2.2. Görsel Algı
2.2.2. Görsel Algı Gelişimi
Pirandello (1867-1936) foi acusado por um crítico de escrever peças inverossímeis, completamente apartadas da realidade e dos sentimentos comuns ao universo humano. Pirandello o provocou dizendo sobre a inverossimilhança – que a vida humana daria muito mais motivos para se pensar o absurdo. E os absurdos, grandes ou pequenos existiriam e não precisariam ser “verossímeis”, seriam fatos inerentes à vida humana. Se a vida nos dá tantas provas do absurdo, por que a arte deveria usar de determinados escrúpulos para tornar “convincente” e “real” a fantasia, produto do pensamento imaginativo humano? Pois de fato, o absurdo ou a fantasia da criação artística encontraria sua inspiração na própria inverossimilhança dos fatos da vida.
Mas...E se o valor e o sentido universalmente humano de certas fabulações e de certas personagens minhas, no contraste, como ele diz, entre a realidade e a ilusão, entre o rosto individual e sua imagem social, consistissem, justamente, antes de mais nada, no sentido e valor que devem ser dados àquele primeiro contraste? A esse contraste que, por uma incessante burla da vida, se nos revela sempre inconsistente, por isso mesmo que,
necessariamente, por desgraça, toda a realidade de hoje é destinada a
revelar-se, amanhã, ilusão – mas ilusão necessária, se, fora dela, infelizmente, não há outra realidade? [...] Se, talvez, enfim, consistissem justamente nisto: que uma situação socialmente anormal é por nós aceita, mesmo se a vemos num espelho, que, em tal caso, nos coloca diante da nossa própria ilusão; e, então, a representamos, sofrendo o martírio que nos causa, enquanto a representação seja possível dentro da sufocante máscara que nós mesmos nos impusemos ou que haja sido imposta por outros ou por uma terrível necessidade, isto é, até quando, debaixo dessa máscara, um sentimento nosso, demasiado vivo, não esteja tão profundamente ferido, que a rebelião, por fim, prorrompe e a máscara é rasgada e pisada com os pés138?
Parece que a “inverossimilhança” dos fatos da vida perceptíveis a Pirandello, tornou-se máxima da sociedade atual. Amiúde ouve-se que a sociedade contemporânea denominada por alguns de “pós-modernidade”, seria um composto fluido, líquido, um fluxo contínuo, no qual as relações se encontrariam horizontalizadas e não existiriam modelos de comportamento. Os próprios laços que comporiam as relações entre os indivíduos estariam frágeis, e tudo isso, teria deixado o sujeito social à deriva no universo da cultura. São inúmeros adjetivos e caracterizações do mundo atual que revelariam o que alguns chamam de o “mal estar na modernidade”. Paira certa descrença na sociedade, um ceticismo e mesmo um cinismo em relação a qualquer
mudança que proporcionasse novamente certo sentimento de segurança e conforto para os sujeitos. Fala-se de uma sociedade em transição que não seria capaz da produção de sentidos para a existência.
Mas o que essa sociedade parece ter produzido, teria sido antes de tudo, o esmaecimento das representações sociais que a ordenavam e capturavam os sujeitos no espelho social em posições e relações sociais mais fixas. A vida, antes sustentada completamente pela tradição, não necessitava ser justificada, era a única realidade. Atualmente, o Outro (tesouro dos significantes), universo simbólico de sustentação das significações, ter-se-ia fragmentado pelo mundo da tecnologia e pelo mercado de consumo que teriam promovido novas formas de relação com o tempo, com o espaço e com os outros, ou seja, um novo modelo de subjetividade e socialidade. O sentido para a vida, encontrado em razões transcendentais e na representação de um Deu Pai protetor, que em sua infinita sabedoria guardaria para si o porquê dos sofrimentos dos homens – teria cedido lugar à imanência do consumo, a “virtualização” da realidade, e ao saber da ciência. Os sentidos ordenadores da antiga ordem social parecem pulverizados na passagem da Cidade de Deus para a Cidade dos Homens.
Tais mudanças teriam provocado a irrupção de um imaginário que se sobreporia à ordem simbólica. Em uma sociedade cujas relações sociais estariam em constante devir, haveria uma relativização da ordem conceitual em virtude desta não mais se sustentar significativamente em oposições significantes. A “substancialização” da realidade através da vivência dos papéis sociais e de todo um conjunto de representações sociais imaginárias que ordenariam o universo da cultura a partir de pólos bem definidos (bem e mal - Ética; homem e mulher - Sexualidade; certo e errado - Moral; feio e bonito - Estética), ter-se-ia esvaziado de sentido. Poder-se-ia perguntar: esta queda da ideologia teria proporcionado a revelação de que a vida humana só poderia encontrar razões na própria cultura e que a realidade seria provisória? Estaríamos então vivendo um momento no qual seria possível a promoção de uma consciência coletiva em que os sujeitos sociais suportassem a ausência da Verdade? Ou de uma sociedade que assumiria a responsabilidade pelo devir social, ou seja, uma vida e uma cultura baseadas em uma Ética?
O que se apresentaria na sociedade contemporânea, ao que parece, seria o contrário disso. Parece haver uma preocupação crescente com a violência social disseminada por toda a sociedade. Nos noticiários de TV, as condutas violentas e os atos transgressivos são fatos recorrentes, mais que isso, diários. Haveria um sentimento
de instabilidade social provocado pela repetição incessante de que a sociedade contemporânea estaria dominada pela violência. O que teria produzido uma “cultura do medo”? Qual seria o sentido dessa violência na atualidade?
[...] na sociedade contemporânea, a violência é, antes de tudo, considerada como um elemento de desordem (e não fato inerente ao humano). De um reestruturador, ela passa a ser um elemento desestruturador. A violência passou a ser um tabu (TAKEUTI, 2002, p.166).
Um fenômeno interessante de ser notado é o fato dos sujeitos vivenciarem a realidade através da mídia em detrimento da própria realidade por eles vivenciada. Este fato, não seria indicativo de uma cisão entre o campo da experiência social do sujeito, do seu cotidiano, e o que lhe seria mostrado enquanto realidade virtual/real? Tudo levaria a crer que ocorreria uma substituição da experiência por uma virtualização da realidade. Na sociedade contemporânea, parece haver uma atitude ambivalente em relação à violência. Ao mesmo tempo em que seria um “tabu” seria também um espetáculo a ser visto e consumido. A mídia, de certo modo, reconhecendo isso, parece seduzir o expectador intensificando imaginariamente a sensação de um mundo violento no qual o outro não seria um membro da sociedade, mas alguém a ser temido. Por outro lado, as imagens da violência exerceriam um fascínio sobre o público – o sofrimento, a dor, os corpos sem vida, a exposição de um cotidiano à beira do colapso –, seriam tratados pela mídia como pequenos espetáculos dantescos. A mídia parece ter transformado a vivência trágica do humano em um drama cotidiano produzido com o intuito de provocar a comoção do público. “A violência tornou-se um produto mercadológico” (TADEUTI, 2002, p. 168). Takeuti faria notar a predominância nessa sociedade, na qual tudo se torna transparente (dado a ver), a produção de uma violência estetizada. As conseqüências disto, segundo a autora, marcariam profundamente a subjetividade contemporânea.
[...] trata-se mais de uma fantasia da violência que, ao impregnar o imaginário social, provoca a impotência mental e a paralisação de reflexões ou, então, determina as condutas sociais, que acabam tomando a forma de intolerância ou de desconfiança exacerbada, podendo, por sua vez, redundar em ações extremas como linchamentos ou extermínios (TAKEUTI, 2002, p.171).
Poder-se-ia refletir a partir das considerações da autora que os comportamentos violentos da sociedade atual demonstrariam menos um excesso (sinônimo de violência na atualidade) em si, do que na forma como são apresentados pela mídia. Desse modo, o excesso estaria na produção de uma “violência estetizada” que apresentaria a sociedade enquanto um espaço de violências e transgressões, o qual deve ser temido, do qual as pessoas devem se proteger e se defender (nem que para isso precisem agredir e matar o outro). A cultura do medo tornaria os sujeitos arredios ao contato com o outro, provocando o isolamento e o recrudescimento da individualidade.
Trata-se, principalmente, de chamar a atenção para um tipo de fenômeno social concreto que, através de uma elaboração imaginária, ganha um outro corpo real e leva a determinar práticas da vida social, desembocando num processo de anulação (simbólica e social, mas também física) do outro (TAKEUTI, 2002, p.172).
Em sua pesquisa, Takeuti demonstra de que forma esse imaginário se enraizaria na percepção dos sujeitos e de que forma a sociedade instituiria como agentes da violência os jovens das populações mais carentes, meninos e meninas que transitam pelas ruas, sem trabalho, sem estudo, drogados, prostituídos. Dessa forma, a sociedade delimitaria o lugar e o agente da transgressão e do mal social. Essa forma de conceber o fenômeno da violência deixaria entrever os efeitos da ideologia sobre o social ao inverter a realidade através da promoção de um hiper-realismo. A sociedade se eximiria de analisar os fatos diversos que propiciariam a emergência da violência, deslocando sua causa para uma específica classe social e etária, materializando a dominação social ao atribuir a desordem àqueles que estariam excluídos do mundo civilizado. A conseqüência deste fato seria uma reação da população que parece ser tão violenta quanto a violência que se diria querer combater. Seria notório, na atualidade, o apelo às penas mais severas; a condescendência da população (inclusive entre a população de baixa renda) ao extermínio enquanto uma forma compreendida de se fazer justiça, já que ‘as leis não funcionariam’, como também, uma demanda por segurança que, geralmente, se traduziria por um aumento do contingente policial tanto quanto por armamentos mais eficazes em sua luta contra os ‘marginais’ (“como pode a polícia exercer bem a sua função atirando com um 38, quando os bandidos atiram com AR- 15?”, são expressões comumente ouvidas.). Isto tem os seus efeitos.
Forja-se na pós-modernidade [...] uma importante transformação nas formas pelas quais a sociedade se defronta com os desvios sociais, preferencialmente encaminhados para a instituição penal, que exclui socialmente seus agentes por longos períodos de tempo. A posição de destaque atribuída à ordem penal é a contrapartida do lugar estratégico destinado à ordem jurídica no imaginário social contemporâneo [...] Para os sobreviventes, a prisão se torna o espaço preferencial para administrar a exclusão social, na qual não existe mais qualquer possibilidade de inserção social das individualidades abandonadas à própria sorte. (BIRMAN, 2002, p.45).
No campo da violência sexual, a ideologia também faria surtir seus efeitos nas questões da violação do incesto. Geralmente, são os pais ou alguém que deveria exercer essa função junto à criança que praticaria o incesto. Seriam “homens normais” que exerceriam o poder conferido pelas sociedades “falocratas” de abusarem sexualmente das filhas, pois nestas sociedades, o “homem é incentivado a tratar as mulheres apenas como um objeto que lhe pertence”. Tratei dessa questão anteriormente sob a perspectiva simbólica/estrutural.
Havia apontado a ideologia como um fenômeno eminentemente simbólico: um efeito da estruturação simbólica. Mas o que até aqui teria sido constatado, sobretudo, seria um esmaecimento da eficácia simbólica em detrimento da força da produção de imagens (imaginário social) na sociedade atual. Todavia, de forma alguma isto invalidaria nossa reflexão acerca da ideologia. Não se poderia, por mais que o imaginário predomine sobre o simbólico, pensar uma cisão entre um registro e o outro.
O imaginário, no humano, só se poderia sustentar por seu entrelaçamento com o simbólico. A maneira como se estrutura o imaginário no psiquismo também se daria através do Outro. O registro do imaginário se origina por uma relação especular que provoca a emergência da totalização da imagem de si de um sujeito. A apreensão da realidade enquanto imagem tem um duplo aspecto: ela se dá enquanto rede de imagens: os objetos não são percebidos um por vez. Sua apreensão se daria por um processo no qual a sua captura pelo sujeito “é sempre recuperada, assimilada e trabalhada, de acordo com um complexo de imagens que precedem e permitem ao mesmo tempo metabolizar a nova impressão” (CABAS,1982, p.19). E enquanto registro, entrelaçada ao simbólico, pois cada objeto percebido é também nomeado. Sua função só seria definida através da posição que ocuparia em relação aos outros. O imaginário se caracterizaria também por outra peculiaridade: “dizer imagem obriga a precisar se se trata de uma imagem
percebida ou de uma imagem produzida. É que o registro do imaginário é nada menos que a sede dos fenômenos da ilusão” (CABAS, 1982, p.18). Sendo o imaginário, sede dos fenômenos da ilusão, ele seria um campo profícuo para a atuação e atualização da ideologia. Por intermédio do registro do imaginário, a ideologia transformaria miragens em realidades através da cristalização das significações. Desse modo, o registro do imaginário encontra-se entrelaçado ao registro simbólico. Sendo assim, por razões teóricas, não se poderia conceber a ideologia desatrelada do simbólico mesmo em face do seu esmaecimento na sociedade atual. Mas o que provocaria esse inchamento do imaginário?
A incidência poderosa desse mundo tecnológico das comunicações e da produção de imagens na sociedade atual, teria provocado uma alteração profunda na maneira como as pessoas vivenciam o mundo da experiência da realidade. Poder-se-ia ver tudo o que acontece no mundo, “visitar” o museu do Louvre, encontrar-se com alguém que vive a milhas de onde se está. Tudo isso parece estar levando a mudanças da percepção do tempo e do espaço, forjando uma nova forma de subjetividade que fixaria os sujeitos na sensação de que na realidade “tudo flui”, nada permanece. O saber produzido pelo sujeito ao vivenciar sua própria experiência da realidade seria deslocado para a verdade produzida pelos meios de telecomunicação. As conseqüências desse avanço tecnológico encontrariam um correlato na instituição do conhecimento científico enquanto lugar autorizado à produção de um saber verdadeiro sobre a realidade e o sujeito. A Ciência se proporia a dar respostas e amparo frente à realidade humana e à natural, esclarecendo aos sujeitos sociais os paradoxos da existência, os enigmas da vida, o funcionamento do cérebro, da sexualidade, as causas das patologias orgânicas e mentais. Tudo seria devidamente dissecado e dado a ver, prova inelutável de verdade. A ciência tornaria o mundo e o sujeito transparentes ao seu olho que tudo vê (e esse olhar não é metafórico...).
Alia-se a essa conjunção de fatores a existência da sociedade de consumo que encontraria sua razão de existência no consumo desenfreado das mercadorias, cuja lógica operante seria sempre a do mercado. Seu funcionamento se dando através de cifras, cálculos, estimativas, mercados internacionais, variações do dólar. As relações de produção e consumo (relações de troca) seriam relações desprovidas de qualquer contato pessoal. O mercado é anônimo, os produtores formam sociedades “anônimas”, o mercado diz o que o sujeito deve consumir e não o contrário. Desse modo, o sujeito só se faria reconhecer por seu poder de consumo. A relação estabelecida com a mercadoria
não proporcionaria um sentido, mas se esgotaria no ato de consumir não importa o quê. O consumo seria um ato solitário (PRATA, 2002). O sujeito seria sempre solicitado a uma substituição incessante dos objetos, pois depois de adquiridos, perdem seu sentido. Esse modo de lidar com os objetos se expandiria para o universo das relações com o outro, os sujeitos, convocados a serem “colecionadores de experiências, sensações e objetos” (PRATA, 2002, p.131), o que levaria a um “canibalismo utilitário” predominante nas relações em geral (PRATA, 2002, p.132).
Dessa maneira, o valor do outro é ligado ao usufruto que possa se obter dele, sendo utilizado meramente como objeto. Nessa medida, estamos supondo que no canibalismo que atravessa as relações hoje, o outro é um mero objeto de uso, podendo ser eliminado se não prestar para o consumo (PRATA, 2002, p.131).
Evidentemente, o lugar lógico de atuação do mercado seria a vida metropolitana que viria atraindo e concentrando um número cada vez maior de pessoas. Haveria uma forte tendência das pessoas se aglomerarem nos centros urbanos, o que implicaria também, em uma modificação da percepção da realidade. Várias gerações já se formaram no mundo da metrópole e isso tem suas conseqüências, lembremos Marx:
O “espírito” tem em si de antemão a maldição de ser “afetado” pela matéria, que aqui se faz presente na forma de camadas de ar em movimento, de sons, em suma de linguagem. [...] a consciência é um produto social e assim continua enquanto em geral existirem homens. (MARX, 1983, p.196-197)
O mundo urbanizado está condicionado a uma lógica completamente diversa da vida no campo. Nas pequenas cidades afastadas dos centros (diferença que tende a diminuir cada vez mais em virtude do avanço dos sistemas de telecomunicação e pela expansão do mercado reproduzindo as relações em todos os níveis sociais), o sujeito metropolitano vive em contato com edifícios, trânsito, sirenes, poluição, a “materialidade” da organização urbana produz sua especificidade em sua própria forma de existência. O mundo natural fornecia, antes da Revolução Industrial, um meio de inteligibilidade da vida através dos seus ciclos (estações), de suas oposições (noite, dia; vida, morte...), fazendo emergir um tipo específico de percepção da vida social. Divagando um pouco sobre essas modificações de ordem subjetiva que caracterizariam a sociedade contemporânea, poder-se-ia compará-la (guardando as devidas proporções, evidentemente) às mudanças ocorridas no mundo dos helenos na Antiguidade. A sociedade grega Arcaica era baseada na agricultura e na aristocracia, tradição
predominantemente fundada na oralidade, e na qual a palavra e a memória, exerciam papéis de extrema importância. Isso se faria notar pelo reconhecimento social dado pelos gregos ao aedo que, inspirado pelas Musas, revelava a alethéa (desvelamento, verdade).
Este poder da força da palavra (instaurado) por uma relação quase mágica entre o nome e a coisa nomeada, pela qual o nome traz consigo, uma vez pronunciado, a presença da própria coisa. Nascida antes que o veneno do alfabeto entorpecesse a Memória [...] (TORRANO, 1995, p.17).
A Grécia Arcaica tinha também, na mitologia, o seu sistema simbólico/imaginário de sustentação da realidade social. Posteriormente, uma outra realidade passou a predominar. A escrita, a pólis, e a moeda causaram profundas alterações no pensamento helênico, destas paulatinas mudanças, surgiu a filosofia. Por fim, um terceiro tempo, com o império de Alexandre (o Grande) a Grécia passou a expandir suas fronteiras através do mundo conhecido, transformando-se numa verdadeira cosmopólis, que tanto expandiu a cultura grega quanto a modificou por meio do sincretismo com outras formas de pensamento existentes nas cidades conquistadas. Mas a expansão e queda do império alexandrino levaram também a outras modificações profundas no pensamento do homem grego. Se anteriormente, o filósofo se questionava e propunha a existência de uma Verdade, dada a conhecer pela ascese do pensamento, preocupando-se com os destinos da pólis em discussões na ágora, o filósofo cosmopolita voltou-se para si mesmo e proclamava não haver Verdade (céticos, cínicos, epicuristas) transcendente alguma, a única maneira do homem encontrar consolo para existência era transformando-se a si próprio, não ao mundo.
Por mais que séculos tenham se passado para acontecerem essas mudanças, e as transformações ocorridas na sociedade contemporânea aconteçam em proporções maiores e de forma mais veloz, a analogia não deixa de ser interessante. Ao que parece, a alteração fundamental que existiria, na sociedade atual, seria a de que teríamos saído de um universo no qual predominava o simbólico para uma cultura em que predomina a imagem. Diante dos acontecimentos que transformaram radicalmente a percepção que os gregos tinham do mundo e as representações que o sustentavam, tornando-os descrentes, poder-se-ia perceber que os sentidos dados à existência se esmaeceram, e a conseqüência disto, para os gregos, parece ter sido um movimento de abandono da vida pública e uma imersão na vida privada. A sociedade atual parece não deixar de dar indícios de um eterno retorno dos acontecimentos.
Mas, na conjuntura de nossa sociedade, o que parece surgir como problema central seria a violência. A fragilidade dos laços provocada pelos acontecimentos da nova ordem social teria provocado o enfraquecimento da coesão social lançando os sujeitos no desamparo, na descrença e na desesperança. O descentramento da Lei estaria impelindo os sujeitos à ultrapassagem das leis sociais? O sistema simbólico não forneceria mais referência para o lugar da Lei? A violência, da forma como parece se