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10. ENERJİNİN ETKİN KULLANIMI ve ENERJİ VERİMLİLİĞİ
As ciências e as artes são filhas do amor-próprio. Elas reproduzem o modo de vida dos ricos com toda a sua luxúria e a sua superficialidade. Por serem resultados das desigualdades, elas colaboram com o abismo social que há entre os homens, justificando as posições sociais de um ser a outro. É no Primeiro discurso que iremos entender melhor o resgate genealógico realizado por Rousseau das desigualdades entre os homens. Para ele, a qualidade essencial do homem, sua bondade natural, não foi perdida126. Porém, houve, no
125 Sobre isso, Matos (1978, p. 48) faz uma distinção entre o que, segundo ela, Rousseau entende por “natureza
do homem” e o “homem natural”: “[...] Não se deve confundir o que é natural no estado selvagem com o que é natural no estado civil. Pode-se agora compreender como a noção de ‘natureza do homem’ ultrapassa a noção do homem natural [...]. A preocupação de Rousseau consiste naquilo que é conforme a natureza em nosso estado atual, discernindo dentre nossas características as que são naturais e aquelas que só representam excrescências ou desvios patológicos, neste sentido que a natureza se volta de certa maneira contra si mesma para ‘dividir e destruir’” .
126 Rousseau julga que o homem social não matou o homem natural dentro de si. Em seu pensamento, o homem
gregário mantém as qualidades do amor-próprio em potência, assim como o selvagem continha em ato o germe do homem social. Desse modo, o instinto não se perdeu quando da sua passagem para a consciência, da mesma forma que, mesmo virtualmente, a razão e a consciência sempre estiveram presentes no selvagem.
decorrer do progresso das sociedades civis, uma quase perda dessa qualidade. Rousseau basicamente divide seu Primeiro discurso em três partes: 1) Crítica às ciências, às letras e às artes; 2) A oposição entre natureza e civilização; e 3) Um elogio ao papel das ciências na sociedade moderna. É esse itinerário, estabelecido pelo nosso filósofo, que iremos seguir.
Na Carta-resposta ao Rei da Polônia anexada ao seu Discurso sobre as ciências e
as artes, Rousseau ressalta que a desigualdade é a fonte de todo mal; da desigualdade
nasceram as riquezas e:
[...] Das riquezas nasceram o luxo e a ociosidade; do luxo nasceram as belas-artes e, da ociosidade, as ciências. Em tempo algum as riquezas foram o apanágio dos sábios. Por isso mesmo, o mal se torna maior. Os ricos e os sábios só servem para corromper-se mutuamente. (ROUSSEAU, 1999b, p. 254).
Na segunda parte do Discurso sobre as desigualdades, Rousseau assegura que, por sua estreita ligação com a política, a ciência também é fruto do ócio, por isso ela contribui de forma marcante com o amolecimento da cultura. As comodidades da vida, aponta ele, debilitaram a coragem e as virtudes militares dos homens. Ele acredita que:
[...] Se as ciências purificassem os costumes, se ensinassem os homens a derramar seu sangue pela pátria, se incitassem à coragem, os povos da China deveriam ser sábios, livres e invencíveis. No entanto, se não há um vício sequer que não lhes seja familiar, se nem a luz dos ministros, nem a pretensa sabedoria de suas leis, nem a multidão de habitantes desse vasto império puderam resguardá-lo do jugo do tártaro ignorante e grosseiro, de que lhe terão servido os sábios? Que fruto alcançou com as honrarias de que foram estes maculados? Porventura, o de ser povoado de escravos e pérfidos? (ROUSSEAU, 1999b, p. 194).
No Prefácio a Narciso, igualmente incorporado ao Primeiro discurso, Rousseau pontua que os costumes dos nossos ancestrais não eram imaculados, porém os nossos são ainda piores. As ciências colaboraram com a corrupção dos costumes, pois deram um aspecto agradável à corruptela geral da sociedade (ROUSSEAU, 1999b). Esse disfarce aprazível “[...] nos proporciona parca utilidade, o que devemos pensar dessa chusma de escritores obscuros e de letrados ociosos, que, em pura perda, devoraram a substância do Estado127” (ROUSSEAU,
1999b, p. 204-205). A genealogia dos vícios sociais não está separada da história das ciências. Rousseau acredita num encadeamento de causas e efeitos que colaboraram com a dissolução dos costumes; como nota Faguet (1910, p. 54), para Rousseau, “[...] O prazer cria o tédio, o
É essa dialética entre as qualidades do homem e do selvagem que faz com que Rousseau mantenha seu otimismo no homem.
127 Chartier (1997, p. 119), em seu artigo O homem das letras, trabalho que faz parte da coletânea de textos
organizada por Michel de Vovelle intitulada O homem do Iluminismo, perfila que o letrado do século XVIII é aquele que possui conhecimentos em todas as áreas do saber: “[...] o homem das letras é também um homem de ciência”.
tédio cria as ciências, as letras e as artes. Ciências, letras e artes são curiosidades do verdadeiro e do belo, quer dizer, curiosidade de coisas inúteis”.
Numa outra perspectiva, as ciências não são apenas consequências diretas dos vícios sociais, elas também engendram a decadência dos costumes128. O gosto pelas letras
desfibra os corpos e as almas. Essa cultura inventa a polidez, torna os hábitos efeminados, ao mesmo tempo que subtrai a coragem dos homens129. Numa conhecida passagem da segunda
parte do Primeiro discurso, Rousseau (1999b, p. 210) infere que “[...] Não se pergunta mais a um homem se ele tem probidade, mas se ele tem talento; nem de um livro se é útil, mas se é bem escrito [...]. Há mil prêmios para os belos discursos, nenhum para as belas ações”. Rousseau (1994a, p. 32), como um observador atento de seu tempo, sublinha que a sociedade das letras criou uma cultura que lhe é peculiar, a cultura livresca: “[...] os belos discursos fazem desdenhar as belas ações e a simplicidade dos bons costumes é considerada grosseira”.
Uma outra consequência funesta do avanço das ciências e das artes diz respeito aos gastos exagerados do dinheiro público que elas proporcionam130. O cultivo das ciências,
pontua Rousseau, constitui grande mal. Além do luxo, da vaidade e da ociosidade que as acompanham, a iniciativa do Estado em patrociná-las fez das ciências uma mercadoria e os seus resultados um comércio dos interesses espúrios131. Os antigos políticos, exalta Rousseau
(1999b, p. 207), falavam constantemente de costumes e de virtudes, os nossos só falam de comércio e de dinheiro: “[...] Que nossos políticos se dignem, pois, a suspender seus cálculos
128 Rousseau (1999c, p. 204) afirma que, “Se nossas ciências são inúteis no objeto que se propõem, são ainda
mais perigosas pelos efeitos que produzem. Nascidas na ociosidade, por seu turno, nutrem-na, e a irreparável perda de tempo é o primeiro prejuízo que determinam forçosamente na sociedade. Na política, como na moral, é um grande mal não se fazer de algum modo o bem e todo cidadão inútil pode ser considerado um homem pernicioso”.
129 Por trás da crítica de Rousseau aos “hábitos efeminados” causados pelas ciências, existe uma condenação,
por parte do filósofo, com relação à superficialidade dos costumes parisienses, em especial acerca das rodas de conversas dos salões de Paris e sobre as mulheres que as administravam. Podemos encontrar parte dessa crítica na segunda parte do Primeiro discurso e também no Livro II das Confissões.
130 Na compilação de textos organizada por Michel de Vovelle, o texto de Vicenzo Ferrone, O homem de
ciência, chamou-nos a atenção. Ele argumenta que o controle administrativo da Académie de Paris era feito pela Couronne du Roi, “uma verdadeira instituição estatal” a serviço do Rei. “[...] Em suma, havia, subjacente ao universo da Académie des sciences, toda uma rede de instituições públicas, um movimento de homens e fortes interesses sustentados por uma política de intervenção do Estado sábia e eficaz” (FERRONE, 1997, p. 163). Como podemos notar, Ferrone (1997) é um entusiasta desse sustentáculo estatal que impulsionou a Académie des sciences no dix-huitième siècle e, por consequência, um oposicionista das opiniões de Rousseau, às quais ele chama de rancorosas e ressentidas.
131 Rousseau é contra a tutela do mecenato monárquico, da qual se valeram tão amplamente Voltaire,
d’Alembert, Condorcet e outros. Em sua obra Confissões, é emblemática a passagem em que Rousseau descreve sua recusa em aceitar uma pensão vitalícia do Rei como prêmio à ópera de seu feitio, o Adivinho da aldeia. Assim escreve ele: “É verdade que eu perdia a pensão que de algum modo me haviam oferecido; mas também me isentava do jugo que ela me imporia. Adeus, liberdade, verdade, coragem. Como ousar falar em independência e desinteresse?” (ROUSSEAU, 2008a, p. 347). Chartier (1997, p. 140) observa que, “Para todos aqueles que não têm acesso às instituições e às posições mais prestigiosas do aparelho cultural monárquico, é necessário enfrentar ou criar outras formas de sociedade que atestem, também elas, mas de modo diferente, a qualidade do homem de letras”. Certamente Rousseau foi um desses homens.
para refletir sobre esses exemplos e que aprendam, de uma vez por todas, que com o dinheiro se tem tudo, salvo costumes e cidadãos132”. No Livro V do Emílio, Rousseau não poupa
críticas às sociedades científicas europeias. Em tom irônico, ele escreve sobre os gastos da corte com os experimentos científicos. Ele salienta que o homem está fora do alcance das ciências e que é pela vaidade que exclusivamente elas trabalham:
[...] Nossos cientistas só viajam por ordem da corte; despacham-nos, pagam suas despesas e dão-lhes dinheiro para ver este ou aquele objeto, que com toda certeza não é um objeto moral. Eles devem dar todo o seu tempo a esse objeto único; são honestos demais para roubar o seu dinheiro. Se, em qualquer país que seja, alguns curiosos viajam à própria custa, nunca é para estudar os homens, mas para instruí-los. Não é de ciência que eles precisam, mas de ostentação. Como aprenderiam em suas viagens a sacudir o jugo da opinião? Eles só viajam por ela. (ROUSSEAU, 2014, p. 671).