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Kurumun Yıllık Faaliyetleri

3. KURUMUN YILLIK FAALİYETLERİ

3.6. Görüşler

Ainda que não houvesse uma matriz consolidando o núcleo da Igreja Católica em São João da Boa Vista, que contava apenas com pequenas capelas pontuais e

em sua maioria rurais, o contexto histórico anteriormente explorado do final do século XIX proporcionou a criação de sua primeira associação católica em 1894, o Apostolado da Oração, sendo a única das associações a permanecer ativa até os dias de hoje.

A Pia União das Filhas de Maria só viria a fazer parte da história da cidade em 1915 (Ver apêndice A) com sua fundação em São João da Boa Vista. Ainda na espera de uma matriz que centralizasse o catolicismo no município, a Pia União destacou-se, logo em seus primeiros anos de vida, por sua atuação evangelizadora na zona rural. Tal fato ocorrido em São João da Boa Vista pode parecer complexo devido à escassez de recursos no período com destaque para os quesitos acesso e locomoção. Contudo, pode ser explicado pela enorme dedicação de suas integrantes motivadas pelos anseios do catolicismo no período, contando ainda com a grande disponibilidade de tempo das jovens, dispostas e solteiras que integravam a associação.

Assim, o resultado alcançado por essas moças, em sua atuação ainda bastante rural e pouco urbana, não pode ser caracterizado como uma exceção limitada à cidade de São João da Boa Vista.

Segundo Maria de Lourdes dos Santos de Almeida, ex-integrante da Pia União das Filhas de Maria no Campo Redondo, zona rural do município de Divinolândia-SP, em entrevista concedida a João Guilherme de Oliveira Pellegrini, observa-se nas manifestações rurais da Pia União na proximidade de São João uma séria tentativa de dar notoriedade ao movimento trabalhando as atitudes das jovens integrantes com criteriosa organização:

Tinha que estar presente, não podia faltar, não podia usar roupa curta nem decotada, tinha toda uma rigidez. (...) com as Filhas de Maria a gente já tinha um ritual, a gente falava assim: Salve Maria! Todas as meninas que eram Filhas de Maria a gente já cumprimentava assim. (ALMEIDA, 2014)

Numa soma de seus méritos e sua rigidez, observado desde o modo como deviam se apresentar, com o vestido impecavelmente branco com a fita azul com a medalha inspirada em Nossa Senhora das Graças (o que se nota pelo fato de Maria aparecer sempre de mãos abertas), havendo a medalha maior para as zeladoras e as menores para as aspirantes com a proporção respeitada até mesmo na largura das fitas azuis.

A Pia União tornou-se uma espécie de alicerce para as demais associações, pois sua existência era condição para a vida das demais, como por exemplo a Congregação Mariana, sua equivalente masculina e a Associação do Rosário, local para onde geralmente dirigiam-se as Filhas de Maria depois de casadas, representada pelo porte da fita rosa. Esta última conseguiu sobreviver por mais alguns anos sem muito sucesso na cidade.

Figura 04 – Fitas, medalhas e bentinhos das associações existentes em São João da Boa Vista (de cima para baixo, da esquerda para a direita: fita e medalha de zeladora da Pia União das Filhas de Maria, fita da Cruzada Eucarística, medalha de Nossa Senhora das Graças – base para a medalha da Pia União, bentinhos almofadados – “raros”, pois geralmente suas donas eram sepultadas com os mesmos, medalha da congregação “A Sagrada Família”, fita de zeladora do Apostolado da Oração e exemplar da primeira fita e medalha de zeladora do Apostolado da Oração).

Sua última chama de vida, sem o alicerce da Pia União, justifica-se pelo fato de as moças católicas mais jovens, já criadas num contexto em que as associações não

eram um grande foco da Igreja, não recebiam estímulos para a mantenção da Pia União, restando apenas aquelas de mais idade apegadas ao catolicismo do final do século XIX, arraigado e difundido no seio das associações.

Em 1963 temos o útimo registro no livro de chamadas da Pia União. Nas entrevistas realizadas não há um consenso sobre o seu fim oficial, a maioria afirma apenas que a associação foi perdendo fôlego aos poucos, mas, como já foi dito anteriormente, será considerada a data de 1950 como final para o recorte deste trabalho, visto que em 1963, as filhas de Maria apresentavam um compromentimento com a associação bastante inferior ao apresentado nos anos do seu auge. Entende- se o início da segunda metade do sécilo XX como o advento de um refluxo, onde a Pia união deixaria de ser socioeducacionalmente relevante na cidade de São joão da Boa Vista.

Para elucidar a afirmação acima, faz-se muito valorosa a exposição de dados sobre o número de mulheres integrantes da associação estudada em cada momento de sua existência mostrando que as faltas em reuniões mensais obrigatórias, que inicialmente ocorriam em casos extremos, passam a ser corriqueiras após 1950, fato diretamente ligado à questão da configuração social de São João da Boa Vista em diferentes momentos que aqui busca-se entender.

Figura 05 – Registro de presença da Pia união das Filhas de Maria de São João da Boa Vista, em 1950 (esquerda) com registros ainda consideravelmente assíduos e em 1958 (direita) com notável desgaste na assiduidade e participação. No cabeçalho de ambas as páginas, nota-se a expressão “As Jesum”, fundamental na devoção mariana refere-se ao fato de Maria ser entendida como o caminho para se chegar até Jesus. A presença nas reuniões da Pia União pode ser interpretada como um ato de percorrer este caminho na visão da Igreja católica da época.

Tem-se consciência de que a data escolhida coincide com a crise da romanização que outrora dava suporte à criação das associações de católicos, e ainda, com a crise política ocorrida na última e conturbada fase do governo Getúlio Vragas, iniciada em 1951 e terminada de forma trágica em 1954 agravando ainda mais a situação política brasileira que culminaria no início do regime militar em 1964. Regime que mergulharia a Igreja Católica Brasiliera em um período de conturbadas contradições, minimizando a sua prioridade em atentar para associações de fiéis.

Os ideais praticados por elas, tais como a caridade, uma vida reclusa e as práticas cristãs individuais, perderam espaço para a Juventude Católica que tomou as ruas pela necessidade da derrubada do Regime Militar sem a qual não seria possível escancarar a desigualdade social escondida pelo contexto. Desigualdade contra a qual esses jovens cristãos pretendiam lutar , através de uma iniciativa coletiva a fim de trazer a justiça social pela tomada de consciência sobre a situação política que o Brasil vivia.

Com base nos trabalhos de Riolando Azzi e Klaus van der Grijp no livro: História da Igreja no Brasil – Terceira Época 1930-1964, observamos que o papel da mulher na sociedade brasileira começa a mudar radicalmente a partir de 1930.

A partir da década de 1930, com a imposição da sociedade urbana, a mulher passou a ocupar um lugar mais destacado na vida pública, resultado de uma lenta conquista. Diante disso, a Igreja Católica adotou duas atitudes: os setores mais conservadores e reacionários insistiam para que as mulheres voltassem ao recinto do lar, onde encontravam abrigo e proteção, ao invés de se exporem aos perigos de degradação inerentes à vida social: já os grupos mais abertos reconheciam que as mulheres podiam auxiliar no projeto de recristianização da sociedade, mediante sua atuação em algumas áreas especificas de trabalho. Podiam até mesmo coadjuvar, através da ação social e educativa, para que os operários não se afastassem da fé católica. (AZZI & GRIJP, 2008, p.128).

Mesmo assim, com base no fato de que o presente trabalho apresenta parte significativa da configuração social da cidade de São João da Boa Vista, teremos subsídios para compreender a extensão da sobrevivência da Pia União por pelo menos mais vinte anos de cômoda atuação no município.

4.2. Da Fundação da Igreja Matriz ao surgimento da Pia União das Filhas