia não participar, a entrevista foi cancelada e não foi realizado novo contato.
Outras situações ocorreram neste processo de marcação e realização das entrevistas. Duas das mães, que aceitaram participar da pesquisa, não receberam a pesquisadora em seus domicílios. Na casa de uma delas, a pesquisadora foi atendida pela sogra da potencial participante, que informou que a nora precisou ir ao centro resolver assuntos particulares, e que demoraria retornar. Em outro domicílio, a pesquisadora chamou por várias vezes, sem ser atendida.
Após esse acontecido foram realizadas quatro tentativas de ligações no período de duas semanas, para cada uma destas mães, porém a pesquisadora não foi atendida. Isto impossibilitou tanto a remarcação da visita, como saber o motivo do não recebimento da pesquisadora no domicílio.
Embora não fosse mencionado sobre a descontinuidade do seguimento ambulatorial, no momento do contato telefônico, essas situações sinalizam que talvéz essas mães, cujas crianças estão faltosas ao acompanhamento, receiem algum julgamento, devido a este fato. As situações vivenciadas no campo, e que impossibilitaram a realização das entrevistas, foram apresentadas no Quadro 1. No Quadro 2 apresentam-se as situações que viabilizaram a entrevista.
Quadro 1: Situações vivenciadas no campo, que impossibilitaram a realização da entrevista, Belo Horizonte, Minas Gerais, 2015
Telefones inexistentes ou pertencentes a outras pessoas que não foram recuperados pelos CS
06
Mudança da região metropolitana de Belo Horizonte 08
Recusa da participante 01
Não atendimento no domicílio, pelas participantes 02 Falecimento associado à mudança da região metropolitana de Belo Horizonte 01
Total de contatos em que não foi possível a realização de entrevista 18 Fonte: elaboração própria, 2015
Quadro 2: Descrição das situações que viabilizaram a realização das entrevistas., Belo Horizonte, Minas Gerais, 2015
Recuperados pelos CS e agendado 07
Agendadas no primeiro contato sem ajuda do CS 13
Autorização da participante após ligar no ambulatório 01 Autorização da participante após se certificar nas redes sociais sobre a pesquisadora
01
Total de contatos em que foi possível o agendamento da entrevista 22
Fonte: elaboração própria, 2015
Ao final conseguiu-se o agendamento de 22 entrevistas. Contudo as seis primeiras foram excluídas no processo de aprimoramento da técnica de pesquisa após a análise por outros pesquisadores. Ressalta-se ainda que, outra entrevista realizada foi excluída por não se enquadrar nas condições de descontinuidade confirmadas no prontuário da criança, portanto, o estudo se processou com 15 mães.
Das 22 entrevistas inicialmente agendadas, 12 mães escolheram o período vespertino para receber a pesquisadora em seus domicílios, 09 optaram por horários na parte da manhã, e uma das mães fez a escolha do horário de almoço, às 12h, com a justificativa de que seria o único momento que estaria em casa, por trabalhar fora. Cabe ressaltar que 03 entrevistas foram realizadas no sábado à tarde, porque as mães trabalhavam e só podiam receber a pesquisadora no final de semana.
A condução das entrevistas no domicílio foi orientada por um roteiro semiestruturado (ANEXO 1) e ocorreram no período de julho a outubro de 2015. No total, as entrevistas tiveram duração média de 19 minutos e 59 segundos, com menor tempo de 14 minutos e 37 segundos, e maior com 38 minutos e 14 segundos. Nas residências das famílias, as falas foram gravadas após autorização dos sujeitos, e, posteriormente, transcritas na sua originalidade, pela própria pesquisadora.
As entrevistas foram realizadas até que possibilitasse a produção de um conhecimento novo e o entendimento de que as informações obtidas eram suficientes para o atendimento aos objetivos. Esta definição foi sustentada na produção de (MARTÍNEZ-SALGADO, 2012), para quem a validade de uma amostra
para estudos qualitativos depende do contexto na qual está inserida, e no alcance dos objetivos propostos, aspectos estes considerados neste estudo, a partir de que as entrevistas apresentaram material suficiente e com potencial para proporcionar o entendimento sobre a descontinuidade do seguimento ambulatorial de crianças egressas de UTINs.
Em todas as visitas realizadas a pesquisadora utilizou-se de notas de trabalho de campo registradas sobre a descrição do local da coleta de dados, no caso a residência das participantes, acontecimentos durante a entrevista, receptividade da participante, além de sentimentos e percepções da pesquisadora que poderiam contribuir posteriormente para a análise dos dados. Logo na saída do domicílio, a pesquisadora anotava tópicos importantes de sua observação, e assim que se encontrava em um local adequado, procedia à expansão das notas de campo. Destaca-se que, para garantir o detalhe das anotações, as mesmas foram feitas poucas horas após a entrevista ou em até 24 horas após.
4.5.2 Preparo da pesquisadora para o trabalho de campo e aspectos sociais