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Para iniciar as discussões neste tópico é válido demonstrar que as próprias Filhas de Maria tinham consciência da coexistência desses dois segmentos católicos em um mesmo contexto. Carmela Edvirges Lombardi, apresenta o seguinte relato, comparando a Ação Católica, filha da Doutrina Social e a Pia União das Filhas de Maria, nascida da romanização:

eu não participei da Ação Católica, mas eles iam mais de encontro, por exemplo, com a realidade. Tinham um trabalho de evangelização de acordo com realidade. Então, por exemplo: era a JAC, Juventude Agrária Católica, a JEC, Juventude Estudantil Católica, JUC, Juventude Universitária Católica e JOC, Juventude Operária. Então eram formados assim, por grupos de atividades em comum. Por exemplo: os estudantes se reuniam em torno dos problemas dos estudantes, o que ajudava o estudante a viver como cristão. E assim a agrária, a universitária foram se formando. Lideranças católicas cristãs procurando um testemunho num ambiente: o ambiente estudantil, o ambiente agrário, vivendo o anúncio do Evangelho. Vivendo a beleza do Evangelho. (...) , a Pia União era uma associação, como eu vou dizer... uma associação mais de piedade e de devoção a Nossa Senhora. Se bem que tinha também o lado de ação da Pia União. No meu tempo foi muito bonito esse trabalho. Era o trabalho que elas faziam: bazar; então, durante o ano todo costuravam, bordavam, faziam crochê, tricô e iam guardando aquele trabalho todo. E no final do ano elas faziam uma exposição muito bonita e

com trabalhos belíssimos. O padre anunciava na igreja que haveria o bazar da Pia União das Filhas de Maria. (Villela, 2015).

Mesmo que sejam a Doutrina Social e a Romanização, segmentos opostos, o fato de terem coexistido dentro da mesma Igreja e no mesmo contexto pode-se crer que uma tenha tido influência sobre a outra.

Estudamos ao longo deste trabalho o projeto que o Ultramontanismo, através das associações católicas tinha para com as mulheres e crianças. É válido citar que a sua concorrente, a Doutrina Social também tinha seu direcionamento para com esses grupos.

Na encíclica Rerum Novarum que se liga diretamente à doutrina social é defendido que um cuidado especial a ser tomado com as mulheres e os jovens. Não poderiam ser admitidas crianças que não estivessem suficientemente desenvolvidas fisicamente, moralmente e intelectualmente. Alguns trabalhos não eram apropriados para mulheres pelo seu tipo físico, que era diferente do homem. Como uma regra geral, todos deveriam descansar o suficiente para manter a força. Todos os contratos deveriam possuir descanso, para evitar a exaustão e prover tempo para a dedicação religiosa.

Salários seriam fixados por um acordo entre as duas partes, empregador e empregado. Os salários não deveriam ser menores do que o mínimo necessário para a subsistência, o que é naturalmente justo.

Se analisarmos hoje em dia, essa medida, colocada em prática por muitos países, teve o respaldo desta encíclica. O Socialismo foi muito criticado em vários documentos papais. A Igreja observou a postura do Socialismo quanto a prover as necessidades básicas humanas pautando-se pela emancipação do indivíduo através do conhecimento que o libertaria de uma condição social desprivilegiada na sociedade. A mesma crítica, entretanto, é balanceada pela forte oposição da Igreja à

não restrita economia de mercado e a ideia europeia do liberalismo político, como nos apresenta Eliani de Moura Silva no artigo “Entre religião e política: maçons, espíritas, anarquistas e socialistas no Brasil por meio dos jornais A Lanterna e O Livre Pensador (1900 – 1909)”:

É possível pensar que, dentro do ecletismo que caracterizava o universo cultural do período, as diferentes tendências eram um reflexo das lutas e dos confrontos de ideias internas aos grupos e tendências liberais. O espectro era amplo e ia de um liberalismo conservador, autoritário e antidemocrático em franca conciliação com a Igreja Católica a grupos minoritários sempre mobilizados, que denunciavam e propunham transformações radicais da sociedade. (SILVA, 2012, p.87).

Apesar da força adquirida pela Doutrina Social, neste contexto, as preocupações da Igreja Católica irão se direcionar para assuntos fundamentais para o surgimento da Pia União.

Se, por um lado, Rerum Novarum dava uma resposta da Igreja Católica para as contradições sociais aguçadas pela Revolução Industrial, alguns anos antes da publicação desta encíclica, mais precisamente em 30 de setembro de 1864, era arquitetado em Roma, na Basílica de Santa Inês o projeto romanizador que criaria o modelo de confraria religiosa direcionada ao apostolado leigo pelas mãos do cônego regular Alberto Passéri.

Esta Pia União de Roma foi submetida à apreciação do papa Pio IX e, depois de aprovada, foi elevada à Primária, o que significa que todas as outras Pias Uniões das Filhas de Maria que viessem a surgir ao redor do mundo deveriam estar subordinadas a ela. Desde o início, a Primária romana da Pia União das Filhas de Maria e suas agregadas, receberam da Sé Apostólica grande deferência, e o Papa tratou de conceder inúmeras indulgências a esta confraria.

A Igreja desejava criar um padrão para o seu fiel para que ele se diferenciasse dos demais cristãos reafirmando o lugar da Igreja Católica diante de uma sociedade onde ela já não representava mais o único segmento religioso. Isso fez com que partissem de Roma incentivos à criação de grupos de piedade para leigos focados na rejeição do mundo moderno.

Antes de começar a enunciar os grupos que surgiram no Brasil impulsionados por este período conturbado é válido citar que o espaço e o papel dessas organizações de fiéis teriam no Brasil uma característica peculiar, pois nos demais países católicos do mundo, como nos mostra Riolando Azzi e Klaus van der Grijp no livro “História da Igreja no Brasil – Terceira Época – 1930-1964”:

Enquanto o poder hierárquico constituía o eixo central da instituição, os institutos religiosos situavam-se, com frequência, nas áreas de periferia e de fronteira, mais atentos aos novos problemas, bem como às mudanças na realidade social, tornando-se, desse modo, um poderoso estímulo para a renovação católica.

No Brasil, porém, paradoxalmente, a força exercida pelas múltiplas ordens e congregações atuou muito mais no sentido de conservação de valores. (AZZI & GRIJP, 2008, p.525).

Esta era uma saída encontrada pela Igreja Católica em um momento ainda de adaptação ao republicanismo. Considera-se que, outrora, o clero teve completo apoio do Estado para se afirmar em troca do respaldo do padroado que contribuia para a legitimação do poder real, em um contexto em que a História Civíl estava articulada à História Sagrada (MEC/SEF, 1997). Após 1934, com a nova constituição republicana que afrontava as antigas oligarquias nas quais ainda engendrava-se resquícios do Império, a Igreja Católica Brasileira viu nas associações de fiéis uma forma de isolar os seus adeptos do vasto leque de novas ordens religiosas que ganharam força a partir de então.