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...a consciência ecológica, no seu sentido mais globalizante (...), contrapõe-se aos mecanismos repressores da subjetividade e consequentemente aos da sociedade.

(SOARES, 1999)

O desenvolvimento econômico deixa como herança o desequilíbrio ecológico, o aumento da opressão e da exploração, como também da marginalização, além de danos irreversíveis para a maioria da população mundial e a natureza. Por outro lado, os interesses econômicos determinados pelo mercado moldam as relações humanas com a natureza a partir da idéia de que só o consumo traz felicidade plena – quanto mais uma pessoa comprasse mais feliz ela poderia sentir-se.

Portanto, para deixar de ser um consumidor voraz, o homem teria de estabelecer outra relação com a natureza, ou seja, teria de abandonar a visão utilitária que possui do espaço natural. Notamos uma relação direta e recíproca entre os consumidores e os interesses do mercado. Diante desse quadro, pensar em ecologia, hoje, leva-nos muito além das questões puramente ambientais, remete-nos ao ambiente físico, mas também à subjetividade, ao espaço social e às relações sociais. É com essa preocupação que surgem as idéias ecosóficas, desenvolvidas por Félix Guattari (2001) em seu livro As três

ecologias.

A ecosofia é uma perspectiva teórica que se propõe a refletir sobre os problemas contemporâneos provocados pelo sistema capitalista vigente e a respeito de formas que possam investir e contribuir para transformar a visão que o homem tem do seu mundo. Para tanto, parte de três vertentes que atuam conjuntamente e criam uma tripla articulação integrada: a ecologia ambiental, a social e a mental.

Três ecologias que atuam de maneira articulada para gerar novas formas de relacionamentos sociais, novas perspectivas ambientais e novas sensibilidades. Nesse sentido, a ecosofia sugere um caminho para se repensar a nossa atuação e o nosso verdadeiro lugar na natureza, não mais como centro, senão integrado a todos os demais elementos naturais, sem utilizarmos valores hierárquicos algum. Essas três vertentes ecológicas interligadas atuam conjuntamente para combater o desequilíbrio ecológico provocado pela revolução tecnológica, que é a responsável, em grande medida, pela velocidade da destruição do mundo natural.

As transformações técnico-científicas prometeram mais tempo e gozo para a humanidade, porém em vez de propiciar benefícios como os “da cultura, da criação, da pesquisa, da re-invenção do meio ambiente, do enriquecimento dos modos de vida e de

sensibilidade” (GUATTARI, 2001, p.9), proporcionaram problemas como os “do

desemprego, da marginalidade opressiva, da solidão, da ociosidade, da angústia, da

neurose” (GUATTARI, 2001, p.9), que culminaram no aumento do individualismo,

elemento que também traz uma significante parcela de contribuição para a degradação ambiental.

Os principais objetivos da ecosofia são: superar definitivamente as teses antropocêntricas, alterando a forma de ser do homem e sua relação com o espaço sócio- ambiental; romper com o sistema político-econômico vigente e construir novas relações; revisar a visão humana do mundo e do universo; ressaltar a vida como um todo integrado por diversos elementos e microcosmos diferentes e investir no enriquecimento da vida; intensificar a sensibilidade e a subjetividade humanas; resgatar a importância de elementos regionais; reverter o distanciamento do espaço natural, promovendo o reencontro do homem com a natureza; forjar novos paradigmas inspirados na ético-estética; reinventar

uma práxis que produza bens sem deixar de levar em conta a felicidade do homem e o respeito e a preservação do seres inumanos.

Nesse sentido, com o intuito de tentar neutralizar os malefícios causados pelo desenvolvimento técnico-científico, Guattari (2001) propõe a “articulação ético-política (...) entre três registros ecológicos (o do meio ambiente, o das relações sociais e o da

subjetividade humana)” (p.8).

A ecologia social visa estimular e investir nas relações entre humanos e humanos, humanos e não humanos e, também, incentivar práticas que valorizem o espaço da família, do ciclo de amizade, de vizinhança, de trabalho e de estudo. Busca combater o individualismo e, consequentemente, valorizar o coletivismo e, ainda, opor-se às relações

assimétricas e hierárquicas. Sendo assim, a ecologia social tem o papel de “trabalhar na

reconstrução das relações humanas em todos os níveis, do socius” (GUATTARI, 2001, p.33).

Vale ressaltar que a ecologia social contribui para o surgimento de práticas que

busquem alterar o comportamento humano nos espaços sociais, já que “o princípio

particular à ecologia social diz respeito à promoção de um investimento afetivo e pragmático em grupos humanos de diversos tamanhos” (GUATTARI, 2001, p.45).

A ecologia ambiental possui como objetivo principal expandir o sentido inicial e restrito do ambientalismo que, geralmente, atem-se aos problemas vinculados ao meio ambiente, preocupando-se somente com a preservação de algum espaço natural, de algumas espécies específicas de animais ou vegetais, sobretudo as que estejam em extinção, sem levar em conta outras espécies e questões como as sociais e subjetivas.

Diante dessa perspectiva, a ecosofia aspira contribuir para estabelecer uma relação harmônica entre o movimento ambientalista e os movimentos sociais. Para tanto, defende

uma conjunção entre o “ambiental”, o “social” e o “mental”, além de propor a aproximação e interação do “ambiental” com outras áreas que até então figuravam como antagônicas,

como, por exemplo, a área técnico-científica e os ecossistemas, a cultura e a natureza.

A ecologia mental tem como função atuar como um contraponto à forma pela qual o modo de produção capitalista estendeu “seu domínio sobre o conjunto da vida social, econômica e cultural do planeta, (...) infiltrando-se no seio dos mais inconscientes estratos

subjetivos” (GUATTARI, 2001, p.33).

A ecologia mental atua contra a passividade e a apatia, o individualismo, o conformismo, a alienação e a domesticação, e ainda a massificação, a uniformização e a compulsão consumista, além da manipulação gerada por expressivos interesses capitalistas, tais interesses figuram como sustentáculos do modo social vigente – a moda, a mídia e a publicidade – influentes instrumentos utilizados na promoção e incentivo ao consumo e no comprometimento das relações sociais e da sensibilidade humana.

Nesse sentido é possível pensar que a arte tem um papel significativo, pois (re)interpreta a realidade ao projetar uma perspectiva nova, alterando a nossa percepção, operando no campo de produção e de investimento na subjetividade. As práticas estéticas podem despertar a consciência humana para ideais que não levam em consideração outras formas de vidas e sequer os próprios humanos.

A arte tem um grande potencial, pois, além de despertar os sentidos anestesiados quando investe no inconsciente, provoca novas experiências, sentidos significativos e libertadores. As linguagens artísticas, ao despoluir as mentes por meio da sensibilização que produz, contribuem significativamente para ampliar a nossa dimensão da realidade e,

assim, impulsionar outras formas e estilos de vida diferentes daqueles impostos pelo modelo atual de produção capitalista.

Félix Guattari (2001) ressalta que a arte pode ser um “antídoto” contra a manipulação das pessoas, por sua capacidade de nutrir a subjetividade e com isso se constituir em uma força, ainda que pequena, para relativizar e combater o poder persuasivo introjetado pela mídia na sociedade, como também de “desintoxicar [o] discurso sedativo

que as televisões em particular destilam” (p.24). Por conseguinte, a arte pode ser um

elemento de resistência às manipulações do sistema capitalista quando opera no campo subjetivo, motivando a consciência ecológica e estabelecendo uma oposição à padronização de comportamento e ao presente modo do homem relacionar-se com o seu semelhante e as demais espécies de vida do planeta.

É possível pensar que a literatura, como as demais linguagens artísticas, pode contribuir para desautomatizar o olhar mecânico ao apresentar outras interpretações da realidade e para propiciar uma busca de outros caminhos de atuação social, pois a literatura

pode ser compreendida “como espaço de resistência a diferentes formas de dominação”

(SOARES, 2009). Para tal, será necessário “desfazer-se de todas as referências e metáforas científicas para forjar novos paradigmas que serão, de preferência, de inspiração ético-

estéticas” (GUATTARI, 2001, p.18), que possam permitir reflexões sobre novas práticas

individuais e coletivas.

Portanto, não basta somente tratar da vertente ambiental, mas também é preciso reconhecer a importância do espaço de atuação social que influencia o comportamento

humano e da subjetividade que forja a sensibilidade, pois nenhuma ecologia atua sozinha; para serem eficazes, é preciso que a ambiental, a social e a mental ajam conjuntamente.34

A forma pela qual a produção poética de Scorza antecipa vários dos temas abordados em seu ciclo narrativo – como o seu entendimento de que o papel mais importante de um escritor seria emprestar sua voz aos oprimidos para romper com o silêncio e a invisibilidade no tocante à causa indígena e a disposição do autor de, além de expressar as injustiças cometidas contra os índios, participar fisicamente da organização da luta desses povos pela dignidade – é tema no qual se centrará o capítulo seguinte.

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Por compreendermos a integração existente entre essas vertentes ecológicas, ressaltamos que abordaremos os três registros ecológicos separadamente, mais adiante, apenas por questão de disposição dos capítulos da tese.