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Kurumun Yıllık Faaliyetleri

3. KURUMUN YILLIK FAALİYETLERİ

3.3. Birleşme ve Devralma

. já que as moças da Pia União das Filhas de Maria, precisavam possuir uma boa conduta nos padrões católicos da época, privadas de frequentar bailes, festas de carnaval e outras não ligadas à Igreja, e deveriam participar assiduamente das reuniões e atividades da associação; deveriam ser solteiras, não podendo possuir qualquer relacionamento afetivo explicito ou conjugal, formal ou informal, e uma vez casadas, deveriam deixar a Pia União.

Mesmo que não haja qualquer registro comprovando que serem virgens era uma obrigatoriedade, a vida das Filhas de Maria era sempre monitorada para a garantia de sua castidade, o que já não se observa em unidades da Pia União de outras cidades.

Segundo Maria Augusta Rosário Rodrigues, ex-integrante da Pia União das Filhas de Maria na cidade de Jaboticabal-SP, em sua cidade mulheres casadas poderiam frequentar a Pia União, sem restrições.

a Pia União não era pra gente solteira, só. Era até bonito o casamento de uma jovem. Ela até ia com a fita das Filhas de Maria no casamento. (RODRIGUES, 2015).

Em contrapartida, Carmela Edvirges Lombardi Villela, afirma que sua saída da Pia União foi consequência de seu casamento.

Porque eu me casei. Eu fiquei noiva e enquanto noiva eu ainda participei e no meu casamento, eu entrei com a fita da Pia União, eu devo ter a fotografia aí. (VILLELLA, 2015).

Carmela relata ainda que em seu casamento não foram realizados rituais organizados Pela Pia União das Filhas de Maria de São João da Boa Vista.

Figura 01 – Fotografia do casamento de Carmela Edvirges Lombardi Villela, cedida pela entrevistada.

Contudo, a entrevistada aponta acreditar que a ausência de rituais pelas Filhas de Maria em seu casamento deve-se ao fato de que ela participou da associação num momento em que a mesma encontrava-se em um processo de decadência.

eu acredito que as mais antigas, que já eram falecidas, elas deveriam ter um ritual, tanto em casamento quanto em velório, mas eu já era numa fase que a Pia União estava em declínio, inclusive depois que eu saí durou pouco

tempo. Porque as jovens da época estavam indo para a Ação Católica. (VILLELLA, 2015).

Oriunda de uma outra realidade, Maria Augusta contou sobre o posicionamento da Pia União de sua cidade quanto ao fato de uma Filha de Maria poder ou não namorar.

Podia, ô tranquila! Nossa, tranquila! A minha irmã era filha de Maria e enquanto ela estava namorando e noivando. Depois que casou ela deixou a Pia União porque foi embora com o marido. (RODRIGUES, 2015).

Em oposição a isto, em São João da Boa Vista, têm-se conhecimento de uma reunião fechada para apurar a suspeita de um namoro entre uma Filha de Maria e um congregado mariano. (Ver apêndice B)

Entende-se uma ocasião como essas como a institucionalização da subordinação e do não-pensar em detrimento da formação de seres humanos questionadores de sua realidade. Este não-pensar contribui para a promoção de uma cultura de culpabilização daquele ao qual foi cerceada a capacidade de questionar o que seria uma conduta correta ou desviada.

A culpabilização por sua vez proporcionaria uma menoridade intelectual, psicológica e espiritual do indivíduo, que passa a aceitar de forma submissa a demonização e a culpa sobre seus comportamentos. Esta infantilização faz com que o fiel não tenha a capacidade de se libertar dos grilhões que lhe foram atribuídos, sendo assim, a própria igreja lhe ofertaria regras, pessoas e instituições que ajudariam a promover a sua libertação das grades colocadas pela própria instituição.

Na cidade de São João da Boa Vista este coletivo de processos doutrinadores tinham um cunho educacional que trazia um plano de formação dos fiéis praticados pela igreja e reproduzidos pela família.

Apesar das diferenças locais no que diz respeito ao comportamento esperado de uma Filha de Maria, notou-se que algumas práticas permaneceram comuns, como a atuação na catequese e a participação nos grupos musicais das igrejas.

uma das atividades que elas faziam era ser catequistas. (...) ou fazia parte do coral, ou da catequese, ou de outro trabalho apostólico, por exemplo como os vicentinos. Então elas podiam trabalhar e escolher uma atividade. (RODRIGUES, 2015).

Além de uma atuação de destaque em todas atividades as quais uma Filha de Maria se propunha, em São João da Boa Vista chama à atenção a rigidez com que eram tratadas as associadas da Pia União. Isto se torna notório, por exemplo, através da leitura das atas de reuniões, onde o Padre sempre estava presente e proferia conselhos referentes ao comportamento que era esperado das jovens.

Figura 02: Assinatura do padre responsável, demonstrando sua posição hierárquica perante a presidente e a secretária nas atas de reuniões mensais.

Figura 03: Reunião após a missa da Pia União das Filhas de Maria de São João da Boa Vista, acompanhada pelo padre responsável e pela diretora.

De modo geral, tenta-se demonstrar que a Pia União Das Filhas de Maria está presente na história de São João da Boa Vista, e é relevante para a história do catolicismo e da cultura social cristã local. Entretanto, ao desenvolver este texto, busca-se narrar acontecimentos a partir da Pia União, fazendo então o percurso oposto realizado até o momento pela escassa historiografia de São João da Boa Vista, tendo como base os ainda não explorados documentos da extinta associação.

Na obra Apontamentos de História Eclesiástica, o Cardeal-Arcebispo do Rio de Janeiro Dom Jaime de Barros Câmara nos mostra a Igreja Católica como um campo de relacionamento entre os membros de sua instituição e os agentes exteriores.

As relações da Igreja com os homens que estão fora dela formam o objeto da história eclesiástica exterior, enquanto o objeto da história eclesiástica interior é formado pelo estudo da doutrina e constituição da Igreja, de seu culto e disciplina, e das relações da Igreja com os fiéis. (CÂMARA, 1957, p. 3).

Neste excerto, o Cardeal-Arcebispo nos mostra que a história eclesiástica exterior e a história eclesiástica interior estão diretamente associadas, e a partir desta associação, a educação e a ação disciplinadora católica conseguem transpor o núcleo da Igreja e permear a sociedade, atingindo grande parte de seu espaço leigo. Desta forma fica justificada a presente preocupação com a análise da estrutura econômica da cidade de São João da Boa Vista no contexto abordado, através dos dados aqui trabalhados, para entender qual é a configuração socioeconômica da cidade em questão e quais setores desta cidade teriam condições de ter acesso à educação. E a partir da exposição dessas condições econômico-sociais pode-se entender como a tradição cultural em movimento e constante transformação consegue modificá-las.

É pois o conhecimento do capitalismo e do catolicismo do Brasil contemporâneo que nos incentiva e nos dá condições para estudar sua gênese. Mas é o conhecimento de sua gênese na virada do século que vem esclarecer o problema atual das funções sociais do catolicismo na formação social brasileira contemporânea, de modo a trazer uma contribuição para explicação do fundamento sociológico da força da Igreja Católica no Brasil. (OLIVEIRA, 1985, p.13)

Esta reflexão de Pedro A. Ribeiro de Oliveira, em seu livro “Religião e Dominação de Classe: gênese, estrutura e função do catolicismo romanizado no Brasil”, dá

respaldo à nossa proposta de estudar as origens da cultura católica na cidade de São João da Boa Vista, para que se delimite o espaço que ela formou e que ela ainda ocupa através da tradição nos dias de hoje na mesma cidade.

Capítulo 4 – A Pia União das Filhas de Maria na sociedade de São