II. BÖLÜM
2.9. Folklör ile Modern Hikâye El Ele
Passados mais de quarenta anos após a sua codificação federal, o assunto licitação tem
no Decreto-lei n.º 200, de 25 de fevereiro de 1967, a retomada no tocante às modificações das regras do processo. Em seu Título XII (art. 125 a 144) ele dispõe sobre as normas de licitação
para compras, obras e alienações, dando uma sistematização de abrangência nacional a este assunto, o que foi posteriormente estendido às administrações dos Estados e Municípios por
meio da Lei nº. 5.456, de 20 de junho de 1968. Como já destacado, essas normas inserem-se no contexto de reforma do Estado, cuja linha mestra é a de descentralização das suas
atividades, contratando o setor privado para executar as políticas públicas e cabendo aos órgãos administrativos, de preferência, as funções normativas e de supervisão.
Ao comentar este Decreto, ALESSIO (1998, p. 36) destaca quatro pontos importantes da política de licitações públicas introduzidos por ele, que são:
a) o de ter sido o primeiro regulamento de âmbito nacional, abrangendo os órgãos
da Administração Direta e as autarquias, sobre licitações;
b) a preocupação em transferir, tanto quanto possível, ao setor privado as funções
executivas e operacionais das políticas públicas;
c) a exigência de demonstração pelas empresas concorrentes de sua capacidade
técnica e financeira para a execução do contrato;
d) a possibilidades de julgarem as propostas com base em outros critérios, que não
exclusivamente o do menor preço.
Diante da premissa de colocar as licitações como um instrumento de acomodação do
importantes comentários acerca das normas de habilitação (fase de demonstração da
idoneidade do licitante) e critérios de julgamento que passam a ser adotados, ele observa que:
[...] o regulamento previa a demonstração da capacidade técnica e financeira das empresas participantes do processo licitatório, porém, estranhamente, não definia quaisquer critérios limite para aferição da referida capacitação. Ao mesmo tempo, para os processos licitatórios de obras e serviços de grande vulto e valores expressivos, processos estes que iriam dominar o cenário de obras públicas do país a partir do final dos anos 60[...] exigia-se, obrigatoriamente, uma fase de habilitação preliminar destinada a comprovar a plena qualificação dos interessados para a realização do fornecimento ou execução da obra ou serviços programados.
[...] Tendo em vista os objetivos do setor privado da construção, quais sejam, os de assegurar um mercado de obras e, portanto, de fluxo de recursos, seguro, programado e contínuo, assim como de privilegiar o aprimoramento técnico e executivo das empresas atuantes no setor para que as mesmas viessem a alcançar um nível de atividade e organização do tipo industrial, assim, era natural que os critérios de habilitação e julgamento dos processos licitatórios fossem dirigidos para a consecução de tais objetivos.
[...] A fase de habilitação ou da pré-qualificação para obras que exigiam a modalidade concorrência pública transformou-se num instrumento deliberado de segmentação do mercado [...] Definia-se assim, previamente, um pequeno, seleto e invariável rol de empreiteiras do ponto de capacitadas para a execução das obras de grande porte. Este processo de filtragem , porém, não se detinha aí. O dirigismo, que, de maneira geral, sempre grassou nos processo licitatórios no Brasil, estendia- se e tornava-se mais refinado na fase seguinte da licitação, durante o julgamento e classificação das propostas das empresas que haviam conseguido se habilitar. [...] Em resumo, salvo ligeiras variações que não modificavam em substância o dirigismo evidente nas licitações, o regulamento possibilitava: a) a seleção discricionária de determinado tipo de empresa; e b) dentre este seleto grupo, uma determinada empresa específica.
Estes comentários, referentes na verdade às grandes obras públicas e aos grandes grupos econômicos, aplicam-se igualmente a outros tipos de contratações e a todas as empresas que
haviam obtido uma reserva de mercado para si. Guardadas as devidas proporções, as normas do Decreto-lei 200/67 atendem aos interesses de todos aqueles que tinham estabelecido uma
relação privilegiada com órgãos governamentais.
Para ALESSIO (1998), essas medidas passaram a possibilitar ao menos duas formas
concretas de se manter aquilo que está se considerando como uma “reserva de mercado”: a primeira se daria por meio do acesso privilegiado aos agentes públicos, conseguindo que as
restritas a ponto de satisfazer aos interesses daquele que tivesse a necessária influência e
também eliminar possíveis concorrentes; e a segunda, por uma tendência dos agentes públicos em exigir que as empresas interessadas demonstrassem já ter realizado no passado objeto
semelhante ao licitado. Uma ou outra destas alternativas acabava por afastar novos fornecedores em potencial.
Neste ponto, ratificando entendimento anterior, o processo político passa a determinar o processo regulatório. Assim, ao se analisar o Decreto-lei 200/67, pelos seus reflexos na
Administração Pública, pode-se concluir que para a nova visão administrativa que surgia, também se associaram outros interesses que, fruto de uma herança patrimonialista, se
beneficiaram em muito desta forma descentralizada que estava sendo implantada. Ao analisar estes aspectos políticos, MOTTA (1987, p. 32-34) aponta cinco fatores importantes, com três
deles muito pertinentes a este enfoque:
a) a política assistencialista, capaz de preservar, através de concessões paternalistas de serviços e benefícios, os valores vigentes;
b) a restrição à livre-iniciativa (dos outsiders) associada à necessária defesa da propriedade privada (dos insiders);
c) o controle das estruturas burocráticas do governo com o fito de se ter acesso a grandes fatias do orçamento público.
Para melhor entender o Decreto-lei 200/67, em relação às idéias por ele representadas, dois comentários de CAVALCANTI (2005, p. 68-69) esclarecem bem esse contexto:
Em relação ao Decreto-lei n.º 200, pode-se afirmar que todas as suas premissas básicas – ou seja, planejamento, coordenação, descentralização, delegação de competência e controle – tiveram sérias e, muitas vezes, intransponíveis dificuldades de implementação.
[...] Pode-se dizer que o modelo organizacional adotado pelo regime militar foi coerente com os projetos econômico e político a que serviu. Foi capaz de gerar resultados significativos de curto e médio prazo, alcançando seu clímax nos anos setenta, porém ficou sujeito a algo mais do que um desgaste precoce – a uma verdadeira degeneração -, com o esgotamento daqueles projetos e de sua sustentação política.
Assim, com os interesses dominantes em jogo e sendo os governos militares não muito favoráveis a alterações legislativas que permitissem ampliar o acesso às contratações públicas,
os artigos 125 ao 144, do Decreto-lei 200/67, vigoraram por dezessete anos até serem revogados pelo Decreto-lei 2.300, de 21 de novembro de 1986. Neste período, conforme SARAVIA (2003), as ações governamentais mais relevantes sobre o assunto são interpretadas
como um esforço inicial do Estado com vista à redução de sua atuação e melhoria dos seus processos, com destaque para a criação da Secretaria de Controle das Empresas Estatais -
SEST -, e a instituição do Programa Nacional de Desburocratização, por meio do Decreto nº. 83.740, de 18 de julho de 1979.