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3.3. Göçün Sosyal DıĢlanma Boyutu

3.3.5. Göçün Sonucu Olarak Sosyal DıĢlanma

A violência19 no Brasil não é fenômeno recente. Desde a época do Brasil colônia ela se faz presente como forma de resolução de conflitos sociais e em tensões nas relações intersubjetivas. Já durante o período republicano a violência estava enraizada e positivamente valorizada. A violência era, e é desde então, legitimada para conter conflitos no campo e na cidade.

Na história do Brasil residem

[....] as raízes de uma sociedade autoritária, cujas principais características eram segregação racial, desprezo pela massa despossuída, naturalização da grande distância social em termos de condições de vida e trabalho, banalização da violência como recurso à violência privada contra desde os escravos até os trabalhadores [...] Valores e práticas que constituem traços indeléveis no inconsciente coletivo cultural e jurídico-institucional brasileiro. (SALES. 2004. p.41)

19 Conceito de violência segundo ZALUAR (1999) violência vem do latim violentia que remete a vis

(força, vigor, emprego de força física ou os recursos do corpo para exercer sua força vital). Essa força torna-se violência quando ultrapassa um limite ou perturba acordos tácitos e regras que ordenam relações, adquirindo carga negativa ou maléfica. É portanto a percepção do limite e da perturbação (e do sofrimento que provoca) que vai caracterizar o ato como violento, percepção essa que varia cultural e historicamente. (ZALUAR, A. Violência e Crime. In MICELI, Sergio (org) O que ler nas ciências

sociais brasileiras. São Paulo: Sumaré. 1999. V.1. 13-107.) citado por ADORNO, Sérgio. Exclusão socioeconômica e violência urbana. – NEV- USP; Preparado para o ciclo de Conferências “Sociedad sin Violência”, promovido pelo PNUD – El Salvador Disponível em <http:// www.nevusp.org/downloads/down77.zip>. Acessado em 21 nov 2006.

A partir dos anos 80 do século passado verifica-se no Brasil, seguindo uma tendência mundial, um aumento da violência urbana. Sérgio Adorno (2002) aponta quatro aspectos dessa violência: crescimento dos crimes contra o patrimônio e de homicídios dolosos; emergência da criminalidade organizada (tráfico de drogas); graves violações de direitos humanos e explosão de conflitos nas relações intersubjetivas.

As causas para o aumento da violência urbana no Brasil, segundo Sergio Adorno20 seriam:

mudanças na sociedade e nos padrões convencionais de delinqüência e violência – nos últimos anos ocorreram mudanças nas relações entre capital e trabalho, nas relações entre as pessoas, entre os indivíduos e o Estado e entre os próprios Estados. Essas mudanças repercutiram na natureza dos conflitos sociais e na maneira de sua resolução. Assim, transformaram-se os padrões de delinqüência: aumento do crime organizado (tráfico mundial de drogas), do emprego da violência, da corrupção dos agentes do setor público e graves violações dos direitos humanos.

crise no sistema de justiça criminal – mudaram os padrões de violência e o sistema de justiça não acompanhou essas mudanças. Ele deixa impune muitos crimes e, o que é pior, pune de forma diferente certas camadas da população. As penas são mais severas para pessoas negras e migrantes, enquanto os crimes de corrupção cometidos por altos funcionários do Estado não são punidos, ou recebem punições leves e parciais. Em conseqüência tem-se, por parte da população em geral, descrença no sistema de justiça, medo da polícia e subnotificação de ocorrências como roubos e furtos;

20 ADORNO, S. Exclusão Sócio-Econômica e Violência Urbana – NEV- USP; Preparado para o ciclo

de Conferências “Sociedad sin Violência”, promovido pelo PNUD – El Salvador. Disponível em: <http:// www.nevusp.org.br/downloads/down77.zip>. Acesso em 21 nov 2006.

desigualdade social e segregação urbana – conforme aponta o autor, a correlação entre crime e pobreza foi sustentada por diversos autores que viam o sistema capitalista de produção (promotor de exclusões inerentes ao seu funcionamento) como responsável pela ocorrência de crimes. Até hoje o senso comum relaciona diretamente criminalidade e pobreza, discriminando pessoas e grupos. Porém, o perfil social dos adolescentes que cometem infrações é semelhante ao perfil social da população jovem do município de São Paulo. De qualquer maneira, a desigualdade social produz desrespeito aos direitos humanos, sociais e políticos e intensifica as relações violentas e produtoras de violência. A desigualdade social, mas não a pobreza, funciona como propulsora da violência.

A violência extrema pode levar o indivíduo à morte, mas inúmeras outras formas de violência verbal ou não verbal, explícita ou escondida em atos aparentemente corriqueiros, porém opressores produzem efeitos no corpo e na vida de muitas pessoas, principalmente crianças e jovens. Vide capítulo apresentando as violências sofridas pelos jovens entrevistados para essa pesquisa.

Um estudo realizado pelo Núcleo de Violência da USP – Homicídios de crianças e jovens no Brasil: 1980 – 2002 (PERES, CARDIA e SANTOS. 2006) revela, enfatizando pesquisas anteriores que os jovens provenientes de famílias chefiadas por apenas uma pessoa têm maior risco de serem vítimas de violência fatal e outros tipos de violências. Isso porque suas famílias passam por privações econômicas, moram nas periferias desprovidas de recursos básicos como saúde, saneamento adequado, transporte e educação de qualidade.

Esses jovens vivem em condições de risco constante e são acompanhados por um menor número de adultos em condições de darem o suporte necessário para o seu crescimento emocional saudável e de protegê-los da exposição à violência. Apresentam também um vínculo frágil com a

família, a escola, instituições profissionalizantes ou mesmo o mercado de trabalho.

Em busca de melhores condições de vida e trabalho, ou por não conseguirem arcar com os custos do aluguel, as constantes mudanças de moradia para outras localidades, também expõe os jovens a riscos. Esses seriam oriundos da necessidade de adaptação com novos grupos de pares, pela descoberta de onde é mais saudável a circulação no novo bairro e pela decifração dos códigos de conduta da região. (PERES, CARDIA, SANTOS. 2006. p.24)

Peres, Cardia e Santos (2006. p.36) levantam estudos que identificam os fatores de risco à vitimização, exposição e vulnerabilidade à violência. Entre eles destacam a facilidade na obtenção de armas de fogo, o abuso excessivo de álcool e drogas e a participação em antecedentes criminais graves. Os autores alertam sobre a influência da violência não fatal – agressões físicas, sociais, morais, sexuais e psicológicas antecedendo desfechos fatais.

A pobreza não pode ser indicada como um fator determinante no desempenho da violência. Porém a desigualdade social e a segregação urbana são apontadas como fatores de risco, principalmente quando se percebe que, apesar das conquistas econômicas dos últimos anos, ainda é bastante desigual o acesso às instituições promotoras de bem estar social e aos direitos que deveriam ser iguais para todos. Também não é igual para todos a possibilidade de um emprego estável, o consumo de livros e revistas, o acesso a internet.

A pesquisa do Núcleo de violência da USP (PERES, CARDIA, SANTOS. 2006. p.39) aponta que:

Há fortes evidências de que o risco de ser vítima de homicídio é significativamente superior entre aqueles que habitam áreas, regiões ou bairros com déficits sociais e de infra-estrutura urbana [...] Trata- se de bairros onde a infra-estrutura urbana é precária; as taxas de mortalidade infantil são elevadas; a ocupação do solo é irregular e, quase sempre, ilegal; e onde é flagrante a ausência de instituições públicas encarregadas de promover o bem-estar sobretudo acesso a lazer para crianças e adolescentes como também de instituições encarregadas de aplicar lei e ordem. A presença dessas agências é,

não raro, associada aos fatos que denotam violência desmedida, repressão incontida e descaso de atendimento nos postos policiais.

Os dados a seguir indicam que a violência afeta diferentemente as pessoas segundo o sexo, a raça e a faixa etária. Isso indica que histórica e culturalmente alguns grupos sofrem com a violência mais que outros. A chance de um jovem negro, do sexo masculino, que tenha idade entre 15 e 24 anos sofrer violência fatal é muito maior que de qualquer outra pessoa.

8.2. As crianças e adolescentes como vítimas de graves violações aos